terça-feira, 4 de outubro de 2016

O que está por trás da qualidade do ensino?

Maria Alice Setubal
Maria Alice Setubal, a Neca Setubal, é socióloga e educadora. Doutora em psicologia da educação, preside os conselhos do Cenpec e da Fundação Tide Setubal e pesquisa educação, desigualdades e territórios vulneráveis.

Nos últimos anos, a questão que está em jogo é a qualidade da educação, uma vez que as diversas avaliações realizadas por governos das diferentes instâncias têm apontado para os baixos resultados de nossos alunos. O debate sobre a reforma do ensino médio insere-se nesse contexto. Inúmeros estudos têm buscado entender as causas desse problema, ora apontando para fatores internos à escola, ora para fatores externos.

O bom senso nos diz que em um país como o Brasil, com sua enorme diversidade espacial e populacional, esses fatores não podem ser simplificados. Para entendermos os problemas ligados à nossa educação, devemos levar em conta as peculiaridades e características do território e sua história política, social e econômica, assim como as características da própria rede educacional de cada local ou mesmo os aspectos de algumas escolas, de forma mais específica.

Assim, a discussão sobre a proposta da reforma deve buscar entender a inserção na escola dos alunos oriundos de famílias de alta vulnerabilidade, especialmente nos grandes centros urbanos. Nesse contexto, paralelamente a todos os fatores relativos a aprendizagem propriamente dita,  as relações humanas no âmbito da educação, mais especificamente nas comunidades e nas escolas, deveriam ser tratadas com o mesmo sentido de urgência que os dados relativos às avaliações de aprendizagem.


Ou seja, é preciso pensar também em como fortalecer a relação das escolas com as famílias de seus alunos, os bairros nos quais as instituições de ensino estão situadas e até mesmo em como integrar a população destes locais a ações na escola.

O foco nas avaliações tem reforçado a expectativa das escolas abrigarem um conjunto de bons alunos que possam se sair bem nas avaliações mais difíceis. Isso é bem visível no caso do ensino médio e das expectativas com relação ao Enem. Na luta por boas pontuações, muitas vezes, instala-se nas escolas uma violência simbólica, que interfere nas relações sociais ali construídas por meio de atitudes e até mesmo de regras invisíveis.

Primeiramente, é comum vermos nas escolas a criação de obstáculos ao acolhimento de alunos provenientes de famílias de alta vulnerabilidade ou para aqueles que querem retornar aos estudos. Uma pesquisa da Fundação Tide Setubal e do Cenpec descobriu que, ao analisar os pedidos de matrícula, muitas escolas avaliam questões como as notas e o comportamento dos alunos e as características socioeconômicas de suas famílias. Leia mais sobre isso aqui (http://educacao.uol.com.br/colunas/maria-alice-setubal/2016/02/23/por-que-escolher-a-escola-pode-nao-ser-uma-boa-opcao.htm ).

A pressão pelo bom desempenho dos alunos nas avaliações também leva a uma maior distância entre o currículo formal e o mundo cotidiano dos jovens, pois os professores e coordenadores muitas vezes privilegiam o que "cai no Enem" ao invés de tratar temas como cultura ou ética.

A seleção invisível dos "bons alunos" ainda traz dificuldades de se aceitar e lidar com a diversidade, a diferença e o enfrentamento do preconceito dentro da escola e gera a homogeneização dos alunos por meio de imposição de disciplina formal descolada de um clima de respeito, convivência saudável, colaboração e tolerância.

Ao privilegiar os estudantes mais propensos a apresentar bons resultados, a escola demonstra a falta de compromisso com a aprendizagem de todos os alunos, desvaloriza a história e a vivência das famílias e dos alunos no ambiente escolar e ainda culpa as famílias pelo mau resultado dos estudantes.

Estas atitudes, embora de difícil medição, são muitas vezes fatores determinantes dos baixos resultados de aprendizagem alcançados por nossos alunos. Não se trata de paralisar o debate sobre a reforma do ensino médio, mas sim, de entendê-la inserida na complexidade que perpassa os territórios das periferias urbanas, para que possamos alcançar maior equidade.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

“A geração mimimi está criticando demais sem propor novas soluções”

Lúcia Costa, diretora executiva da Stato, define esta geração como a geração mimimi (Foto: Divulgação)
LÚCIA COSTA, DIRETORA EXECUTIVA DA STATO, DEFINE OS JOVENS ENTRE 23 E 30 ANOS COMO A GERAÇÃO MIMIMI (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Lúcia Costa, diretora executiva da Stato, consultoria de RH, defende que os jovens profissionais colocam muito a responsabilidade no mundo, sem levar em conta que também fazem parte dele

Os jovens nascidos nas décadas de 80 e 90 são conhecidos como geração Y ou millennials. Alguns, no entanto, são um pouco mais polêmicos ao defini-los. Lúcia Costa, diretora executiva da Stato, consultoria de RH, refere-se a eles como geração mimimi. Para ela, o mimimi se justifica principalmente pelas constantes reclamações, falta de protagonismo e de responsabilidade desses jovens.

Nesta entrevista, ela explica porque acredita que essa geração, de jovens entre 23 e 30 anos, não está preparada para os desafios do mercado de trabalho e faz um alerta: “a reclamação em excesso gera falta de compromisso e até uma baixa no resultado. Ocupa espaço do pensamento construtivo, da solução. É preciso entender que a motivação vem de dentro de cada um e não é necessariamente o mundo que vai trazê-la”.
Você classifica a geração Y e dos millennials como geração mimimi. O que teria levado os jovens desse grupo a ter esse tipo de comportamento?
Primeiro, acho importante destacar que não é todo mundo dessa geração que é assim. Talvez essa geração, ou parte dela, tenha vindo para o mercado com um nível de exigência muito alto. Talvez porque depois de seus pais terem enfrentado muita dificuldade, essa geração conseguiu mais facilmente muitas coisas. Ela tem várias oportunidades, pode escolher fazer o que quer e ter uma vida mais equilibrada. É uma geração que tinha muitas possibilidades até se deparar com sua primeira crise.
Como você acha que essa geração deveria agir neste momento?
As pessoas que estão nesse caminho da reclamação deveriam ter em mente o seguinte: para progredir na carreira, é preciso buscar a solução mais dentro de você do que fora. Ter mais flexibilidade, aceitar o mundo como ele é, ter resiliência e protagonismo, assumir aquilo que é sua responsabilidade. Você deve deixar de culpar a empresa, o chefe, o outro, o cenário ou a falta de tempo e recursos. É hora de o profissional se apropriar de sua capacidade para poder realizar alguma coisa. Estamos vivendo um momento difícil no mercado de trabalho. As empresas estão operando com menos recursos. Todo mundo provavelmente está sobrecarregado. Quem se dedicar mais e se sobressair nesse cenário vai se dar melhor e crescer. O mercado está pedindo mais por menos e tenho certeza que se os jovens deixarem de focar naquilo que eles não têm em recursos, mas sim usar suas energias para trazer soluções, inovar e ajudar as empresas e os colegas a passarem por essa crise, eles serão protagonistas dessa história.
Atualmente, existe a percepção de que eles não estão ajudando?
Existe, sim, nas empresas e nos RHs a percepção de que a geração mimimi não está ajudando. São jovens que têm potencial, boa formação, têm tudo para dar certo, para ajudar a empresa, a área, mas em vez disso ficam focados no que não têm, no que não está dando certo.
O que as empresas esperam desses jovens?
A mudança de pensamento e atitude já é um grande começo, mas também esperam a mesma coisa que esperam das gerações anteriores: um pensamento fora da caixa, cooperação, entender o momento pelo qual todo mundo está passando e ajudar a empresa a passar por esse momento. É preciso arregaçar as mangas. As companhias querem a energia e a inovação que o jovem bem formado normalmente traz, mas que venha com o pé no chão e não com reclamações sem resolver o problema.
Então falta essa geração arregaçar a manga?
Exatamente isso. Ninguém quer ser executor, mas sim aquele que lidera, toma a decisão. Mas para fazer isso você precisa da experiência da execução. Não dá para pular etapas. Principalmente quando está faltando quem faça.
Mas também não está faltando diálogo entre as outras gerações e esses jovens?
Talvez a geração anterior tenha preparado essa para um momento mais sofisticado de trabalho, que é o que vinha acontecendo dos últimos 10 anos para cá. Mas, com a crise, algumas atividades mais elaboradas do mercado voltaram para o básico. As empresas precisam de quem faça e resolva, trazendo ideias novas, mas as executando também. Houve uma perda de sintonia entre o que estava para acontecer e o que de fato chegou a acontecer, gerando um certo retrocesso.
Como os jovens podem ajudar as companhias?
Eles precisam pegar o que trazem de novo e adicionar uma atitude mais positiva. Não só criticar. A crítica é boa quando se constrói algo a partir dela. A geração mimimi talvez esteja criticando demais sem propor novas soluções. A crítica pela crítica em um momento árido de mercado não vai resolver o problema. O profissional tem que se sentir dono da sua própria história. Se não há recursos, ele que tem que achá-los ou fazer acontecer sem.
Mas às vezes a própria empresa não incentiva uma atitude diferente ...
Sim, muitas empresas ainda operam em um modelo mais burocrático e não dão abertura aos jovens para eles exporem as suas ideias. Há reuniões muito engessadas e processos muito rígidos. Algumas companhias precisam se adaptar e ouvir mais. Porém, existem empresas que são geridas por profissionais mais sênior, mas que têm uma cultura mais aberta. Os jovens devem olhar para essas oportunidades.

As mortes violentas entre os jovens

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JAIRO BOUER - É médico formado pela USP, com residência em psiquiatria. Trabalha com comunicação e saúde.

As mortes de jovens por causas violentas no Brasil, na contramão do que se passa nos países desenvolvidos, superam as causadas por acidentes automobilísticos e suicídio.


O assassinato brutal de um garoto de 18 anos agora em setembro dentro do Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, voltou a chamar a atenção para a principal causa de morte de homens jovens no Brasil de hoje: a violência.
Marlon Roldão Soares foi assassinado por dois jovens, que descarregaram ao menos 15 tiros na vítima. Ele se despedia de um amigo que iria viajar. O pai de Soares estava com ele. Dezenas de pessoas estavam no saguão do aeroporto no momento do crime. Até a quarta-feira, dia 21, não estava clara a causa do assassinato, que pelo padrão lembra uma execução. O jovem não tinha antecedentes criminais e não parecia ter relação com o tráfico. No entanto, o bairro em que residia, Vila Jardim, na Zona Norte da capital gaúcha, sofre com a disputa de duas facções criminosas rivais.
Esse conflito parece ter conexão com o ataque. Em um primeiro momento, a polícia trabalhava com a hipótese de um crime passional. O namoro de Soares com uma jovem de outra parte do bairro poderia ter gerado reação do grupo que  “domina” a outra área. Outra possibilidade é o garoto ter sido morto por engano. O alvo seria o amigo que embarcava no aeroporto e que teria “desertado” de uma quadrilha de traficantes.
O que aconteceu excepcionalmente dentro do saguão de um aeroporto é realidade cotidiana em áreas espalhadas pelo país, territórios com “donos” que não toleram a presença das autoridades. Criam verdadeiros bolsões em que a lei parece não ter vez.
Há uma banalização da violência entre os mais novos. A cena dos garotos saindo do aeroporto, rosto limpo, dando tiros para o alto, pegando “carona” em um carro que os aguardava, sem se preocupar se estavam sendo gravados, revela um desprezo com as autoridades.
As mortes de jovens por causas violentas no Brasil, na contramão do que se passa nos países desenvolvidos, superam as causadas por acidentes automobilísticos e suicídio. É o retrato de uma guerra urbana, que provoca a morte de dezenas de jovens, principalmente garotos, todo dia. As vítimas são majoritariamente pobres, negros e habitantes de periferias.
A sensação de impunidade, a impulsividade típica dessa fase da vida, a busca pela sensação de poder, a escola pouco atraente, o mercado de trabalho retraído, os empregos mal remunerados, o dinheiro “fácil” gerado pelo crime, o uso de álcool e drogas, a ausência de projeto de vida, a desestruturação familiar, história de prisões e agressões envolvendo os pais  deixam uma grande parcela da população jovem mais vulnerável às promessas e à sedução do tráfico e do uso da violência. É um ciclo complexo, difícil de quebrar. Mas, sem enfrentar suas causas econômicas e sociais, continuaremos a apenas ficar chocados, dia após a dia.

Muitas doenças orgânicas reais têm como causa problemas emocionais

Anderson Zenidarci participa do Consultório CBN (Crédito: Annie Zanetti / CBN)
Anderson Zenidarci participa do Consultório CBN
Crédito: Annie Zanetti / CBN

Pode ser que isso aconteça como um sinal de alerta do corpo sobre problemas que estavam sendo ignorados pelo paciente. Quando não há cura mesmo após tratamentos, percebe-se que o problema a ser resolvido é psicológico.



O psicólogo Anderson Zenidarci defende que cada órgão tem relação com algum sentimento. Ele também falou sobre o fundo emocional das doenças autoimunes. Zenidarci é autor de '99 procedimentos facilitadores em processos psicoterápicos'.

Excesso de ajuda financeira a filho pode tirar oportunidade para amadurecimento


Mara Luquet | O Assunto é Dinheiro

Pais devem cuidar e ajudar filhos, mas devem prestar atenção para não entregar dinheiro que podem até fazer mal. Pais acabam transferindo própria vida para filhos e depois vão cobrar isso dos filhos.


Frase 'Viagra fez mais pelos humanos que o marxismo' ressoa entre 'haters'

luiz felipe pondé
Luiz Felipe Pondé
Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. Escreve às segundas.

Há alguns anos, na primeira vez que fui entrevistado no "Roda Viva" da TV Cultura (2011), disse uma frase que até hoje ressoa: "O Viagra fez mais pela humanidade do que 200 anos de marxismo".

Legiões de "haters", essa nova atividade nascida com as redes sociais, abominam essa afirmação e a tomam como "alienada". O "hater" é o irmão gêmeo do "loser" –a diferença é que o "loser" não é histérico.

De fato, pode parecer uma comparação absurda, mas ela é, na verdade, bastante séria em termos filosóficos, sociológicos e psicológicos.

Mas, antes, deixemos claro que o contexto era de crítica ao marxismo, óbvio. Mas não ao marxismo como método materialista enquanto tal. Considero o método materialista uma ferramenta, entre outras, bastante eficaz na análise da história e da sociedade.

O que considero delirante é sua dialética metafísica envergonhada em nome do "bem político": a história não está caminhando para lugar nenhum, e a violência entre as "classes" é parte da violência generalizada do mundo, sem foco, sem destino, seu causa "racional", e quem se diz a favor do "bem político" é só gente autoritária e mentirosa.

Os marxistas estão errados em sua análise histórica metafísica. O marxismo se tornou (não era) um cabide de emprego para professores e intelectuais medíocres em geral.

Prefiro métodos mais modestos, como o do filósofo Isaiah Berlin (século 20). O autor inglês dizia que você pode ser um porco-espinho ou uma raposa em matéria de método de estudo ou pensamento.

Porcos-espinhos, como Marx e Freud, pensam que uma ferramenta grandiosa, à qual dedicam suas vidas inteiras, pode iluminar o mundo todo, ou quase todo ele.
Raposas, como o próprio Berlin, são intelectuais "vadios" e "volúveis", como raposas que cheiram tudo e usam tudo que lhe é útil sem "fidelidades conceituais quaisquer" ou respeito pela "totalidade" de conceito algum.

Para uma raposa nunca se está chegando perto de alguma "verdade definitiva", nem em termos de método, nem em termos de objeto.

Considero-me mais uma raposa do que um porco-espinho, por isso considero o materialismo histórico essencial como análise de mundo, mas o "resto" profético marxista (o que de fato é pregado pelos seus apóstolos) em nome do "bem social dos mais fracos", parece-me um delírio metafísico infantil ou perverso.

E o Viagra com isso? Filosoficamente, diríamos que ele faz parte do espectro materialista bioquímico, "apenas". Trata-se de uma molécula, "apenas". Fruto da pesquisa farmacêutica.

Quando afirmo que ele fez mais pela humanidade do que 200 anos de marxismo, quero dizer que uma "mísera" molécula faz mais pela humanidade do que um monte de gente "bem-intencionada" masturbando-se intelectualmente a fim de atingir seu próprio gozo moral de "gente legal" com o mundo.

Cientistas trabalhando em troca de salários ajudaram muito mais a humanidade com sua "mísera molécula" do que os revolucionários da igualdade.

Sociologicamente falando, uma medicação é fruto do interesse em lucro da indústria farmacêutica, normalmente vista pelos bonitinhos como malvada e porca capitalista, enquanto o marxismo é um grupo de pessoas pensando para o 
"bem" da humanidade. E aí vem o susto!

Os porcos capitalistas e seus alienados cientistas fizeram mais pela humanidade do que 200 anos de gente bonitinha junta "rezando".

Psicologicamente falando, o Viagra é a prova de que o materialismo bioquímico pode causar transformações psíquicas e psicossociais, às vezes, mais determinantes do que teorias mirabolantes sobre o que fazer para as pessoas superarem um dia a dia esmagador e sem sentido.

Com isso, não quero negar o valor da psicanálise nem certos efeitos nefastos de alguns psicofármacos, apenas dizer que, às vezes, a simples recuperação de funções fisiológicas essenciais leva a vida "para o lugar certo" rapidamente, sem discursos sofisticados sobre o que vem a ser a vida psicológica sã.

Esse é um caso semelhante ao da pílula anticoncepcional e o feminismo. Sem a pílula, o feminismo seria uma mera seita, como o marxismo se tornou.

Quadrão