quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Este trem a hidrogênio pode causar uma revolução sobre trilhos

Novo trem é 100% abastecido pelo elemento mais leve e abundante do mundo, e não polui o meio ambiente

Por Vanessa Barbosa

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Promessa: Alemanha apresentou recentemente ao mundo o primeiro trem de passageiros totalmente movido por hidrogênio para viagens de longa distância. (Alstom/Divulgação)

São Paulo – Das antigas locomotivas a vapor aos atuais trem-bala e de levitação magnética, as inovações tecnológicas sobre trilhos não dão trégua na busca por maior eficiência, e até o meio ambiente está ganhando com isso.

A Alemanha apresentou recentemente ao mundo o primeiro trem de passageiros totalmente movido por hidrogênio para viagens de longa distância.
Desenvolvido ao longo de dois anos pelo grupo industrial francês Alstom, o trem chamado de Coradia iLint promete ser uma alternativa aos poluentes trens a diesel em circulação na Europa – só na Alemanha, são mais de 4.000 carros.
Ele é equipado com baterias de íons de lítio alimentadas pela energia gerada da reação entre o hidrogênio, armazenado em células de combustível localizadas sobre o trem, e oxigênio.
A tecnologia garante emissão zero de poluentes, gerando apenas vapor de água condensada durante o processo.
Quando entrar em operação, em dezembro de 2017, o trem realizará viagens regionais mais silenciosas – os únicos sons vêm do atrito das rodas com o trilho e da resistência do ar – e sem prejudicar o meio ambiente e a saúde das pessoas.
A nova tecnologia foi apresentada durante a Inno Trans, maior feira da indústria ferroviária, e começará a ser testada no fim deste ano. Segundo o jornal The Independent, o sistema já despertou interesse de outros países, como Holanda, Dinamarca e Noruega.
Longe dos trilhos, no mundo dos quatro-rodas, os sistemas de geração de energia a partir do hidrogênio também ganham fôlego. No começo deste ano, a montadora Honda lançou seu primeiro modelo movido por células de combustível de hidrogênio produzido em série, o Honda Clarity, que rivaliza com o também nipônico Toyota Mirai.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Brasil teve a maior piora em índice que mede 'bem-estar' de jovem na escola

érica fraga
Érica Fraga
É jornalista com mestrado em Economia Política Internacional no Reino Unido. Venceu os prêmios Esso, CNI e Citigroup. Mãe de três meninos, escreve sobre educação, às quartas.

Segundo o movimento "Todos pela Educação", 1,7 milhão de jovens brasileiros de 15 a 17 anos (o equivalente a 17% do total) está fora da escola.

A preocupação sobre que tipo de formação educacional deve ser oferecida aos jovens não é exclusividade do Brasil.

Ficou claro –e isso não é de hoje– que currículos tradicionais, com grades fixas de disciplinas e foco exclusivo na absorção de conteúdo não atendem às necessidades de um mundo de rápidas transformações tecnológicas. Já virou clichê dizer que o principal desafio da escola hoje é ensinar o aluno "a aprender a aprender".

O que muda de um país para outro é a urgência necessária das mudanças e, nesse quesito, o Brasil infelizmente se destaca.

Além do fraco desempenho em exames de aprendizagem, os sentimentos de afastamento e frustração do jovem brasileiro em relação às suas escolas aumentam a um ritmo muito rápido.

A OCDE, instituição responsável pelo exame internacional PISA, calcula um índice que tenta medir o bem-estar dos alunos de 15 anos no ambiente escolar.

Entre 2003 e 2012, o Brasil teve a maior deterioração nessa medida entre os 38 países para os quais há números para o período.

Houve piora em todos os aspectos pesquisados (facilidade em fazer amigos, sentimento de solidão e de "não pertencimento").

O Brasil também teve uma das maiores quedas (a quarta mais expressiva) em outro índice que tenta traduzir como os jovens avaliam a importância da escola em suas vidas.

O percentual de estudantes que discordavam da afirmação "a escola foi uma perda de tempo" caiu, por exemplo, de 97,7% para 92,2% no período.

A OCDE tem tentado medir o impacto desse tipo de sentimento dos alunos em sua aprendizagem. Não encontrou uma relação alta de causa e consequência entre esses dois índices e o desempenho dos alunos em matemática.

Mas a instituição continua preocupada em monitorar essas tendências. Isso se justifica, entre outros fatores, porque o nível de envolvimento do aluno ajuda a prever a tendência ao absenteísmo, um indicador importante do risco de evasão, que, no caso do Brasil, é muito elevada.

Segundo o movimento "Todos pela Educação", 1,7 milhão de jovens brasileiros de 15 a 17 anos (o equivalente a 17% do total) está fora da escola.

O que será que eles pensam sobre a medida provisória de reforma do ensino médio apresentada pelo governo Michel Temer, que busca melhorar a aprendizagem e tornar o ensino mais atraente?

Alunos que ocupam centenas de escolas no país se opõem à proposta. Será que essa posição representa a visão da maioria dos jovens brasileiros ou não? O que defendem exatamente esses estudantes que protestam?

O projeto do governo prevê maior flexibilidade dos alunos para escolher as áreas em que querem se aprofundar e a ampliação do ensino integral. São caminhos vistos como desejáveis por muitos especialistas.

Mas falta entender melhor a opinião dos jovens brasileiros –principalmente daqueles que desistiram da escola– sobre essas mudanças e sobre seus anseios de forma geral. Sem ouvi-los, qualquer reforma corre o risco de afastar esses adolescentes ainda mais da educação, comprometendo seu futuro e, consequentemente, o de todo o país. 

Bullying nas escolas: três depoimentos pungentes e um guia para os pais

Especialistas ensinam como reconhecer e enfrentar o problema

Em abril de 2011, reportagem de VEJA sobre o bullying colheu uma série de depoimentos pungentes de vítimas da tortura física e psicológica praticada por colegas, da mesma natureza que levou a americana Bethany Thompson a se matar – a garota de apenas 11 anos não suportou as constantes provocações que ouvia por causa das marcas no rosto de anos de radioterapia, a que se submetera na luta contra um câncer.
Cinco anos atrás, o massacre do Realengo, no Rio, escancarou a gravidade do estigma do bullying. Antes de sair para matar 12 alunos da escola em que havia estudado, Wellington Menezes de Oliveira postou na internet vídeos em que dizia querer expiar as agressões que sofrera durante a adolescência. “Evidentemente, por piores que tenham sido as agressões impingidas a ele, elas não justificam nem explicam todo o bárbaro episódio, produto de uma mente perversa e doentia. O caso reforça, porém, a ideia de que o bullying não pode continuar a ser negligenciado pelas escolas brasileiras nem pelos pais”, dizia a reportagem.
VEJA de 20 de abril de 2011 observava que, embora o termo em inglês só tenha sido incorporado ao cotidiano das escolas brasileiras em anos recentes, as raízes do fenômeno são imemoriais. “Desde que o mundo é mundo, os seres humanos diferentes são alvo de troças e covardias”, dizia a reportagem. “Mas, no atual estágio da civilização, tornam-se inaceitáveis as desculpas clássicas para não fazer nada contra a tortura psicológica e física de crianças e adolescentes que se destacam da média por algum defeito – gagueira, uso de óculos com lentes ‘fundo de garrafa’, dificuldade de locomoção, obesidade mórbida ou magreza excessiva – ou até pelo desempenho acadêmico estelar, que também pode servir para atiçar a inveja e a vingança dos medíocres.”

Quando L.B., 15 anos, entrou na adolescência, uma deformação em sua face direita, fruto de uma doença congênita, começou a motivar piadas por parte dos colegas, especialmente dos meninos. Elas foram se tornando mais cruéis. “Me chamam de feia, boca torta e até perguntam se eu estou grávida na bochecha”, conta a menina, que sofre sem nenhum amparo do colégio estadual onde estuda desde janeiro, em São Paulo. “Aproveitam para me humilhar quando os professores não estão olhando”, diz L.B., que tenta esconder seu rosto com o cabelo. Tímida e sem amigos, ela acredita que pode superar o problema submetendo-se a uma série de cirurgias plásticas, já programadas. As cicatrizes das humilhações que sofre todos os dias, no entanto, ficarão para sempre em sua memória.
Por quase uma década, o administrador de empresas C.J., 28 anos, tinha medo até de atender o telefone de casa. Os trotes dos colegas de classe eram um tormento. Ele se tornou alvo constante de humilhações e ameaças simplesmente porque tirava notas altas e os estudantes o achavam “bonzinho demais”. De uma cidade no litoral paulista, mudou de colégio três vezes, mas sua fama migrava com ele. Ao esbarrar com alguém que sabia de seu histórico, o roteiro do bullying se repetia. Várias vezes, ele fingia estar doente para não ir à escola. Chegou até a desistir de participar da viagem de formatura do colégio por medo. “Disseram que, se eu fosse, a experiência seria um inferno”, rememora. Apesar de hoje levar uma vida normal, o administrador ainda guarda as sequelas. “Quando vejo um grupo rindo do meu lado, acho que é comigo “, ele diz. 
Há mais de um ano, o gaúcho M.T., 14 anos, tornou-se alvo de ofensas anônimas em redes sociais. Dois meses depois, as humilhações deixaram o ambiente virtual. Numa festa, o garoto apanhou de um colega mais velho diante de toda a turma. O próprio agressor identificou-se como o autor dos xingamentos on-line. “Passei a ser perseguido por todo o grupo dele. Até os meus amigos estão com medo de andar comigo”, conta. Procurada pelos pais, a direção do colégio particular onde ele estuda, em Porto Alegre, só deu atenção ao caso quando soube que estava prestes a parar na polícia. A única providência foi reunir agressor e vítima para que selassem as pazes. M.T. continua sendo agredido, e a escola limitou-se a sugerir que os pais contratassem um segurança particular.

A mesma reportagem de VEJA alertava: o bullying é mais prevalente do que as estatísticas fazem supor. Isso porque a maioria das vítimas, por medo e vergonha, resiste a denunciar o assédio. Na mesma edição de VEJA, especialistas ensinavam aos pais como reconhecer e enfrentar o problema.
SINAIS TÍPICOS
• Resistência a ir à escola
• Dor de cabeça, febre e até taquicardia momentos antes de sair de casa
• Perda de apetite e insônia
• Tendência ao isolamento
• Crises de choro na volta do colégio
• Queda no desempenho escolar
O QUE FAZER
• Provocar o assunto em casa. Na maioria das vezes, as vítimas têm vergonha e medo de falar à família sobre o bullying
• Comunicar o problema à escola, que deve tratar o caso com vigor, sendo cobrada sobre isso
• Não incentivar a criança a revidar. Só vai gerar ansiedade e pressão sobre alguém que, nessas circunstâncias, tem extrema dificuldade de se impor
• Orientá-la a procurar um adulto na escola no momento em que sofrer a agressão
• Nos casos mais graves, em que os estragos na vida da criança são expressivos, recomenda-se buscar amparo psicológico




terça-feira, 1 de novembro de 2016

Interagir oralmente de forma cordial deveria fazer parte do currículo escolar


Ilona Becskeházy e Paula Louzano | Missão Aluno

A proposta para a Educação no município de Sobral, no Paraná explicita regras de convivência para facilitar o diálogo. Algumas das 10 habilidades apontadas são: ouvir sem interromper, modelar o tom de voz e evitar palavras potencialmente ofensivas.

http://download.sgr.globo.com/sgr-mp3/cbn/3/2016/10/31/33218_20161031.mp3

Não é necessário esperar a velhice para ser você mesmo

mirian goldenberg
Mirian Goldenberg
É antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autora de 'Coroas: corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade'. Escreve às terças, a cada duas semanas.

Perguntei a homens e mulheres de 40 a 65 anos: "O que você quer ser e fazer quando envelhecer?".
As respostas mais frequentes foram:
1. Ter mais tempo para cuidar de mim mesmo e fazer as coisas que eu gosto;
2. Voltar a estudar (inglês, francês, filosofia, psicologia, história...);
3. Aprender uma coisa nova (tocar um instrumento, fotografar, surfar, dançar...);
4. Fazer coisas que sempre quis fazer, mas nunca tive coragem (escrever um livro, pintar um quadro, cantar...);
5. Viajar e sair mais com os amigos;
6. Curtir mais o marido, esposa, namorado, namorada, filhos, netos;
7. Caminhar, nadar, fazer ginástica e ir à praia todos os dias;
8. Ler muito mais e ir mais vezes ao cinema, teatro e shows;
9. Reformar e decorar a casa;
10. Simplificar a vida (guardar só o que uso, preciso e gosto).

É fácil perceber que eles desejam coisas que poderiam ter em qualquer fase da vida. Por que então esperar envelhecer?

Eles disseram que só mais velhos terão mais tempo e liberdade para fazer o que realmente gostam e querem.

Uma professora de 63 anos disse: "Tenho uma certa urgência de aproveitar o tempo da melhor forma possível. Não deixo mais para amanhã o que quero fazer hoje. Sei que a vida é muito curta, o tempo passa muito rápido. Não quero desperdiçar o meu tempo ou simplesmente deixar o tempo passar. O tempo para cuidar de mim passou a ser uma prioridade e, para isso, precisei me libertar e me desapegar de muitas coisas, pessoas e obrigações".

Ela disse que somente "depois de velha" descobriu como ser mais verdadeira, livre e feliz.

"Depois dos 60 anos passei a ter a coragem de ser eu mesma, de fazer o que eu tenho vontade de fazer. Me arrependo profundamente de não ter começado a minha libertação mais cedo. Perdi muito tempo da minha vida tentando agradar e cuidar de todo mundo e me esqueci de mim mesma".

Muitos acreditam que só mais velhos irão conquistar a liberdade e a sabedoria para aproveitar melhor o tempo e, assim, parar de tentar responder desesperadamente às expectativas e demandas dos outros.

Aprendi com meus pesquisados a me fazer duas perguntas fundamentais:
O que eu quero ser e fazer quando envelhecer? Por que não posso ser mais livre para "ser eu mesma" desde agora?

Superproteger não garante segurança e prejudica independência de crianças

RACHEL BOTELHO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Um vídeo que mostra um menino de seis anos sendo levado por um desconhecido, na av. Paulista, deixou pais com os nervos à flor da pele na última semana e levantou dúvidas sobre o equilíbrio entre os cuidados necessários com as crianças nas grandes cidades e a importância do estímulo à autonomia.

O episódio, ocorrido no domingo (23), teve final feliz porque o pai flagrou a tentativa de rapto enquanto filmava uma apresentação musical. Três dias depois, o homem, de 52 anos, foi detido em uma unidade de saúde na zona norte da capital paulista.

Segundo a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, Rubens Santos da Silva já havia sido internado num hospital psiquiátrico em 2008, após uma tentativa de invasão do Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual.
Um texto sobre o quase rapto, escrito pela mãe do garoto, a publicitária Juliana Nunes, 41, foi compartilhado nas redes sociais e gerou não só mensagens de apoio mas também muitas críticas aos pais, acusados de não cuidarem direito do menino.

Juliana deixou o filho ir avisar ao pai, o designer Matheus Pellegrini, 39, que os dois iriam até uma banca de jornal. O espaço entre a criança e Pellegrini era de cinco metros. "Levi sabia onde o pai estava, não ia se perder. Fiquei na calçada com o cachorro. Em menos de cinco segundos, um cara o catou pelo braço", disse.

CERCO

A psicóloga Rosely Sayão conta que se surpreendeu com a reação ao caso, porque a mãe agiu corretamente, e a cena não é motivo para pânico. "Se os pais estão atentos, como estavam, o máximo que pode acontecer é isso: eles percebem e pegam a criança de volta. Ou de agora em diante a criança não vai poder mais andar dois ou três metros sozinha?", questiona.

Segundo Rosely, após casos de grande repercussão como esse é comum que os pais "apertem o cerco" e restrinjam ainda mais o pouco contato que os filhos têm com o espaço público, com consequências negativas para o desenvolvimento da autonomia.

"Quando chegarem à adolescência, eles vão sair, ainda que escondidos. E não vão saber usar o espaço público, porque não conhecem o mundo em que vivem", alerta.

Isabel Marin, psicanalista e professora da PUC-SP, concorda. Para ela, há muitos pais que moram em condomínios, só frequentam shoppings e clubes e preferem que o filho brinque no tablet porque assim estariam a salvo da violência, mas, com isso, deixam de ensinar lições importantes.

"O melhor caminho é dar as referências sobre como andar pela cidade, como se relacionar com desconhecidos, e que não necessariamente são inimigos. Isso se dá quando os pais se dispõem a ter o trabalho de viver isso ao vivo, em vez de se restringirem a espaços de conforto."

Segundo a psicanalista, pais amedrontados ou acomodados superprotegem em vez de preparar os filhos para a vida. "Há pais que se poupam de se preocupar com o filho porque isso dá trabalho", aponta.

Preocupada com a violência, a publicitária Andrea Attanasio Ramos, 40, mãe de dois meninos, de cinco e nove anos de idade, reconhece que evita programas para não correr riscos. "Em vez de ir ao teatro no centro, vou no do shopping, um lugar mais fechado. Acabo limitando passeios por conta do medo, embora eu saiba que é errado."

"Sei que tenho que dar autonomia para eles amadurecerem, porque um dia eles vão ter que ir à padaria sozinhos e até tomar decisões profissionais mais tarde na vida."

Já a administradora de empresas Katia Perlman, 40, mãe de gêmeos de 12 anos, acredita que o primeiro ponto a se considerar em busca de equilíbrio é ter consciência de que o medo pode fazer com que os pais criem crianças dependentes demais.

"Eu tenho mais medo é de eles não saberem se virar sozinhos", conta.

SEM MANUAL

É bom lembrar que não existe idade ideal para que as crianças comecem a dar os primeiros passos sozinhos, como ir à padaria perto de casa. Mas aquelas que já tiveram essa experiência com os pais podem enfrentar esses pequenos desafios a partir dos sete ou oito anos, diz Isabel.

Para Juliana Nunes, o quase rapto do filho ensinou uma lição importante: não basta dizer às crianças como se proteger dos perigos do mundo, é preciso estar sempre atento.

"Eu sempre falo para ele gritar se alguém encostar nele, e ele não gritou. Hoje eu imagino que as crianças pensam que bandido tem cara de vilão de desenho, é mascarado, não um cara comum", disse à Folha. "Na hora ele não entendeu o que aconteceu. Depois, disse que esqueceu de gritar e que não sabia que o homem era mau. Foi muito rápido."

Juliana diz, no entanto, que pretende continuar criando o filho livre, na medida do possível. "Não vou deixar de sair, de ir ao parque, de passear e de lhe dar essa autonomia. Na hora me senti culpada, mas depois percebi que não fiz nada de errado."

Não mesmo. "Com seis anos, a criança não vai associar o que ouve dos pais [sobre os riscos] com a realidade", diz Rosely Sayão. Ela lembra que, na primeira infância, o olhar da criança para o mundo é diferente daquele do adulto: onde os pais veem risco, ela vê investigação e exploração.

"Uma criança de nove ou dez anos tem condições de identificar algo estranho, mas uma mais nova, não." 

Contrariar o que pensa e ceder a pedidos dos filhos traz insegurança

rosely sayão
Rosely Sayão
Psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia a dia dessa relação. Escreve às terças-feiras.

Muitos pais vivem, quase todos os dias, conflitos gerados pelos filhos. A maioria deles resulta de pedidos e pressões que crianças e adolescentes fazem a eles. Permitir ou não? Dar ou não? Eis a questão!

Há um grande número de pais que cedem aos caprichos dos filhos mesmo sem concordar, ora porque acham que é muito cedo para o filho fazer ou ter determinada coisa, ora porque o que o filho quer não se encaixa com o que a família pensa.

Vamos conversar a respeito dessas contradições que os pais cometem –que não passam despercebidas pelos filhos– e suas possíveis consequências.

Não me canso de repetir: crianças, desde muito pequenas, sabem o que querem ou, pelo menos, pensam que sabem. Tal fato não é uma novidade das crianças nascidas neste novo mundo: sempre foi assim. Só que, na atualidade, o que elas demonstram querer é supervalorizado pelos pais, o que nunca aconteceu anteriormente.

E se há uma coisa que as crianças sabem fazer muito bem é batalhar pelo que querem. Elas criam novas estratégias e usam todas as que aprenderam que funcionam. Esse aprendizado começa lá pelos dois anos, mais ou menos.

A partir dessa idade, elas já passam a relacionar o seu comportamento com o que acontece depois. Se, por acaso, a criança ficar descontente com algo e reagir, impulsivamente, se jogando ao chão e/ou gritando, por exemplo, e logo após for atendida, ela aprende que essa é uma boa estratégia a ser usada.

Muitos pais não aguentam sustentar com firmeza sua decisão frente a comportamentos rebeldes dos filhos ou frente à insistência incansável deles. E, por isso, cedem.

Entretanto, a concessão que eles fazem pode não ser boa para a criança ou para o adolescente, principalmente por um motivo que considero importante: os filhos percebem, com muita clareza, que os pais estão agindo de forma contrária ao que pensam, ou seja, percebem a incoerência deles. E isso, caro leitor, provoca insegurança nos mais novos, que vai sendo construída pouco a pouco.

Mais importante para os mais novos do que ficar satisfeito e alegre com o fato de ter conseguido o que queria, é sentir segurança com seus pais. É essa sensação que ajuda crianças e adolescentes a crescerem com mais confiança, mesmo frente a todas as adversidades que a vida lhes impõe.

E tem mais: sabe o que um filho aprende quando percebe que seus pais agem de modo contrário ao que pensam? Que tudo é negociável, inclusive princípios, valores e até virtudes, quando há um interesse por algo. E esse tipo de aprendizado não é bom, concordam?

Hoje, nossas crianças e jovens estão muito pressionados pela ideologia consumista, por demandas sociais que nem sempre se adaptam ao seu modo de ser e de pensar e ao da família, pelos grupos que frequentam, pelas publicidades –inclusive as que são dirigidas aos adultos.

Para resistir ao menos a algumas das tentações que daí surgem, para manter a integridade e o respeito por si, a segurança e a coerência dos pais colabora muito.

Não hesite, caro leitor, em negar algo a seu filho se você não concorda com o que ele pede. Você irá errar na criação deles de qualquer maneira! Melhor errar estando de acordo com seus princípios e pensamentos, não é verdade?