Prioridade na formação inicial
Nicola Calicchio e Marcus Frank são, respectivamente, presidente da McKinsey para a América Latina e
consultor sênior da McKinsey em SP
O Brasil atravessa uma das piores crises econômicas de sua história e, com
isso, temos desafios imensos, em especial no que tange a educação. Se, por
um lado, o orçamento não fecha e são precisos ajustes, por outro, a qualidade
da educação pública no país é baixa e a necessidade de investimentos na área
é premente. Desse modo, a principal pergunta a fazermos é como melhorar a
educação pública no Brasil em um ambiente de restrição fiscal?
O primeiro passo é analisar se os atuais gastos do país com a área são
adequados. O Brasil investe hoje cerca de 6% do PIB em educação pública, o
que, em termos relativos e comparados a outros países, é um percentual significativo. Alemanha, Japão, e Coreia, por
exemplo, países que possuem sistemas educacionais públicos de boa qualidade, investem respectivamente menos de 4%
do seu PIB. A média da OCDE, grupo que reúne os países com maior nível de desenvolvimento do mundo, é de um pouco
menos que 5%.
No entanto, isso não significa que o Brasil invista o suficiente em educação. Como nosso PIB per capita é muito baixo
(estamos na 70ª posição no mundo), o valor que de fato redunda em investimentos na área também é baixo. Somos um
país grande, mas pobre, essa é a verdade. Desse modo, acreditamos que para quebrar o círculo vicioso do baixo
desenvolvimento, precisamos, sim, ampliar os gastos públicos em educação.
Para um salto na qualidade de ensino, é preciso professores mais bem preparados e líderes com
capacidade de gestão
E há um caminho paralelo para melhorar a educação pública: fazer mais com o que já gastamos, investindo de forma
inteligente e eliminando desperdícios. Recentemente, conduzimos um estudo em que comparamos o desempenho de
sistemas de educação no mundo todo, medidos por um índice que combina resultados em provas internacionais
aplicadas em diferentes idades do ciclo de educação básica, com os gastos por aluno, ajustado para o custo de vida do
país. Os resultados são inequívocos.
Primeiro, gastar mais melhora o desempenho em educação, mas, após um certo nível, os ganhos vão se tornando
marginais. Ou seja, simplesmente colocar mais dinheiro não resolve. Xangai, por exemplo, que ocupa o primeiro lugar,
gasta menos da metade do que os Estados Unidos e tem um desempenho 20% superior. O Brasil gasta 25% a mais que o
México e tem desempenho similar. Segundo, dentro de uma mesma faixa de gasto, o desempenho varia muito. A Rússia
tem um resultado muito melhor que o Brasil com o mesmo gasto.
Que dá para fazer muito mais com o mesmo, está claro. A questão é o que precisamos fazer. Não temos a pretensão de ter
as respostas prontas, mas temos algumas crenças: 1 temos que focar os investimentos nos anos iniciais, garantindo que
as nossas crianças aprendam a aprender; 2 os investimentos que geram mais impacto não são focados em infraestrutura
ou em tecnologias por vezes caras, mas sim no apoio ao desenvolvimento dos professores e diretores das escolas.
Existem inúmeras evidências de que o investimento em pré escola é crítico, pois o ser humano desenvolve a maior parte
de sua capacidade cognitiva, emocional e social entre zero e seis anos. Investir fortemente na alfabetização e na lógica
básica de matemática é fundamental. Se a criança não é bem alfabetizada, como ela vai continuar a aprender à medida
que vai crescendo? Parece óbvio que esse deveria ser um preceito básico em qualquer sistema educacional, mas no Brasil
isso não é uma verdade absoluta. 34% dos alunos que concluíram o ensino fundamental, ou seja estudaram até a nona
série, são considerados analfabetos funcionais.
Se olharmos a população como um todo, 27% são considerados
analfabetos funcionais e somente 8% atingem um grau de proficiência adequado.
Se assegurar investimentos nos anos iniciais é importante, outra reflexão relevante é em que tipo de investimento temos
maior impacto. Acreditamos que apoiar o desenvolvimento dos nossos professores e líderes escolares é a melhor
alternativa. Sem dúvida que assegurar uma infraestrutura básica digna é condição necessária para termos um
aprendizado de qualidade. Mas, para darmos um salto na qualidade de ensino, precisamos de professores mais bem
preparados, que saibam o conteúdo e a metodologia de como ensinar bem, e líderes escolares com boa capacidade de
gestão.
Diversos estudos acadêmicos comprovam essa tese. Um estudo nos EUA, por exemplo, selecionou estudantes de 8 anos
que estavam na média de desempenho e acompanhou a evolução de desempenho deles até os 11 anos. Os que tiveram
excelentes professores foram para os top 10%, enquanto os que tiveram professores ruins caíram para a faixa dos 40%
piores.
No Brasil, temos diversos exemplos de sucesso dessa estratégia focada em apoiar o professor a ser cada vez melhor. Talvez
a iniciativa com maior abrangência foi o programa de intervenção pedagógica que a rede estadual de Minas Gerais
massificou a partir de 2007, atingindo mais de 3600 escolas e 2 milhões de alunos. O Estado, que estava em 5º lugar no
ranking nacional do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) para os estudantes do ensino fundamental
anos iniciais, saltou para primeiro lugar em 2009, tendo mantido essa posição até 2013. Um estudo da Fundação Lehman
em 2013 apontou que 50% das 215 escolas públicas do Brasil que melhor ensinam mesmo em condições socioeconômicas
adversas estão no Estado.
Acreditamos que esse exemplo demonstra o que podemos alcançar em nível nacional, pois Minas Gerais é um Estado com
o maior número de municípios do Brasil e que resume bem as nossas diferenças regionais. Além de ser uma iniciativa de
grande escala e representativa da realidade brasileira, esse caso também mostra que é possível ter impacto rápido e com
investimento reduzido. Apesar de ter atingido esse resultado de destaque em nível nacional, o custo do aluno da rede
estadual de Minas Gerais está abaixo da média das redes estaduais no Brasil.
Faria bem ao país aproveitar a oportunidade trazida por uma das piores crises econômicas de sua história e transformar a
realidade da educação pública brasileira, promovendo uma gestão escolar que mire a melhoria da qualidade dos
professores. Precisamos investir mais em educação pública, mas também precisamos investir melhor.
terça-feira, 29 de novembro de 2016
Mudar a si mesmo é difícil, mas, às vezes, necessário
Mirian Goldenberg
É antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autora de 'Coroas: corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade'.
Comportamentos, hábitos e manias que cultivamos durante toda a vida se tornam profundamente enraizados e passam a ser considerados como parte da nossa própria natureza. No entanto, também é natural querer mudar tudo aquilo que é um obstáculo para a nossa felicidade.
Confesso que gostaria de conseguir mudar a minha natureza. Tenho um "defeito" considerado grave pelas pessoas que me cercam. Todas as minhas amigas e (ex) namorados/maridos sempre me criticaram: "você só gosta de trabalhar", "você não tem vida social", "você acha um verdadeiro sacrifício ter que sair da sua toca".
Reconheço que eles têm razão. Gosto de ficar em casa, quieta, tendo ideias para os meus projetos, preparando aulas e palestras, lendo, escrevendo, vendo um bom filme. Preciso de muita concentração e silêncio para trabalhar.
Consegui controlar a minha ansiedade e superar a minha introversão, insegurança e timidez na vida profissional. Mas na vida pessoal sou um verdadeiro desastre.
Já fiz um enorme esforço para mudar a minha natureza: tentei sair mais, encontrar mais frequentemente os amigos, ir a festas. Mas, por mais que eu me esforce, nunca é o suficiente. Sempre acabo recebendo a mesma acusação: "você não é uma pessoa sociável". Tudo fica pior ainda quando sou comparada (ou me comparo) com mulheres que são naturalmente mais sociáveis e sabem como receber os amigos e a família.
Quanto mais eu tento corresponder ao modelo de mulher sociável, mais me sinto inadequada, imperfeita e culpada por ser do jeito que eu sou.
No início de uma relação amorosa, naturezas diferentes são toleradas em função de um desejo maior: construir uma vida em conjunto. Com o passar do tempo, os desejos individuais se tornam mais fortes, as insatisfações aumentam e as cobranças para mudar se tornam constantes e até mesmo cruéis.
Algumas características pessoais podem provocar conflitos que parecem sem solução. Mudar, só para se ajustar aos desejos dos outros, pode se tornar uma violência contra a própria natureza.
Em algum momento da vida, pode ser na juventude ou até mesmo na velhice, descobrimos uma triste realidade: precisamos mudar!
Eu quero (e preciso) mudar. Mas será possível mudar a própria natureza?
"Falta pensar quem é responsável por isso aqui".
ÉRICA FRAGA
DE SÃO PAULO
DE SÃO PAULO
O Brasil precisa de uma instituição que seja responsável pelo avanço da educação e preste contas desse processo à sociedade, o que incluiria a perda do emprego de seus gestores em caso de falha. Essa é a opinião do economista Ricardo Paes de Barros: "Falta pensar quem é responsável por isso aqui".
Folha - Que principais problemas vocês identificam no ensino médio e quais as melhores soluções para atacá-los?
Ricardo Paes de Barros - Trazemos a evidência científica e tentamos deixar essa conclusão para o gestor público. Se eu falasse diretamente para ele apostar em uma solução A, B ou C, seria um erro. Embora, se eu fosse um dos gestores, eu teria minha opção.
E qual seria?
Apostaria muito mais na flexibilidade, no significado do clima escolar. A qualidade da escola não é tão importante quanto ela ter significado e ser acolhedora.
Quando o sr. fala em qualidade, se refere ao professor, à infraestrutura, à tecnologia?
Não precisa ter um professor tão bom assim quando ele tenta te ensinar algo que tem significado. O aluno não vai prestar atenção até perceber que o professor se importa com ele. O professor pode ser supergenial, mas se não se importa com o aluno, ele não vai se conectar. A conexão e a interação são muito importantes. Você dá um jeito na qualidade depois.
Você tolera um cantor que não seja tão bom desde que ele esteja cantando o que você quer que ele cante.
Há evidências de que isso funciona na prática?
Não, a gente tenta juntar evidências. Dada as que existem, que são bastante limitadas, não tem nada que diga que isso é a solução, isso é em que eu apostaria, a minha aposta.
Parece haver um excesso de opiniões sobre educação no Brasil. Isso atrapalha?
Eu acho que nosso problema com educação é, como no futebol, muitas pessoas querendo ser técnicas da seleção e um número muito pequeno de fatos, interpretados de maneiras completamente diferentes.
E a gente, às vezes, se perde, não sabemos se estamos debatendo as interpretações ou os fatos.
O que falta para o Brasil é uma autoridade com governança bem definida, responsável por fazer a educação avançar. Que seria o "técnico da seleção" de verdade.
Nós temos o Ministério da Educação e o Inep [instituto ligado ao MEC], mas temos crise de governança.
Falta pensar quem é responsável por isso aqui. Todo mundo ter sua opinião sobre como a seleção deveria jogar não é um problema, o problema é não ter ninguém responsável por ganhar o jogo. O que quero dizer é, "se eu não ganhar, eu peço demissão".
O que o sr. acha da proposta do governo para reformar o ensino médio?
Acho que aponta na direção certa porque fala da necessidade de maior flexibilidade e maior engajamento.
Os anos finais do ensino fundamental, em que os problemas começam, não deveriam ser reformados antes do médio?
Logicamente sim, mas tem o caso de Pernambuco e outros Estados que conseguiram mexer primeiro no médio maravilhosamente bem. Talvez isso sirva para mostrar para o jovem: "Olha, tenho uma boa escola de ensino médio", vale a pena insistir.
Lidando com o 'mimimi', enfrentar as adversidades da vida fortalece
Rosely Sayão
Psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia a dia dessa relação.
Quase todo mundo conhece a expressão "mimimi" da linguagem informal. Levei um tempo sem me interessar por seu uso, mas ela passou a ser tão presente em nosso cotidiano que decidi investigar.
Minha curiosidade: de onde ela surgiu. Eu me espantei ao saber que ela surgiu do personagem Chaves, de um seriado antigo que terminou em 1980 e exaustivamente reprisado, cultuado até hoje. Chaves, um moleque órfão, sempre que contrariado, emitia esse som "mimimi" para indicar seu choro.
Essa expressão passou a ser usada, sempre de modo pejorativo, para indicar reclamações sem justa causa, frescura, manha etc. Até em uma peça publicitária ela já apareceu e provocou muitas reclamações das mulheres porque chamou de "mimimi" as reclamações das dores e do mal-estar provocados pelo período menstrual.
Agora, professores e pais têm usado a expressão com bastante frequência para nomear diversos comportamentos dos mais novos. Tudo agora virou mimimi. Então, vamos conversar a respeito dessa questão.
Sim: nós, educadores formais e informais, temos dado atenção a muitas reclamações de filhos e alunos, o que emperra e/ou paralisa o processo de crescimento e de aprendizagem deles, e não apenas no aspecto cognitivo.
Filhos reclamam das tarefas domésticas que devem realizar, do tamanho ou da dificuldade das lições que precisam fazer ou estudar, dos colegas que se comportam desta ou daquela maneira, das festas para as quais não foram convidados etc. E, quase sempre, os pais atendem, ou seja, dão importância a tais reclamações, e interferem.
O problema é que dar conta sozinhas de suas obrigações –todas possíveis– e enfrentar as adversidades da vida fortalece as crianças porque permite que elas criem mecanismos pessoais de defesa e, principalmente, de resiliência.
Em todas essas situações a interferência dos pais prejudica o desenvolvimento dos filhos em vez de ajudar! O que eles podem fazer de melhor nesses momentos é acolher as reclamações como legítimas, mas incentivar e encorajar o filho a realizar o que precisa, mesmo que isso exija muito esforço e dedicação.
Essa é uma grande lição que os pais podem dar, que colabora para a criança melhorar sua autoimagem. Ela percebe, ao realizar sozinha suas responsabilidades, seu potencial sendo colocado em ação, o que lhe dá mais confiança em si mesma. E tudo isso cabe também aos filhos adolescentes.
Dos jovens, falarei das reclamações que fazem aos professores, inclusive nas faculdades. É a data da prova, da entrega do trabalho, a quantidade de conteúdo a ser estudada etc., que eles querem adiamento e/ou redução ora porque é véspera de feriado ou de um jogo importante (!), ora porque o prazo é curto, ora pela quantidade do conteúdo indicado etc.
Quando os professores cedem, perdem sua autoridade e, principalmente, passam a ideia de falta de seriedade e de compromisso com a formação de seus alunos.
Pressionar e exigir são conceitos diferentes do conceito de cobrar. Os mais novos precisam ser cobrados a crescer porque esse é o destino deles. Muito melhor colaborar para que cresçam aprendendo, amadurecendo e se aprimorando pessoalmente do que permitir que cresçam apenas em idade e tamanho, não é?
Estudo não aumenta eficiência do trabalho no Brasil, diz pesquisa
ÉRICA FRAGA
DE SÃO PAULO
DE SÃO PAULO
O avanço da escolaridade no país nas últimas décadas não foi acompanhado do aumento esperado de eficiência do trabalhador brasileiro.
A experiência internacional mostra que, à medida que acumulam mais anos de estudo, os profissionais de uma nação, normalmente, se tornam mais produtivos, contribuindo, com isso, para o crescimento da economia.
Dados preliminares de uma pesquisa feita por Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper, revelam que isso não parece estar ocorrendo no Brasil.
Entre 1980 e 2010, cada ano a mais de estudo no país foi seguido de um aumento extra de produção de apenas US$ 200 por trabalhador.
O número é irrisório se comparado ao que ocorreu em outros países. Cada ano a mais de escolaridade foi acompanhado de uma expansão de US$ 3.000 de produção por trabalhador no Chile e de US$ 6.800 na Coreia do Sul.
De acordo com Paes de Barros, é possível que a qualidade e o conteúdo do ensino nas escolas brasileiras expliquem por que o país tem sido um ponto fora da curva.
"Pode ser que esse aumento de educação não tenha significado econômico, por isso tenha muito pouco impacto sobre a produtividade", diz.
MENORES GANHOS
A piora na qualidade da educação no Brasil também pode ser uma das causas da rápida queda do ganho extra de renda que os trabalhadores conseguem ao aumentar sua escolaridade. Em 2004, cada ano a mais de estudo resultava em um salário 9,6% maior no país. Em 2014, esse retorno caiu para 7,2%.
Outro fator que contribuiu para essa redução, segundo Paes de Barros, foi o aumento do salário mínimo, que elevou a renda do trabalhador pouco escolarizado.
Uma terceira explicação para a queda do prêmio salarial foi a expansão da demanda da nova classe média por serviços menos qualificados, nos últimos anos.
"Nós nos tornamos uma economia intensiva em mão de obra pouco qualificada. Isso tem a ver com o tipo de estrutura de demanda que a economia brasileira gerou."
Embora esse movimento tenha contribuído para a redução da desigualdade de renda, ele também pode estar afastando o jovem brasileiro da escola: "Isso não ajuda a incentivar as pessoas a estudar mais".
EVASÃO ESCOLAR
Um dos principais focos da pesquisa conduzida pelo economista —que tem apoio do Instituto Ayrton Senna, do Insper, da Fundação Brava e do Instituto Unibanco— é entender as causas da elevada evasão escolar no Brasil.
O estudo mostra que, a cada ano, mais de um quarto dos jovens brasileiros de 15 a 17 anos tem um dos seguintes destinos: nem se matriculam na escola (15%); abandonam os estudos (7%) ou são reprovados por falta (4%).
A meta oficial do governo de universalizar o acesso dessa faixa etária à escola até 2016 não foi cumprida.
Segundo dados divulgados na semana passada pelo IBGE, a parcela de jovens de 15 a 17 anos na escola chegou a 85% em 2015. Esse percentual tem aumentado em ritmo lento nos últimos anos. E os prognósticos de evolução não são positivos.
Pelas contas de Paes de Barros e sua equipe, o Brasil precisaria avançar a um ritmo 23 vezes maior que o atual para universalizar o acesso de jovens de 15 a 17 anos à escola em uma década.
Segundo o economista, o objetivo da pesquisa é ajudar os gestores educacionais a entender as causas do baixo engajamento do jovem com a escola e, com isso, adotar as medidas cabíveis.
No estudo, Paes de Barros e seus coautores explicam que há três grandes causas para o afastamento entre o jovem brasileiro e a escola.
O primeiro grupo de fatores está ligado a problemas como pobreza extrema, distância grande entre o domicílio do jovem e a escola e gravidez precoce.
O segundo motivo é o que eles chamam de "falta de interesse informada" do jovem pela educação formal. "Isso tem muito a ver, por exemplo, com a falta de flexibilidade do currículo do ensino médio", afirma o economista.
Por último, há o caso de jovens que têm pouco interesse pela escola por falta de informação adequada.
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
Desistentes da sociedade são desafio para economia do Japão
Embora o problema do hikikomori não seja uma novidade, primeiro-ministro planeja mobilizá-los como parte de campanha para dar apoio à força de trabalho
Por Maiko Takahashi, da Bloomberg
Economia japonesa: cerca de 541.000 pessoas entre 15 e 39 anos - ou 1,6% da população nessa faixa etária - foram consideradas hikikomori em um relatório (Tomohiro Ohsumi/Bloomberg)
Tóquio – Nagisa Hirai era uma criança ativa que adorava jogar futebol com os meninos. Mas essa alegria inicial desapareceu no primeiro dia da escola primária, quando ela ficou assustada por não conseguir encontrar sua sala de aula.
Com o tempo, ela se tornou um “hikikomori”, um termo japonês usado para descrever mais de meio milhão de jovens no país que ficam em casa e evitam interagir com pessoas de fora da família.
Ela sofria ataques de ansiedade por qualquer situação que não fosse familiar — até mesmo esquecer coisas para o colégio lhe provocava pânico.
Ela se tornou cada vez mais incomodada em ir para a escola, o que levou seus pais rigorosos a obrigá-la a ir.
Agora com 30 anos de idade, ela diz que está se recuperando, mas ainda há dias em que ela não consegue sair da cama e ir para seu trabalho de meio período em uma universidade.
Embora o problema do hikikomori não seja uma novidade, o primeiro-ministro Shinzo Abe agora planeja mobilizá-los como parte de uma campanha mais abrangente para dar apoio à força de trabalho, que está envelhecendo.
Ele prometeu impedir que a população se reduza dos atuais 127 milhões a menos de 100 milhões e quer que todos os membros da sociedade contribuam ativamente para a terceira maior economia do mundo.
Não existe uma causa única para o fenômeno. O hikikomori pode surgir de fatores como provocações na escola ou no trabalho ou pressão dos pais ou de outros familiares para ser bem-sucedido em testes de admissão ou entrevistas de emprego.
Cerca de 541.000 pessoas entre 15 e 39 anos — ou 1,6 por cento da população nessa faixa etária — foram consideradas hikikomori em um relatório do Escritório do Gabinete publicado em setembro.
O governo define-as como pessoas que ficaram em casa e evitaram interagir com quem não é integrante de sua família durante pelo menos seis meses.
À medida que a sociedade envelhece, os hikikomori também se tornam mais velhos. Cerca de 53 por cento deles na prefeitura ocidental de Shimane tinham 40 anos de idade ou mais, e esse número é de 44 por cento em Yamagata, região Norte do Japão. Isso gera dúvidas sobre como os desistentes mais velhos vão se sustentar quando seus pais, que estão envelhecendo, morrerem.
Impacto econômico
Políticas adequadas, como assistência financeira e aconselhamento psicológico, poderiam ajudar a transformar oshikikomori em membros da força de trabalho, afirma Eriko Ito, consultora do Nomura Research Institute em Tóquio.
Isso aumentaria a produção econômica geral e também ajudaria a reduzir o gasto em bem-estar social.
“Deveríamos mudar nossa concepção em relação a sustentá-los”, diz Ito. “É um investimento, não um custo.”
O plano do governo é sustentar os hikikomori e outros jovens com dificuldades tornando-os mais “independentes”. O governo montou centros de aconselhamento psicológico em todo o país e conta com assistentes que visitam aqueles que relutam em sair de casa.
Cursos superiores podem ser 'desperdício' no Brasil, diz estudioso
"Muitos acabam sendo mais uma extensão do ensino básico e fundamental do que uma faculdade ou universidade propriamente ditas."

09/10/2013 -18h41
Embora tenham proliferado no Brasil nos últimos anos, muitos cursos superiores acabam não formando profissionais de qualidade, por isso, podem até acabar sendo um desperdício para a sociedade, de acordo com um especialista ouvido pela BBC Brasil.
Para Tristan MacCowen, professor de Educação e Desenvolvimento da Universidade de Londres, que há pelo menos uma década estuda a evolução do sistema educacional brasileiro, alguns desses cursos "não aumentam a capacidade de inovação da economia, não impulsionam sua produtividade e acabam ajudando a perpetuar uma situação de desigualdade, já que continua a ser vedado à população de baixa renda o acesso a cursos de maior prestígio e qualidade".
Aos poucos, segundo o especialista, estaria sendo consolidado no sistema de ensino superior brasileiro uma espécie de sistema "dual", no qual os cursos e universidades mais disputados - públicos e privados - continuariam a receber principalmente estudantes da elite, enquanto boa parte da população de baixa renda acabaria em faculdades de segunda classe, "nas quais a experiência de aprendizagem seria bem diferente".
"Em muitas das instituições de ensino superior acessíveis a essas classes não há estímulos para que os estudantes busquem conhecimento fora das salas de aula, nem oportunidades de pesquisa ou chances para eles expandirem sua experiência universitária", diz o especialista.
"Muitos acabam sendo mais uma extensão do ensino básico e fundamental do que uma faculdade ou universidade propriamente ditas."
Segundo a última pesquisa do Instituto Paulo Montenegro (IPM), vinculado ao Ibope, divulgada no ano passado, quatro em cada dez estudantes do ensino superior no Brasil não são "plenamente alfabetizados" - ou seja, não conseguem interpretar um texto, gráficos ou tabelas, nem fazer contas matemáticas um pouco mais complexas - por exemplo, envolvendo porcentagens.
"O problema é que o domínio da linguagem e da matemática são ferramentas básicas para que se possa avançar na aprendizagem de conteúdos mais complexos", diz Ana Lúcia Lima, diretora do Instituto.
'De mentira'
A opinião de um ex-professor de arquitetura sobre a qualidade dos alunos e do ensino na faculdade em que ele deu aula por cinco anos dá a medida dos desafios que envolvem a expansão do acesso à universidade no Brasil: "Esses cursos dão a muitos jovens uma chance de conseguir empregos que pagam um pouco melhor, mas quem vive o dia-a-dia de algumas dessas faculdades privadas sabe que classificá-los como 'curso superior' é uma grande mentira", diz ele.
O ex-professor, de São Paulo, conta que alguns de seus alunos chegavam a sala de aula sem saber fazer uma equação de primeiro grau ou escrever um texto "que fizesse sentido" - e boa parte do trabalho do corpo docente da instituição era tentar suprir as carências de um ensino básico e fundamental deficiente.
"Havia alguns alunos bons e muitos problemáticos - e os professores eram pressionados a aprovar a maior parte dos matriculados mesmo que seu aproveitamento do curso fosse mínimo", diz ele.
Desde 2001, o número de instituições de ensino superior no país passou de 1.004 para cerca de 2,5 mil e a quantidade de matrículas mais que dobrou, chegando a 6,7 milhões no ano passado, segundo dados da mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).
O relato do ex-professor, porém, não chega a ser uma surpresa para Tristan MacCowen.
"Não há como negar que o Brasil fez avanços significativos na expansão do acesso ao ensino superior - e isso é positivo - mas essa expansão precisava ser acompanhada de um controle sobre a qualidade das novas instituições e um desenvolvimento significativo dos mecanismos de regulação e supervisão do setor, o que parece não ter ocorrido", acredita MacCowen.
Segundo o especialista, na comparação com outros países, o caso brasileiro se destaca justamente pela falta de rigidez de sua regulamentação. "Chama a atenção a facilidade com a qual grupos privados que visam o lucro podem abrir instituições de ensino no país, por exemplo, - o que implica em riscos significativos", alerta.
O governo tem feito um esforço para ampliar a oferta em universidades públicas, principalmente no interior do país, mas 74,6% dos estudantes ainda estão matriculados em instituições privadas, segundo a última Pnad, que registrou um aumento de 1,4 pontos nesse porcentual de 2011 para 2012.
ProUni
Segundo especialistas, a expansão da educação superior no Brasil na última década foi o resultado de dois processos combinados.
De um lado, em um cenário de maior crescimento e menor desemprego, muitos jovens da classe C se sentiram estimulados a estudar mais que seus pais para ampliar suas oportunidades no mercado de trabalho e perspectivas de rendimento. Também aumentou a quantidade de famílias com recursos para investir em educação - o que ampliou a demanda por cursos e serviços nessa área.
Simultaneamente, foram adotadas uma série de políticas públicas para garantir que tal demanda fosse atendida.
Desde 2007, o Governo Federal procurou ampliar a oferta de vagas na rede pública via Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) e universidades federais começaram a adotar sistemas de cotas raciais ou para alunos de escolas públicas.
Para as instituições privadas, o maior estímulo foi o Programa Universidade para Todos (ProUNI), que tem financiado, com bolsas parciais ou integrais, milhares de estudantes de baixa renda em cursos superiores por todo o país.
Com tais impulsos, o ensino superior privado tornou-se um dos segmentos mais promissores da economia brasileira. Em 2012, empresas do setor estiveram entre as que mais se valorizaram na Bovespa e não demorou muito para que se estabelecesse uma dinâmica de formação de megagrupos para atender o filão.
Por todo o país, novas faculdades têm recebido jovens que recebem bolsa do governo ou trabalham de dia para pagar os cursos que frequentam à noite.
"Temos pela frente um grande desafio para expandir a qualidade desses cursos e da formação básica dos estudantes que chegam a suas salas de aula", diz Lima. "Isso é essencial para evitar que a escolaridade dos brasileiros avance apenas no papel."
09/10/2013 -18h41
Embora tenham proliferado no Brasil nos últimos anos, muitos cursos superiores acabam não formando profissionais de qualidade, por isso, podem até acabar sendo um desperdício para a sociedade, de acordo com um especialista ouvido pela BBC Brasil.
Para Tristan MacCowen, professor de Educação e Desenvolvimento da Universidade de Londres, que há pelo menos uma década estuda a evolução do sistema educacional brasileiro, alguns desses cursos "não aumentam a capacidade de inovação da economia, não impulsionam sua produtividade e acabam ajudando a perpetuar uma situação de desigualdade, já que continua a ser vedado à população de baixa renda o acesso a cursos de maior prestígio e qualidade".
Aos poucos, segundo o especialista, estaria sendo consolidado no sistema de ensino superior brasileiro uma espécie de sistema "dual", no qual os cursos e universidades mais disputados - públicos e privados - continuariam a receber principalmente estudantes da elite, enquanto boa parte da população de baixa renda acabaria em faculdades de segunda classe, "nas quais a experiência de aprendizagem seria bem diferente".
"Em muitas das instituições de ensino superior acessíveis a essas classes não há estímulos para que os estudantes busquem conhecimento fora das salas de aula, nem oportunidades de pesquisa ou chances para eles expandirem sua experiência universitária", diz o especialista.
"Muitos acabam sendo mais uma extensão do ensino básico e fundamental do que uma faculdade ou universidade propriamente ditas."
Segundo a última pesquisa do Instituto Paulo Montenegro (IPM), vinculado ao Ibope, divulgada no ano passado, quatro em cada dez estudantes do ensino superior no Brasil não são "plenamente alfabetizados" - ou seja, não conseguem interpretar um texto, gráficos ou tabelas, nem fazer contas matemáticas um pouco mais complexas - por exemplo, envolvendo porcentagens.
"O problema é que o domínio da linguagem e da matemática são ferramentas básicas para que se possa avançar na aprendizagem de conteúdos mais complexos", diz Ana Lúcia Lima, diretora do Instituto.
'De mentira'
A opinião de um ex-professor de arquitetura sobre a qualidade dos alunos e do ensino na faculdade em que ele deu aula por cinco anos dá a medida dos desafios que envolvem a expansão do acesso à universidade no Brasil: "Esses cursos dão a muitos jovens uma chance de conseguir empregos que pagam um pouco melhor, mas quem vive o dia-a-dia de algumas dessas faculdades privadas sabe que classificá-los como 'curso superior' é uma grande mentira", diz ele.
O ex-professor, de São Paulo, conta que alguns de seus alunos chegavam a sala de aula sem saber fazer uma equação de primeiro grau ou escrever um texto "que fizesse sentido" - e boa parte do trabalho do corpo docente da instituição era tentar suprir as carências de um ensino básico e fundamental deficiente.
"Havia alguns alunos bons e muitos problemáticos - e os professores eram pressionados a aprovar a maior parte dos matriculados mesmo que seu aproveitamento do curso fosse mínimo", diz ele.
Desde 2001, o número de instituições de ensino superior no país passou de 1.004 para cerca de 2,5 mil e a quantidade de matrículas mais que dobrou, chegando a 6,7 milhões no ano passado, segundo dados da mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).
O relato do ex-professor, porém, não chega a ser uma surpresa para Tristan MacCowen.
"Não há como negar que o Brasil fez avanços significativos na expansão do acesso ao ensino superior - e isso é positivo - mas essa expansão precisava ser acompanhada de um controle sobre a qualidade das novas instituições e um desenvolvimento significativo dos mecanismos de regulação e supervisão do setor, o que parece não ter ocorrido", acredita MacCowen.
Segundo o especialista, na comparação com outros países, o caso brasileiro se destaca justamente pela falta de rigidez de sua regulamentação. "Chama a atenção a facilidade com a qual grupos privados que visam o lucro podem abrir instituições de ensino no país, por exemplo, - o que implica em riscos significativos", alerta.
O governo tem feito um esforço para ampliar a oferta em universidades públicas, principalmente no interior do país, mas 74,6% dos estudantes ainda estão matriculados em instituições privadas, segundo a última Pnad, que registrou um aumento de 1,4 pontos nesse porcentual de 2011 para 2012.
ProUni
Segundo especialistas, a expansão da educação superior no Brasil na última década foi o resultado de dois processos combinados.
De um lado, em um cenário de maior crescimento e menor desemprego, muitos jovens da classe C se sentiram estimulados a estudar mais que seus pais para ampliar suas oportunidades no mercado de trabalho e perspectivas de rendimento. Também aumentou a quantidade de famílias com recursos para investir em educação - o que ampliou a demanda por cursos e serviços nessa área.
Simultaneamente, foram adotadas uma série de políticas públicas para garantir que tal demanda fosse atendida.
Desde 2007, o Governo Federal procurou ampliar a oferta de vagas na rede pública via Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni) e universidades federais começaram a adotar sistemas de cotas raciais ou para alunos de escolas públicas.
Para as instituições privadas, o maior estímulo foi o Programa Universidade para Todos (ProUNI), que tem financiado, com bolsas parciais ou integrais, milhares de estudantes de baixa renda em cursos superiores por todo o país.
Com tais impulsos, o ensino superior privado tornou-se um dos segmentos mais promissores da economia brasileira. Em 2012, empresas do setor estiveram entre as que mais se valorizaram na Bovespa e não demorou muito para que se estabelecesse uma dinâmica de formação de megagrupos para atender o filão.
Por todo o país, novas faculdades têm recebido jovens que recebem bolsa do governo ou trabalham de dia para pagar os cursos que frequentam à noite.
"Temos pela frente um grande desafio para expandir a qualidade desses cursos e da formação básica dos estudantes que chegam a suas salas de aula", diz Lima. "Isso é essencial para evitar que a escolaridade dos brasileiros avance apenas no papel."
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