segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Escola deveria incorporar 'conversa de boteco', diz educadora

BBC

Em vez de replicar bons sistemas de ensino de outros países, o Brasil deveria se inspirar neles e criar um modelo aproveitando traços da cultura nacional, como o gosto pela música e pela conversa, diz Cláudia Costin, ex-diretora do Banco Mundial para Educação e professora visitante na Universidade Havard (EUA).
"A dinâmica das aulas deveria lembrar mais nossas rodas de conversa do que uma palestra. Nada é mais contrário à nossa cultura fora dos muros da escola do que a forma como damos aula hoje", afirma.
Em entrevista à BBC Brasil, Costin diz ainda que as centenas de escolas brasileiras ocupadas por estudantes ao longo do ano jamais serão como antes, já que os alunos não aceitarão mais assistir às aulas passivamente.
Formada em administração pública na FGV-SP, Costin passou os dois últimos anos no Banco Mundial, após chefiar entre 2009 e 2014 a secretaria de Educação do Rio de Janeiro na gestão Eduardo Paes (PMDB). Antes, foi secretária de Cultura do Estado de São Paulo (2003-2005) e ministra da Administração e Reforma do Estado do governo FHC (1995-2002).
Ela deixou o banco neste ano para lecionar em Harvard, trabalho que conciliará com a direção do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (Ceipe). Instalado na FGV-Rio há pouco mais de um mês, o órgão terá entre seus objetivos melhorar a formação de professores.
Confira os principais trechos da entrevista.
BBC Brasil - No Brasil, em que medida o sucesso profissional de alguém se deve à qualidade de sua formação escolar, e em que medida se deve a fatores como círculo social, gênero e raça?
Claudia Costin - Há uma pesquisa mostrando que 68% do sucesso escolar de um aluno depende dos anos de escolaridade dos pais. A criança da escola pública na média já sai perdendo por aí, e depois na vida profissional a desigualdade continua se agravando, porque as que vêm de um meio mais favorecido têm pais com bons contatos e colegas que vão se colocar bem no mercado.
Existe uma promessa na sociedade de igualdade de oportunidade que não está sendo cumprida. Para que seja, a escola pública tem que ser muito melhor.
BBC Brasil - Há estudos que relacionam sistemas de ensino bem sucedidos, como o finlandês e o sul-coreano, a traços culturais dos países que os adotaram. Que características culturais brasileiras poderiam embasar um sistema de ensino que explore todo o nosso potencial?
Costin - Se fosse pensar num traço cultural que pudesse orientar a nossa maneira de dar aula e repensar o ensino é a conversa de boteco. É curioso: somos um povo que gosta muito de conversar, mas a conversa é reprimida na escola, é vista como algo errado.
A conversa deveria ser coletiva na escola: em grupos e, depois, de maneira centralizada. A dinâmica da aulas deveria lembrar mais nossas rodas de conversa do que uma palestra. Nada é mais contrário à nossa cultura fora dos muros da escola do que a forma como damos aula hoje.
BBC Brasil - Há outros elementos que poderiam ser melhor aproveitados?
Costin - Na nossa cultura, a música também tem um papel extremanente importante. No Rio, criamos escolas vocacionais (focadas em temas específicos). Uma delas fica ao lado do bloco carnavelesco Cacique de Ramos.
Os alunos têm um currículo normal com sete horas de aula por dia, mas todos os textos em português e em matemática são relacionados à musica e ao samba. Eles passam três horas por dia aprendendo a ler partitura, a tocar instrumentos, a compor samba enredo.
Essa escola é hoje uma das melhores do Rio - um exemplo de como podemos usar a música para dar uma formação integral e com a nossa cara.
BBC Brasil - Algo mudou no debate sobre a educação no Brasil desde que você deixou o país, em 2014?
Costin - Ampliou-se a percepção de que as crianças não estão aprendendo. O Brasil viveu um momento de celebração em 2012 pelo fato de termos sido o país que mais avançou em matemática no Pisa (principal teste internacional que mede a qualidade do ensino) entre 2003 e 2012.
Por certo tempo podíamos pensar que, como fomos um dos últimos países a universalizar o ensino primário, a qualidade da educação estava ruim, mas ia melhorar. Mas hoje estamos estagnados num patamar muito baixo.
BBC Brasil - Por que o resultado deixou de melhorar?
Costin - Porque as transformações mais importantes demandam uma alteração na forma como formamos professores. Devemos tornar a formação mais profissionalizante, assim como medicina e engenharia fazem.
A universidade no Brasil forma professores nos cursos de licenciatura e pedagogia focando demasiadamente nos fundamentos da educação, como filosofia da educação, sociologia da educação, e quase nada na prática do professor nas aulas.
Além disso, dada a baixa atratividade da carreira, hoje os 25% piores alunos do ensino médio se tornam professores. Na Finlândia e Coreia do Sul é o oposto: os 25% melhores viram professores.
BBC Brasil - Como mudar a formação do professor? É algo que deve ser feito pelo governo ou pela universidade?
Costin - As duas coisas. Tem muita gente fazendo mestrado e doutorado em educação no exterior. Minha esperança é que voltem para as universidades brasileiras para transformá-las por dentro.
Por outro lado, o Estado de São Paulo passou a repassar recursos adicionais para universidades formarem professores com base num determinado currículo. Na gestão do Fernando Haddad no Ministério de Educação, havia a discussão de criar uma prova nacional de certificação, que daria ao indivíduo o direito de ser professor. É algo que existe no mundo todo e, dependendo de como fizerem a prova, há como influenciar a universidade.
Outra coisa que pode ser feita é exigir uma prova prática nos concursos para seleção de professores. Que eu saiba, só Rio de Janeiro e Curitiba fazem isso hoje.
BBC Brasil - Como gastar melhor o dinheiro com o treinamento de professores?
Costin - Fazendo com que trabalhem de forma colaborativa dentro da escola e estimulando que professores tenham mentores e tutores quando entram na carreira. Grande parte do que se gasta hoje com formação de professores é desperdiçada.
Há pesquisas mostrando que não há nenhuma relação entre o desempenho do aluno e o fato de o professor ter feito mestrado ou doutorado, por exemplo. No Rio, fizemos uma avaliação externa e descobrimos que a professora primária da melhor turma da rede não tinha nem feito faculdade.
BBC Brasil - Qual era o segredo dela?
Costin - Era uma professora mais velha, que entrou na rede numa época em que não se exigia faculdade, e que dava aula numa região muito violenta. Ela começava a aula acalmando as crianças, num processo de catarse em que cada uma contava o que tinha acontecido na noite anterior. Instintivamente e sem ser psicóloga, ela trouxe serenidade para o grupo, e aí o conteúdo podia ser trabalhado.
Parecia que ela tinha estudado como desenvolver competências socioemocionais: persistência, resiliência, autocontrole. Esse é o grande debate da educação hoje: como, além das competências cognitivas, trabalhar competências para viver em sociedade, como empatia e respeito ao outro - coisas de que nós, adultos, estamos precisando muito nesses tempos de ódio.
BBC Brasil - Como acompanhou o movimento de ocupação de escolas pelo Brasil neste ano?
Costin - Senti que ele começou de um jeito e virou uma coisa bem diferente. Em alguns casos, tenho a impressão de que, movidos por interesses corporativistas, professores falaram de suas frustrações para os alunos e os encorajaram a ir à luta. Mas, quando se libera um movimento social, ele não fica sob o controle de quem o iniciou.
Acho que os alunos aprenderam muito com esse processo e agora ningém mais vai conseguir ter uma escola igual a antes, com o professor no comando escrevendo no quadro e o aluno anotando. Guardadas as proporções, vai se assemelhar ao que aconteceu em 1968 em alguns países europeus. As escolas vão mudar, e isso vai ser positivo porque vai ser centrado no protagonismo do aluno.
O aluno tem que ser protagonista da sua vida escolar. Na Finlândia, quando um aluno do ensino médio tem problemas de disciplina, a escola não chama os pais, ela discute com ele mesmo. No Brasil, muitas vezes famílias e escolas infantilizam o aluno de ensino médio.
BBC Brasil - Qual sua posição sobre o movimento Escola sem Partido (proposta de lei que, segundo os autores, busca coibir a doutrinação ideológica nas escolas e proteger a educação moral que os alunos recebem em casa)?
Costin - Sou contra a proposta, não concordo com censura em educação. Mas, ao mesmo tempo, quando acontece uma coisa dessas, é bom parar para pensar por que estão falando disso.
Há muito professor que, seja de direita ou esquerda, relata sua visão de mundo para o aluno como se fosse a verdade, em vez de ensiná-lo a pensar. Isso é preocupante. Então acho que a proposta da lei estava errada, mas temos de ter um mecanismo para que as pessoas nem pensem nessa possibilidade.
BBC Brasil - Alguns analistas dizem que, embora tenha havido uma forte expansão do ensino superior no Brasil na última década, não se deu a mesma atenção ao desenvolvimento de centros de excelência voltados à formação de uma elite. A cítica faz sentido?
Costin - Acho que o Brasil fez exatamente o oposto. Só 18% da população entre 24 e 34 anos terminou a universidade. É uma elite. Países com o mesmo grau de desenvolvimento que o nosso têm índices maiores.
O número de vagas aumentou, mas acho que a universidade está ressentida, ela não queria ser ampliada. Há segmentos que desejam que houvesse menos médicos, menos engenheiros, para ter uma reserva de mercado.
BBC Brasil - Que achou da proposta de reforma do ensino médio e da forma como foi submetida ao Congresso, por meio de medida provisória?
Costin - O conteúdo não foi feito pelo governo Temer, ele foi feito pelo Conselho Nacional de Secretários de Educação e respaldado por sucessivos ministros da Educação.
O que está no conteúdo vai dar um trabalho louco, mas está correto. O erro foi tentar fazer por medida provisória. Não se transforma a educação sem muita discussão.
BBC Brasil - Como melhorar a educação após a aprovação da PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que congela por até 20 anos os gastos federais no setor?
Costin - Não concordei com inclusão de educação na PEC e acho que deveríamos brigar para rever essa questão. Quando há uma crise fiscal, é natural que se queira cortar gastos. Mas mesmo os países com atuação fiscal importante tratam a educação como prioridade.
Com o congelamento, estamos condenados a ter a profissão de professor com baixos salários e, portanto, pouco atraente por muitos e muitos anos. Isso prejudica a educação. Nenhum sistema é melhor que a qualidade de seus professores.
BBC Brasil - As críticas que você recebe desde que chefiou a secretaria de Educação no Rio, que a associam à defesa do ensino privado e a uma postura autoritária na negociação com sindicatos, a incomodam?
Costin - Dediquei a vida inteira à escola pública e acho que não se constrói equidade sem focar escola pública. O que esse grupo criticava é termos feito parcerias com instituições de formação de professores que eram privadas.
Isso não me perturba. Eles acham que não deveríamos contratar ninguém para formar professores, ou que só deveria haver universidades públicas ou a própria rede formando professores.
Mas, se não temos determinado conhecimento, é importante que alguém prepare o professor. Se forem fundações sem fins lucrativos, não tem problema. É isso o que o mundo faz.

Luiz Felipe Pondé Dizer "graças a Deus" é reconhecer a frágil beleza da vida

luiz felipe pondé
Luiz Felipe Pondé
Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência.

"Graças a Deus!". Essa frase é muito comum na boca das pessoas comuns. Aquele tipo de pessoa "ignorante" que nunca estudou muito. Aquele tipo desprezado por quase todo intelectual.

Émil Cioran (1991-1995), filósofo romeno, dizia que o povo simples da Romênia sabia de tudo. Tudo que ele teve que descobrir depois de muito estudo, insônia e sofrimento. Sua mãe, uma sábia segundo ele, sempre soube que o destino paira sobre todos nós sem nunca ter lido uma linha de filosofia. "O que sei aos 60 sabia aos 20, 40 longos anos de um trabalho inútil de verificação", dizia nosso trágico romeno.

Soren Kierkegaard (1813-1855), filósofo dinamarquês, dizia que "só espíritos confusos julgam as pessoas pelos livros que leram". Essa frase deveria ser posta na parede de cada departamento de ciências humanas no mundo.

Blaise Pascal (1623-1662), filósofo, matemático, cientista e teólogo francês, dizia que os verdadeiros sábios descobriam aquilo que as pessoas comuns sabiam de modo intuitivo a vida inteira e que os falsos sábios ("demi-sevant" nas suas palavras) eram aqueles que acreditavam em suas próprias pequenas e equivocadas teorias.

O que há de comum nesses três casos? Os três reconhecem a validade da sabedoria do homem e da mulher comuns. E o que isso tem a ver com a expressão "Graças a Deus"? Esta expressão é pura sabedoria, nada tem de ingênua. Vejamos.

Sei que inteligentinhos (confesso aqui que minha inspiração para esse conceito antropológico de "inteligentinho" é o "demi-savant" de Pascal citado acima) entendem essa frase como uma marca de gente crente, alienada, ignorante, que serve de massa de manobra para ministros religiosos picaretas de todos os tipos.

E aqui fica clara a condição inteligentinha: ele, realmente, pensa que sacou tudo sobre religião quando diz isso (quando isso é, apenas, uma pequena parte do que religião é de fato). Mas, um inteligentinho nunca entende nada porque leva muito a sério sua dissertação de mestrado. Religião é coisa muito mais séria do que pensa nosso vão ateísmo de butique.

Ouçamos um outro grande intelectual romeno, Mircea Eliade (1907-1986), fundador da história comparada das religiões. Eliade dizia que uma das raízes das religiões é o "terror da contingência", aquele sentimento ancestral de que o acaso (sinônimo de contingência) domina nossa vida sem dó. As religiões seriam formas de lidar, compreender e dar significado a este sentimento esmagador de que a contingência age o tempo todo sobre nós.

Pois bem, quando uma pessoa comum diz "graças a Deus", ela não está manifestando sua idiotice atávica (apesar de que também se pode entender assim, mas será um entendimento inteligentinho), ela está manifestando um profundo entendimento da nossa relação com a contingência e os modos simbólicos de acolhê-la em nossas frágeis vidas.

"Deus" aqui (para além do cristianismo de fundo que organiza nossa forma de compreensão da ação da contingência no Ocidente) é essa gigantesca contingência que tudo decide, uma vez que nunca teremos controle absoluto sobre as variáveis em jogo na vida de cada um de nós.

No judaísmo deve-se ler o livro do "Eclesiastes" (o livro que fala que tudo é vaidade, vento que passa...) da Bíblia Hebraica sempre que a colheita for boa e que tivermos sucesso em nossas vidas, para lembrarmos que se tivemos sucesso é porque Deus assim o quis.

Martinho Lutero (1483-1546), teólogo fundador do protestantismo, dizia que o "Eclesiastes" é um livro sobre a graça, ou seja, a livre vontade de Deus, fora de nosso controle.

Pois bem. Voltemos as pessoas comuns. "Graças a Deus", reconhecimento intuitivo do fato de que estamos nas mãos da contingência incontrolável e que, por isso mesmo, devemos "agradecer" a ela tudo de bom que (por sorte) nos acontece, está em profunda consonância com a sabedoria israelita antiga e com Eliade e Lutero.

"Graças a Deus" é uma profunda forma de reconhecimento da frágil beleza da vida, e uma confissão de humildade que é, sempre, uma forma dessa mesma beleza. Bom ano pra você.

domingo, 1 de janeiro de 2017

2017 marcará o início da era dos robôs?

BBC

Tecnologia está cada vez mais integrada aos ambientes reais


"Seus ossos vão virar areia e, sobre essa areia, um novo deus andará."
A frase é da robô Dolores, personagem da série de ficção científica "Westworld".
A realidade pode não ser tão ruim assim --mas certamente um muro, uma fronteira ou um novo esquema de permissão de trabalho não serão capazes de detê-los: a ascensão dos robôs pode ser o grande acontecimento de 2017.
É bem verdade que desde a quebra do primeiro tear pelos ludistas, no auge da Revolução Industrial, em protesto contra a industrialização e as novas tecnologias, a mecanização vem tirando o trabalho das pessoas.
Mas o processo está caminhando cada vez mais rápido, acelerando o tempo todo. E a próxima onda pode arrebentar logo --e perto de você.
Temos hoje uma grande diversidade de novas tecnologias aplicadas à robótica avançada e à criação de computadores mais rápidos, melhores e mais brilhantes.
Ainda não se trata da chamada "inteligência geral", que vai conseguir atingir objetivos complexos em ambientes tão complexos quanto com poucos recursos computacionais e que pode levar ao enigma ético (e até agora fictício) sobre a consciência das máquinas.
Mas equipamentos cada vez mais elaboradas estão realizando mais e mais trabalhos que antes exigiam o cérebro humano e substituindo também a força física.
Impressoras 3D eliminaram vagas de emprego na manufatura. Carros sem motoristas estão bem próximos de virar realidade, assim como os caminhões que não exigirão ninguém atrás do volante - o que não deixa de ser um pouco assustador se pensarmos que o motorista de caminhão é um dos trabalhos mais comuns em muitas partes do mundo, por exemplo.
Uma pesquisa recente da Universidade de Oxford, no Reino Unido, sugere que cerca de metade dos postos de trabalho existentes hoje nos EUA serão automatizados até 2033.
Datilógrafos e escriturários já foram extintos há algum tempo. Os próximos podem ser pessoas com boa formação que trabalham em Marketing, Medicina, Direito e, sim, até no Jornalismo.
E lembrem-se dos bancários. Em um artigo recente publicado pela agência Bloomberg, o presidente do banco State Street, de Boston, Michael Rogers, afirmou que atualmente emprega cerca de 30 mil pessoas, mas acredita que até 2020 uma em cada cinco delas será substituída por um algorítmo.
O escolhido de Donald Trump para assumir o Ministério do Trabalho, Andrew Puzder, presidente de uma empresa que controla redes de lanchonetes nos EUA, está feliz em ter menos funcionários e é adepto dos serviços automatizados de atendimento ao consumidor.
"Eles são educados, sempre fazem vendas melhores, nunca tiram férias, chegam atrasados ou ficam doentes e nunca cometem discriminação por idade, sexo ou raça."
Se você acha que já leu essas previsões todas antes, está certo. Especialistas vêm falando há alguns anos sobre a quarta ou quinta revolução industrial, a terceira onda da globalização e a tecnologia disruptiva.
Mas então por que desta vez é diferente? Por conta do contexto político - a questão é essa.

A política

O que deve significar esse novo impulso econômico, chegando aos bastidores da revolta do Cinturão da Ferrugem, região industrial americana que impulsionou a vitória de Trump e um polo dos esquecidos?
Você deve ter percebido que 2016 foi um ano e tanto nos Estados Unidos. E tudo leva a crer que o clima deve continuar intenso em 2017 na Europa, com as eleições na Alemanha, França, Holanda e, provavelmente, Itália.
Muitos veem isso como nada menos que um aumento dos desprivilegiados. Se há temas recorrentes, alguns deles são sobre nacionalismo e identidade. Mas também os deslocamentos econômicos e o crescente sentimento de desigualdade.
O professor Richard Baldwin, economista do renomado Instituto Graduate, de Genebra, afirma que isso deve piorar.
Segundo as previsões dele, "alguns quartos de hotéis em Londres poderão ser limpos por pessoas conduzindo robôs diretamente do Quênia ou de Buenos Aires e de outros lugares por menos de um décimo do preço praticado na Europa".
E ele tem uma visão simples sobre a reação política das pessoas a este cenário: "Elas vão ficar com raiva".
Alguns políticos reconheceram que 2016 marcou o início dessa raiva. O problema é que, entre paredes e barreiras comerciais, eles têm poucas opções para lidar com o aumento da desigualdade. E o mesmo acontece entre pensadores e legisladores.
O ex-consultor de economia do vice-presidente dos Estados Unidos Joe Biden escreveu recentemente: "Para sermos honestos, precisamos admitir que nenhum dos lados - democratas ou republicanos - tem um plano robusto e convincente para recuperar os postos de trabalho em comunidades que perderam muito da base manufatureira".
E admite: "Eu mesmo estudei esse problema durante vários anos e não cheguei nem perto de uma resposta".
A economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, defende o uso de políticas para impulsionar as pessoas a novas vagas de emprego. Mas, para isso, as vagas precisam existir. E nada garante que elas existirão.

Soluções exóticas

Há décadas se fala sobre a importância das habilidades e da formação - e não parece que a indústria britânica seja tão bem sucedida ou dinâmica nesses quesitos. Ao contrário: está aquém das mais básicas e óbvias habilidades, dos pedreiros à tecnologia da informação.
Vamos considerar um cenário: o Reino Unido está com déficit de clínicos gerais, e muitos médicos em hospitais são estrangeiros. Apesar disso, há uma grande competição para se tornar médico - somente os alunos mais brilhantes e aplicados, com as melhores notas, têm alguma chance.
A conta não fecha.
Mas talvez seja hora de ser otimista. Algumas soluções são bastante exóticas: uma das que mais me chamou atenção é o movimento conhecido como FALC (Fully Automated Luxury or Leisure Communism ou "comunismo de luxo e lazer totalmente automatizado").
O argumento básico dos apoiadores desse movimento é que tudo o que precisamos logo vai ser tão barato que nós poderemos ter muito - isso, claro, se os atuais proprietários não ficarem com o lucro só para eles.
Alguns pensadores da esquerda são muito mais pessimistas e alertam que essas tendências podem terminar com uma guerra entre os pobres - o extermínio dos trabalhadores, literalmente.
"Robô" - termo usado pela primeira vez por um autor de ficção científica - é apenas a palavra tcheca para "servo". Com a lógica do FALC, todos nós seríamos donos do fruto do trabalho dos robôs, como proprietários de escravos sem culpa.
Algo como "o dinheiro é pobreza". As sociedades pós-escassez não precisam disso.
Mas tudo isso depende de quem serão os proprietários dos robôs. Isso também poderia significar uma revolução na forma como nós encaramos o trabalho.
Uma versão menos radical de tudo isso poderia ser o salário dos cidadãos, uma renda básica universal. Isso significa que todos receberiam essa quantia mínima, estejam trabalhando ou não.
Em uma entrevista recente à revista Wired, o presidente Barack Obama já disse que a discussão sobre a renda universal básica é inevitável nos próximos anos.
Mas isso vai na contramão do espírito da época. A raiva dos eleitores com as circunstâncias econômicas está frequentemente atrelada com a reclamação de que a elite está paparicando aqueles que não fazem por merecer, sejam os beneficiários domésticos ou os trabalhadores imigrantes.
Claramente um projeto para aumentar drasticamente os benefícios sociais a todos e sem distinção - dos bilionários fúteis aos trabalhadores da base da pirâmide - pode não conquistar tanto apelo político da população.
E também não há nenhuma certeza de que uma vida mais "básica" seria mais satisfatória, enobrecedora ou menos dividida e desigual que a vida com benefícios do governo como o seguro-desemprego.
Parece que não há soluções fáceis ou óbvias nem para a revolta do Cinturão de Ferrugem nem para a ascensão dos robôs.
Mas uma boa resolução de Ano Novo pode ser uma promessa de procurar por soluções, sejam elas cinzentas, otimistas, pessimistas, estranhas, manjadas ou otimistas.
Demorou tempo demais para que os políticos acordassem para o fato de que o fim da velha era industrial teria consequências graves para todos. Melhor que não leve o mesmo tempo para pensar em um futuro que está ali, dobrando a esquina.

Priorização é a palavra-chave para a sua saúde, diz especialista

Consultório CBN 

O cardiologista Eduardo Martins é autor do livro 'Higiene consciencial' e se debruçou sobre os efeitos psicológicos sobre a saúde física do corpo humano. O especialista fala sobre mudanças que podemos fazer nas nossas vidas para 2017.

Leandro Karnal Livres ou marionetes?

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Leandro Karnal é um historiador brasileiro, atualmente professor da Universidade Estadual de Campinas na área de História da América.

O rio da transformação desacelera e chega ao calmo fluxo da planície cotidiana


Janus era o deus com dupla face no mundo antigo. Contemplava direções opostas. Ele batiza o monte Janículo em Roma, onde está enterrada Anita Garibaldi (a heroína de dois mundos no monte do deus de duas faces). Janus também orienta o nome do mês de janeiro que está alvorecendo. É o deus de começo e fim, de passado e futuro, dos momentos de transição como o que estamos agora. 
Janeiro é bifronte. Estão frescas as memórias de Ano Novo. Desejamos um ser novo daqui para a frente. Perderemos peso, aprenderemos línguas, guardaremos dinheiro, visitaremos mais os amigos. Então, chega a festa de Reis, 6 de janeiro, limite do ímpeto transformador. O rio da transformação desacelera e chega ao calmo fluxo da planície cotidiana de 2017. Como diz meu querido Hamlet no seu monólogo, a consciência nos torna covardes e o ânimo mais resoluto se afoga na sombra do pensar. Decidimos pela ação e o cotidiano a dilui. O soluto da vontade se entrega ao solvente dos dias intermináveis e do cotidiano desgastante. 
O ano será bom ou ruim? Entramos no campo cediço do acaso. A Fortuna romana era a deusa do acaso. Os gregos a chamavam Tique. Nossas vidas serão regidas pelo aleatório. Às vezes parece que sim. O Romeu de Shakespeare brada ao espaço ser um joguete do destino. A grande Bárbara Heliodora prefere traduzir “I am fortune’s fool” por “eu sou palhaço dos fados”. 
Sou historiador. Gosto de exemplos concretos. Jean-Baptiste Lully era o italiano que Luís XIV adotou como o grande compositor da Corte francesa de Versalhes. Brilhou musicando bailados para o rei-Sol. Ele estava no auge da fama e do dinheiro. Por poder do monarca, controlava toda a produção musical francesa. Em 8 de janeiro, ele regia um Te Deum, um hino de ação de graças pela saúde do Rei que se recuperava de uma doença. Batendo com um grande bastão no chão para marcar o compasso, Lully se distraiu e alvejou o próprio pé. A pequena ferida infeccionou numa era pré-antibiótico. Ele determinou que o pé não poderia ser amputado. Morreu dois meses depois, em 22 de março de 1687. Foi vítima de si mesmo e do acaso.
Lully não foi a primeira morte estranha, fruto de um acaso cruel. O autor teatral Ésquilo era aclamado como o maior de toda Grécia Clássica. Suas peças, como Prometeu Acorrentado e Os Persas, são encenadas até hoje. Era um talento reconhecido e premiado. Ésquilo ostentava luzidia careca. Escrevia ao ar livre para se inspirar. Uma águia segurava nas garras uma tartaruga e, seguindo velha tradição, jogava o réptil numa pedra para espatifar o casco. Viu a brilhante cabeça do tragediógrafo e arremeteu o petardo, confundindo-o com uma rocha. Ésquilo morreu de uma “tartarugada” na cabeça. O leitor pode supor como essa história me assusta.
Dos gregos à corte de Luís XIV e dali a um avião que conduzia o time de Chapecó: por todo o lado, a tragédia parece combinar o acaso com a incompetência. Jovens que teriam uma vida toda de glórias pela frente encontram seu fim no cruzamento entre a imperícia e a ganância. Como pensar algo original sobre este absurdo? 
Janus olha para frente e para trás. O acaso nos ronda e desafia a racionalidade. Como será 2017? Como eu chegarei ao final deste ano? Maquiavel falava do cruzamento entre virtù e fortuna. A primeira seria a soma das suas habilidades pessoais, seus dons e talentos, que podem ser melhorados. Fortuna seria o acaso, aquilo que não se controla. O príncipe de sucesso seria o que combinasse as duas coisas: saberia usar a fortuna e suas habilidades. Por um lado, todos os fatalistas amam a fortuna. Quem usa maktub, a expressão árabe para “estava escrito” (próxima da latina fatum), pensa imediatamente no quanto somos marionetes de forças super/supranaturais. Por outro lado, todos os adeptos do empreendedorismo falam do poder das escolhas feitas. Sou esculpido por mim ou pela sorte? Sou um cruzamento destas forças? Qual o grau de autonomia que terei ao longo de 2017?
É sempre muito alentador imaginar que exista algo superior a mim que me determine. Esse é o conforto dos fados. O que fez com que Edgar Alan Poe, um dos maiores poetas norte-americanos, fosse brilhante e dependente do álcool? O que fez de Ernst Hemingway um escritor intenso e atormentado que iria até o suicídio? Como a Guerra Civil da Espanha interrompeu a carreira de um artista total como Federico García Lorca? Por que um duelo cortou a carreira precoce de um dos grandes inovadores da matemática: Évariste Galois? Era um gênio. Morreu com 21 anos incompletos. São as formas pelas quais as cartas saem do baralho da vida, dirão alguns. Tratam-se de escolhas racionais e autônomas, garantem outros. 
Jean-Paul Sartre enfatizava muito que nossa experiência antecede nossa essência, que somos e fazemos as coisas a partir da nossa liberdade, que eu sou fruto da liberdade inelutável e angustiante do existir. Há, aqui, uma crença forte da autonomia do humano e da sua vontade.
Meu orgulho impede que eu me entregue ao fatalismo absoluto. Meu senso de equilíbrio sabe que não sou um deus criando mundos. De fato, creio que somos uma linha curva entre o acaso e a força de vontade, entre a fortuna e a virtù. Seu 2017 será essa curva graciosa e ousada. Você tomará decisões racionais e interessantes. O mundo fará sua oposição usual. O que resultará disso? Difícil saber. A resposta é parte da aventura da nossa biografia. John Lennon escreveu para seu filho que a vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos. Chegamos a 2017. Feliz Ano Novo! Um bom domingo a todos vocês! 

Reflexão


Colônias do interior falam idioma que não existe mais nem em outros países

ESTELITA HASS CARAZZAI
ENVIADA ESPECIAL A COLOMBO (PR)


Quando elas se encontram, é difícil acompanhar o que falam as mulheres de Colombo, cidade no interior do Paraná a apenas 15 km de Curitiba.

Em meio às frases em português, soltam um "Ma varda, che bruti mistiri" ("mas olhe, que coisa feia"), ou "Sboraminti, tusi" (algo como "meninada bagunceira").

Parece italiano, mas não é. Entre gargalhadas e memórias, elas exercitam o vêneto, dialeto da terra dos pais e avós que quase não existe mais nem na Itália.

"É uma viagem no tempo", diz a pesquisadora italiana Giorgia Miazzo, 39, que é doutora em linguística pela Universidade de Veneza e visitou a região neste ano. 

"É lá que estão os últimos italianos."

Colônias como a de Colombo preservam idiomas e tradições quase perdidos nos países de origem –e atraem pesquisadores que querem saber como eles se mantiveram quase 200 anos após o início da imigração do século 19.

O isolamento e a religiosidade dos imigrantes ajudam a explicar o porquê.

"É uma outra dinâmica: são pequenos municípios, a maioria de cunho rural, onde a mobilidade é muito pequena", diz a professora da Universidade Federal da Fronteira Sul Cristiane Horst, que estuda o alemão falado no Brasil –conhecido como hunsriqueano.

Entre os descendentes alemães do oeste catarinense, por exemplo, zepelin é sinônimo de avião, e caminhão, que nem existia à época da imigração, ganhou uma terminação alemã: caminhong.

"É praticamente aquela língua que chegou ao Brasil em 1824", diz Horst.

Na colônia italiana de Colombo, ocorre o mesmo. Pia ainda é chamada pelos mais velhos de "seciaro" (fala-se "setiaro"), um antigo móvel em que se penduravam baldes para enxaguar a louça.

Há descendentes que ainda preservam expressões do século 17. É o caso da colônia russa de Santa Cruz, no interior do Paraná.

O local foi tema de pesquisa da professora Olga Rovnova, do Instituto de Língua Russa Vinográdov, que estuda o dialeto dos chamados "fiéis antigos", ou starovéri.

São russos que deixaram o país no século 17, por perseguição religiosa, migraram para a China e, depois, para o Brasil.

O isolamento da colônia, que vive da agricultura, fez com que a língua se preservasse quase intacta.




TRADIÇÃO

Junto ao idioma, tradições também se preservaram.

Entre imigrantes da Ucrânia, país que sofreu com o domínio soviético por quase todo o século 20, costumes como a pêssanka, ovos decorados com celebrações à primavera e à Páscoa, se mantiveram por muito tempo mais fortes no Brasil do que lá.

"Tudo foi proibido durante o regime soviético; quem mantinha era em segredo", diz a descendente Mirna Voloschen, 51, que vive em Curitiba e é diretora da Sociedade Ucraniana do Brasil.

Na década de 1990, brasileiros que estiveram na Ucrânia após a independência do país ajudaram a revitalizar o costume do pêssanka por lá.

Manter os costumes e o idioma é desafiador para muitos descendentes no Brasil. 

No interior, crianças ainda são alfabetizadas em alemão ou ucraniano e só aprendem o português na escola.

Já em Colombo, só os mais velhos falam vêneto. De tradição oral, ele é de difícil transmissão –na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a proibição de idiomas estrangeiros no Brasil acabou intimidando os falantes.

"Uma vez chamei minha professora de maestra. Para quê... Quebrou a régua na minha cabeça", lembra a comerciante Maristela Cavassin, 54.

"Infelizmente, a língua está se perdendo. Da minha idade, só conheço uns seis que falam", afirma o pesquisador Fábio Machioski, 33, coordenador do museu e membro da associação italiana da cidade.

O talian, variação "abrasileirada" do vêneto e falada em colônias do Sul, já é considerado um idioma cooficial em algumas cidades e foi reconhecido como referência cultural brasileira em 2014.

O mesmo esforço está sendo feito com o hunsriqueano, a variante do alemão: pesquisadores estão trabalhando num inventário de palavras para vê-lo reconhecido como patrimônio cultural imaterial.

Para o antropólogo Paulo Guérios, da Universidade Federal do Paraná, que estudou a imigração ucraniana, os costumes e idiomas só permanecem se ainda fazem sentido e é natural que se mesclem à cultura brasileira.

"Elementos culturais mudam, e o purismo está ligado à retórica da perda: a impressão de que no passado havia algo puro, que foi perdido. O importante é que os elementos vitais fiquem se ainda têm significado", explica.