Ilona Becskeházy e Paula Louzano | Missão Aluno
terça-feira, 3 de janeiro de 2017
Mario Sergio Cortella 'Um escritor escreve uma tragédia para que as pessoas não esqueçam que são homens'
Mario Sergio Cortella | Academia CBN
Frase de Bernard Malamud, autor nova iorquino, está no livro 'Primeiro os idiotas' e lembra a capacidade de um escritor aclarar qual o nosso lugar de fato, para não termos a petulância de achar que somos os senhores e as senhoras do mundo. Lucidez gritante e percepção nítida são necessárias.
Mara Luquet Saúde é o seu maior patrimônio
Mara Luquet | O Assunto é Dinheiro
É importante considerar medidas que melhorem o seu estilo de vida, como parar de fumar. Pequenas medidas como esta vão te ajudar a trabalhar mais e envelhecer bem.
http://download.sgr.globo.com/sgr-mp3/cbn/3/2017/01/02/49589_20170102.mp3
Brasil tem ritmo recorde de envelhecimento

Os irmãos Barbulho Jandyra, 87 anos; Adelina, 94; Zilda, 92; Egydio, 90, e Euclydes, 82 (da esquerda para a direita): longevidade surpreendente
Por Camilla Veras Mota
No último dia 17, Euclydes Barbulho reuniu os quatro irmãos em sua casa. Com eles, outros 60 parentes, entre filhos,
netos e agregados, para festejar a longevidade dos anfitriões. Caçula, Euclydes tem 82 anos. Jandyra tem 87, Egydio, 90,
Zilda, 92, e Adelina, 94. Juntos, são 445 anos. "Quase a idade da Moóca!", comemora Euclydes, referindo se ao bairro em
São Paulo que acolheu seus pais, imigrantes italianos, no fim do século 19, e no qual a família vive desde então.
Improváveis há algumas décadas, encontros como o dos Barbulho devem ficar cada vez mais comuns no Brasil. A América Latina, junto da Ásia, é atualmente a região em que a população envelhece mais rapidamente, como constataram os economistas Rogério Nagamine Costanzi, especialista em Previdência, e Julimar da Silva Bichara, da Universidade Autônoma de Madrid.
Com base nas últimas projeções de população da Organização das Nações Unidas (ONU), eles verificaram que a proporção de pessoas com mais de 60 anos na América Latina deve saltar dos atuais 11,2% para 37,4% em 2100, nível maior do que o previsto para a Europa, hoje o continente mais envelhecido, 35%.
Para o Brasil, a expectativa é ainda superior, 38,8% em 2100, ante 11,7% atualmente. A marca dos 33%, afirma Costanzi, chegaria ainda em 2060, de acordo tanto com as projeções da ONU quanto com as do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que só divulga estimativas até esse período. A principal fase de envelhecimento duraria entre 2020, quando se encerra o chamado "bônus demográfico", até as décadas de 2060 e 2070, quando o nível passaria a crescer em ritmo bem menos acelerado.
Apenas nos próximos 25 anos, a proporção de latino americanos com mais de 60 anos avançará de 11% para 20% da população, metade do tempo que os europeus levaram para fazer essa transição, entre 1950 e 2000.

"Há risco que a América Latina fique velha antes de ficar 'rica', com importantes consequências para o desenvolvimento", pondera Costanzi, que é ex diretor do departamento do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) e ex coordenador geral de estudos previdenciários do Ministério da Previdência Social.
E o risco não recai apenas sobre o desenvolvimento, mas também sobre os regimes de aposentadoria e de seguridade social, ele lembra. Com a queda contínua das taxas de fecundidade e de mortalidade, todos os países do mundo contarão com número cada vez menor de trabalhadores para sustentar suas respectivas previdências. No Brasil, a chamada razão de dependência passou de 5,4 idosos de 65 anos ou mais para cada 100 pessoas em idade ativa em 1950 para 11,3 para cada 100 com idade de 15 a 64 anos hoje. No cenário desenhado com os números da ONU, em 2100 seriam 61,9 para cada 100 ou seja, haveria apenas 1,6 pessoas para sustentar cada idoso de 65 anos ou mais.
A reforma anunciada recentemente pelo governo, portanto, seria também uma maneira de manter a viabilidade financeira do sistema brasileiro diante dos desafios que a demografia já coloca, diz o economista. Para Euclydes, contudo, se as mudanças na (PEC que foi enviada ao Congresso devem fazer com que o brasileiro trabalhe mais e ganhe menos depois dos 65, a situação dos aposentados de hoje não é menos desafiadora.
"Eu tenho carro, apartamento... tenho muita coisa, só não tenho dinheiro", ele se queixa, referindose à aposentadoria de pouco mais de três salários mínimos. Gerente de recursos humanos profissional da antiga Fogões Semer por 25 anos , ele se aposentou aos 60, em 1994, antes da criação do fator previdenciário, em 1999. Naquela época, os benefícios eram definidos a partir de um "coeficiente de cálculo" e o período mínimo de contribuição era de 30 anos.
Entre os quatro irmãos vivos seus pais, Valentim e Constança, tiveram 12 filhos , o que está em melhor situação é Egydio, que foi funcionário público da corregedoria da polícia de São Paulo. "O salário dele não caiu tanto", conta. Entre as três irmãs, todas viúvas, Adelina e Zilda não chegaram a trabalhar "naquele tempo era tudo diferente para as mulheres" e vivem da pensão paga pelo INSS. Zilda foi feirante, ao lado do marido, e sempre recolheu contribuição previdenciária. Junto da pensão, portanto, ela acumula ainda uma aposentadoria.
Euclydes e a esposa contam com a ajuda dos dois filhos, que moram com as respectivas famílias em dois dos apartamentos que ele comprou quando ainda era gerente de RH. Euclydes diz que "há anos" aconselha o filho a paralelamente às contribuições ao INSS começar a investir em uma previdência privada, um pé de meia para o futuro. Euclydes Junior não vem dando ouvidos ao pai mas não inteiramente por culpa sua, aquiesce o aposentado. "Hoje em dia as pessoas trocam muito de emprego. A previdência privada depende muito também da iniciativa da empresa. Com essa crise, quem tem dinheiro para separar para a aposentaria?".
Passada a reforma da Previdência, contudo, os brasileiros que queiram manter o padrão de vida após a aposentadoria não terão opção a não ser poupar, avalia Carlos Garcia, da Itajubá Investimentos. Todos os países que passaram por reestruturações bemsucedidas nos sistemas de previdência, ele afirma, organizam hoje as aposentadorias em três pilares a pública, que paga benefícios mais modestos, a complementar, patrocinada por empresas e sindicatos, e a individual, feita por iniciativa do trabalhador.
"É assim no Canadá, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Holanda...", enumera o economista, que trabalha com previdência complementar desde 1989. No Brasil, contudo, os valores mais generosos pagos pela aposentadoria pública, diz, desestimulam a procura pelos serviços oferecidos pelo setor privado cenário que tende a mudar com reestruturação proposta pela PEC.
O patrimônio das entidades fechadas de previdência complementar, ressalta Garcia, é de apenas 12,6% do Produto Interno Bruto (PIB), conforme os dados mais recentes divulgados pela Previdência Social, contra 160% na Holanda, 120% na Suíça, 110% na Austrália e 83% na França.
Brasil tem ritmo recorde de envelhecimento
Os irmãos Barbulho Jandyra, 87 anos; Adelina, 94; Zilda, 92; Egydio, 90, e Euclydes, 82 (da esquerda para a direita): longevidade surpreendente
Por Camilla Veras Mota
Improváveis há algumas décadas, encontros como o dos Barbulho devem ficar cada vez mais comuns no Brasil. A América Latina, junto da Ásia, é atualmente a região em que a população envelhece mais rapidamente, como constataram os economistas Rogério Nagamine Costanzi, especialista em Previdência, e Julimar da Silva Bichara, da Universidade Autônoma de Madrid.
Com base nas últimas projeções de população da Organização das Nações Unidas (ONU), eles verificaram que a proporção de pessoas com mais de 60 anos na América Latina deve saltar dos atuais 11,2% para 37,4% em 2100, nível maior do que o previsto para a Europa, hoje o continente mais envelhecido, 35%.
Para o Brasil, a expectativa é ainda superior, 38,8% em 2100, ante 11,7% atualmente. A marca dos 33%, afirma Costanzi, chegaria ainda em 2060, de acordo tanto com as projeções da ONU quanto com as do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que só divulga estimativas até esse período. A principal fase de envelhecimento duraria entre 2020, quando se encerra o chamado "bônus demográfico", até as décadas de 2060 e 2070, quando o nível passaria a crescer em ritmo bem menos acelerado.
Apenas nos próximos 25 anos, a proporção de latino americanos com mais de 60 anos avançará de 11% para 20% da população, metade do tempo que os europeus levaram para fazer essa transição, entre 1950 e 2000.
"Há risco que a América Latina fique velha antes de ficar 'rica', com importantes consequências para o desenvolvimento", pondera Costanzi, que é ex diretor do departamento do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) e ex coordenador geral de estudos previdenciários do Ministério da Previdência Social.
E o risco não recai apenas sobre o desenvolvimento, mas também sobre os regimes de aposentadoria e de seguridade social, ele lembra. Com a queda contínua das taxas de fecundidade e de mortalidade, todos os países do mundo contarão com número cada vez menor de trabalhadores para sustentar suas respectivas previdências. No Brasil, a chamada razão de dependência passou de 5,4 idosos de 65 anos ou mais para cada 100 pessoas em idade ativa em 1950 para 11,3 para cada 100 com idade de 15 a 64 anos hoje. No cenário desenhado com os números da ONU, em 2100 seriam 61,9 para cada 100 ou seja, haveria apenas 1,6 pessoas para sustentar cada idoso de 65 anos ou mais.
A reforma anunciada recentemente pelo governo, portanto, seria também uma maneira de manter a viabilidade financeira do sistema brasileiro diante dos desafios que a demografia já coloca, diz o economista. Para Euclydes, contudo, se as mudanças na (PEC que foi enviada ao Congresso devem fazer com que o brasileiro trabalhe mais e ganhe menos depois dos 65, a situação dos aposentados de hoje não é menos desafiadora.
"Eu tenho carro, apartamento... tenho muita coisa, só não tenho dinheiro", ele se queixa, referindose à aposentadoria de pouco mais de três salários mínimos. Gerente de recursos humanos profissional da antiga Fogões Semer por 25 anos , ele se aposentou aos 60, em 1994, antes da criação do fator previdenciário, em 1999. Naquela época, os benefícios eram definidos a partir de um "coeficiente de cálculo" e o período mínimo de contribuição era de 30 anos.
Entre os quatro irmãos vivos seus pais, Valentim e Constança, tiveram 12 filhos , o que está em melhor situação é Egydio, que foi funcionário público da corregedoria da polícia de São Paulo. "O salário dele não caiu tanto", conta. Entre as três irmãs, todas viúvas, Adelina e Zilda não chegaram a trabalhar "naquele tempo era tudo diferente para as mulheres" e vivem da pensão paga pelo INSS. Zilda foi feirante, ao lado do marido, e sempre recolheu contribuição previdenciária. Junto da pensão, portanto, ela acumula ainda uma aposentadoria.
Euclydes e a esposa contam com a ajuda dos dois filhos, que moram com as respectivas famílias em dois dos apartamentos que ele comprou quando ainda era gerente de RH. Euclydes diz que "há anos" aconselha o filho a paralelamente às contribuições ao INSS começar a investir em uma previdência privada, um pé de meia para o futuro. Euclydes Junior não vem dando ouvidos ao pai mas não inteiramente por culpa sua, aquiesce o aposentado. "Hoje em dia as pessoas trocam muito de emprego. A previdência privada depende muito também da iniciativa da empresa. Com essa crise, quem tem dinheiro para separar para a aposentaria?".
Passada a reforma da Previdência, contudo, os brasileiros que queiram manter o padrão de vida após a aposentadoria não terão opção a não ser poupar, avalia Carlos Garcia, da Itajubá Investimentos. Todos os países que passaram por reestruturações bemsucedidas nos sistemas de previdência, ele afirma, organizam hoje as aposentadorias em três pilares a pública, que paga benefícios mais modestos, a complementar, patrocinada por empresas e sindicatos, e a individual, feita por iniciativa do trabalhador.
"É assim no Canadá, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Holanda...", enumera o economista, que trabalha com previdência complementar desde 1989. No Brasil, contudo, os valores mais generosos pagos pela aposentadoria pública, diz, desestimulam a procura pelos serviços oferecidos pelo setor privado cenário que tende a mudar com reestruturação proposta pela PEC.
O patrimônio das entidades fechadas de previdência complementar, ressalta Garcia, é de apenas 12,6% do Produto Interno Bruto (PIB), conforme os dados mais recentes divulgados pela Previdência Social, contra 160% na Holanda, 120% na Suíça, 110% na Austrália e 83% na França.
O que fazer com crianças em férias?
Rosely Sayão
Psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia a dia dessa relação.
As crianças estão em férias e muitos pais não estão, ou seja, continuam no trabalho. Como resolver essa questão?
Há um grupo de pais, privilegiados, que conta com uma rede social real que cuida e acolhe a criançada, alternando-se nos dias da semana. São avós, tias e tios, parentes de um modo geral, amigos e vizinhos.
Essa é uma das melhores soluções para as crianças. Elas sentem-se protegidas afetivamente e ainda têm a oportunidade de conviver com pessoas com diferentes estilos de dar afeto, de viver em ambientes diversos e com normas que não são as mesmas que conhecem e ganham a oportunidade de viver aventuras que não costumam viver em casa.
Algumas dessas famílias acolhedoras levam as crianças para a cozinha, outras improvisam uma tenda na sala, e assim por diante. Quais crianças não apreciam esses dias diferentes e gostosos que irão fazer parte de sua memória afetiva?
Há um grupo de pais que, mesmo tendo uma rede de parentes e amigos, prefere não deixar as crianças com eles, por dois motivos.
O primeiro é que alguns acreditam que deixar os filhos com essas famílias atrapalha a vida delas. É bom saber que não atrapalha, se foi ofertado verdadeiramente, o que sempre é possível perceber. Além disso, não deixa os pais em dívida, porque ficar com um grupo de crianças ""que não são filhos"" em casa por alguns dias é uma experiência enriquecedora para os adultos! E a gratidão dos pais é o que há de melhor a oferecer!
O segundo motivo é que esses pais preferem que o filho aproveite melhor seu tempo de férias fazendo cursos, dos mais diversos, e muitos deles oferecidos pela própria escola que o filho frequenta. Não! Ter compromissos, por mais agradáveis que possam ser no início, acaba por tornar-se uma responsabilidade que anula o efeito que as férias devem ter para as crianças.
Há também pais que têm a sorte de um deles poder tirar suas férias no mesmo período que os filhos e ficam em casa. Mas muitos ""em geral, a mãe"" se desesperam porque pensam que precisam criar a cada dia uma programação diferente com os filhos. O melhor é deixar que a própria criança encontre o que fazer em casa.
É preciso saber que isso não é fácil, porque elas vivem conduzidas o tempo todo e, portanto, nem sabem do que gostam, tampouco costumam usar a criatividade e a imaginação que têm para inventar o que fazer.
Ficam entediadas e atrás da mãe o dia todo, perguntando o que devem fazer. É bom deixá-las ficar nesse tédio por um período. Depois, ele passa a ser ócio, e é bom para a criança ficar ociosa por um período, porque a coloca em estado de criar experiências que permitirão que ela aproveite muito!
Além disso, há algo que também precisa ser feito: a sociedade civil deve se organizar para envolver o Estado e as empresas, para que também eles se responsabilizem com as crianças em férias.
A maioria das empresas tem condições de oferecer um local para os filhos dos funcionários ficarem e se entreterem uns com os outros, tutelados por adultos preparados e responsáveis. E o Estado precisaria também oferecer esse serviço. É uma questão de responsabilidade social!
As crianças não são responsabilidade apenas dos pais: são responsabilidade de cada um de nós, tanto como pessoas físicas quanto jurídicas! É o nosso futuro que está em jogo, afinal.
Por que dar colo para o bebê consegue acalmá-lo?
Suzana Herculano-Houzel
Carioca, é neurocientista treinada nos Estados Unidos, França e Alemanha.
Por que colo funciona - mas só em movimento
Na época em que minha filha de poucos meses acordava de madrugada, ficávamos eu e ela após o "lanchinho" noturno valsando, no lugar, ao som do Capricho Italiano de Tchaikovsky. Com quase 17 minutos, a música, uma de minhas favoritas, tinha duração suficiente para a menininha relaxar e adormecer de novo no meu colo, acompanhada por palmadinhas ritmadas no seu traseirinho enfraldado.
Minha então sogra, alemã, nos acusava de estragar a menina com tantos cuidados. Há quem defenda colocar a criança no berço e deixar chorar. Discordo. Não há como colo para dizer ao cérebro que está tudo bem.
Ser pego no colo tem um componente óbvio de conforto e proteção que por si só já seria razão para aplacar angústias e preocupações: no colo, temos atenção e estamos a salvo. Mas é igualmente importante que o bebê no colo se acalme, a ponto de ficar até mesmo paralisado: isso permite que o bebê possa ser transportado rapidamente e em segurança, sem alertar inimigos ou predadores. Acontece com filhotes de carnívoros e de roedores –e, segundo um estudo feito por um consórcio de instituições japonesas, também com bebês humanos.
Quem tem gato sabe que a maneira certeira de fazê-los congelar é levantá-los pela pele da nuca, como faz a mãe gata ou leoa ao transportá-los. Há vídeos no YouTube mostrando que basta prender um clipe na nuca de um filhote serelepe para obter o efeito: ele imediatamente congela e cai de lado. O mesmo acontece com bebês cachorros, esquilos, leões ou camundongos, levados na boca da mãe.
O grupo liderado por Gianluca Esposito mostrou que ser levantado pela nuca, seja pela mãe ou pelo pesquisador, faz com que camundongos filhotes, até então chamando e procurando pela mãe, fiquem imediatamente em silêncio, quietos, e com menor frequência cardíaca. Também funciona com bebês humanos: irrequietos no colo da mãe sentada, eles imediatamente param de se debater, param de chorar, e seu coração desacelera quando a mãe se levanta.
No camundongo, o efeito calmante de ser levantado, provavelmente mediado por uma baita ativação parassimpática, depende de informação sensorial da tensão na nuca: sob anestesia local, camundongos continuam se debatendo na boca da mãe –que então tem mais dificuldade para carregá-los. Os pesquisadores não determinaram o que faz a diferença em bebês humanos, mas neste caso eu apostaria no movimento ritmado dos passos do adulto.
O importante é que ser levado no colo funciona. É uma ótima justificativa, cortesia da neurociência, para quem quiser ninar seu filho em paz
Macacos com melhores smartphones nunca deixarão de ser macacos
João Pereira Coutinho
Escritor português, é doutor em ciência política.
Vou contar uma história: a princesa do Reino Unido foi sequestrada. O criminoso, em vídeo divulgado pelo Youtube, fez as suas exigências. Não queria dinheiro. Não queria a libertação de prisioneiros. Não queria o fim das hostilidades em algum lugar do Oriente Médio.
Ele apenas exigiu que o premiê britânico fosse transportado até o centro de Londres para ter sexo com um porco em frente das câmeras. Caso contrário, bye bye princesa.
O premiê ficou atônito com a exigência. Intolerável. Impensável. A população apoiou o premiê e ficou tão atônita quanto ele. Sexo com miss Piggy? Melhor chamar a polícia.
O premiê chamou a polícia. A polícia tentou capturar o bandido em tempo útil. Sem sucesso. O bandido, como medida de retaliação, enviou um dedo cortado da princesa.
Horror no reino! O povo, que apoiava o premiê, começou a criticá-lo. Novas pesquisas mostravam que a maioria da população já apoiava o "rendez-vous" suíno. O que é mais importante: a vida da princesa ou a dignidade de um premiê?
A rainha telefonou para Downing Street. Não exigiu nada –explicitamente.
Apenas pediu que tudo fosse feito –tudo?– para salvar a princesa.
Os assessores do premiê concordaram. "Tudo" significa tudo. Será assim tão degradante fazer sexo com um porco para salvar a linhagem real?
Essa pergunta não nasceu da minha cabeça doente. Ela inaugura "Black Mirror", uma das séries mais perturbadoras dos últimos anos. Não é uma história de folhetim, dividida em episódios, como as séries habituais. Cada episódio é um pequeno filme sobre o futuro humano e tecnológico.
Atenção às palavras: "humano" e "tecnológico". Que o mesmo é dizer: que tipo de vida teremos nós com as alterações promovidas pela tecnologia?
O caso do porco –uma óbvia evocação de um rumor sobre o comportamento de David Cameron quando era estudante em Oxford– é apenas um exemplo: hoje, a política "moderna" já se faz ao ritmo das exigências da turba. A tirania das enquetes; as discussões no "bas-fond" das redes sociais; a promoção da "vox populi" pela mídia tradicional –os bárbaros mandam.
O líder, em rigor, já não lidera; ele é liderado pelas massas. E, se assim é, haverá ainda lugar para conceitos arcaicos como "dignidade", "independência intelectual" ou "coragem" para ser impopular?
"Black Mirror" é feito dessas perguntas. E de outras, que já podemos intuir em 2017. Devemos ter direito ao esquecimento e à privacidade das nossas memórias? Ou será preferível ter acesso permanente ao passado –acesso visual, detalhado, partilhável, como se a existência fosse um filme facilmente rebobinável?
E a morte? Sim, nenhuma civilização temeu tanto a morte como a nossa. Mas será desejável que os nossos mortos possam ser "ressuscitados" pela tecnologia em simulacros de voz e corpo que nos poupam as dores do luto?
E se um dia a forma como somos avaliados no Facebook transbordar para a vida cotidiana? Até onde estaremos dispostos a ir para receber mais "likes" e subir na hierarquia social?
Todas essas demandas convidam a uma reflexão inversa. Um político que é escravo da opinião popular pode facilmente transformar-se em simples marionete dos piores instintos da maioria.
O esquecimento e a privacidade são a última barreira que nos protege da destruição e da autodestruição.
O luto não é apenas feito de dor e sofrimento; é uma pausa necessária para reencontrar sentido e reconciliação depois do naufrágio.
E a obrigação de sermos permanentemente alegres e felizes para subir na hierarquia dos "likes" é uma forma de tortura. Não por excluir a infelicidade (isso é impossível); mas apenas a expressão pública dessa infelicidade. Como acontece em regimes totalitários.
A maior proeza de "Black Mirror" está na forma como mostra duas realidades contrastantes, que os fanáticos da tecnologia são incapazes de vislumbrar: de um lado, a fluidez amoral da criação tecnológica; do outro, a permanência da natureza humana.
Podemos imaginar um mundo de mil possibilidades técnicas; mas o "software" de que somos feitos –sentimentos primitivos como o medo, a inveja, o ciúme, a vergonha– não se altera com uma simples mudança de cenário.
Macacos com melhores smartphones nunca deixarão de ser macacos. Apenas se tornam mais patéticos ou mais perigosos.
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
Violência contagiosa
COLUNISTA
Jairo Bouer -
É PSIQUIATRA
Um adolescente teria 180% mais chances de atacar outra pessoa se um amigo já fez isso
Na última semana, o espancamento até a morte de um ambulante de 54 anos na Estação Pedro 2.º do Metrô, na região central de São Paulo, cometido por dois jovens, de 21 e 26 anos, nos leva a pensar nas causas da violência, que vem ganhando força entre os mais novos, principalmente entre os homens. Um novo estudo divulgado na última semana acrescenta mais um elemento nessa complexa equação.
Pesquisadores da Universidade do Estado de Ohio, nos Estados Unidos, sugerem que a violência se espalha como uma doença entre os jovens. Um adolescente tem 180% a mais de chance de atacar uma outra pessoa se um amigo já praticou um ato dessa natureza. O efeito dessa “contaminação” é tão potente que até se o amigo de um amigo já cometeu alguma forma de agressão, as chances de a pessoa ser violenta são maiores. Essa influência atinge até conhecidos menos chegados (com até quatro níveis de separação).
O trabalho, publicado no American Journal of Public Health e divulgado pelo jornal inglês The Independent, mostra que esse contágio (conhecer alguém que já praticou o ato de agressão) se reproduz nas diversas formas de violência: atacar e machucar gravemente uma outra pessoa (chance 183% maior), se envolver em uma briga séria (48% maior) e dar um tiro (risco 140% maior).
Os pesquisadores analisaram dados de 6 mil jovens, de 14 a 18 anos, de mais de 140 escolas americanas, que fizeram parte do estudo longitudinal de saúde do adolescente, que registra dados desde os anos 1990. Para eles, a violência pode se espalhar de forma importante dentro de uma mesma comunidade, “viajando” entre as redes sociais dos amigos.
Diversos estudos já mostraram que as relações sociais dos jovens são importantes para a reprodução de uma série de atitudes e comportamentos (felicidade, obesidade e tabagismo, entre outras) e, no caso da violência em especial, essa influência parece ser particularmente significativa.
Os dados sugerem que é importante trabalhar a violência de forma preventiva, principalmente em grupos sociais em que ela é muito prevalente. Quando se foca em um indivíduo, outros amigos e conhecidos também podem se beneficiar. Discutir o tema em grupos em que as relações sociais são muito intensas (clubes, escolas, amigos da rua) pode ser uma estratégia para potencializar esse impacto.
Equação complexa. Mas não é apenas o “contágio” social o responsável pela violência que cresce em diversos territórios, em boa parte das cidades do País. A violência é, aliás, a principal causa de morte entre os homens jovens no Brasil. Esses números são ainda mais preocupantes na população negra. Por aqui, a exclusão social, o envolvimento com o tráfico de drogas, a pobreza, a falta de apoio familiar, os preconceitos, a homofobia, as diversas vulnerabilidades que potencializam a impulsividade e as agressões são fatores marcantes. Para completar, o abuso do álcool é um potente catalisador dessa equação.
Os depoimentos iniciais acerca do brutal assassinato do ambulante na última semana revelaram que um dos jovens que cometeram o crime teria sido vítima de uma desilusão amorosa recente e que teria consumido álcool em excesso junto com seu primo. Segundo o site UOL, uma tia deles chegou a dizer que a dupla havia bebido cinco litros de cachaça e duas garrafas de vodca no dia do Natal. Além disso, os jovens já teriam destruído o portão da casa de uma vizinha, com quem tinham discutido, ao sair de casa no dia do crime.
Curioso notar, ainda segundo a tia, que o pai do jovem foi morto quando ele era ainda garoto, vítima de uma briga na Rua Lavapés, no Cambuci, a cerca de 2 quilômetros (menos de 30 minutos de caminhada) do local onde ele cometeu sua agressão.
Será que como, sugere o estudo, ter essa proximidade com um crime não torna para as pessoas muito mais fácil cometer um episódio de proporções parecidas? Longe de justificar o assassinato, a informação talvez mostre a importância de agir de forma urgente e preventiva em territórios mais vulneráveis, para evitar a proliferação dessa onda de violência.
Um adolescente teria 180% mais chances de atacar outra pessoa se um amigo já fez isso
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