sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Virada de ano

Lucila Cano
LUCILA CANO
Colunista especialista em temas relacionados ao 3º setor; assumiu a coluna em 9/4/2010.

Nem tudo vira de acordo com as expectativas quando saltamos de um ano para outro. Talvez por isso as pessoas se atenham de modo arraigado à troca de votos esperançosos de paz e prosperidade.

Antes, pessoalmente, em abraços calorosos. Depois, por telefone, cartas e cartões. Mais recentemente, pelos meios eletrônicos. Algum dia será por telepatia?
Mudam os modos de expressão, mas não mudam os desejos de dias melhores. À parte os inevitáveis registros das catástrofes naturais e desatinos humanos, o símbolo marcante da virada de ano é o bebê que nasce à meia-noite. O horário de verão embaça um pouco a beleza da simbologia, mas ela serve para nos lembrar que sempre é possível recomeçar.
O senão fica por conta da distância entre os bons propósitos de ano novo e as más práticas de ano velho. Fosse diferente, praias e avenidas amanheceriam limpas, livres de latas e garrafas vazias, só para citar parte do lixo óbvio. Ainda bem que existem catadores. Ainda bem que latas e garrafas podem ser recicladas.

Atenção redobrada

O objetivo da sustentabilidade é a melhoria da qualidade da vida em seu sentido mais amplo. Esse é um processo contínuo, ano após ano, pois algumas questões, em especial aquelas que se referem à saúde do planeta e das pessoas, demandam atenção redobrada.
O lixo é uma dessas questões. Em nosso país, a população cresce em descompasso com o saneamento básico, cujas metas de ampliação são sempre proteladas. O lixo entope bueiros e é causa primeira de inundações. A água suja invade casas e danifica os bens dos moradores. Nas ruas, a enxurrada carrega pessoas e carros. Nem todos são salvos.
Nos rios, o lixo contamina a água, muitas vezes já nas nascentes. Sufoca as vertentes de águas que deveriam ser limpas, boas para o consumo humano e para a procriação de peixes.
Nos córregos que cortam as cidades, o lixo chama bicho. A céu aberto, cada pequena poça d"água se transforma em criadouro de Aedes Aegypti, o mosquito da dengue. Dado o insucesso do combate em algumas frentes, ele agora também é transmissor da chikungunya e do zika vírus.
Viramos o ano com o verão em alta e a ameaça do mosquito ainda mais agravada. Quantos casos mais teremos de mortes por dengue e chikungunya no ano que se inicia? Quantas crianças mais nascerão com microcefalia? Bateremos o recorde do ano passado? As questões de saúde pública dependem do governo, sim. Mas a redução do lixo, que chama bicho, também depende de cada um de nós.
Quantas doenças e quanto sofrimento não poderiam ser evitados se déssemos mais atenção ao espaço em que vivemos, ao entorno de nossas casas, aos hábitos que temos? Nem todos os hábitos são exemplares, tampouco saudáveis. Mais de 80% das doenças infecciosas são transmitidas pelas mãos. Devemos e podemos evitá-las de um jeito simples, com água e sabonete, ou sabão. A higiene básica é um "santo" remédio, de custo baixo e grande eficiência para a saúde de crianças e adultos.

Agente de transformação

Somos agentes de transformação. Isso é inevitável. Faz parte da própria natureza humana. Não podemos ficar parados. Queremos criar, inovar, transformar, evoluir. Para que todos esses verbos valham a pena e tornem a vida melhor para todos, a educação é outra questão que precisa ser cuidada a qualquer tempo, todos os anos.
Não me refiro apenas à educação básica, aquela que tira os indivíduos da ignorância e lhes permite ler, escrever, aprender e saber. Ela é fundamental, sem dúvida, pois no mundo ainda há cerca de 758 milhões de adultos analfabetos, com o triste agravante de as mulheres representarem dois terços desse número.
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O ano que se inicia traz consigo inúmeros desafios. Alguns maiores e mais sérios que os desafios de anos anteriores. Se ainda cabe algum propósito na sua lista de desejos de ano novo, que tal se doar um pouco? Seja pela mudança de um velho hábito, seja pelo exemplo, que pode ser transformador.

* Homenagem a Engel Paschoal (7/11/1945 a 31/3/2010), jornalista e escritor, criador desta coluna.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

“Não podemos isolar a discussão sobre qualidade da demanda por abertura de vagas”Olavo, gerente geral do TPE, fala no quadro De Olho na Educação sobre os desafios dos novos prefeitos na área educacional

O ano de 2017 começa com os novos prefeitos tomando posse nos municípios brasileiros. Neste ano, porém, boa parte deles já começou anunciando corte de gastos. Nesse cenário, a população precisa ficar atenta para que os cortes não atinjam a Educação, afinal, ainda há muitos desafios em todo o país para que todas as crianças e jovens tenham acesso à Educação de qualidade. Esse foi o tema do quadro De Olho na Educação desta terça-feira (03), que contou com a participação do gerente geral do Todos Pela Educação, Olavo Nogueira Filho, que ressaltou a importância de dar atenção também à qualidade do ensino, e não apenas à criação de vagas. “Não podemos isolar a discussão sobre qualidade da demanda por abertura de vagas. A qualidade do atendimento tem a ver com a infraestrutura predial, com a formação dos professores, com a proposta pedagógica”, aponta Olavo. Clique aqui para ouvir.

O ano de 2016 para a Educação. Priscila Cruz, do TPE, falou sobre os principais acontecimentos na área da Educação no último ano

Priscila Cruz
Priscila Cruz é fundadora e presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação. Graduada em Administração (FGV) e Direito (USP), mestre em Administração Pública (Harvard Kennedy School), foi coordenadora do ano do voluntariado no Brasil e do Instituto Faça Parte, que ajudou a fundar.

No ano de 2016 muitas coisas aconteceram no Brasil. No campo político e econômico, principalmente, foram muitas mudanças. A Educação não ficou de fora: ocupações e protestos de estudantes, o andamento da Base Nacional Comum Curricular, propostas de reforma do Ensino Médio, corte de gastos, mudanças no financiamento federal da área, troca do quadro de pessoas do Ministério da Educação – com revisão de algumas políticas do governo anterior. Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos Pela Educação, faz uma retrospectiva do ano de 2016 na Educação. Confira aqui a participação que foi ao ar no dia 22/12/2016.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Contardo Calligaris Qualquer festa, aos olhos de quem se sente excluído dela, parece extraordinária

contardo calligaris
Contardo Calligaris
Italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo (patológicas e ordinárias).

Dois mil e dezessete iniciou bem. Digo isso sem ironia: gosto dos anos que começam cortando seco o clima da festa. De fato, para mim, o ano sempre começa no dia depois –não nos brindes da meia noite, mas no que sobra disso: o cheiro dos excessos regurgitados pelas ruas, a sujeira e as garrafas quebradas.

2017 disse direto ao que veio. Sem contar os 56 que morreram no motim dos presidiários do Amazonas, houve a chacina da festa de Réveillon em Campinas e o ataque à boate Reina de Istambul.

Em Istambul, o Estado Islâmico reivindicou os 39 assassinatos, alegando que o Reina "era uma das casas noturnas mais famosas em que os cristãos celebram seu feriado apóstata".

Gostei tanto da ideia de celebrar um "feriado apóstata" que me arrependi de ter ficado em casa sozinho no dia 31. Pode deixar, na próxima passagem do ano, vou cair na apostasia.

A boate Reina de Istambul é famosa. Parece que já estiveram lá, na beira do Bósforo, Daniel Craig, Naomi Watts e Jon Bon Jovi. O ingresso, R$ 70, nem é tão caro, mas talvez seja elevado para os padrões locais.

Quando alguém ataca uma festa, é quase sempre porque ele não foi ou não se sentiu convidado. Talvez o assassino do Reina não tivesse o dinheiro para entrar; talvez ele tivesse a sabedoria de prever que, mesmo entrando, ele ficaria de fora –num canto ou mesmo na pista, mas sem entrar na festa. Ninguém ia se interessar por ele como se fosse Daniel Craig. Além disso, é bem provável que Daniel Craig, quando esteve lá, se sentisse péssimo –triste, vazio, cansado e sozinho.

As festas, em tese, deveriam espantar a tristeza, mas conseguem apenas escondê-la. O barulho mascara e desculpa nossa dificuldade de dizer ou de escutar qualquer coisa que preste. Os pulos ao ritmo da música eletrônica evitam uma aproximação da qual não saberíamos bem o que fazer. Sabe por que tem tanta briga na saída das festas? Não é a bebida, nem o ciúmes: é a frustração.

De Istambul vamos para Campinas, onde alguém quis exterminar a família de sua ex-mulher, a ponto que ele matou o próprio filho de oito anos que, diz a carta do assassino, ele era impedido de ver tanto quanto queria.

A carta do assassino é misógina, carente e louca. De qualquer forma, é notável que ele atacou justamente no meio da festa do Réveillon. Certo, naquele momento, "todos" estariam lá, e ele poderia matá-los à vontade. Mas não é só isso: a festa era também uma reunião da qual ele fora excluído: todos iam trocar beijos, brindar e desejar feliz ano novo uns para os outros"¦ E ele?

De fato, como em qualquer festa de família, o clima devia incluir os rancores e dissabores padrão. Mas tanto faz: qualquer festa, aos olhos de quem se sente excluído dela, parece extraordinária. A ponto que, se não posso participar, ao menos posso fazer que ninguém mais participe –posso matar os convidados, acabar com essa alegria que não me inclui.

Mas de onde vem a poderosa ideia de que sempre tem uma festa à qual não somos convidados, e ela é divertidíssima ou, dá na mesma, doce a cheia de afetos amorosos?

É por causa dessa ideia que é tão difícil ficar em casa nas noites de festas comandadas. Por isso é difícil passar o fim de semana ou as férias sem ir para o litoral. E não tem fila, desastre, momento sinistro que valham: na semana que vem, acreditaremos de novo que, se nós não formos para lá, a festa será incrível –na nossa ausência"¦

A ideia da festa da qual fomos excluídos está na mente humana há muito tempo. Avner Falk (um grande psicólogo israelense) explicava a lenda do Paraíso Terrestre e de nossa expulsão de lá pelas grandes perdas iniciais da vida (a perda da união perfeita com a mãe, do primeiro amor exclusivo com ela etc.) e, mais do que isso, pelo trauma de nascer e de crescer.

Concordo: existe uma dor de crescer quase universal, uma dor do espaço aberto, da autonomia e da liberdade de se arriscar. E crescer talvez seja um pouco como sair sozinho de uma festa legal.

O fato é que só tenho uma imagem de inspiração bíblica, em casa. É um esboço a pena, italiano, do fim do século 16, que representa Deus expulsando Adão e Eva do Paraíso Terrestre.

Nota: na minha coluna de 15/12, imaginei que Bob Dylan tivesse escolhido a música que Patti Smith cantou na entrega do Nobel. Patti Smith contou na "The New Yorker" que a escolha foi dela. Agradeço Eugênia Motta que foi a primeira a me assinalar o texto de Smith.

Conheça faculdades públicas com moradia gratuita ou subsidiada

Na maioria dos casos, os estudantes beneficiados têm de ter bom desempenho escolar para continuar com o benefício até a conclusão do curso

Por Denise Chiarato

Mais difícil do que passar no vestibular, é conseguir vaga em uma moradia estudantil gratuita nas mais importantes universidades públicas do Brasil. Quase todas elas dispõem do benefício, em geral, destinado a alunos carentes e que moram fora da cidade onde vão estudar, mas as vagas sempre são em menor número do que o necessário.
Há casos de instituições que não oferecem a opção da moradia, e sim de um auxílio-moradia em dinheiro. Na maioria dos casos, os estudantes beneficiados têm de ter bom desempenho escolar para continuar com o benefício até a conclusão do curso. Veja quantas vagas disponíveis e os principais critérios para a concessão do benefício em 15 universidades brasileiras

USP (Universidade de São Paulo)

A maior universidade pública do país, com 63.611 alunos, dispõe de 1.187 vagas para alunos de graduação e 378 para alunos de pós-graduação nos seu principal campi, no Butantã, na capital paulista. Os apartamentos do CRUSP possuem quartos individuais, banheiro e área comum e as cozinhas são comunitárias. Podem se inscrever alunos que estejam cursando a primeira graduação e que possuam renda per capita de até três salários mínimos. A instituição também garante auxílio moradia, no valor de R$ 400, com duração máxima de 12 meses.

Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

A Federal do Rio de Janeiro tem 39.887 alunos e dispõe de alojamento para estudantes, no campi da Cidade Universitária, com 504 vagas. São dois blocos, feminino e masculino,com 252 vagas cada. De acordo com o site da UFRJ, a prioridade é atender os alunos mais carentes e que morem distantes da universidade. Além disso, o aluno tem direito a uma bolsa para manutenção, atualmente fixada em R$ 400 por mês.

Universidade Federal do Ceará (UFC)

O Programa de Residência Universitária assegura moradia a estudantes de baixa renda do interior do Ceará e de outros Estados. São 256 vagas distribuídas em 14 alojamentos, sendo nove masculinos, quatro femininos e um misto. Os alunos selecionados podem ficar no local até um semestre após a conclusão do curso. Ada alojamento, segundo a instituição, possui regras próprias e tem um diretor, eleito pelos próprios moradores. A UFC tem 23.253 alunos.

Universidade de Campinas (Unicamp)

Com 16.675 alunos, a Unicamp tem um programa de moradia direcionado, principalmente, a quem mora fora da Região Metropolitana de Campinas (RCM) e de baixa renda. São 900 vagas, distribuídas em unidades de sala e quarto com quatro vagas. Segundo a Unicamp, cabe ao aluno definir qual casa irá morar.

Faculdade de Odontologia da USP (FOB)

No campi de Bauru, os alunos da FOB contam com dois blocos de alojamentos, num total de 24 quartos, abrigando 72 estudantes. A seleção de candidatos é feita pela Comissão Administrativa do Conjunto Residencial estudantil e o principal critério para a concessão do benefício é a situação sócio-econômica dos alunos.

Universidade Federal de Goias (UFG)

Com mais de 22 mil alunos, a Universidade Federal de Goiás oferece as chamadas Casas de Estudantes Universitários, os CEUS, no total de 314 vagas, distribuídas em quatro campi. A prioridade é atender aos alunos que estejam cursando a primeira graduação, de baixa renda e que morem no interior ou em outros Estados.

Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

São 632 vagas de moradia estudantil no principal campi da universidade, em Belo Horizonte. Vão desde apartamentos com seis quartos a quitinetes com quatro vagas cada, além de 12 quartos adaptados a pessoas com necessidades especiais. Já no campi de Montes Claros, são 108 vagas. Em alguns casos, os estudantes têm de pagar uma parcela na taxa de condomínio.

Universidade estadual de Londrina (UEL)

Uma das universidades estaduais mais importantes do país, a UEL disponibiliza 82 vagas de moradia gratuita para estudantes da graduação de baixa renda e que morem em locais que não tenham acesso a linhas de ônibus da região metropolitana da cidade ou com horários incompatíveis com o do curso. São 21 residências, sendo duas adaptadas para atender estudantes com deficiência física, promovendo acessibilidade a estes. Segundo a instituição, a moradia inclui sala de informática e segurança 24 horas.

Universidade Federal do Pará (UFPA)

Para obter o benefício, o aluno tem de morar fora da cidade onde vai estudar e sua renda per capita não pode ultrapassar o valor de um salário mínimo e meio. São apenas 56 vagas de moradia gratuita, sendo que, no campi de Belém, só há alojamentos para mulheres _22 vagas. Nos campi de Castanhal (12 vagas) e de Tucurui (22), há vagas para homens e mulheres.

Universidade do Estado de Santa Catarina

A instituição não possui moradias estudantis, mas concede auxílios-moradia no valor de R$ 250. Em alguns casos, o aluno ainda pode obter o auxílio-alimentação, no valor de R$ 200. Para obter o benefício, sua renda tem de ser inferior a um salário mínimo e meio e ele não pode morar na mesma cidade em que estuda.

Universidade Federal da Grande Dourados

A instituição do Mato Grosso do Sul oferece 96 vagas de moradia gratuita, sendo seis para estudantes estrangeiros, distribuídas em 16 apartamentos. Só tem direito a recorrer ao beneficio alunos com renda de até um salário mínimo e meio e que morem fora de Dourados. Além disso, o estudante tem de cumprir carga horária mínima de 432 horas no semestre para os cursos integrais de graduação.

Universidade Federal Fluminense

Para obter o benefício da moradia estudantil na Federal Fluminense, o aluno tem de ser carente e morar a, no mínimo, 32 km de distância da unidade onde estuda. A moradia do campus de Rio das Ostras possui capacidade para 48 estudantes, sendo oito para os com algum tipo de mobilidade. Já a unidade de Niterói dispõe 314 vagas, sendo 66 com acessibilidade. Além da análise do cadastro socioeconômico, a seleção inclui entrevistas, visitas domiciliares e exame médico.

Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho (Unesp)

Com campus espalhados por 22 municípios no Estado de São Paulo, a Unesp disponibiliza 1.240 vagas de moradia estudantil. O principal critério para assegurar o benefício é a renda, que não pode ultrapassar um salário mínimo e meio. Mas o candidato ainda tem de passar por uma entrevista com assistente social, que irá avaliar outros aspectos como a distância da residência do aluno.

Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)

É uma das instituições com maior número de vagas de moradia estudantil por número de alunos: 1.805 acomodações para cerca de 18 mil estudantes. Mesmo assim, a procura é grande e o site da universidade gaúcha informa que a espera para obter uma vaga é de seis meses. Quanto mais carente e mais distante da unidade escolhida, são cinco campi no Estado, mais chances têm de ser escolhido. Segundo a universidade, o beneficiado precisa levar colchão, além de roupas de cama e material de higiene.

Universidade Federal da Bahia (UFBA)

Considerada a melhor universidade do Nordeste, a Federal da Bahia tem quatro conjuntos de residências universitárias que acomodam 420 estudantes de baixa renda e que moram em cidades do interior ou de outros Estados. Além da moradia, os beneficiados têm ainda refeições gratuitas e fornecimento de água, gás e energia elétrica. Todas as residências ficam em Salvador, nos arredores da universidade.

As mudanças na educação

O Estado de S. Paulo - OPINIÃO » As mudanças na educação

Só o desmonte da hegemonia ideológica e dos interesses corporativos que vinham norteando a atuação do MEC pode ser suficiente para reverter a crise em que o setor se encontra

Apesar de ter registrado em 2016 o mesmo desempenho medíocre dos anos anteriores, a ponto de ficar na 63.ª posição em ciências e no 66.º lugar em matemática no ranking de 70 países da última edição do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), com a substituição da presidente Dilma Rousseff pelo presidente Michel Temer o sistema brasileiro de ensino sofreu uma mudança de gestão. Só o desmonte da hegemonia ideológica e dos interesses corporativos que vinham norteando a atuação do Ministério da Educação (MEC) pode ser suficiente para reverter a crise em que o setor se encontra.
Acima de tudo, os novos dirigentes do MEC voltaram a falar em prioridades, o que não ocorria desde a ascensão do PT ao poder, em 2003. Em seus treze anos e meio de governo, o lulopetismo tomou iniciativas a esmo na área educacional. Lançou cerca de 40 programas sem coerência, sem pertinência e sem controles, esquecendo-se de que, quando não há avaliação nem definição de metas, não há resultados, mas desperdício de recursos. E, na maioria das vezes, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação foi invocada como justificativa para programas perdulários.
O roteiro dos governos lulopetistas na área educacional foi sempre o mesmo: cada vez que anunciava um novo programa, baseado mais em critérios de marketing eleitoral do que em diagnósticos consistentes, o MEC engendrava um “pacto” nacional liderado por articuladores profissionais. Em seguida, firmava convênios com universidades federais dirigidas por reitores companheiros e acordos com entidades sindicais e movimentos sociais custeados pelos cofres públicos. Esse modelo desperdiçou bilhões de reais em aventuras como o Ciência sem Fronteiras, o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico, o Fundo de Financiamento Estudantil e o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa.
Com o desaparelhamento político do MEC e a nomeação de técnicos conceituados e pedagogos respeitados para os cargos mais importantes, o atual governo promove uma correção de rumos. A reforma do ensino médio já foi definida como prioridade e o governo se mobilizou para implementá-la, por meio de medida provisória (MP). Esse talvez não tenha sido o melhor meio de encaminhamento da proposta, mas, no mérito, ela foi bem aceita pela comunidade escolar.
Além disso, a nova equipe deu um tratamento mais técnico à elaboração da Base Nacional Comum Curricular, que estabelece o que os alunos devem aprender da creche ao ensino médio. O documento, que orientará as redes escolares na elaboração de seus currículos, deveria ter sido encaminhado ao Conselho Nacional de Educação no primeiro semestre de 2016. Como as duas versões elaboradas no governo Dilma primaram por modismos pedagógicos, concessões ideológicas e imprecisões técnicas, as autoridades do governo Temer optaram por redigir uma terceira versão, prometendo divulgá-la em fevereiro de 2017. A parte relativa ao ensino médio será concluída só após a aprovação, pelo Legislativo, da MP que reforma esse ciclo de ensino.
Sem espalhafato, o MEC vem estimulando ainda um debate sobre temas estratégicos na área de ensino. Um deles envolve uma avaliação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que teria perdido sua atualidade por ter sido elaborada quando eram outras as condições sociais e econômicas do País. Outro tema trata do Plano Nacional de Educação, cuja aprovação foi feita com quatro anos de atraso pelo governo Dilma. O documento estabeleceu metas para todos os ciclos de ensino, mas não definiu as condições e os instrumentos para que possam ser atingidas. Há, ainda, a discussão sobre os métodos que podem ser usados para aumentar a eficiência do ensino público. A ideia é que o problema da educação não está na escassez de recursos, mas na inépcia com que esses meios têm sido administrados. Se mantiver o foco e resistir às pressões dos sindicatos e movimentos sociais que aparelharam o MEC durante o lulopetismo, o governo Temer terá dado um passo importante para a melhoria da educação.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Por que no Japão os pais pedem desculpas pelo mau comportamento dos filhos adultos

BBC

Pedidos de desculpas públicos são tão comuns no Japão que são quase um clichê sobre o país. Mas, em 2016, alguns destes gestos foram controversos, especialmente quando se tratava de pais pedindo perdão pelos crimes cometidos por seus filhos já adultos. A repórter Yuzuha Oka explora o que há por trás desse fenômeno.
A cultura corporativa de pedidos de desculpas é muito conhecida e enraizada no Japão.
Muitos devem conhecer as shazai kaiken, as coletivas de imprensas em que executivos leem um pedido de perdão com a cabeça a baixa e curvando-se diante de jornalistas.
No entanto, são menos famosos os pedidos de desculpas feitos por pais japoneses que se apresentam publicamente para assumir a responsabilidade pelos atos de seus filhos - não importa qual seja sua idade.
No fim de agosto passado, a atriz Atsuko Takahata fez um pedido de perdão bastante emotivo por seu filho de 22 anos, que havia sido preso por um suposto abuso sexual.
Ele acabou liberado e não foi acusado de cometer nenhum crime, mas, antes mesmo que qualquer processo criminal tivesse início, sua mãe foi a público para dizer que assumia uma parcela da responsabilidade por qualquer ato que o rapaz pudesse ter cometido.
Foi algo parecido com o pedido de desculpas feito em 2013 por Mino Monta, um apresentador de TV que até mesmo pediu demissão depois de seu filho de 31 anos ser preso por tentativa de roubo.
"Tenho uma responsabilidade moral como seu pai", disse ele em uma coletiva de imprensa.
Em outro caso envolvendo celebridades, a atriz Yoshiko Mita pediu desculpas pelo filho e ficou dez meses fora do ar depois de ele ser preso em 1998.
Mas esse ritual não é algo exclusivo de celebridades. Em julho, depois que 19 pessoas serem esfaqueadas em um asilo para pessoas com doenças mentais em Sagamihara, o pai do criminoso de 26 anos fez o mesmo no escritório onde trabalha.
Anos antes, em 2008, quando um homem de 25 anos matou sete pessoas em um shopping lotado de Akihabara, seus pais pediram perdão em frente à casa da família.
"Nosso filho cometeu um crime grave. Pedimos desculpas sinceras àqueles que foram mortos ou ficaram feridos", disseram, curvando-se diante dos fotógrafos que registravam a cena.

Responsabilidade


O pedido de desculpas dos pais japoneses está ligado à ideia de simplesmente assumir uma responsabilidade, mas também é um costume que tem sua origem na era dos samurais.
Conhecida como "regra Enza", a punição de familiares de parentes de criminosos ocorria nos séculos 15 e 16 no Japão e era uma forma de um guerreiro samurai impor o poder de seu soberano sobre os camponeses.
A noção de responsabilidade coletiva foi ainda mais além durante o período Edo, entre os séculos 17 e 19. Cinco residências vizinhas eram consideradas uma única unidade e tidas como responsáveis pelos impostos umas das outras - e por seus crimes.
Punições eram aplicadas a toda a unidade caso alguém cometesse alguma irregularidade.
Ainda que a lei tenha sido abolida em 1868, seu legado é uma mentalidade de que toda pessoa tem uma responsabilidade com o seken, ou o "público", diz o sociólogo Naoki Sato, professor emérito do Instituto de Tecnologia Kyushu e especialista em estudos sobre seken.
Ele explica se tratar de uma noção muito particular da sociedade japonesa, na qual espera-se que as pessoas sigam uma série de regras não explícitas para viverem em harmonia. Uma delas determina que os pais de um criminoso se considerem responsáveis perante o seken mesmo quando eles próprios não fizeram nada de errado.

Indivíduos ou 'posses'?

Sato também destaca que há diferenças nos relacionamentos entre pais e filhos no Japão e no Ocidente. Enquanto os pais em países ocidentais veem seus filhos como indivíduos, o especialista afirma que os pais japoneses tendem a pensar mais nos filhos como suas posses e que, por isso, devem responder pelo mau comportamento deles.
De fato, é raro ouvir pais pedindo desculpas por seus filhos em outros locais do mundo.
Quando dois estudantes da Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos, foram flagrados cantando uma música racista, um de seus pais fez um pedido de perdão público.
Isso foi visto como algo tão extraordinário que o site da rede CNN publicou um artigo de opinião questionando se os pais americanos deveriam fazer isso com mais frequência.
Mas, no Japão, a pressão por pedidos de perdão pelos erros cometidos por parentes pode ser tão grande que famílias chegam a ser perseguidas pela imprensa e alvo de protestos de outros cidadãos.
Em 2008, no caso do esfaqueamento em Akihabara, o irmão mais novo do autor do crime teria cometido suicídio por não aguentar essa perseguição - mesmo após se mudar e trocar de emprego diversas vezes.
O recente pedido de desculpas da atriz Atsuko Takahata levou, inclusive, a um debate sobre se os pais dever ser considerados tão responsáveis assim.
Quando um programa da emissora Asahi entrevistou 50 pessoas sobre o caso, 60% responderam que "era um problema do filho da atriz e não dela". Uma reação semelhante ocorreu nas redes sociais.
"Estou de saco cheio de pedidos de desculpas quando a própria pessoa não fez nada. Quero que os pais demandem que seus filhos adultos assumam essa responsabilidade ou recomecem sua criação da estaca zero", disse um participante do Twitter no Japão.
Jovens japoneses certamente estão mais preocupados em ter o controle de suas vidas, mas a cultura do shazai kaiken e de assumir a responsabilidade perante o público são muito enraizadas nessa sociedade. Então, novos pedidos de perdão ainda devem acontecer no futuro.