quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Quanto menos se merece, menos se é grato



Mario Sergio Cortella | Academia CBN

O escritor espanhol Francisco de Quevedo, contemporâneo a Miguel de Cervantes, escreveu que poucas vezes quem ganha o que não merece, agradece o que ganha.

'Adolescente que você vai ter é o que você plantou'


Petria Chaves | Revista responde: como criar seus filhos

De acordo com o doutor em psicologia clínica Luiz Alberto Hanns, pais devem criar os filhos com diálogo e limites.

Capacidade crítica faz reparos na nossa conduta


Mario Sergio Cortella | Academia CBN

De forma construtiva, a característica nos faz bem no ambiente de trabalho, na escola e no casamento. Às vezes, o que é unânime acaba dissimulando alguns defeitos que se possa ter.

O que é ser conservador? É preferir o fato ao mistério, o atual ao possível', disse o filósofo Michael Oakeshott

COLUNISTA

Leandro Karnal


Decidi atender a um pedido de algumas pessoas para tentar definir o que viria a ser um conservador. O campo é gigantesco e, claro, daria espaço para um texto mais desenvolvido do que esta crônica. Pretendo apenas indicar algumas linhas e bibliografia sobre o conservadorismo e despertar o interesse pelo conhecimento do campo. Você que é conservador e quer aprender mais sobre sua posição, você que está mais à esquerda e deseja conhecer a cabeça do outro time e, por fim, você que ainda não tem bem certeza do que é politicamente: todos podem aproveitar estas curtas linhas.
Poderia voltar mais no tempo, mas inicio o conservadorismo político pela obra de Edmund Burke: Reflexões Sobre a Revolução na França. Situemo-nos: o ano é 1790. A Revolução mal completou um ano e o autor do outro lado do Canal da Mancha já vê nela uma sementeira de problemas. 
Primeira lição: o conservador desconfia de saltos, de rupturas, de processos violentos que destruam o consuetudinário, ou seja, a tradição dos costumes. Burke acredita que a França (que ainda era uma monarquia quando ele escreveu) substituiria a tirania de um rei pela opressão de um grupo político.

Para Burke, a sociedade é um contrato entre os habitantes do presente e os do passado e futuro. Não tenho direito de destruir tudo que recebi e não tenho direito de violar o futuro com uma ruptura revolucionária. Segundo o irlandês, a tirania gerada pela revolução seria baseada mais na inveja dos bens alheios do que no sentimento de justiça. O conservador crê na conservação: a tradição, o sistema jurídico e a evolução lenta das leis e dos costumes. A desigualdade entre os humanos seria um dado natural e nunca poderia ser eliminada completamente. O conservador pouco acredita na perfectibilidade do humano. Ninguém pode se dizer um conservador de verdade sem ter analisado a obra de Edmund Burke.

Falei de um clássico, mas recomendaria iniciar a jornada com um pequeno livro de João Pereira Coutinho: As Ideias Conservadoras Explicadas a Revolucionários e Reacionários (Ed. Três Estrelas). O autor português estabelece uma crítica a dois polos: o reacionário que inventa uma ordem perfeita no passado para a qual deve retornar, e o revolucionário, que cria uma ordem perfeita à frente para a qual deve avançar. Importante: o conservador pode ser conservador politicamente e liberal (ou até vanguardista) em termos de liberdade pessoal. Assim, um conservador que, tradicionalmente, resiste à interferência do Estado na economia ou no controle do cidadão, pode defender a união civil de pessoas do mesmo sexo. O conservadorismo, indica Coutinho, volta-se à defesa do indivíduo e da sua liberdade. 
Nesta direção, o livro Por Que Virei à Direita (Ed. Três Estrelas) reúne textos de João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé e Denis Rosenfield e é uma boa leitura introdutória sobre o pensamento conservador.

Na obra de João Pereira Coutinho está citado um pensamento basilar de Michael Oakeshott: “Ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, o testado ao nunca testado, o fato ao mistério, o atual ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao abundante, o conveniente ao perfeito, o riso presente à felicidade utópica”. (OAKESHOTT, Michael. Rationalism in Politics and other essays). Em resumo, o conservador não crê que os seres humanos possam ser perfeitos em sociedades harmônicas e igualitárias. Para ele, a realidade contraria a utopia. Reafirmando Burke, nossa desigualdade seria estrutural e só superável por processos lentos, metódicos, sem rupturas. Ao Estado caberia, no máximo, evitar o inferno, nunca garantir o paraíso.

Para acompanhar essas ideias, o livro The Conservative Mind: From Burke to Eliot (obra de 1953) faz uma lista dos pensadores e das suas ideias conservadoras. Completam bem esse campo os textos de Isaiah Berlin: Estudos Sobre a Humanidade e também o clássico Ideias Políticas na Era Romântica. 
No curso que dei na Unicamp sobre Conservadorismo, também analisei a obra de Thomas Sowell: Os Intelectuais e a Sociedade. O autor norte-americano faz uma pesada crítica aos intelectuais, especialmente os de esquerda, alegando que falam sobre todos os temas sem os conhecerem de fato. Os intelectuais, ao contrário de engenheiros e médicos, não precisam verificar suas ideias e, no fundo, dizem o que a maioria ressentida desejaria ouvir. Economista e negro, Sowell representa a tradição de desconfiança do Estado. Sowell deve ser acompanhado do texto O Que É Conservadorismo, de Roger Scruton (The Meaning of Conservatism), aqui traduzido pela É Realizações Editora. O enfoque de Scruton é mais sobre leis e impostos e menos sobre cultura.
Há muitas outras obras. Não tenho espaço para destacar a excelente análise de Gertrude Himmelfarb ou o pensamento de Alexis de Tocqueville e Thomas Hobbes sobre Estado e indivíduo. Lendo estas e muitas outras fontes, refletindo e criticando, você poderá definir sua postura e aprofundar seu viés político. Observe o mundo ao seu redor, analise pessoas e ideias, leia muito e defina sem preconceitos, por você mesmo, o que é um conservador e por que ele é diferente de um reacionário ou de um revolucionário. Ler e pensar dá um pouco mais de trabalho do que berrar palavrões em rede social. Boa semana para conservadores e revolucionários. 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O excesso de cursos universitários

Se colocar na rede a receita de pudim da minha avó, serei processado por não ter faculdade de gastronomia?

WALCYR CARRASCO

Sofri protestos ferozes no Instagram. Tudo porque achei excessiva a briga contra a blogueira Gabriela Pugliesi e seu companheiro, Erasmo Viana. A moça, como outras, mostra seu estilo de vida e sua rotina de alimentação e exercícios físicos. Está sendo processada com a acusação de propor atividades de educação física sem curso universitário correspondente. Ele é apedrejado por ensinar mahamudra, uma prática que une ioga a exercícios físicos mais intensos. Já quis fazer, é praticado em parques. Os adeptos pulam em galhos. Desisti. E se um galho não suportasse meu peso?
As reações ferozes na internet partiram de profissionais da educação física. Não posso julgar o caso da blogueira. Se está sendo processada, compete à Justiça a palavra final. Mas achei as reações injustas. Nunca fui contra a educação física como curso universitário. Mas hoje, na internet, é comum que as pessoas mostrem seu estilo de vida. Não existe exigência de faculdade para que alguém faça demonstrações de judô, tai chi chuan, ioga ou dança. Todas essas atividades mexem com o corpo e podem machucar. Quem já viu o pé de um bailarino sangrando após uma apresentação sabe disso. O pilates, que virou febre,  não exige diploma. Por que o mahamudra seria diferente?
Na minha opinião, existe um número absurdo de cursos universitários. Para ser ator, é preciso o registro profissional, o DRT. É fornecido automaticamente após um curso de nível universitário. Mas há uma brecha: os sindicatos podem dar quando há comprovação de trabalhos. Acho a exigência do DRT descabida. Há talentos que surgem de forma surpreendente. Assim como diplomados que não conseguem interpretar uma linha. E os bons cursos de antigamente? Muitas moças (poucos rapazes) faziam a chamada Escola Normal, logo após o 8o ano. E podiam dar aulas do 1o ao 4o ano. Foi assim que muita gente custeou a faculdade. Muita professora ajudava na despesa da casa. Acabou. Meu irmão fez um curso técnico de químico industrial, de três anos. Viveu dele. Tornou-se um grande químico, participou de processos de transferência de tecnologia de outros países para o Brasil. Já se aposentou. Atualmente, teria de passar pela universidade. Na época, começou a trabalhar aos 18 anos e não parou mais. Por que tantos cursos técnicos viraram faculdades? No caso da medicina, engenharia, acredito que a universidade seja fundamental. Em Direito, não basta o curso. De diploma na mão, o jovem precisa passar no exame da Ordem dos Advogados do Brasil. Nada mais justo. Vale o mesmo para educação física, nutrição. Mas ator? Se um médico errar, coloca a vida de alguém em risco. Se o ator for ruim, só me deixa de mau humor. Fiz faculdade de jornalismo. Mas tem sentido exigir diploma de jornalismo? É um assunto controverso, com muitos vaivéns. Um economista que escreva sobre o tema certamente será muito melhor que eu, incapaz de somar dois e dois. O jornalismo se caracteriza por exigir profissionais de várias áreas, de repórter de política a crítico de moda. Precisam de diploma? Para quê?
Eu seria incapaz de listar todos os cursos universitários absolutamente ridículos existentes no Brasil. Por exemplo: um amigo fazia a faculdade de quiropraxia numa instituição paulista. Para quem não sabe, a quiropraxia é um tipo de massagem/manipulação do corpo, com ajustes nas articulações. Como paciente, já fui estalado várias vezes. O quiroprático estalava minhas vértebras e braços. Há manuscritos chineses de 2700 a.C. que se referem à manipulação articular. Tive um quiroprático velhinho, de origem nipônica, excelente. Nunca fez faculdade. Para que transformar em curso universitário? Óbvio, para depois regulamentar. Criar uma reserva de mercado. Expulsar dela todos os velhinhos orientais e botar na roda jovens universitários. Seria no máximo um curso de extensão para quem fez educação física. Mas daqui a pouco vão exigir diploma. Quem lucra? As universidades.
Está na hora de fazer o contrário. De tirar a exigência de formação universitária para tantos cursos que poderiam ser técnicos. A formação profissional custaria menos, as pessoas entrariam no mercado de trabalho mais depressa. Mas não, só inventam novos cursos. E criam-se nichos e nichos. Estou com medo. Minha avó fazia um maravilhoso pudim com queijo parmesão. Qualquer dia desses dou a receita nas redes sociais. Serei processado por não ter faculdade de gastronomia?

Você é o dono do seu tempo?

mirian goldenberg
Mirian Goldenberg
É antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autora de 'Coroas: corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade'.

Uma das queixas mais frequentes dos homens e mulheres, de todas as idades, que tenho pesquisado é: "falta de tempo".

Eles dizem que gostariam de fazer cursos de filosofia e história, ler mais livros, escrever, dançar, praticar esportes, fazer musculação e pilates, aprender a tocar piano e cantar, estudar inglês e francês, sair com os amigos, namorar, viajar, ir ao teatro e cinema, conhecer lugares novos, caminhar na praia, participar de palestras, fazer um trabalho voluntário e muitas outras atividades interessantes, diferentes e prazerosas.

Por que, então, não fazem estas coisas que tanto desejam?

Escuto sempre a mesma resposta: "Eu não tenho tempo!". Muitas vezes acompanhada de: "Não tenho dinheiro!"

Alguns ainda dizem: "Quando eu ficar mais velho, quem sabe?", "Quando eu me aposentar", ou ainda, "Quando meus filhos forem independentes", o que revela que só em um futuro, talvez ilusório, eles conseguirão ter mais tempo para si mesmos.

Eles vivem uma espécie de escravidão: o tempo deles é regulado por demandas externas, não internas. Afirmam que não sobra tempo livre para eles, já que precisam responder a intermináveis obrigações sociais, profissionais e familiares. 

É um tempo para os outros, que pertence a outros. Eles gastam o tempo agradando, cuidando e atendendo às necessidades dos filhos, cônjuges, netos, pais, irmãos, amigos, colegas de trabalho. Sentem-se "sem tempo para mais nada, nem para dormir direito". Estão "cansados, exaustos, esgotados, sugados, vampirizados, massacrados".

Uma psicóloga de 62 anos disse: "A desculpa de falta de tempo é a prova do nosso medo de fazer aquilo que realmente desejamos. Não temos coragem de dizer não, queremos agradar a todo mundo e esquecemos que precisamos agradar, em primeiro lugar, a nós mesmos. Ser livre para priorizar as próprias escolhas e desejos, e usar o tempo para concretizá-los, é arriscado e dá muito trabalho. É mais fácil ser escravo do tempo dos outros do que senhor do próprio tempo".

Você já parou para pensar que o tempo é um capital, uma verdadeira riqueza? 

Como você gasta (ou desperdiça) seu tempo? Quem é o verdadeiro dono do seu tempo? Se você fosse o dono do seu tempo, o que faria (ou deixaria de fazer) agora?

O ensino das humanidades é essencial

rosely sayão
Rosely Sayão
Psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia a dia dessa relação.

"Precisamos ensinar virtudes e empatia aos mais novos. Precisamos ensinar virtudes e empatia aos mais novos". Essa frase deveria funcionar como um mantra para todos os adultos que, direta ou indiretamente, convivem com crianças e jovens.

Nos tempos de hoje, julgar e acusar o outro tem sido muito mais comum do que respeitar, compreender, colaborar com ele de forma positiva. E, como sempre, os mais novos têm seguido os passos dessa cultura que nós, adultos, construímos e colocamos em prática com muita frequência.

"Como ajudar um adolescente de 14 anos a aceitar as pessoas que estão ao seu redor para que, em vez de julgar, faça algo para ajudar a melhorar?" Essa pergunta de uma leitora, somada à leitura do texto publicado na Folha, "Que espécie de médico as escolas brasileiras estão formando?", de Cláudia Collucci, são ótimos pretextos para falarmos a respeito do assunto.

Já faz tempo que a educação, tanto a familiar quanto a escolar, tem adotado como meta o ensino –e, portanto, a expectativa do aprendizado– dos conteúdos escolares. É por isso que as famílias anseiam por boas notas escolares dos filhos, e escolas consideradas boas são aquelas que têm uma quantidade enorme de conteúdos que devem ser aprendidos pelos alunos, não importa como.

São poucas as escolas que escapam desse foco conteudista, e é, ainda, igualmente pequeno o número de famílias que procuram escolas chamadas alternativas, ou seja, que têm metas diferentes daquelas praticadas pelas escolas tradicionais.

O ensino das humanidades nas escolas tem ocupado lugar secundário na hierarquia das disciplinas, e a reforma do ensino médio oficializa essa posição. 

Um exemplo é o fato de as disciplinas da área de humanas serem ensinadas para que o aluno aprenda mais conteúdos em vez de aprender, com esse conhecimento, a contextualizar as situações, a compreender, a ser crítico, ético, cidadão, entre outras possibilidades.

A atuação de muitos jovens profissionais –não apenas da medicina, como visto recentemente– nos leva a constatar que o ensino das humanidades nos faz falta, muita falta!

Se queremos que nossos filhos e alunos possam colaborar para mudar a realidade para que tenham uma vida melhor, precisamos parar com essa história de que a escola deve estar sempre correndo atrás do que o mercado aponta buscar. Há um grande paradoxo nessa equação, porque primeiramente o mercado aponta, posteriormente constata a fragilidade da formação dos profissionais que contrata e, então, reclama.

O mundo só melhora se essa equação for invertida: é o mercado que deve correr atrás do conhecimento criado e recriado nas instituições educacionais de todos os níveis. Quando conseguirmos praticar isso, teremos grandes avanços, em todos os sentidos, nas ciências e na prática delas.

É justamente aí que entram o ensino da empatia, das virtudes, da ética, das humanidades em geral. E isso podemos e devemos fazer desde quando as crianças são bem pequenas, no cotidiano da vida. Na maioria das vezes, precisamos, apenas, oferecer as oportunidades às crianças.

Um vídeo poético, disponível na internet, nos mostra como uma jovem mãe realiza isso. Não me canso de assistir a ele e convido você, caro leitor, a se inspirar com o "Caminhando com Tim Tim".