quinta-feira, 27 de abril de 2017

Suicídios adolescentes

contardo calligaris
Contardo Calligaris
Italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo (patológicas e ordinárias).

"Você, que é terapeuta de adolescentes, por que não comenta a Baleia Azul?" Recebo essa pergunta a cada dia.

Baleia Azul é um jogo, na internet, que seduziria os adolescentes propondo-lhes desafios arriscados até um final em que, para "ganhar", o jogador deve se matar. Na Rússia, já seriam mais de cem mortos.

Acho bizarro que nenhum repórter consiga se inscrever, jogar e nos contar tudo. A Baleia me parece ser sobretudo um boato (veja-se snopes.com, que investiga espalhafatos, migre.me/wuZPH).

Que opinião temos dos nossos adolescentes para acreditarmos que eles sejam burros a ponto de se matar para terminar uma gincana? Se imaginamos que eles sejam presas fáceis para a Baleia, é porque nós mesmos talvez sejamos seduzidos pelo jogo: dispostos a qualquer besteira para animar a nossa vida e lhe dar algum sentido.

Junto com a Baleia, um seriado da Netflix, "13 Reasons Why", também preocupa os adultos. Nele, uma menina, para explicar seu suicídio, deixa 13 fitas gravadas, que circulam entre amigos e inimigos.

Quando eu era menino, sonhava estar presente no meu velório, para ver quem choraria e quem dançaria. O seriado, dando crédito a esse sonho (banal), poderia produzir uma epidemia de suicídios?

Reza a lenda que o romance de Goethe "Os Sofrimentos do Jovem Werther" (1774) teria glamorizado o suicídio por amor e produzido suicídios em massa.
Logo o "Werther", que consegue a façanha de ser curto e chato e cujo maior mérito é de ter sido o pretexto para Roland Barthes escrever seus "Fragmentos de um Discurso Amoroso".

Enfim, "O Efeito Werther" é um livro de David Phillips (1982) que trata de verificar se há suicídios induzidos pelos relatos na mídia dos suicídios de pessoas famosas, de Marylin Monroe a Kurt Cobain. Resultado: o efeito, se existe, é mínimo.

Mas, por mínimo que seja, como evitá-lo? Plutarco (46 - 120 d.C.), em "As Virtudes das Mulheres", conta que, em Mileto, por alguma maldição divina, as mulheres foram tomadas pela vontade de se enforcar. Não havia palavras ou lágrimas que adiantassem: elas se matavam. Enfim, alguém propôs que os cadáveres nus das enforcadas fossem expostos na praça. E o que aconteceu?

Num delicioso livrinho, publicado em Paris em 1772 (ensaio sobre o caráter, os costumes e o espírito das mulheres nos diferentes séculos), Antoine Thomas conclui com Plutarco. Essas jovens encaravam a morte, mas nenhuma ousou encarar a vergonha depois da morte: os suicídios pararam.

Quanto às mulheres de Mileto, Thomas explica: elas deviam estar naquela idade em que a natureza, alimentando desejos inquietos e vagos, abala a imaginação e em que a alma, surpreendida por suas novas necessidades, sente que a melancolia será sucessora da calma dos jogos da infância. Difícil descrever melhor a desordem da adolescência.

E talvez haja mesmo, na adolescência, um interesse especial pelo suicídio. Para Durkheim, o suicídio pode ser atribuído a níveis excessivamente baixos ou altos de integração social. Integração baixa demais significa ter a impressão de não pertencer a nada, e integração alta demais significa descobrir que o custo da integração é excessivo: uma domesticação de nosso desejo. É um resumo do drama do adolescente.

Seja como for, o interesse do adolescente pelo suicídio é intolerável para nós –porque amamos o suicida e porque sua morte sancionaria nosso fracasso: o suicídio de um adolescente é a demonstração cabal de que nosso amor não é (não foi) uma razão suficiente para ele viver.

Mas atenção: Plutarco é uma leitura recomendada, porque ele lembra que de nada adiantam os encorajamentos a viver e as manifestações de carinho.

De fato, diante do propósito suicida, não há cura milagrosa, e o primeiro passo é reconhecer o desejo de se matar e levá-lo a sério –porque é um desejo sério, não menos fundamentado do que nossa posição em favor da vida.

Podemos discordar e nos opormos à vontade de se suicidar de alguém que nos importe, mas só seremos escutados se primeiro reconhecermos seu direito de querer morrer.

Nota: logo nesses tempos de inquietudes pela Baleia e pelo seriado "13 Reasons Why", foi ao ar, pela HBO, a primeira história de "Psi" sobre o suicídio assistido de uma adolescente. A história, que resume minha atitude diante de um outro que prezo e que quer morrer, está agora na Net Now.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A revolução silenciosa da Educação em Santa Catarina

Mozart Neves

Diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna. Foi reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), secretário de Educação de Pernambuco (2003-2006) e presidente do Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação). Foi presidente executivo do Todos Pela Educação (2007-2010)

Há cinco anos, a Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC) iniciou uma verdadeira “cruzada” pela Educação em todo o estado, por meio da criação do movimento “A Indústria pela Educação”. Mais recentemente, essa iniciativa tornou-se ainda maior, quando virou “Santa Catarina pela Educação”. Isso porque, à FIESC, juntaram-se o poder público da Educação (nas esferas estadual e municipal) e as federações do Comércio, dos Transportes e da Agricultura de Santa Catarina. Além disso, também se associaram ao movimento fundações do Terceiro Setor, como o Instituto Ayrton Senna e o Instituto Natura. Um belo exemplo de como colocar em prática o que traz o artigo 205 da Constituição Brasileira: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

Ao longo de minha vida pública dedicada à Educação, aprendi que, quando a sociedade se organiza em prol desta causa, as chances de descontinuidade das políticas vinculadas à área tornam-se bem remotas, ao contrário do que ocorre quando são implementadas sem a participação da sociedade, ficando mais reféns das mudanças de governo. Além disso, Santa Catarina é de longe o estado da federação mais bem organizado territorialmente com base nos seus arranjos produtivos, sociais e culturais. Isso permite estruturar de forma mais sólida o chamado regime de colaboração, tão essencial para que os planos educacionais se materializem na prática.
Um dos primeiros exemplos dessa materialização pode ser verificado com a implementação de um projeto inovador que tem como objetivo maior desenvolver o pensamento crítico e a criatividade – habilidades essenciais para o século 21 – em alunos das escolas de Chapecó, nas redes municipal e estadual, e também naqueles matriculados nas escolas do SESI do município. Trata-se de um projeto envolvendo 15 países, liderado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), cuja metodologia vem sendo desenvolvida pelo Instituto Ayrton Senna em parceria com as secretarias de Educação.
Outro exemplo, mais recente, foi a implementação de escolas de ensino médio em tempo integral com educação integral em várias regiões de Santa Catarina, numa parceria com o Ministério da Educação (MEC), secretaria de Educação e o Instituto Ayrton Senna, contando com o apoio do Instituto Natura, do movimento Santa Catarina pela Educação, via SENAI, do Banco Interamericano para o Desenvolvimento (BID) e com grandes chances de também contar com o apoio da Capes/MEC, para dar escala ao modelo via modalidade on line para todo o estado. Segundo uma avaliação feita por Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper, escolas com esse modelo educacional podem levar o Brasil a dar um salto na Educação, tomando como referência o ranking do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) e os resultados alcançados em escolas similares implementadas nos estados de Pernambuco e do Rio de Janeiro.
Outro fato é que o estado de Santa Catarina, preocupado com o baixo percentual de jovens com formação profissional – um drama nacional e que se espera reverter com o novo ensino médio –, começa a implementar o ensino médio CONECTE, integrando o ensino regular com o técnico em “tempo real”, permitindo que após três anos de estudo o aluno saia com os dois certificados e bem preparado para o mundo do trabalho. Trata-se de uma iniciativa envolvendo a secretaria de Educação do estado e o SENAI/SC, com o apoio da Fundação Itaú BBA e do movimento Santa Catarina pela Educação.
No Brasil, há também outros exemplos a serem seguidos, como o ensino médio em tempo integral de Pernambuco, que inspirou o novo ensino médio; o bem-sucedido programa de alfabetização do Ceará, um exemplo para o país; e o modelo de ensino médio on line do Amazonas, que vem promovendo melhorias importantes nos resultados educacionais do estado, de tamanho continental. A grande diferença do que ocorre em Santa Catarina é na forma como todo o estado se mobiliza pela Educação, na articulação dos diversos setores locais e nacionais e na força da organização territorial. Tudo isso poderá, em breve, colocar Santa Catarina num patamar de liderança na Educação nacional. Não é à toa que lá se costuma dizer que “Educação é novo nome do desenvolvimento”.

Pela sobrevivência, estamos ora buscando a verdade, ora fugindo dela

francisco daudt
Francisco Daudt
Psicanalista e médico, é autor de 'Onde Foi Que Eu Acertei?', entre outros livros.

"A realidade pode ser incômoda, mas é o único lugar onde se consegue um bife decente", disse Woody Allen, resumindo a relação conflituosa que nossa espécie tem com a verdade. Precisamos dela, mas frequentemente a rejeitamos.

Tudo começou com a morte. Tão logo brotou no sapiens a percepção de que todos vão morrer –inclusive o próprio–, ele arranjou um jeito de dizer "não é bem assim, existe vida após a morte". E deixou o primeiro sinal de consciência registrado pela espécie, há cem mil anos: os ritos fúnebres.

Fato é que os dois instintos que nos movem –a sobrevivência pessoal e a da espécie–, fazem com que lidemos com a realidade, ora buscando a verdade, ora fugindo dela. Vejamos o sexo: um provérbio português dos anos 1600 dizia que "juras de foder não são para crer". Esse negócio de "eu vou casar com você amanhã" deve ser bem verificado pela moça, pois as chances de o rapaz estar em franco desapreço pela verdade são muito grandes.

No caso da sobrevivência pessoal, o processo de delação premiada é exemplar quanto ao jogo entre a verdade e o risco de mentir: o delator tem tudo a perder se estiver mentindo. Vai em cana, não ganha seu prêmio. Já o delatado tem tudo a ganhar, se sua mentira emplaca. É a velha questão do "cui prodest" (quem se beneficia?) latino, que serve de boa pista para se descobrir o culpado do crime. Ele se aplica à divisão política que o país vive: há um monte de gente com a postura de que "se os fatos contrariam as minhas crenças –ou meus interesses corporativos–, bem, danem-se os fatos".

Outro exemplo é o "me engana que eu gosto". Ninguém quer ser trapaceado; já docemente enganado, até contratualmente, nós todos adoramos: quando vamos ver um filme, aplicamos o "suspension of disbelief", um acordo de suspensão da desconfiança para poder embarcar na ficção. De modo que, se aparecer um centurião romano de relógio, vamos ficar muito aborrecidos com esse chamado da realidade.

E há o pensamento mágico: nossa sobrevivência pede um certo grau de controle (ou de ilusão de controle) sobre o mundo externo. É bom saber se vai chover na minha horta, e se eu puder controlar a chuva através de uma dança ritual (ou do cacique cobra-coral), eu a farei. Assisto passivo ao jogo de futebol, mas se pegar uma cerveja na geladeira pode ajudar o meu time a fazer gol (afinal, foi o que aconteceu no jogo passado), lá irei pegá-la.

Milênios se passaram até que alguém humildemente admitiu sua ignorância: "Não sei por que isso acontece. Mas quero saber". Foi o embrião da ciência. Não é um assombro pensar que tal postura –como tendência mundial– tem apenas 600 anos?

O que dizer das convicções dos filósofos realistas e idealistas frente a uma árvore que cai no meio do deserto sem testemunhas? Os realistas creem que a árvore faz barulho ao cair. Os idealistas, como julgam que a realidade só existe no mundo das ideias, creem que não, que ela cai em completo silêncio. Preciso dizer que sou realista?

Neste tempo de pós-verdade, de relativismo, de "verdade de cada um", deixo claro aqui que nunca entrarei num avião construído por um engenheiro pós-moderno.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Como identificar possíveis sinais de abuso sexual em crianças?

BBC

Casos de violência e abuso sexual contra crianças e adolescentes são mais comuns do que se imagina ­ dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), por exemplo, mostram que 70% das vítimas de estupro do país são menores de idade.

Segundo dados do Disque 100 (Disque Direitos Humanos) e do Sistema Único de Saúde, mais de 120 mil casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes foram registrados no país entre 2012 e 2015 ­ o equivalente a pelo menos três ataques por hora.

Mas como identificar abuso sofrido por uma criança próxima? O caso do uruguaio Felipe Romero, que teria sido vítima de seu técnico de futebol, chamou a atenção dos leitores da BBC Brasil, que pediram esclarecimentos sobre quais são, afinal, esses sinais.

Com base em informações de sites especializados e entrevistas com profissionais da área, a BBC Brasil elaborou o guia abaixo.

"Geralmente, nao é um sinal só, mas um conjunto de indicadores. É importante ressaltar que a criança deve ser levada para avaliação de especialista caso apresente alguns desses sinais", diz Heloísa Ribeiro, diretora executiva da ONG Childhood Brasil, de defesa dos direitos das crianças e adolescentes.

1) Mudança de comportamento 

O primeiro sinal a ser observado é uma possível mudança no padrão de comportamento das crianças. Segundo Ribeiro, esse é um fator facilmente perceptível, pois costuma ocorrer de maneira repentina e brusca.

"Por exemplo, se a criança nunca agiu de determinada forma e, de repente, passa a agir. Se começa a apresentar medos que não tinha antes ­ do escuro, de ficar sozinha ou perto de determinadas pessoas. Ou então mudanças extremas no humor: a criança era superextrovertida e passa a ser muito introvertida. Era supercalma e passa a ser agressiva", afirmou.

A mudança de comportamento também pode se apresentar com relação a uma pessoa específica, o possível abusador.
"Como a maioria dos abusos acontece com pessoas da família, às vezes a criança apresenta rejeição a essa pessoa, fica em pânico quando está perto dela. E a família estranha: 'Por que você não vai cumprimentar fulano? Vá lá!'. São formas que as crianças encontram para pedir socorro, e a família tem que tentar identificar isso", afirma a educadora sexual Maria Helena Vilela, do Instituto Kaplan.
Em outros casos, a rejeição não se dá em relação a uma pessoa específica, mas a uma atividade. A criança não quer ir a uma atividade extracurricular, visitar um parente ou vizinho ou mesmo voltar para casa depois da escola.

2) Proximidade excessiva

Apesar de, em muitos casos, a criança demonstrar rejeição em relação ao abusador, é preciso usar o bom senso para identificar quando uma proximidade excessiva também pode ser um sinal.

Teria sido o caso, por exemplo, do técnico de futebol Fernando Sierra, que tinha uma relação quase paternal com o garoto Felipe Romero. O treinador buscou o menino na escola, desapareceu e ambos foram encontrados mortos dois dias depois.

A hipótese principal é que o treinador tenha atirado no menino e, em seguida, cometido suicídio por não aceitar um pedido da mãe para que se afastasse da criança. Laudo preliminar da autópsia indicou que o garoto vinha sendo vítima de abusos sexuais.

Importante notar, no entanto, que o papel do desconhecido como estuprador aumenta conforme a idade da vítima ­ ou seja, no abuso de menores de idade, a violência costuma ser praticada por pessoas da família na maioria dos casos.

Se, ao chegar à casa de tios, por exemplo, a criança desaparece por horas brincando com um primo mais velho ou se é alvo de um interesse incomum de membros mais velhos da família em situações em que ficam sozinhos sem supervisão, é preciso estar atento ao que possa estar ocorrendo nessa relação.

Segundo o NHS, o SUS britânico, 40% dos abusos no Reino Unido são cometidos por outros menores de idade, muitas vezes da mesma família. Também segundo os dados britânicos, 90% dos abusadores fazem parte da família da vítima.

No Brasil, 95% dos casos desse tipo de violência contra menores são praticados por pessoas conhecidas das crianças, e em 65% deles há participação de pessoas do próprio grupo familiar.

Nessas relações, muitas vezes, o abusador manipula emocionalmente a vítima que nem sequer percebe estar sendo vítima naquela etapa da vida, o que pode levar ao silêncio por sensação de culpa. 

Essa culpa pode se manifestar em comportamentos graves no futuro como a autoflagelação e até tentativas de suicídio.

"As pessoas acham que o abusador será um desconhecido, que não faz parte dessa vida da criança. 

Mas é justamente o contrário, na grande maioria dos casos são pessoas próximas, por quem a criança tem um afeto. O abusador vai envolvendo a criança pra ganhar confiança e fazer com que ela nao conte", afirmou Ribeiro, da ONG Childhood Brasil.

"A violência sexual é muito frequente dentro de casa, ambiente em que a criança deveria se sentir protegida. É um espaço privado, de segredo familiar e é muito comum que aconteça e seja mantido em segredo."

3) Regressão

Outro indicativo apontado pelas especialistas é o de recorrer a comportamentos infantis, que a criança já tinha abandonado, mas volta a apresentar de repente. Coisas simples, como fazer xixi na cama ou voltar a chupar o dedo. Ou ainda começar a chorar sem motivo aparente.

"É possível observar também as características de relacionamento social dessa criança. Se, de repente, ela passa a apresentar esses comportamentos infantis. Ou se ela passa a querer ficar isolada, não ficar perto dos amigos, não confiar em ninguém. Ou se fugir de qualquer contato físico. A criança e o adolescente sempre avisam, mas na maioria das vezes não de maneira verbal", considera Ribeiro.

A diretora da ONG Childhood Brasil alerta, porém, que é importante procurar avaliação especializada que possa indicar se eventuais mudanças de comportamento são apenas parte do desenvolvimento da criança ou indicativos de vulnerabilidade.

"É importante lembrar que o ser humano é complexo, então esses comportamentos podem aparecer sem estarem ligados a abuso."

4) Segredos

Para manter o silêncio da vítima, o abusador pode fazer ameaças de violência física e promover chantagens para não expor fotos ou segredos compartilhados pela vítima.

É comum também que usem presentes, dinheiro ou outro tipo de benefício material para construir a relação com a vítima. É preciso também explicar para a criança que nenhum adulto ou criança mais velha deve manter segredos com ela que não possam ser compartilhados com adultos de confiança, como a mãe ou o pai.

5) Hábitos

Uma criança vítima de abuso também apresenta alterações de hábito repentinas. Pode ser desde uma mudança na escola, como falta de concentração ou uma recusa a participar de atividades, até mudanças na alimentação e no modo de se vestir.

"Às vezes de repente a criança começa a ter uma aparência mais descuidada, não quer trocar de roupa. Outras passam a não comer direito. Ou passam a comer demais", pontuou Ribeiro.

A mudança na aparência pode ser também uma forma de proteção encontrada pela criança. Em entrevista à BBC Brasil no ano passado, a nadadora Joanna Maranhão, que foi vítima de abuso sexual por seu técnico quando tinha nove anos, revelou que se vestia como um menino na adolescência para fugir de possíveis violências.

Ribeiro cita também mudanças no padrão de sono da criança como indicativo de que algo não anda bem. "Se ela começa a sofrer com pesadelos frequentes, ou se tem medo de dormir ou medo de ficar sozinha."

6) Questões de sexualidade


Um desenho, uma "brincadeira" ou um comportamento mais envergonhado podem ser sinais de que uma criança esteja passando por uma situação de abuso. "Quando uma criança que, por exemplo, nunca falou de sexualidade começa a fazer desenhos em que aparecem genitais, isso pode ser um indicador", apontou Maria Helena Vilela.

"Pode vir em forma de brincadeira também. Ela chama os amiguinhos para brincadeiras que têm algum cunho sexual ou algo do tipo", observou Henrique Costa Brojato, psicólogo e especialista psicossocial. Podem, inclusive, reproduzir o comportamento do abusador em outras crianças.

Para Heloísa Ribeiro, o alerta deve ser dado especialmente para crianças que, ainda novas, passam a apresentar um "interesse público" por questões sexuais. "Quando ela, em vez de abraçar um familiar, dá beijo, acaricia onde não deveria, ou quando faz uma brincadeira muito para esse lado da sexualidade."

O uso de palavras diferentes das aprendidas em casa para se referir às partes íntimas também é motivo para se perguntar à criança onde ela aprendeu tal expressão.

7) Questões físicas 

Há também os sinais mais óbvios de violência sexual em menores ­ casos que deixam marcas físicas que, inclusive, podem ser usadas como provas à Justiça. Existem situações em que a criança acaba até mesmo contraindo doença sexualmente transmissível.

"Há casos de gravidez na adolescência, por exemplo, que é causada por abuso. É interessante ficar atento também a possíveis traumatismos físicos, lesões que possam aparecer, roxos ou dores e inchaços nas regiões genitais", observou a diretora da Childhood.

8) Negligência

Muitas vezes, o abuso sexual vem acompanhado de outros tipos de maus tratos que a vítima sofre em casa, como a negligência.

Uma criança que passa horas sem supervisão ou que não tem o apoio emocional da família, com o diálogo aberto com os pais, estará em situação de maior vulnerabilidade.

O que fazer Caso identifique um ou mais dos indicadores listados acima, o melhor a se fazer é, antes mesmo de conversar com a criança, procurar ajuda de um especialista que possa trazer a orientação correta para cada caso.

"Há muitas dessas características que são semelhantes às de um adolescente em desenvolvimento. Por isso que é importante ter avaliação de alguém que é especialista nisso. Um psicólogo, por exemplo. Se tiver dúvidas, a pessoa pode perguntar na escola, que costuma ter profissionais treinados pra identificar esses casos", disse Ribeiro.

"É sempre aconselhável também acionar o Sistema de Garantia de Direitos à criança e ao adolescente, um conselho tutorial ou uma Vara da Infância e da Juventude para encontrar caminhos para uma resposta mais adequada", afirmou Henrique Costa Brojato.

Muitas vezes por se sentir culpada, envergonhada ou acuada, a criança acaba não revelando verbalmente que está ou que viveu uma situação de abuso. Mas há situações também em que ela tenta contar para alguém e acaba não sendo ouvida. Por isso, o principal conselho dos especialistas é sempre confiar na palavra dela.

"Em primeiro lugar, é importante que quando a criança tentar falar alguma coisa, que ela se sinta ouvida e acolhida. Que nunca o adulto questione aquilo que ela está contando. Ou que tente responsabilizá­la pelo ocorrido", diz Ribeiro.

76% dos jovens adiariam faculdade por falta de dinheiro ou bolsa

Sete em cada dez alunos do ensino médio gostariam de ingressar no ensino superior, mostra pesquisa

O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO - Sete em cada dez estudantes gostariam de ingressar no ensino superior logo após concluir o ensino médio. No entanto, 76% deles afirmam que adiariam a entrada na faculdade por não ter condições de pagar (62%) ou não obter bolsa ou financiamento estudantil (14%).
Os dados são de uma pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) que entrevistou 1,2 mil pessoas - entre pais e estudantes do ensino médio - em São Paulo, Rio, Salvador e Porto Alegre. O levantamento foi divulgado nesta terça-feira, 25.
Já entre os pais, 78% gostariam que os filhos entrassem no ensino superior logo após terminarem o ensino médio, mas 62% dizem que eles podem adiar o ingresso por não conseguir a aprovação em uma instituição pública. Adiar o ensino superior por questões financeiras é a preocupação de 53% deles - 32% por não conseguir pagar o curso e 21% por não obter financiamento. 
Conseguir um bom emprego no futuro é apontado como a principal motivação para pais (67%) e filhos (66%). Eles também apontam que é uma exigência do mercado de trabalho - 39% para pais e 28% dos filhos. 
A pesquisa também mostrou que 60% dos jovens que estão no ensino médio já decidiram qual curso querem fazer. A preferência é pelas carreiras mais tradicionais. As cinco graduações mais citadas foram: Direito (7%), Engenharia (6%), Medicina (6%), Administração (5%) e Psicologia (3%).
Concluintes. A pesquisa também ouviu jovens que já concluíram o ensino médio e identificou que 62%, ao se formar, desejavam entrar em uma faculdade, mas 52% já desistiram do ensino superior. Não ter condições de pagar as mensalidades foi apontado por 70% deles como motivo para não dar continuidade aos estudos, 23% por não ter entrado em uma instituição pública e 21% por ter começado a trabalhar. 

Reforma que Portugal fez na educação tem muito a ensinar aos brasileiros


Ilona Becskeházy e Paula Louzano | Missão Aluno

Os portugueses se afastaram de modismos que não transformam o sistema nem geram melhorias estruturantes e concentraram esforços em questões básicas, com foco em disciplinas como a língua portuguesa e a matemática. Com as mudanças, o país saiu do ostracismo e ganhou posição de destaque na Europa.


Respirar fundo acalma o cérebro

suzana herculano-houzel
Suzana Herculano-Houzel
Carioca, é neurocientista treinada nos Estados Unidos, França e Alemanha.

Nervoso? Ansioso? Respire fundo e devagar. A respiração lenta e controlada, integral à prática do yoga e da meditação e tão presente na psicologia popular, às vezes é menosprezada por quem recebe o conselho para ajudar a se acalmar. Mas um estudo mostra que existe de fato um circuito que liga a frequência da respiração ao nível de alerta do cérebro.

Respirar não é opcional: manter-se vivo requer inspirar e expirar, ciclicamente, do nascimento até a morte, cerca de 550 milhões de vezes em uma vida de 70 anos -sem precisar pensar no assunto. É ao mesmo tempo perturbador e libertador pensar que a função é desempenhada dia sim e dia também, esteja você acordado ou dormindo, por apenas alguns milhares de neurônios no bulbo cerebral, na base da sua cabeça.

No camundongo, uns três mil desses neurônios formam um núcleo chamado jocosamente de complexo pré-Bötzinger (o nome não é homenagem a ninguém, mas uma brincadeira com o fato de tantos outros serem), ou CpB para os íntimos. 

Da atividade auto-organizada por esses poucos milhares de neurônios surge o ritmo da inspiração, como crianças de mãos dadas brincando de senta-levanta seguindo ordens de ninguém em particular, mas de todos ao mesmo tempo (eu falei que era perturbador).

Dos 3 mil neurônios, 175 têm um papel particular, segundo um estudo americano: ativam o locus coeruleus, nome chique em latim para o "lugar azul" do cérebro devido à abundância de noradrenalina produzida ali, de coloração azulada, e despejada cérebro e medula afora.

É o locus coeruleus que nos deixa atentos e com músculos tensos, prontos para a ação. Quanto mais noradrenalina libera, mais ficamos alertas e crispados. Com atividade demais, o alerta é tanto que começa a ser contraproducente, chegando à angústia e dor muscular. Não é surpresa, a esta altura, descobrir que só adormecemos quando o locus coeruleus é completamente silenciado.

Esses 175 neurônios, portanto, atrelam o nível de alerta cerebral à respiração: qualquer acontecimento que acelere a respiração nos deixa automaticamente mais atentos e alertas, do exercício ao estresse. Ficou ofegante, ficou alerta também.

E é que o inverso também é verdade: respirar lentamente, reduzindo de 12 a 20 para talvez apenas entre cinco e seis o número de inspirações por minuto, é capaz de reduzir ao menos pela metade o estímulo que o locus coeruleus recebe do CpB, e assim acalmar corpo e mente. Não é mágica: é neurociência.