quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Brasil matricula menos alunos no ensino médio do que boa parte do mundo

Escola da Vida - Teodoro Zanardi

Brasil matricula menos alunos no ensino médio do que boa parte do mundo

Aumentar a qualidade do ensino médio e torná-lo mais atrativo é uma das necessidades mais urgentes do modelo brasileiro. Teodoro Zanardi mostra, com números, a distância entre os principais países considerados modelo e Brasil.

Motivação de aluno pode vencer barreira social, afirma estudo

PAULO SALDAÑA
DE SÃO PAULO

Não parece haver dúvidas de que jovens motivados podem ter melhores resultados na escola. Mas um estudo com informações do Pisa, a avaliação internacional de aprendizagem, indica que alunos com grau mais elevado de boas atitudes e motivações podem superar barreiras socioeconômicas.

Nas estatísticas educacionais, o nível socioeconômico dos alunos é uma das variáveis mais influentes no sucesso educacional.

Entretanto, ao analisar resultados do Pisa 2015, a consultoria McKinsey concluiu que alunos mais pobres –mas com alto índice de motivação– alcançam resultados superiores a estudantes de nível socioeconômico mais alto, mas com motivação considerada baixa. Pelo menos em ciências, área analisada.

Assim, para alunos que frequentam escolas de baixo desempenho, "uma mentalidade de motivação bem calibrada equivale a saltar para uma condição socioeconômica mais elevada", diz o estudo.

Os alunos brasileiros considerados bem motivados têm nota 18% superior aos menos motivados, segundo o relatório. O comportamento é similar em outras regiões do mundo. Para a América Latina, no geral, a diferença é de 14%.

Ao separar os alunos em quatro níveis socioeconômicos, o estudo mostrou que –no grupo dos mais pobres–os estudantes mais motivados conseguiram média de 400 pontos em ciências, ou 51 pontos a mais do que o obtido pelos menos motivados do mesmo perfil.

A distância de pontuação equivale, segundo a escala do Pisa, a mais de um ano de aprendizagem. Essa média é também superior à obtida por estudante do nível socioeconômico mais elevado, mas com pouca motivação (378 pontos). Já alunos ricos com muita motivação têm média de 434.

Alto nível socioeconômico
100
Alunos bem motivados
200
300
400
Baixo nível socioeconômico
Alto nível socioeconômico
Alunos pobres bem motivados se saem melhor em ciências do que alunos ricos pouco motivados


CRUZAMENTOS

Essa análise foi realizada apenas em ciências (foco do Pisa 2015) e em escolas com desempenho considerado baixo. Elas concentram a maioria dos estudantes do Brasil e da América Latina.

O estudo cruzou informações do questionário respondido por alunos e professores na realização do Pisa com o desempenho na prova. Além de analisar o perfil socioeconômico dos estudantes (com informações como escolaridade e bens dos pais), foram consideradas questões que tentam entender a mentalidade deles.

Um conjunto de questões indica a concordância com relação a afirmações como "trabalhar nas tarefas até que tudo esteja perfeito" e "fazer mais do que o esperado". O Pisa pedia aos alunos que avaliassem a motivação de estudantes hipotéticos.

Quanto maior a concordância com as afirmações, mais motivados foram considerados os estudantes.

"O impacto da motivação foi uma surpresa positiva, principalmente porque mostra como isso pode ser um fator que supera desigualdades socioeconômicas", diz Patricia Ellen, da área de setor público da Mckinsey. Para ela, essas "evidências científicas" podem ser um aliado no debate educacional e no desenho de políticas públicas.

Nos últimos anos, a atenção a competências não cognitivas tem ganhado força após evidências de que características de atitude podem impactar no aprendizado.

Para o professor Ocimar Alavarse, da Faculdade de Educação da USP, essas conclusões da pesquisa indicam não apenas o perfil de comportamento, mas têm relação com o que ocorre na escola.

"A escola não consegue controlar todas as condições subjetivas dos alunos, mas há alguns aspectos que podem influenciar predisposições", diz. "Depende muito do professor incentivar o aluno a não desistir, não dar sinais negativos quando ele erra."

Os dados revelam que apenas 42% dos alunos de baixa condição socioeconômica têm boa motivação. No perfil socioeconômico mais alto, são 72% dos alunos. Alavarse afirma que as condições favorecem as dificuldades.

"Escolas com alunos mais pobres têm em geral estudantes com trajetórias escolares de pouco sucesso, professores menos estáveis."

O mesmo estudo comparou outras dimensões, concluindo que o número de horas de aulas por dia é relevante para o desempenho. Há uma distância de 23 pontos no Pisa entre alunos que têm de 4 a 4,5 horas de aulas por dia e os que têm 5 a 5,5 horas.

Alunos que tiveram acesso à educação infantil na América Latina também têm melhores resultados. Sobre tecnologia, o projetor e o computador –utilizados pelo professor– são os dispositivos mais relevantes na comparação, por exemplo, com tablets ou lousa eletrônica.

Média de países ricos (OCDE)
493
377
Alunos pouco motivados
445
Alunos bem motivados
401
Média do país
493
Média de países ricos (OCDE)
COMO A MOTIVAÇÃO É MEDIDANo questionário do Pisa, alunos indicam o grau de concordância com afirmações como “trabalhar nas tarefas até que tudo esteja perfeito” e “fazer mais do que o esperado”


O QUE É O PISA

Um exame internacional de aprendizagem realizado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico)

O QUE AVALIA

O desempenho de alunos de 15 anos em leitura, matemática e ciências. A cada edição, há um foco maior em uma disciplina -em 2015, foi em ciências 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Os jovens “nem nem”

Mozart Neves
Diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna. Foi reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), secretário de Educação de Pernambuco (2003-2006) e presidente do Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação). Foi presidente executivo do Todos Pela Educação (2007-2010)

Em meu último artigo aqui na coluna, falei sobre o impacto do número de anos de estudo sobre a produtividade. Citei também que seria preciso oferecer uma educação com significado, capaz de dialogar com o mundo do jovem e de atender assim as novas demandas do século XXI. Mostrei que, quanto maior é a escolaridade de uma sociedade mediante a oferta de uma educação plena, maior a produtividade do país.

O Brasil começa a dar os primeiros passos na oferta de uma educação integral em tempo integral para o Ensino Médio – a chamada escola do jovem. Esse é o caso, por exemplo, da rede estadual de Pernambuco, que já possui metade das escolas de Ensino Médio em tempo integral e ocupa posição de liderança, juntamente com São Paulo, no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).
Outra experiência bem-sucedida foi iniciada, há cinco anos, na rede estadual do Rio de Janeiro numa parceria do Instituto Ayrton Senna com a Secretaria de Educação daquele Estado, e que está sendo agora levada para Santa Catarina.
O caminho é longo, como nos ensina o próprio estado de Pernambuco. Foram treze anos desde a primeira escola com esse modelo – o Ginásio Pernambucano, iniciado ainda durante minha gestão como secretário de Educação. Foram cinco governadores para que Pernambuco saísse das últimas posições no ranking do Ensino Médio até ocupar a liderança, sendo um dos quatro estados a cumprir a meta do Ideb. Isso apenas reforça a necessidade de se manter a continuidade das boas políticas públicas, independentemente de governos, para que as mudanças em escala possam acontecer.
Entretanto, mesmo no caso de Pernambuco, há ainda um percentual significativo de jovens (14%) na faixa etária de 15 a 17 anos que não estudam e nem trabalham. Para esta faixa etária, Pernambuco ocupa, juntamente com os estados do Rio Grande do Norte e do Mato Grosso do Sul, a 4ª pior posição no ranking nacional de jovens conhecidos como “nem nem”.
Alargando agora para a faixa etária de 15 a 29 anos, o Brasil tem cerca de dez milhões de jovens nessa situação. E esse número, infelizmente, só faz crescer, de acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2015, o percentual de jovens “nem nem” foi de 22,5% para esta faixa etária, crescendo 2,5 pontos percentuais em relação a 2014 (20%) e 2,8 frente a 2005 (19,7%).
Portanto, o Brasil vai ter que lutar como um espadachim que deve esgrimir com os dois braços. Um deles para oferecer em escala uma escola de Ensino Médio com significado para o jovem, para que ele não só permaneça, mas aprenda. O outro braço terá como missão trazer essa geração “nem nem” de volta à escola, inclusive para que possa se preparar adequadamente para o mundo do trabalho. É, de fato, uma árdua e difícil tarefa, mas não temos escolha, se queremos uma nação plena de oportunidades.

Ensino superior público é muito pequeno, enquanto o básico é muito grande

Escola da Vida - Antônio GoisOs desafios da educação no Rio de Janeiro e no Brasil.

É preciso evitar uma leitura rápida e sem cuidado do estudo que mostrou diferença entre os investimentos nas redes pelo Brasil e por outros países. É necessário cruzar informações com outras pesquisas. Solução simplista não serve, não é só realocar orçamento.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

OCDE: Brasil está entre os que menos gastam com ensino primário, mas tem investimento 'europeu' em universidade

DANIELA FERNANDES
BBC BRASIL, DE PARIS

O Brasil é um dos países que menos gastam com alunos do ensino fundamental e médio, mas as despesas com estudantes universitários se assemelham às de países europeus, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

No estudo Um Olhar sobre a Educação, divulgou nesta terça-feira, a entidade analisa os sistemas educativos dos 35 países membros da organização, a grande maioria desenvolvidos, e de dez outras economias, como Brasil, Argentina, China e África do Sul.

O Brasil gasta anualmente US$ 3.800 (R$ 11,7 mil) por aluno do primeiro ciclo do ensino fundamental (até a 5ª série), informa o documento. O valor em dólar é calculado com base na Paridade do Poder de Compra (PPC) para comparação internacional.

A cifra representa menos da metade da quantia média desembolsada por ano com cada estudante nessa fase escolar pelos países da OCDE, que é de US$ 8.700. Luxemburgo, primeiro da lista, gasta US$ 21,2 mil.

Entre os países analisados no estudo, apenas seis gastam menos com alunos na faixa de dez anos de idade do que o Brasil, entre eles a Argentina (U$ 3.400), o México (US$ 2.900) e a Colômbia (U$ 2.500). A Indonésia é o país lanterna, com gastos de apenas US$ 1.500.

Nos anos finais do ensino fundamental e no médio a situação não é diferente. O Brasil gasta anualmente a mesma soma de US$ 3.800 por aluno desses ciclos e também está entre os últimos na lista dos 39 países que forneceram dados a respeito.

A média nos países da OCDE nos últimos anos do ensino fundamental e no médio é de US$ 10,5 mil por aluno, o que representa 176% a mais do que o Brasil.

ENSINO SUPERIOR

A situação no Brasil muda em relação aos gastos com estudantes universitários: a quantia passa para quase US$ 11,7 mil (R$ 36 mil), mais do que o triplo das despesas no ensino fundamental e médio.

Com esse montante, o Brasil se aproxima de alguns países europeus, como Portugal, Estônia e Espanha, com despesas, respectivamente, por aluno universitário, de US$ 11,8 mil, US$ 12,3 mil e US$ 12,5 mil, e até ultrapassa países como a Itália (US$ 11,5 mil), República Checa (US$ 10,5 mil) ou Polônia (U$ 9,7 mil).

A média nos países da OCDE é de US$ 16,1 mil, puxada por despesas mais elevadas de países como os Estados Unidos, Noruega, Luxemburgo e Reino Unido.

Os gastos no Brasil com alunos universitários também superam os da Coreia do Sul, de U$ 9.600.

O país asiático, que gasta um pouco mais com o ensino fundamental (U$ 9,7 mil), está entre os primeiros do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) da OCDE. O teste mede conhecimentos de estudantes na faixa de 15 anos nas áreas de ciências, matemáticas e compreensão escrita.

Já o Brasil está entre os últimos no teste do PISA e apenas 17% dos jovens entre 25 e 34 anos têm diploma universitário, um dos índices mais baixos entre os países do estudo.

Em média, os membros da OCDE gastam quase a metade a mais por estudante do ensino universitário do que com os do primário, diz o documento, "enquanto Brasil e México gastam três vezes mais".

A OCDE vem destacando nos últimos estudos que houve aumento dos investimentos públicos em educação no Brasil. Em porcentagem do PIB, o Brasil está próximo da média dos países da organização.

Os gastos com educação totalizaram 4,9% do PIB brasileiro (último dado disponível no estudo). A média dos países da OCDE é de 5,2% do PIB.

Ao mesmo tempo, a OCDE vem afirmando que é preciso aumentar os gastos por aluno do ensino fundamental e médio, considerados bem abaixo do montante considerado adequado pela organização.

Apesar da melhora no nível de investimentos em educação no Brasil, o Brasil continua entre os últimos do ranking dos testes de avaliação do PISA.

Na avaliação da organização, isso ocorre porque houve maior acesso à educação no país, com a inclusão no sistema de ensino de alunos desfavorecidos e com atrasos de aprendizagem, o que acaba puxando o desempenho geral dos estudantes brasileiros para baixo.

Metade dos brasileiros adultos não concluiu o ensino médio

Brasil tem uma das piores médias entre os países avaliados em estudo comparativo sobre índices educacionais entre 41 países, só atrás da Índia

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

SÃO PAULO - Metade dos brasileiros adultos (entre 25 e 64 anos) não concluiu o ensino médio. O número é mais do que o dobro em relação à média (22%) dos países da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico (OCDE), que traz nesta terça-feira, 12, um estudo comparativo sobre índices educacionais entre 41 países, o Education at a Glance. Além disso, 17% não terminaram nem mesmo o ensino fundamental, ante 2% na média da OCDE. Os dados, divulgados hoje, se referem ao ano de 2015. 

Segundo o documento, o Brasil tem uma das piores médias entre os países avaliados, só atrás da Índia. "Enquanto na maioria dos países da OCDE e parceiros há apenas 5% dos adultos sem atingir a educação primária (ensino fundamental), há algumas exceções notáveis: Brasil (17%), Costa Rica (3%), Índia (46%), México (14%) e África do Sul (15%)."
Além da dificuldade de acesso, parte dos estudantes não conseguem concluir a etapa na idade certa. Segundo o relatório, só 53% dos adolescentes de 15 anos chegam ao ensino médio, com 34% deles ainda no ensino fundamental. Na média da OCDE, 90% dos estudantes entre 15 e 17 anos já chegam nesta etapa.
O relatório indica, no entanto, avanço no País: entre os mais jovens (25 a 34 anos), a fatia de estudantes que concluíram o ensino médio subiu de 53%, em 2010, para 64%, em 2015. 
Na educação infantil os índices também estão abaixo da média. Só 37% das crianças de dois anos e 60% das que têm três anos estão na creche, ante as médias de 39% e 78%, respectivamente, na OCDE. Na pré-escola, o índice chega a 79%, também abaixo da OCDE, com 87%, e de outros países da América Latina, como Chile (86%), Argentina (81%) e Colômbia (81%).
Universidade. O acesso ao ensino superior avançou no Brasil, mas ainda está abaixo da média. Só 15% dos adultos (25-64 anos) chegam a esta etapa do ensino, abaixo de países como Argentina (21%), Chile (22%), Colômbia (22%), Costa Rica (23%) e México (17%). Por outro lado, o País está à frente de outros do BRICS: China (10%), Índia (11%) e África do Sul (12%).
O relatório aponta também a desigualdade no acesso à universidade. Enquanto 35% dos jovens entre 25 e 34 anos chegam a esta etapa no Distrito Federal, só 7% a alcançam no Maranhão, por exemplo.
Por causa do baixo índice de aprovados, a diferença de salário entre quem faz faculdade e quem não faz é maior no Brasil do que em outros países: uma graduação pode render salário até 2,4 vezes maior no País, ante 1,5 na média da OCDE. Se o profissional tiver doutorado, a diferença é de 4,5 vezes, mais do que o dobro da OCDE (2).
Salário. O  Education at a Glance mostra, mais uma vez, que o salário pago aos professores brasileiros também está abaixo da média da OCDE - paga-se 13 mil dólares por ano, em média, ante 30 mil dólares nos outros países. O número de alunos para cada docente também é maior - são 14 crianças, ante 8 na média da OCDE.

Para pré-adolescentes e pré-universitários, só existe a pós-verdade

joão pereira coutinho
João Pereira Coutinho
Escritor português, é doutor em ciência política.

Um amigo contava-me há tempos que tivera uma conversa séria com o filho pré-adolescente. Sobre a internet. Sobre os perigos da internet.

Não, o problema não estava em sites pouco frequentáveis. Estava na informação "inofensiva" de sites igualmente "inofensivos". O filho acreditava em tudo que lia na tela. Se estava na rede e se alguém tivera o poder de entrar nessa rede, os fatos só podiam ser verdadeiros.

O pai explicou-lhe que não. As falsidades abundam. Era preciso confirmar –uma vez, duas, três– aquilo que lemos. Os livros são mais fiáveis do que a internet, disse ele. E, mesmo na internet, há sites "oficiais" (de organizações, mídia etc.) que não podem ser confundidos com blogs. A maioria, pelo menos.

O filho escutou e não queria acreditar. Nem a Wikipédia era de confiança?
Falamos de um pré-adolescente, repito. Nos pré-universitários, a questão é outra: leio no "Washington Post" que um dos esforços do Newseum de Washington –instituto que defende a liberdade de expressão– tem sido ensinar que nem tudo são "fake news".

Os pré-universitários cresceram com essa perversa expressão. Moral da história? Se tudo é "fake", não há nada em que acreditar. Ou, pior, é possível acreditar em qualquer coisa, consoante o gosto e o momento: a verdade não passa de uma quimera.

O filho do meu amigo tinha excesso de credulidade. Os americanos pré-universitários têm excesso de incredulidade. Mas os extremos, como sempre, tocam-se: para pré-adolescentes e pré-universitários, só existe a pós-verdade.
Confesso que o paradoxo não me espanta. Digo mais: a história do conhecimento humano sempre se fez contra o dogma, por um lado, e a falsidade, por outro.

O melhor dos exemplos está em Sócrates, o filósofo da Atenas gloriosa do século 5 a.C.. Acabei de ler uma breve biografia do bicho escrita por Paul Johnson. Sempre gostei de ler Johnson: não tanto pela originalidade do que diz mas, antes, pela originalidade de como diz. Recomendo o seu "Modern Times", por exemplo, ou "Art: A New History", que tenho como companhia permanente.

O seu "Socrates" (Viking, 208 págs.) não tem o fôlego das grandes obras. E, sobre a questão arcana de separar o verdadeiro Sócrates da versão que nos chegou via Platão, os estudos de Gregory Vlastos são inultrapassáveis –e Johnson sabe disso.

Mas o historiador ilumina, com a elegância de estilo habitual, que os inimigos de Sócrates são os mesmos que hoje enfrentamos.

De um lado, a opinião estabelecida, o fato inquestionado, o rumor doutoral –sombras de conhecimento que encontramos disseminadas pela internet e que conferem às multidões uma intolerância que não teria espantado o filósofo.

Do outro, o relativismo cognitivo, a descrença na verdade, a conduta amoral de quem pensa que tudo é "construção" e "manipulação" –em suma, a cartilha dos sofistas que enxameavam Atenas, ensinando a retórica e a arte da persuasão a jovens ricos e politicamente ambiciosos.

Perante esses dois inimigos, Sócrates era, nas palavras de Johnson, um "conservador radical" –e não um "radical conservador", como Platão. Segundo Johnson, uma das formas de distinguir ambos reside precisamente aqui: Platão diz-nos sempre o que pensar; Sócrates indica-nos como pensar.

E, nesse processo dialético, a certeza dogmática ou o niilismo epistemológico são demolidos com ceticismo e ironia. Sócrates acreditava no conhecimento, sim, mas não na arrogância dos presumidos conhecedores.

E hoje? Onde mora a verdade para pré-adolescentes e pré-universitários?

A pergunta deve ser respondida pelas universidades (aquelas que não são centros de doutrinação), pela mídia (aquela que não trocou a independência pela cartilha ideológica) e por qualquer pensador livre (desde que seja realmente livre). Mas o exemplo de Sócrates é uma boa herança.

Difícil? Fato. E Sócrates, convém lembrar, não teve um final feliz: foi condenado à morte por corromper a juventude de Atenas e desrespeitar os deuses da cidade –duas acusações que são a medida da sua grandeza perante o fanatismo dos seus carrascos.

Mas, se ainda hoje lemos o filósofo, é porque a defesa das causas perdidas, no fim de contas, é a defesa das causas vencedoras.