segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Dar mesada para os filhos é um erro, diz especialista

Em livro, João Kepler Braga critica a mesada para os filhos e explica os motivos para ir na contramão da maioria dos planejadores financeiros

Por Anderson Figo


São Paulo — Como é a relação do seu filho com o dinheiro? Este é um assunto que interessa a todos os pais, especialmente em um país como o Brasil, onde falar sobre finanças ainda é um tabu para a maioria das famílias. Se você acha que a melhor alternativa para abordar o tema com os pequenos é a adoção de mesada (ou semanada), talvez você precise rever alguns conceitos.
Pelo menos essa é a avaliação do especialista em empreendedorismo e educação financeira João Kepler Braga, que escreveu o livro “Educando filhos para empreender”, da Editora Ser Mais. Segundo ele, se por um lado a mesada ensina às crianças a ter organização, controle e disciplina, por outro passa uma sensação equivocada de que sempre haverá dinheiro garantido.
“Devemos acostumar nossos filhos à necessidade de trabalhar e não à de esperar um salário fixo no final do mês. Não haverá empregos formais para todos os jovens da nova geração, por isso a importância de ensiná-los a encontrar alternativas”, afirma.
O especialista defende que os pais se perguntem por que dar ou não mesada aos filhos. “Na sua cabeça seus motivos são claros? E para o filho, como ele recebe e reage com ao seu ponto de vista? Geralmente, os pais repassam o que viveram. Quem nunca ganhou mesada na vida, provavelmente não dará para os filhos, mas ensinará como ele poderá conseguir, porque foi assim com ele.” Filhos rebeldes ou pais sem autoridade? 
Foi o que aconteceu com ele próprio. “Meus pais nunca puderam me dar tudo o que eu queria. Chegou um momento em que meus amigos tinham tudo e eu, nada. Mais para frente, quando a gente se tornou adultos, eu me vi em uma situação financeira melhor do que a de muitos deles”, conta Braga, que hoje é investidor-anjo através da Bossa Nova Investimentos, empresário e escritor.
“Saber lidar com dinheiro não é uma tarefa fácil nem para os adultos, imagine só para uma criança. Até que a gente compreenda quais são os limites e as necessidades reais, a caminhada é longa. Determinar prioridades e saber dizer não quando você deseja comprar algo, mas entende que não é o melhor momento, é o maior sinal de maturidade e controle financeiro. Para o bem do seu filho, comece a fazer isso desde cedo, não dê tudo que ele pede de forma desenfreada, porque essa atitude só irá deixá-lo cada vez mais consumista e fútil”, avalia.
Os três filhos de Braga sabem o que é e como lidar com dinheiro desde cedo. A caçula Maria Braga, de 12 anos, produz cupcakes desde os 8 anos. O Davi Braga de 15 anos, é fundador de uma startup chamada List-IT, de lista de material escolar. O filho mais velho, de 17 anos, o Theo Braga, é produtor de eventos e vende ingressos.
“Desde pequenos, sempre quis acostumá-los a não ter ‘nada garantido’ (…). Não quero meus filhos focados em ‘empregos’, os quero pensando em ‘trabalho’, o que é bem diferente”, diz. “O que eu faço em relação a dinheiro: dou o suficiente para o lanche na escola e negocio a cada momento e a cada nova necessidade. Procuro promover e nutrir valores como conquista, competição, realização, gratidão, humildade, resiliência, tenacidade, liderança e interdependência.”
Braga garante que seus filhos têm uma “vida normal”. “Eles vão para a escola, tiram boas notas, têm amigos, saem, namoram, fazem tudo o que qualquer adolescente faz”, conta. “Eu, enquanto pai, acompanho a dedicação deles para o empreendedorismo de perto e não permito que isso tome uma parcela significativa da vida deles ou os atrapalhe de alguma forma.”
O especialista concorda que o estilo de vida empreendedor também tem que respeitar a vontade dos pequenos. “Nem todo filho vai querer ser empreendedor desde pequeno ou demonstrar alguma vontade para isso, mas é importante que os pais estejam atentos para orientá-los de forma correta caso seja alguma coisa que parta deles próprios.”

Na contramão

A tese de que a mesada ou a semanada têm aspectos negativos para a formação das crianças vai na contramão do que a maioria dos planejadores financeiros defende. Para Álvaro Modernell, sócio da Mais Ativos, em vez de os pais quererem trazer as crianças para o universo adulto, é preciso fazer o caminho contrário. “Há uma tendência de querer tratar as crianças como miniadultos na hora de falar com elas sobre dinheiro, o que está errado”, diz.
Não adianta querer abordar o assunto quando chega uma conta de luz ou na hora de pagar a conta do restaurante. É a própria criança que vai determinar o timing em que a educação financeira deverá ser abordada. Por exemplo, quando ela pedir para comprar um brinquedo ou um lanche em um momento inadequado. 
“Se ela quebrar um brinquedo, os pais nunca devem rapidamente substituí-lo por outro como se nada tivesse acontecido. Assim, ela começará, aos poucos, a dar valor ao dinheiro que foi gasto por aquele objeto”, afirma Modernell. “É importante explicar isso de uma forma simples. Quanto mais lúdico, maior é a chance de a ideia emplacar.”
O educador financeiro defende que as crianças devem ter o próprio dinheiro, recebido através da mesada ou semanada. E o valor vai depender de cada um. “Não há uma regra para isso. Vai depender do estilo de vida da família, da condição dos pais e da realidade de cada criança”, diz Modernell. “O que eu recomendo é que, se os pais estão em dúvida, por exemplo, se dão 10 reais ou 15 reais por semana aos filhos, eles devem optar sempre pelo menor valor”, completa.
Isso porque é, sem dúvida, muito mais fácil subir o valor da mesada/semanada lá na frente do que reduzi-lo. “Além disso, deixar as crianças com menos recursos também vai forçá-las a controlar melhor seus gastos, o que acaba sendo positivo”, explica.
O consultor financeiro e autor de livros de finanças Gustavo Cerbasi, da Mais Dinheiro, também defende a mesada. E no livro “Pais Inteligentes Enriquecem seus Filhos”, da Editora Sextante, ele recomenda a mesada como um artifício para se abordar as questões do dinheiro, visando praticar a educação financeira.
“João Kepler não pratica a mesada com seus filhos, sequer recomenda o uso do instrumento. Entretanto, sem dúvida alguma, educar filhos para empreenderem é um avanço incrível nessa proposta, mesmo que a mesada esteja ausente. O papel da mesada é meramente ter um motivo para pais e filhos conversarem sobre dinheiro”, diz.
“Quando se trata de uma educação empreendedora, esse motivo extrapola a questão financeira: pais e filhos passam a ter motivos para conversar sobre finanças, estratégia, marketing, frustrações e planos mais ambiciosos. Ou seja, trata-se de uma evolução no modelo proposto para a educação financeira”, completa o consultor, que escreve o prefácio do livro de Braga.

domingo, 8 de outubro de 2017

Educar aluno não é apenas ensinar conteúdo, diz professor de Harvard

Fernando Reimers, diretor da Fac Educacao de Harvard
Fernando Reimers, diretor do Programa de Políticas de Educação Internacional da Universidade Harvard


ÉRICA FRAGA
DE SÃO PAULO

"As escolas existem para educar os alunos, não para servir aos interesses de adultos que trabalham com eles, políticos ou outros grupos".
No entanto, segundo Fernando Reimers, 58, autor da frase e diretor do Programa de Políticas de Educação Internacional da Universidade Harvard, essa lógica muitas vezes é invertida.
Um exemplo de desvio ocorre quando são indicadas a cargos da área "pessoas leais, sejam talentosas ou não".
"Isso é lamentável porque reduz a profissionalização da educação e as oportunidades para que os alunos aprendam", diz Reimers, que nasceu e cresceu na Venezuela.
Ele esteve em São Paulo em setembro para divulgar o livro "Empoderar crianças e jovens para a cidadania global", recém-publicado em português pela Fundação Santillana e pela Editora Moderna.
A obra propõe um currículo para o desenvolvimento de competências globais, como a capacidade de pensar em soluções para problemas que ameaçam a humanidade, e habilidades socioemocionais, como criatividade e empatia.
*
Folha - A educação global tem se tornado mais importante?
Fernando Reimers - A aceleração da globalização está aumentando a necessidade de que todos entendam como é viver em um mundo cada vez mais integrado. O Fórum Econômico Mundial publica todos os anos um relatório sobre os maiores riscos que a humanidade enfrenta. O mais recente identifica eventos climáticos extremos, migração involuntária em larga escala, grandes desastres naturais, ataques terroristas de grande dimensão e incidentes maiores de fraudes de dados como os maiores riscos. É fácil ver como o comportamento humano está no centro de cada um deles. Nenhum deles é inevitável, todos resultam de escolhas do homem sobre preveni-los ou não, ou como mitigar impactos.
A educação para a cidadania global é essencial para vivermos em um mundo inclusivo de forma sustentável.
Há quem veja o Brexit [saída do Reino Unido da União Europeia] e a eleição de Donald Trump nos EUA como sinais de um retrocesso na globalização. Isso reduz o apelo por uma educação desse tipo?
De fato, um crescente populismo, nos EUA e em outros países, desafia a ordem global criada depois da Segunda Guerra com o estabelecimento das Nações Unidas para facilitar a colaboração entre as nações. As fontes desse populismo incluem o descontentamento criado pela globalização, talvez pela rapidez com que transformou comunidades e nações; as persistentes desigualdades econômicas e sociais; e a incerteza causada pelas mudanças geradas pela automação e pelo comércio.
Há também um descontentamento crescente com instituições e uma desconfiança crescente em relação a especialistas e elites. Ainda não sabemos aonde esse populismo nos levará. Se a história nos serve de algo, ele prejudicará as instituições econômicas e democráticas, e, em casos extremos, levará à instabilidade social, violência e ao rompimento da democracia.
Devemos esperar que instituições globais e acordos como os objetivos de desenvolvimento sustentável, ou a declaração universal dos direitos humanos, serão desafiados. Isso ameaça perspectivas de paz e sustentabilidade. Também é provável que a educação para a cidadania global se torne mais contenciosa.
Por que o debate sobre a importância das chamadas habilidades socioemocionais na educação tem ganhado fôlego?
Há um crescente reconhecimento de que a boa educação precisa ser holística. Educar alunos para a vida demanda não só ensiná-las conteúdo, mas que elas aprendam a viver, administrar suas vidas, e se relacionar com os outros.
O currículo que vocês propõem contempla essas habilidades?
Sim. Nós desenvolvemos um modelo de competência que inclui ética, conhecimento, competências sociais, autoconhecimento e modelos de pensamento alinhados ao desenvolvimento de capacidades que ajudariam os alunos a desenvolver uma consciência global e entender os desafios globais mais críticos.
O Curso Global foi inicialmente feito para a Avenues, uma escola de elite. Como é possível adaptá-lo para outros contextos socioeconômicos?
Desde que publicamos o livro em inglês em agosto de 2016, milhares de professores e escolas, públicas e privadas, nos EUA e em outros países, o têm usado para apoiar seus esforços para educar cidadãos globais. Como estou em contato com muitos desses professores, ficou claro que uma versão mais simples do currículo era necessária para facilitar a adoção em larga escala.
Educadores que trabalham em áreas menos favorecidas às vezes alegam ser difícil adicionar novos componentes aos currículos escolares quando já é difícil ensinar o básico, como matemática e português. Eles estão certos?
A questão central que deveria guiar nossos esforços educacionais é como ir de encontro às necessidades dos alunos e empoderá-los para que se tornem os arquitetos de suas próprias vidas e possam contribuir para suas comunidades. As escolas existem para educar os alunos, não para servir aos interesses de adultos que trabalham com eles ou na administração educacional, políticos ou outros grupos. Certamente, deveríamos ouvir os professores quando expressam as limitações que sentem em sua capacidade de ensinar o currículo. É compreensível que alguns professores talvez precisem de apoio sob a forma de desenvolvimento profissional. Esse apoio deveria ser providenciado. Mas o fato de que algo é desafiador não deveria significar que não pode ser feito.
Esse equívoco sobre o papel da educação ocorre com frequência?
A educação pública é a maior organização em muitos países. É uma instituição boa para ajudar os estudantes a aprenderem, mas também emprega pessoas, compra bens e serviços e permite que os governos avancem com suas agendas.
Idealmente, esses objetivos estão bem alinhados. Por exemplo, um governo poderia avançar com sua legitimidade indicando indivíduos muito capazes para liderar o setor. Algumas vezes, no entanto, o governo indica pessoas que são fiéis a ele, capazes ou não. Isso é lamentável porque reduz a profissionalização da educação e as oportunidades para que os alunos aprendam.
Como convencer formuladores de políticas públicas de que seus esforços para implementar um currículo como o Curso Global serão recompensados?
O objetivo é garantir que as escolas estejam ensinando de uma forma que seja relevante para o mundo em que os estudantes viverão. É possível gastar muito tempo administrando esforços para aumentar a capacidade das escolas para melhorar seu desempenho em metas que são cada vez mais irrelevantes para os tempos em que vivemos.
Isso acontece muito?
Sim, acho que a maioria dos sistemas que desenvolvemos para prestação de contas têm instituições e indivíduos que são responsabilizados por atingir metas bem estabelecidas e aceitas, mas não controversas. Eles encorajam as pessoas a se esforçar atingindo metas do passado ou do presente, mas não do futuro.
Avançar com uma educação para formar cidadãos globais é preparar alunos que entendam as tendências globais atuais e como elas influenciarão suas vidas. Precisamos de líderes que entendam esse objetivo. Isso seria liderar para a relevância. Em contraste, criar condições para que os alunos aprendam a ler é também importante, mas é muito mais fácil por se tratar de um objetivo bem estabelecido, tradicional e não controverso. 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

'Realização é a capacidade de se encontrar naquilo que se faz'


SÁBADO, 07/10/2017, 17:00Show da Notícia - Entrevista


O professor Mario Sergio Cortella, comentarista da CBN, participou de um talk show com Fabíola Cidral na Livraria Cultura - Conjunto Nacional, em São Paulo. Cortella fala sobre o livro ‘Qual a tua obra? Inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética’. O livro, que já vendeu mais de 500 mil exemplares, traz reflexões sobre a vida.

O problema essencial é que as crianças não estão aprendendo





QUINTA, 05/10/2017, 10:29Escola da Vida - Antônio Gois

Passá-las de série também não vai resolver o problema, apesar de reduzir a evasão. Reprovar, também não. O que resolve é uma política pública continuada.

Vai demorar, mas religiões cairão em desuso, diz historiador da ciência

O historiador científico e escritor Michael Shermer
O historiador científico e escritor Michael Shermer

SALVADOR NOGUEIRA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Pode levar séculos, mas as religiões vão cair em desuso. A predição é de Michael Shermer, historiador da ciência e escritor americano que fundou a Sociedade dos Céticos nos EUA.

"Em países europeus, onde há bons sistemas de proteção social, eles não precisam de religião. Essa é uma das razões por que os percentuais de religiosos são bem mais baixos lá do que em países americanos, incluindo a América do Sul", diz Shermer.

O escritor esteve em São Paulo para participar do 1º Seminário Internacional Scientific American Ciência e Sociedade e conversou com a Folha sobre os desafios de disseminação da cultura científica no momento atual, permeado por "fake news" e ataques à ciência.

Otimista, Shermer acredita que o momento atual seja um caso típico de "três passos à frente, dois atrás", mas se preocupa com o fenômeno das "bolhas" de isolamento criadas pelas redes sociais.

"Somos xenofóbicos e você pode classificar pessoas em qualquer categoria que quiser, não apenas cor da pele ou gênero, mas partido político, ideologia, crenças religiosas."
E como se elevar acima da cacofonia da internet e vencer a noção errônea de que a ciência é apenas uma "narrativa", uma "versão" dos fatos? Para ele, o segredo está na educação infantil.

"Precisamos ensinar às crianças que há um mundo real e que podemos saber algo a respeito dele, e a ciência é a melhor ferramenta que temos, e ensinar aos estudantes não só os fatos da ciência, mas como os cientistas pensam sobre as coisas."
*
Folha - Como o sr. vê o cenário da divulgação científica? Há dificuldades ou é uma impressão criada pelas redes sociais?
Michael Shermer - As duas coisas. Quer dizer, há mais ataques à ciência e à verdade, há mais "fake news", fatos alternativos, clickbait [caça cliques], todo esse lixo na internet, mas, por outro lado, nós todos podemos ter nossas páginas web, nossos próprios canais no YouTube, podemos fazer nossos filmes, programas de TV, blogs, podcasts e assim por diante. Então é como as publicações de papel, que cortam para os dois lados. Ela imprime Shakespeare e imprime "Mein Kampf" [autobiografia de Hitler]. Tudo que podemos fazer é seguir adiante e bolar ferramentas melhores de comunicação.
Outro problema é o fato de as empresas de redes sociais, como o Facebook, terem algoritmos que o alimentam com notícias baseadas no que você já está buscando, então sua bolha vai ficando cada vez pior, mesmo que você não se esforce para isso. Você tem de ativamente procurar e ler pontos de vista contraditórios.

Mas as pessoas não fazem isso.
Não fazem. Acho que uma solução é alguém bolar um aplicativo –provavelmente alguém já fez– que contorne isso e envie automaticamente para você informações que são de algum outro jornal com o qual você não concorda.

Não seria uma forma limitada de contornar? A maioria das pessoas não ficaria irritada?
Está certo. O que fazer quanto a isso? Então, eu não sei.

Isso o preocupa?
Sabemos por estudos de cientistas políticos que os partidos estão ficando mais extremados, estão se afastando do centro. Quer dizer, os eleitores indecisos, aquele grupo do centro está ficando menor, enquanto esquerda e direita estão ficando maiores e se afastando. E isso, em parte, é alimentado pela bolha.
Isso me preocupa, porque a mente humana é projetada para fazer isso. Somos muito xenofóbicos e você pode dividir, classificar pessoas em qualquer categoria que quiser, não apenas cor da pele ou gênero, mas partido
político, ideologia, crenças religiosas.

Parece que a maioria das pessoas vê a ciência como uma narrativa, mais uma versão, e não algo que você teste e deixe a natureza arbitrar.
Acho que a resolução disso começa com educação primária. Precisamos ensinar às crianças que há um mundo real e que podemos saber algo a respeito dele, e a ciência é a melhor ferramenta que temos, e ensinar aos estudantes não só os fatos da ciência, mas como cientistas pensam sobre as coisas. Que não há certezas. Há hipóteses provisórias que testamos e progredimos e temos modelos cada vez melhores de como o mundo funciona, mas é um processo contínuo.
É mais como um modo de pensar sobre o mundo e abordar questões. É disso que se trata o pensamento crítico. Nós ensinamos como pensar, não ensinamos o que pensar.

Mudando de assunto para a ameaça nuclear, ainda não nos livramos dela, como podemos ver no noticiário.
Há bem menos armas nucleares agora do que quando elas atingiram o pico, em 1987. Havia, acho, cerca de 70 mil armas nucleares no mundo inteiro. São cerca de 10 mil agora. Então tivemos algo como uma redução de 80%. Isso é bastante. Mas teríamos de chegar abaixo de mil para impedir a extinção da nossa espécie ou outra grande catástrofe.
Trump tuitou dizendo que Clinton, Bush e Obama fracassaram com a Coreia do Norte, e que ele não ia fracassar.
Eles não falharam. Nada aconteceu e isso é sucesso. Nós não queremos que esse cara faça nada, então é só apertar as sanções econômicas e é assim que funciona. Não houve guerras, então na verdade está funcionando.

Mas também há o argumento de que a Coreia do Norte é um perigo crescente.
Sim, talvez sim, porque Kim Jong-un desenvolveu mísseis. Pode ser que os queira para defesa. Para que seria?
Ele realmente os usaria? Duvido. Ele não é um doido religioso. Eu ficaria mais preocupado se o Estado Islâmico pegasse uma arma nuclear, porque esses caras, eles querem morrer, eles acham que vão para o céu, eles realmente acreditam nesse papo de doido.

O sr. já foi religioso e se tornou ateu. Como lidou com essa grande mudança?
Eu não fui criado com religião. Foi uma experiência pela qual eu passei com meus colegas no ensino médio, mas fiz isso por sete anos e levava a sério. E fico feliz de ter feito isso, porque eu realmente entendo a mentalidade religiosa.
Em uma bolha, como uma escola religiosa, cercado por colegas de religião, há um escudo em torno de você protegendo-o de ideias de fora.
Quando eu abandonei minha religião, foi meio que "tanto faz". Acho que meus amigos e minha família ficaram aliviados, porque parei de pregar para eles. Evangélico, sabe como é, a coisa toda é sobre evangelizar, contar às pessoas sobre Jesus para salvar as almas deles. Acho que eu era chato.
Mas agora entendo isso, por que eles fazem aquilo. Eles sentem que têm de fazer.

O sr. acha que a religião ainda tem uma função na sociedade? Claro, no passado foi importante para criar coesão social, mas atualmente...
Em países europeus, onde há bons sistemas de proteção social e tudo mais, eles não precisam de religião. Essa é uma das razões por que os percentuais de religiosos são bem mais baixos lá do que em países americanos, incluindo a América do Sul.
Visito catedrais na Europa e elas estão vazias ou fechadas. Eles as alugam para festas ou as usam como museus de arte –o que é ótimo, porque são construções bonitas. É um sinal de que a religião está declinando, porque não precisamos dela para explicar o mundo. A ciência faz isso.
Você não precisa dela para cuidar dos pobres, o governo e instituições de caridade estão fazendo isso. Prevejo que não vá acontecer logo, mas em séculos acho que a religião vai cair em desuso.

E isso é uma coisa boa?
É uma coisa boa. É, porque ela é repleta de bagagem, isso não é bom para a sociedade. A crença no sobrenatural e a na vida após a morte não é boa. Eu não acho, quer dizer, eu entendo por que pode confortar, quando há um ente querido morrendo e há a promessa de uma vida após a morte. Entendo isso. Mas a ideia de bancar um pós-vida pode levar você a perder o aqui e o agora.
Agora é a hora de tentar fazer o mundo melhor.

Não basta estar na escola, é preciso garantir que todos aprendam

claudia costin
Cláudia Costin
É professora da FGV e professora-visitante de Harvard. Foi diretora de Educação do Bird, secretária de Educação do Rio e ministra da Administração.

Na última semana, dois importantes relatórios foram divulgados, ambos abordando o que vem sendo chamado de crise global de aprendizagem: o World Development Report de 2018, do Banco Mundial, e o texto da consultoria McKinsey sobre fatores que influenciam o sucesso escolar na América Latina. Em ambos o Brasil não aparece bem na fita.

O relatório do Banco Mundial celebra o fato de que o acesso à educação vem se expandindo muito nos anos recentes. Ao mesmo tempo, porém, alerta que escolarização e aprendizagem não são sinônimos e que, dada a precariedade do ensino em boa parte dos países em desenvolvimento, perde-se uma oportunidade de desenvolvimento e comete-se uma grande injustiça com as crianças e jovens.

De alguma maneira, os sistemas escolares não se prepararam para acolher e educar uma miríade de alunos que finalmente tiveram acesso à educação. Mesmo depois de vários anos na escola, diz o relatório, milhões de crianças não sabem ler, escrever ou dominam uma aritmética elementar e, com isso, muitos alunos chegam à idade adulta sem as competências mais básicas para a vida.

O Brasil, um dos últimos colocados no Pisa, um teste internacional de educação, é certamente exemplo do que é mencionado no relatório. Em 1930, contávamos com apenas 21,5% das crianças na educação primária, quase empatados com a Coreia, hoje um dos melhores sistemas na avaliação organizada pela OCDE.

Nós, por outro lado, temos progressos muito pequenos em aprendizagem e ainda não conseguimos garantir que a maior parte dos nossos jovens tenha acesso ao ensino médio. Para os que têm, uma triste realidade: o Ideb, índice que mede a qualidade da etapa, está estagnado em 3,7 (numa escala de 0 a 10).

O relatório da McKinsey acaba fornecendo um receituário para enfrentar o problema, com base em meticulosa análise dos dados fornecidos por questionários preenchidos por ocasião da aplicação do exame. Nele, aparecem como possibilidades de intervenção adequada o investimento na motivação do aluno, melhorias nas práticas do professor em sala de aula, seja por meio de aprimoramentos na formação inicial ou na formação em serviço, melhor uso da tecnologia, especialmente para apoiar a atuação dos mestres e ampliação da jornada escolar, ou, na impossibilidade de fazê-lo, no melhor uso do tempo pedagógico, focando a instrução.

Segundo pesquisa de Barbara Bruns e Javier Luque, o Brasil não apenas tem uma carga horária bem menor que a dos países com bons sistemas educacionais como gasta mal o pouco tempo de aula. Sem resolver essas questões, continuaremos patinando em educação e —dizem os dois relatórios— em desenvolvimento.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Como os sindicatos atrapalham a educação



Estado da Arte
03 Outubro 2017 | 19h12
Por Guilherme Stein
Assim como boa parte das novidades do mundo moderno, o movimento sindical mais parecido com o qual nós conhecemos começou na Inglaterra, por volta dos séculos XVIII e XIX. O rápido crescimento da indústria e a expansão das cidades criou o ambiente propício para que os empregados das indústrias de carvão, aço e têxtil começassem a se organizar sindicalmente.
Seja neste século ou no retrasado, a lógica sindical é simples: quando se organizam em um grupo, os empregados de uma determinada ocupação amentam a capacidade de coordenação entre si e, consequentemente, aumentam também o poder de barganha nas negociações salariais e de condições de trabalho. A ideia mão é muito diferente da lógica de um cartel de empresas que, ao se coordenarem, evitam que o processo concorrencial faça com que o produto chegue ao consumidor ao melhor preço e qualidade. Da mesma forma, tanto o cartel quanto o sindicato dependem de conseguir excluir potenciais concorrentes de seu mercado. Não é controversa, portanto, a conclusão de que o sindicato trabalha exclusivamente a serviço de seus membros.
No entanto, quando se olha de longe, as coisas não parecem tão simples assim. Existem sindicatos cuja agenda parece divergir daquele objetivo que lhes é natural. O discurso do sindicato dos professores de escolas públicas, por exemplo, é diferente do sindicato de metalúrgicos do ABC. Enquanto a pauta do último tem bandeiras auto interessadas como, por exemplo, aumento de salário e redução de jornada, o primeiro tende a adotar bandeiras mais abstratas e altruístas como “A Defesa da Educação Pública”.
Não que o sindicato dos professores também não defenda aumento de salário e redução de jornada. Quem já presenciou um protesto de professores, sabe que essas pautas estão sempre presentes, mas, no discurso, elas sempre estão conectadas com a ideia de “valorizar a educação pública”. Nesse contexto, uma pergunta que poderíamos levantar é se de fato o objetivo é melhorar a aprendizagem de nossas crianças ou se a bandeira é apenas verniz de baixo do qual se encontraria apenas mais um sindicato como todos os outros.
***
No campo da ciência econômica, o clássico da literatura da economia da educação intitulado “How Teachers’ Unions Affect Education Production”, de autoria da pesquisadora Caroline Hoxby, ajuda a iluminar a questão. A motivação por trás do trabalho era resolver dois enigmas com o qual a academia se deparava na época. Em primeiro lugar, as pesquisas que buscavam entender o que fazia os alunos aprenderem mais no colégio encontravam resultados contra intuitivos.  Os insumos escolares (aquelas características da escola que intuitivamente estariam associadas a um maior desempenho como, por exemplo, maior gasto por aluno, maiores salários de professores, tamanho da classe e etc.) pareciam ter pouquíssimo impacto positivo no aprendizado das crianças, mesmo quando se levava em conta o ambiente familiar. Em segundo lugar, eram justamente nas regiões metropolitanas com poucas opções de escolas públicas que os salários eram mais altos, as turmas eram menores, o gasto por aluno maior, mas, surpreendentemente, o desempenho dos alunos era pior.
Os fatos, argumentava Hoxby, pareciam apontar para a existência de algum elemento desconhecido que ao mesmo tempo em que ele aumentava os insumos escolares, ele parecia reduzir a eficiência dos mesmos. Esse fator misterioso, portanto, deveria ser capaz influenciar a alocação de recursos para a educação e conjuntamente o efeito dos mesmos. O suspeito que melhor parecia se encaixar no perfil era o fenômeno da sindicalização de professores e foi exatamente isso que a pesquisadora começou a estudar.
Quando paramos para pensar, parece intuitivo que uma forte presença de um sindicato de professores em uma determinada região acabe aumentar os insumos escolares. Afinal, todo mundo sabe que, se existe um sindicato barulhento, este é, em sombra de dúvida, o dos professores de escola pública. Reivindicações e greves da categoria geram pressão para aumento salariais, redução do tamanho de turmas (exigindo na realização de novos concursos para contratação de novos professores, por exemplo) e etc. Da mesma forma, parece natural que, além de aumentar a quantidade de recursos destinados a gastos com educação em geral, os professores organizados também tenham influência sobre como esses recursos são alocados.
O que não é óbvio, e é aí reside o brilhantismo da investigação de Hoxby, é compreender efeito que os sindicatos de professores têm sobre a eficiência desses mesmos insumos. Não está claro, do ponto vista teórico, se a maior presença do sindicato em uma determinada cidade ou região faz com que a produtividade de um determinado insumo escolar aumente ou diminua. Por um lado, é possível argumentar que os sindicatos aumentem a eficiência dos insumos se imaginarmos que sua influência sobre a alocação de recursos tem como meta os interesses dos pais e alunos. Isso é particularmente verdade se assumirmos que os professores têm mais conhecimento do que pais, alunos e gestores a respeito de quais práticas de ensino e gastos impactam positivamente o desempenho escolar. Para entender melhor, poderíamos fazer a analogia com os conselhos de um médico a um paciente. O médico tem muito mais informação do que o paciente sobre o que funciona e o que não funciona para curá-lo de uma determinada doença. Logo, recursos gastos com exames, medicamentos e procedimentos cirúrgicos seriam, teoricamente, muito mais eficientemente empregados se o médico os determinar ao invés do paciente.
Por outro lado, é possível argumentar que o sindicato reduza a eficiência dos gastos com educação. Basta que se interesses estejam alinhados com os pais e alunos, mas sim com o auto interesse dos próprios professores. Por trás da teoria, está a ideia de que o sindicato dos professores não é muito diferente do que qualquer outro sindicato. Seu objetivo é apenas aumentar o poder de barganha na negociação de benefícios para a categoria, independentemente do impacto que eles tenham no aprendizado dos alunos. Nesse caso, a influência sindical aumentaria recursos destinados para educação, mas os alocaria apenas para, por exemplo, aumentar seus salários sem contrapartida de aumento de desempenho dos alunos ao invés de aloca-los na finalidade mais produtiva. Voltando para a analogia do médico, é como se ele aproveitasse seu conhecimento superior de medicina para fazer o paciente gastar dinheiro em procedimentos, exames desnecessários ou redundantes, apenas para aumentar o pagamento que ele irá receber do plano de saúde.
Diante das duas possibilidades teóricas, fica evidente que o efeito da sindicalização dos professores na eficiência dos insumos escolares e, portanto, na proficiência dos alunos, se torna uma questão empírica. A partir de uma combinação de diversos bancos de dados dos EUA, Hoxby utiliza as mudanças nas leis de sindicalização daquele país para identificar, através de métodos estatísticos, qual o impacto que a sindicalização tem nos insumos escolares e na taxa de evasão escolar. Sua conclusão é impressionante: Uma maior sindicalização nos distritos escolares aumenta o salário dos professores e reduz o tamanho das turmas, mas, também gera um aumento na evasão escolar, ou seja, numa piora do desempenho dos alunos. Mais impressionante ainda, a pesquisadora mostra que a sindicalização, apesar gerarem um aumento nos insumos escolares, aumenta a taxa de abandono dos alunos justamente porque a sindicalização torna esse aumento de insumos improdutivos.
Os resultados encontrados por Hoxby não rejeitam, portanto, a hipótese de que o sindicato dos professores não parece ser diferente de qualquer outra organização sindical. O poder de barganha advinda da coordenação do grupo não parece ser utilizado para influenciar a política pública na direção dos interesses dos pais e alunos. A “defesa da educação pública”, pelo menos de acordo com as evidências empíricas encontradas por Hoxby, tem muito mais chance de ser apenas um pretexto do que algo sincero. Ao invés do slogan altruísta, os fatos parecem estar mais em linha com o velho princípio universal que governa virtualmente todo grupo de interesse: “Todos sempre querem pagar o menor preço no que compram, mas cobrar o maior pelo que vendem”.

Guilherme Stein é Doutor em Economia pela FGV-SP e assessor da presidência da Fundação de Economia e Estatística (FEE-RS)