sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Elos humanos diversificados fazem viver mais e melhor, diz psicóloga

A psicóloga canadense Susan Pinker proferiu palestra no evento Fronteiras do Pensamento.
A psicóloga canadense Susan Pinker proferiu palestra no evento Fronteiras do Pensamento.

REINALDO JOSÉ LOPES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Ter milhares de amigos nas redes sociais da internet pode ser divertido e estimulante, mas as conexões que realmente fazem diferença para a saúde, a longevidade e a qualidade de vida são as que acontecem cara a cara. Contato humano direto e frequente é uma necessidade biológica básica, como comer e dormir, defende a psicóloga canadense Susan Pinker, 60.

Responsável pela última conferência deste ano do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento, que aconteceu nesta semana em Porto Alegre e São Paulo, Pinker é especialista em psicologia do desenvolvimento e lecionou durante 25 anos em instituições como a Universidade McGill, localizada em Montreal, onde nasceu.

Os dados que colheu sobre a importância das redes sociais robustas no mundo real estão reunidos em seu livro mais recente, "The Village Effect" (o efeito vilarejo, em tradução livre), publicado em 2014.

Em entrevista à Folha, Susan, que é irmã de outro psicólogo célebre (Steven Pinker, da Universidade Harvard), explica o efeito protetor da religião para a saúde e fala da atual controvérsia sobre os papéis de cada gênero.
*

Folha - Existe uma relação direta entre a tese central do seu mais novo livro e a trajetória evolutiva da nossa espécie, que surgiu em pequenos grupos muito unidos de poucas centenas de indivíduos?
Susan Pinker - Somos animais sociais, como muitos outros primatas. Estamos falando de uma necessidade biológica, como água, comida, sono e sexo –o contato social é um ímpeto biológico nos seres humanos.

É por isso que ações simples como conversar com os amigos ou com a família, o fato de ter contato com pessoas ao longo do dia, mesmo que seja algo superficial, pode se refletir num aumento de vários anos na sua expectativa de vida em comparação com pessoas solitárias –isso porque o contato social tem efeitos fisiológicos.

Mas eu realmente quero mostrar que esse efeito que vem do nosso passado evolutivo também funciona hoje. OK, há uns 10 mil anos todos nós vivíamos em pequenas comunidades de umas 150 pessoas cada uma, mas o que é muito importante é que nós recriamos esses vilarejos –e essa é a metáfora do título do meu livro– na nossa vida diária.

Ou seja, não apenas nos encontrando com nossos velhos colegas da faculdade, com mães ou cônjuges, mas garantindo que tenhamos acesso a uma rede social diversificada e integrada. Isso é o mais importante.

É uma ilusão achar que, se você tem 600 "amigos" no Facebook, você tem 600 amigos. Não tem a ver apenas com a capacidade cognitiva do cérebro humano, mas também com quanto você está disposto a investir em cada relacionamento.

Só os elos familiares seriam suficientes?
De novo, a diversidade é a chave. No livro, falo dos vilarejos na Sardenha [ilha do oeste da Itália], onde há uma alta proporção de gente vivendo até os cem anos ou mais de idade.

E um dos meus argumentos é que, por causa da maneira como as comunidades estão estruturadas por lá, eles não apenas têm apoio de suas famílias –afinal eles são italianos, de fato têm famílias grandes e unidas– mas também, por causa da maneira como o cotidiano deles está estruturado, acabam cruzando com outras pessoas por necessidade. São os vizinhos, o balconista da loja, o dono do bar etc.

Então há muita coesão social dentro de cada vila: não só você tem contato com aquelas pessoas, mas elas também têm contato com todos os demais membros da sua rede social, e esse é o melhor tipo de rede social que há, essa rede densa e interconectada.

E existe algum tipo de grupo que funcione melhor que os outros? Tanto faz se a sua rede surgir na igreja que você frequenta, no grupo de amigos que jogam futebol ou dos que montam uma banda de rock de garagem?
Todos os exemplos que você deu são ótimos. Não importa muito qual a atividade, desde que você se encontre com regularidade com gente que seja diferente de você em algum aspecto. No caso das igrejas, o que sabemos a partir dos estudos de psicologia da religião é que pessoas religiosas muitas vezes são mais saudáveis e vivem mais. Mas por quê?

O que descobrimos é que a causa não é a crença ou a fé dessas pessoas, mas o fato de que elas praticam sua religião. Vão para a igreja, para a mesquita ou sinagoga, rezam juntas, estão cercadas por outras pessoas, participam da sincronia ligada a quando ficar de pé, quando se ajoelhar, quando cantar –esse tipo de sincronia é muito recompensador.

Seu livro anterior, chamado "O Paradoxo Sexual", abordava as diferenças de gênero. Por que o debate público sobre esse tema se tornou tão violento recentemente, na sua opinião?
Por vários motivos. As mulheres foram oprimidas e deixadas do lado de fora de instituições importantes por milhares de anos.
O movimento de libertação feminina dos anos 1960 e 1970 surgiu com o objetivo de mudar isso.

Algumas dessas restrições caíram –as mulheres começaram a entrar nas universidades e no mundo profissional em grande número. E acabaram gravitando para certas áreas, e não para outras.

Mas acho que o movimento feminista tradicional sentiu que as mulheres só estariam completamente livres se todas as áreas de atuação tradicionalmente masculinas tivessem participação feminina em igual medida. Esse legado ainda está conosco.

Então, embora as mulheres hoje estejam eclipsando os homens em várias áreas, isso não parece ser suficiente para as adeptas do feminismo clássico.

Agora, é lógico que a discriminação ainda existe, mas precisamos olhar para a questão de forma mais nuançada. Talvez haja coisas que as mulheres desejem fazer que podem ser diferentes do que o homem médio desejaria.

Em todos os lugares do mundo nos quais as mulheres têm oportunidades, em sociedades ricas, a tendência é que as diferenças de interesse por ocupações aumentem, e não que elas diminuam.

Em outras palavras, quando as mulheres têm poder de escolha, muitas delas acabam escolhendo ocupações flexíveis, às vezes de meio período, nas quais elas sentem que estão fazendo a diferença.

Precisamos garantir com urgência o direito de aprender

claudia costin
Cláudia Costin
É professora da FGV e professora-visitante de Harvard. Foi diretora de Educação do Bird, secretária de Educação do Rio e ministra da Administração.

A Constituição de 1988, num país que ainda não lograra universalizar o acesso ao ensino fundamental, incluiu disposição que previa uma Base Nacional Comum Curricular, depois consagrada na Lei de Diretrizes e Bases de 1996. Em 2014, já com as crianças e jovens na escola, porém com resultados de aprendizagem muito aquém do desejável, novamente se estabeleceu a necessidade de estipular claramente os direitos de aprendizagem dos alunos, dessa vez no Plano Nacional de Educação, com entrega da Base prevista para 2016.

Ela demorou, contudo, a começar a ser elaborada: havia uma visão de parte da sociedade de que contar com currículos tolheria a autonomia dos professores. 

Essa percepção equivocada foi superada com a constatação de que os países que se saíam melhor do que nós no Pisa, teste internacional de educação que permite comparar sistemas educacionais, contavam todos com currículos nacionais, ou, no caso do Canadá, subnacionais, dada a diversidade cultural oriunda de diferentes línguas de instrução e de influências culturais entre suas províncias.

Além disso, a aquisição de competências é progressiva, fazendo com que se possam prever estágios sequenciais a serem ensinados em diferentes momentos da vida escolar de um aluno. O fato de um professor eventualmente não considerar importante trabalhar com certos saberes numa etapa pode impactar o que os outros mestres podem fazer em momentos seguintes.

Assim, acertou o legislador ao colocar o direito de aprender nos nossos documentos legais, com um instrumento para que isso possa se tornar mais claro para professores, alunos e seus pais. Falhamos nós todos por ainda não termos definido a Base.

Depois de anos de tramitação e três versões, passando por ministros de diferentes governos, inúmeras contribuições, seminários estaduais e audiências públicas regionais, a Base está agora no Conselho Nacional de Educação para votação final. As redes estaduais e municipais já começam a se preparar para traduzir a Base em currículos subnacionais.

O admirável disso tudo foi que num contexto em que o Brasil está dividido ao meio e os discursos de ódio prevalecem, o mundo da educação consegue se unir para garantir o direito de aprender das crianças, a despeito de eventuais divergências quanto a aspectos presentes no texto, muitas delas sanadas nessa fase final.

Afinal, há um sentido de urgência na conclusão do processo: levamos tempo demais para estabelecer com mais clareza os direitos de aprendizagem e não é por acaso que nos colocamos entre as últimas posições no Pisa.

Não podemos mais aceitar que adultos briguem enquanto crianças não aprendem.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Oportunidade educacional varia de forma desigual em cidades brasileiras

érica fraga
ÉRICA FRAGA É jornalista com mestrado em Economia Política Internacional no Reino Unido. Venceu os prêmios Esso, CNI e Citigroup. Mãe de três meninos, escreve sobre educação


O lento avanço educacional brasileiro ocorre de maneira desigual em cerca de 5.000 municípios do país. Pouco menos da metade deles (46% do total) melhorou em um indicador que mede a evolução de fatores como inclusão escolar e qualidade do ensino, entre 2015 e 2017.

Na outra metade, um pequeno grupo ficou estagnado (16% do total) e outro maior chegou a retroceder (38%). Os dados são da 2ª edição do Ioeb (Índice de Oportunidades da Educação Brasileira), que será divulgado nesta quinta (7) pelo Centro de Liderança Pública, uma organização não governamental.

Apesar do movimento heterogêneo entre as cidades, o resultado do Brasil como um todo teve pequena melhora ao passar de 4,5 para 4,7 (nota que pode variar de 0 a 10).

Os municípios do Ceará, que já haviam se destacado na 1ª edição do índice, aumentaram seu domínio no topo do ranking. Entre as 30 cidades mais bem colocadas em 2015, 5 eram do Estado nordestino. Neste ano, esse número saltou para 12. Sobral repetiu a primeira colocação geral.

SÃO PAULO

Entre os Estados, São Paulo passou de 5,1 para 5,3 e manteve a liderança, seguido por Minas Gerais. Bahia, Maranhão e Pará permaneceram no fim da lista.
O município de São Paulo saltou da 1.559º para a 206º posição, mas parte do avanço se deve a uma questão metodológica. O Ioeb incorpora em seu cálculo o resultado do Ideb (índice que mede a aprendizagem calculado bienalmente pelo governo federal) de dois anos atrás.

Como a capital paulista não teve Ideb para as primeiras séries do ensino fundamental em 2013, a primeira versão do Ioeb usou o indicador referente a 2011, fazendo com o que salto registrado em 2015 tenha ocorrido em relação a quatro anos, e não aos dois anos anteriores. Mas o município melhorou em outros quesitos mensurados pelo Ioeb, como aumento da fatia de alunos na faixa etária certa nas escolas.

INCLUSÃO EDUCACIONAL

Além de incorporar o Ideb (que mede desempenho dos alunos em português e matemática e taxas de aprovação das escolas), o Ioeb abarca a inclusão na educação infantil, a fatia de alunos atrasados e fora da escola, o tempo de experiência dos diretores, a porcentagem de professores com nível superior e a duração da jornada escolar.

As escolas privadas também entram no cálculo do Ioeb, embora nem todos os dados do índice estejam disponíveis para a rede particular. É descontado o efeito do nível socioeconômico familiar sobre o desempenho dos alunos, fazendo com que os resultados aferidos sejam mais próximos do que a própria escola agregou à aprendizagem das crianças.

Segundo Fabiana de Felício, idealizadora tanto do Ideb quanto do Ioeb em coautoria com o economista Reynaldo Fernandes, a ideia do índice mais novo é oferecer um retrato que também mostre a inclusão educacional. "Quando pensamos o Ideb, achávamos que resultado era o que mais importava, que ele já refletiria os insumos educacionais. Com o tempo, nos demos conta de que nem sempre isso ocorre."

Ela cita o fato de que alunos que deixam a escola têm impacto negativo em seu Ideb –por meio de uma taxa de aprovação mais baixa– apenas no ano em que saíram. Depois, o efeito desaparece mesmo que eles não voltem.

INTEGRADA

No Ioeb, as crianças e jovens evadidos ou muito atrasados continuam puxando para baixo o resultado porque é considerada a taxa de matrícula líquida, que mede a fatia da população que está na escola e no nível adequado à sua faixa etária.

O indicador considerado, nesse caso, é o do ensino médio. Isso faz com que variações da taxa nesse ciclo do ensino afetem a nota dos municípios e não apenas dos Estados, normalmente responsáveis pelos três últimos anos da educação básica.

"O Ioeb busca olhar não apenas a rede, mas o território de forma integrada para aferir a oportunidade que aquela criança ou aquele jovem tem naquela região", afirma Luana Tavares, diretora executiva do CLP.

CEARÁ COMBATE EVASÃO

"Basta o aluno faltar uma vez que batemos na porta de sua casa para ver o que está acontecendo." Essa é uma das receitas que Nova Olinda, no Ceará, tem empregado para reduzir a evasão nas escolas e melhorar a aprendizagem dos alunos, segundo Ana Célia Matos Peixoto, secretária de Educação do município.

"Chegamos a tentar monitorar isso pelo telefone, mas muitas vezes ouvíamos desculpas, como a de que o aluno estava doente, e depois descobríamos que não era verdade", afirma. Segundo ela, cada escola tem um coordenador que verifica a presença dos alunos em todas as salas logo no início das aulas diariamente.
Medidas como essa contribuíram para o salto de Nova Olinda do 154º para o 3º lugar no Ioeb (Índice de Oportunidades da Educação Brasileira), entre 2015 e 2017. As políticas da cidade também incluem reforço escolar no contraturno e bônus pagos aos professores que atingem bons resultados.

Elas se assemelham a medidas adotadas em outros municípios cearenses como Sobral, que se tornou uma das referências no Brasil por melhoras nos resultados em testes de proficiência. Segundo os idealizadores do Ioeb, um dos objetivos do índice é disseminar as práticas que têm contribuído para a melhora da qualidade e da inclusão educacional.

"O crescimento no número de municípios do Ceará entre aqueles com melhor desempenho começa a validar a hipótese de que uma maior sinergia entre o Estado e municípios gera resultados", diz Luana Tavares, diretora do CLP. Além da ONG, a Fundação Roberto Marinho, a Fundação Lemann, o Instituto Península e o Instituto Natura também apoiam o Ioeb.

Junto com o índice também será divulgado nesta quinta-feira (7) um estudo qualitativo que buscou mapear práticas comuns dos 100 municípios com melhores resultados. Segundo Fabiana de Felício, que coordenou a pesquisa, a ação preventiva contra a evasão é uma das políticas que se destacam. "A identificação precoce dos alunos que faltam tem permitido que os gestores tomem outras medidas, como reposição imediata do conteúdo".

Outro aspecto em comum entre os municípios com bons resultados, ressalta a pesquisadora, é o equilíbrio entre centralização e autonomia e a boa gestão de recursos. "Estamos vendo mais casos em que as secretarias de educação têm maior autonomia para gerir o orçamento da área", diz.

OPORTUNIDADES NA EDUCAÇÃOÍndice avança no país, mas de forma desigual; cidades do CE se destacam, e SP é o melhor Estado

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Como errar menos ao escolher uma carreira específica na adolescência

POR SABINE RIGHETTI
No Brasil, cometemos uma crueldade sem tamanho no nosso sistema de ensino superior: obrigamos os jovens vestibulandos a escolher uma carreira específica para a vida inteira como “economia empresarial e controladoria com ênfase em negócios internacionais” antes mesmo de entrar na universidade. O problema é que o nosso ensino médio não prepara ninguém para escolher uma carreira específica, o cérebro dos jovens não está pronto para decisões de longo prazo e, se o aluno escolher o curso errado, ele tem de sair do sistema para prestar vestibular de novo. Isso significa perda de tempo e de dinheiro –público ou privado.
Quem aí não conhece alguém que mudou de curso na universidade várias vezes? Ou, pior: quem aí não conhece pelo menos uma pessoa que sabe que está na carreira errada? Recentemente, falei em um TED na USP sobre como errar menos ao escolher uma carreira específica na adolescência. Já que não podemos mudar a porta de entrada no sistema de ensino superior no país, podemos ao menos reduzir a influência da rigidez desse sistema na escolha dos cursos superiores.
Quer saber como? Assista ao TED abaixo e espalhe a ideia!

domingo, 3 de dezembro de 2017

Esqueça a maconha, o problema é a bebida

Um em cada quatro adolescentes ficou embriagado nos últimos 30 dias. Esse hábito danifica o cérebro

* Daniel Becker, mestre em saúde pública pela Focruz, é médico do Instituto de Pediatria da UFRJ e ex-pediatra da ONG Médicos Sem Fronteiras. Coordenou o Programa de Saúde da Família do Rio de Janeiro, de 1994 a 1998.

A medicina conseguiu provar pela primeira vez, de forma inquestionável, que a bebedeira compromete o desenvolvimento cerebral dos jovens. Confirmando indicações de estudos anteriores, pesquisadores de cinco universidades americanas analisaram o cérebro de 483 voluntários, entre 12 e 21 anos, em dois momentos: quando ainda não consumiam bebida alcoólica e até dois anos depois. Concluíram que os “grandes bebedores” – aqueles que bebem até se embriagar – tiveram redução no ritmo de crescimento cerebral e perderam massa cinzenta no córtex pré-frontal. Última região do cérebro a se formar, até os 25 anos, o córtex é associado à tomada de decisões, ao autocontrole e ao comportamento social. Ainda não é possível afirmar, com certeza, que essa perda faz alguma falta. Mas é um claro sinal de alerta: quem exagera na bebida durante a adolescência pode perder habilidades fundamentais para uma vida madura e saudável.
A sociedade debate os riscos da liberação da maconha, que já aconteceu no mundo todo, mas pouco fala sobre bebidas alcoólicas. O álcool mata e fere mais que a soma de todas as outras drogas. Num estudo do Ministério da Saúde, 20% dos acidentados no trânsito apresentaram sinais de embriaguez ou relataram consumo de álcool. Entre vítimas de agressão, o percentual sobe para 49%. Apesar de seus males, a bebida não é coibida. Ao contrário. É incentivada.
O Brasil promoveu uma das mais eficientes campanhas de combate ao cigarro no mundo. Em 30 anos, o consumo caiu à metade. Os maços ganharam advertências sobre os males do fumo e a propaganda foi proibida. O fumante passou a ser visto como um fraco, um viciado que polui o ar alheio. Tal reprovação social não se estendeu aos bebedores compulsivos. A representação social da embriaguez é muito positiva. O governo proibiu apenas a propaganda de bebidas com maior teor alcoólico. As cervejas continuam a aparecer em eventos esportivos, no Carnaval, em intervalos da televisão, atingindo crianças e adolescentes. O publicitário brasileiro foi inteligente a ponto de associar o consumo de cerveja à amizade. Os personagens estão sempre confraternizando: no sofá, no estádio, na praia, no bar. São amigos. Aí eu pergunto: qual grupo etário precisa mais da sensação de pertencimento? O jovem. Ele está saindo da casa dos pais, em busca de pares. Ele quer ser igual àquelas pessoas, que têm alegria, amizade, plenitude. A livre propaganda de cerveja deveria ser proibida. Ela estimula o consumo precoce de álcool.
Os adolescentes estão bebendo cada vez mais e cada vez mais cedo. Um manual de orientação da Sociedade Brasileira de Pediatria informa que 15% de jovens de 10 a 12 anos já provaram bebidas alcoólicas. Na faixa etária entre 13 e 15 anos, o percentual sobe para 45%. Até os 15 anos, 75% já experimentaram. A mesma pesquisa informa que 25% dos adolescentes tiveram ao menos um episódio de embriaguez nos últimos 30 dias.
O adolescente que se inicia cedo no álcool costuma encontrar permissividade em casa. Os pais, também consumidores, permitem ou não se interessam em impedir. Isso é muito grave, pois a conversa na família é uma das estratégias mais eficazes para reduzir o risco de embriaguez e consequências dela, como sexo sem proteção e acidentes de trânsito. É importante conversar sobre álcool com os filhos. Se 15% dos jovens entre 10 e 12 anos já beberam, é necessário conversar ainda antes disso. Não adianta evitar. É melhor falar de forma aberta, respeitosa, não moralista. Agir como um advogado deles – e delas, vale dizer. A embriaguez é muito comum entre meninas. A escola também perde a oportunidade de ajudar, ao dedicar muito tempo aos assuntos que cairão no Enem e muito pouco a questões como sexualidade e drogas.
Festas de formatura do ensino médio – para estudantes de 16 e 17 anos, com convidados até mais novos – oferecem, em contrato, “open bar” (bebida liberada) e ambulância estacionada na porta. Quem dera fosse para socorrer alguém que torceu o pé enquanto estava dançando... Estimulados por empresas e negligenciados pela família e pelo Estado, adolescentes bebem como se não houvesse amanhã. Mas o amanhã existe – e, concluíram os pesquisadores americanos, ele pode se tornar definitivamente pior por causa dos excessos na bebida alcoólica.

‘O trabalho com as habilidades emocionais dos alunos não foi prioridade nos últimos tempos’



Petria Chaves | Revista responde: como criar seus filhos

Sandra Garcia, diretora pedagógica da Mind Lab, explica os desafios para o estímulo dessas habilidades em sala de aula para ajudar a desenvolver o controle das emoções, o pensamento crítico, a tomada de decisões, a ética e o trabalho em equipe.

http://download.sgr.globo.com/audios/encodeds/3/2017/12/02/142205_20171202.mp3

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Uma grande oportunidade para a educação



PRISCILA CRUZ, 42, é mestre em administração pública pela Harvard Kennedy School e fundadora e presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação


O Brasil é o décimo país mais desigual do mundo. Para reverter tal quadro, há consenso nas pesquisas sobre o papel determinante da oferta de educação básica com qualidade e equidade.

Todavia, nosso sistema educacional opera no sentido inverso. Há menor investimento nas escolas que atendem à parcela mais pobre da população, quando deveríamos fazer justamente o oposto, dado o impacto do nível socioeconômico no desempenho dos alunos. O resultado não poderia ser outro: a desigualdade educacional amplia-se ao longo dos anos escolares.

O Fundeb —principal mecanismo de financiamento da educação básica pública— tem sido importante instrumento para equilibrar o valor investido por aluno dentro de cada Estado. Dados do Estudo Técnico nº 24/2017 da Câmara dos Deputados mostram que, sem o Fundeb, haveria uma discrepância de mais de 10.000% entre o maior e o menor valor investido por aluno nos municípios.

Com as atuais regras, essa diferença reduz-se para 564%. Foi um grande avanço, mas é preciso fazer mais, tanto em redistribuição quanto em efetividade.

Como a lei que estabelece o Fundeb tem vigência até 2020, a Câmara está felizmente debatendo uma proposta de emenda à Constituição que torna esse instrumento permanente, além de mirar mais adiante ao reconhecer que é no âmbito dessa discussão que se abre uma oportunidade para melhorarmos o Fundeb como política de enfrentamento das desigualdades educacionais.

Nesse contexto, o Todos Pela Educação juntou-se a especialistas de diferentes campos de atuação para propor caminhos de maior indução em qualidade com equidade.

Um primeiro passo é fazer com que a distribuição de recursos dentro de cada Estado considere indicadores fiscais e/ou socioeconômicos de cada município, e não apenas seus atuais fatores de ponderação. A ideia é dar mais recursos para quem tem menos condições de financiamento —e, portanto, mais desafios de contexto.

Uma segunda proposta refere-se à regra para complementação de recursos ao Fundeb feita pela União: é possível torná-la mais eficiente ao destinar recursos diretamente para redes de ensino mais vulneráveis e com menores valores totais investidos por aluno, ao contrário do desenho atual em que um município pobre de um Estado rico não recebe tais recursos adicionais.

Um terceiro ponto, ainda sobre a complementação da União, está centrado no aumento progressivo dessa participação, atualmente em 10% do valor total arrecadado nos fundos estaduais, de modo a elevar o patamar mínimo de investimento. Porém, ainda que entendamos ser esse o norte, é fundamental avançarmos nesse debate de forma responsável.

Todos nós queremos mais para a educação, mas não sem uma pactuação que direcione cada real investido para a garantia da qualidade do ensino.

Sem essa arquitetura normativa bem amadurecida, corremos o risco de manter a sequência de aumentos nos investimentos sem o correspondente e proporcional aumento nos resultados. Assim, é importante ressaltar que a PEC terá valoroso papel se, para além da perenização do Fundeb, apontar no sentido de maior redistribuição.

No entanto, houve pouca discussão e ainda há muito a ser estudado, simulado e analisado para a definição do desenho desse novo Fundeb.

Caso contrário, a PEC encerrará um debate ainda embrionário e poderá levar à perda de uma chance que a nação não deve desperdiçar.

PRISCILA CRUZ, 42, é mestre em administração pública pela Harvard Kennedy School e fundadora e presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação

Subscrevem este artigo:
BINHO MARQUES (ex-governador do Acre, secretário de articulação do MEC);
CARLOS RAGAZZO (professor da FGV Direito-Rio, especialista em regulação e controle social);
MARIZA ABREU (consultora legislativa da Câmara dos Deputados e secretária estadual de Educação do Rio Grande do Sul);
NAÉRCIO MENEZES FILHO (professor do Insper e da Universidade de São Paulo, economista especialista em políticas públicas);
URSULA PERES (professora da USP e especialista em gestão de políticas públicas e finanças públicas)