sexta-feira, 27 de abril de 2018

Não priorizamos a educação, não, senhor

Claro que a educação, sozinha, não resolve todos os problemas, mas nunca vamos melhorar de verdade enquanto não investirmos nela e nas pessoas

Priscila Cruz
Mestre em administração pública pela Harvard Kennedy School (EUA), é fundadora e presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação

Imaginem se o Brasil tivesse uma inflação de 55% ao mês. Ou se apenas 7% dos pacientes saíssem vivos de cirurgias. Ou se nosso PIB estivesse entre os 10% mais baixos do mundo. Por certo, haveria elevadíssimo senso de urgência para resolver esses problemas nacionais.

Pois um cenário tão grave quanto esse está verdadeiramente em curso, mas completamente desconhecido ou banalizado: 55% das crianças do 3° ano do ensino fundamental não estão alfabetizadas; apenas 7% dos alunos que chegam ao final do ensino médio sabem o mínimo adequado em matemática, e os 10% melhores alunos no Brasil têm o mesmo desempenho dos 10% piores alunos no Vietnã.

Mesmo diante dessa crise na aprendizagem dos alunos brasileiros, há quem diga que a educação básica é, sim, prioridade no Brasil. Afinal, investimos 6% do PIB na área, patamar equivalente ao dos países mais desenvolvidos, e a pasta está entre os três maiores orçamentos da União —junto com Saúde e Previdência—, além de ser um setor que também consome grande parte dos recursos de estados e municípios.

Ora, gastar não é priorizar. O investimento por aluno no Brasil é cerca de um terço do que os países desenvolvidos investem. E eles resolveram questões estruturais que ainda são muito deficitárias no Brasil, como infraestrutura básica das escolas, formação de professores e tempo integral.

Há também quem diga que seu governo priorizou a educação, embora quando confrontado com resultados ruins, justifica dizendo que está fazendo o máximo que pode, que a culpa é da falta de dinheiro, dos professores, das famílias ou até mesmo dos alunos.

Há quem diga que já priorizamos a educação por ser unanimidade nos discursos como o mais importante para a reconstrução do país. Que abismo entre o que é dito e o que é feito! Precisamos priorizar na prática, investir tempo, atenção e energia no nosso cotidiano.

Colocar a educação como prioridade é chamar para si a responsabilidade, é acabar com desperdícios para investir mais no que gera aprendizagem, é usar como referência o que o município ou o estado vizinho está fazendo e dando certo, é fazer as escolhas necessárias e impopulares, é colocar muita energia para realizar melhorias constantes nos processos de implementação, é garantir que as ações cheguem às escolas. Sem haver um impacto positivo na sala de aula, a política pública fracassa.

Priorizar é fazer as escolhas certas para cada tempo. Hoje, é tempo de investirmos na primeira infância, nos professores, na gestão, em mais tempo dos alunos na escola, em estruturas escolares mais dignas. É investir mais e melhor nos alunos mais pobres.

É muito mais grave nossa omissão hoje do que no passado: temos abundância de diagnósticos e evidências que apontam os caminhos mais eficazes e exemplos de quem melhorou dentro e fora do país.

Claro que a educação, sozinha, não consegue resolver todos os problemas nacionais, mas nunca vamos melhorar de verdade como nação enquanto não investirmos nela e nas pessoas. Um país é o que suas pessoas são. 

Educação de qualidade é parte fundamental na equação para crescermos e distribuirmos renda, para melhorar e qualificar a participação cidadã e política, para uma sociedade mais saudável e pacífica, para uma produção científica e tecnológica que nos coloque no século 21, para nos fortalecer e evitar as crises periódicas e sobrepostas que nos enfraquecem há séculos.

E, mais que tudo isso, educação é um direito humano fundamental para que as tragédias anônimas se transformem em histórias de vida felizes. Educação já.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

A Educação é a chave do desenvolvimento

"Sábado, dia 28 de abril, é o Dia da Educação, mas não temos muito a comemorar, pois a qualidade do nosso ensino é muito baixa. Vamos pensar no próximo capítulo que queremos viver e colocar realmente a Educação no centro das atenções", diz Ana Maria Diniz


8 pontos para evitar um futuro trágico para Educação brasileira

Se quisermos priorizar a Educação, precisamos agir agora

Por Lázaro Campos Junior, do Todos Pela Educação
Uma pesquisa recente mostrou que a insatisfação com a Educação pública aumentou no País nos últimos quatro anos. Segundo o estudo, realizado pelo Todos Pela Educação e pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), 26% da população considera o Ensino Médio ruim ou péssimo – em 2013, essa taxa era de 15%.
Ou seja: sabemos que há algo errado com a qualidade do ensino no Brasil. Mas por que não agimos? Se nada for feito agora, o que esperarmos do País no futuro?
Na verdade, o Brasil tem as ferramentas necessárias para corrigir os erros do passado. Sobram leis bem escritas – o que nos falta é aplicá-las de verdade, para tornar a Educação prioritária!
A receita não é simples, mas já é conhecida. Vamos lá:
1 – Todos na escola. Nas últimas décadas, o Brasil vem se esforçando para colocar todas as crianças de 6 a 14 anos no Ensino Fundamental. Essa mesma energia deve ser aplicada para incluir os pequenos de 4 e 5 anos. Embora a matrícula deles tenha se tornado obrigatória em 2014, com a Emenda Constitucional nº 59, cerca de 500 mil crianças no auge de seu potencial de aprendizagem ainda estão fora da escola.
2- Professor é profissão. Sabe quanto o professor está valendo? Metade. Metade do salário de outros profissionais que fizeram faculdade é a média do quanto ganham os docentes brasileiros no fim do mês. Priorizar a Educação como centro do nosso projeto de País passa pela valorização desses profissionais, com bons salários, condições de trabalho e planos de carreiras bem definidos. Do contrário, a carreira que já não atrai, atrairá ainda menos.
3 – Formação de professor não é brincadeira. Ter diploma mas não ter sido preparado para ensinar é como um cofre com um tesouro dentro. As licenciaturas precisam mergulhar na sala de aula, nas batalhas para ensinar e nas dificuldades para aprender. Tomando como referência a Base Nacional, precisamos formar melhores nossos professores, dando a eles conhecimentos sobre como o aluno aprende e liberdade sobre com quais métodos ensinar.
4 – Conhecimento vivo, alunos motivados. Não podemos mais insistir em uma engessada concepção conteudista de ensino. Uma aula desconectada do mundo, sem ligação com desafios atuais, é como o Esperanto: bonito, mas ninguém usa. Por isso, a Base Nacional prioriza competências – isto é, a capacidade de aplicar os conhecimentos obtidos – em todas as etapas da Educação Básica. As redes de ensino devem insistir em preservar esse foco na elaboração dos currículos regionais.
5- Integrar a tecnologia. Hoje, apenas metade de nossas escolas têm acesso à internet. Em um mundo em que a tecnologia evolui a cada instante, apresentando novos processos e maneiras de se relacionar, o aluno brasileiro está ficando para trás. Equipar as escolas e oferecer aos professores capacitação para utilizar essa poderosa ferramenta de forma pedagógica é fundamental.
6 – Mais participação juvenil. Imagine estar em um lugar em que suas sugestões e experiências são sempre ignoradas ou silenciadas. É desanimador, não é? Pois a falta de incentivo à participação faz exatamente isso com o aluno. Experiências bem-sucedidasmostram que abrir canais de diálogo com os estudantes e acreditar em suas contribuições transformam a escola.
7 – Escola de todas as cores. A diversidade é um dos princípios que aparecem na proposta da Base Nacional do Ensino Médio. Existem juventudes na escola, no plural mesmo, e não é à toa: o Brasil é diverso em pessoas, identidades e objetivos. Além do ensino cognitivo, a escola tem de enxergar seus alunos, conhecer seus projetos de vida e estimulá-los. E se a diversidade entra, o preconceito tem de sair, seja de cor, classe, crença ou orientação sexual.
8 – Acreditar que todo mundo pode aprender. Apostar no reforço escolar pode tanto melhorar índices de aprendizagem quanto combater a evasão. Precisamos mudar a maneira como vemos as dificuldades dos alunos. Todo aluno é capaz de aprender, mas com os métodos certos. Estudos provam que a repetência escolar não gera aprendizagem, pois apenas adia o problema. O ideal é estabelecer políticas de reforço escolar para ajudar os alunos e permitir que eles possam vencer suas dificuldades dentro do ano escolar adequado.
Está tudo aí. E você, o que pode fazer para a Educação ser prioridade já? Vamos juntos?

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Chega de procurar culpados por suicídios

Daniel Martins de Barros

DANIEL MARTINS DE BARROS


Psiquiatria e sociedade

Fingir que sabemos as causas do suicídio só faz aumentar a culpa das pessoas. E a chance de novos casos.

A pior coisa que nós podemos fazer após um caso de suicídio é procurar as causas. A família e os amigos próximos sentem-se culpados e presos num looping de ruminações do tipo “e se”. Os colegas estendem o assunto ao infinito perdendo-se em especulações no mais das vezes infundadas. E a sociedade como um todo, perplexa, perde tempo e energia perseguindo os supostos culpados, que mudam a cada estação.
A trágica notícia de duas mortes recentes no tradicional Colégio Bandeirantes, em São Paulo, reacende a busca fútil pelas causas. Se há exatamente um ano estavam todos desesperados com o boato da Baleia Azul ou jogando a responsabilidade nas costas de Hannah Baker, protagonista da série 13 reasons why, nos últimos dias as vilãs da vez são a pressão sobre os estudantes, a busca ensandecida por  performance desde muito cedo ou a suposta incapacidade dos jovens “de hoje em dia” não tolerarem frustrações.
Infelizmente, a cada vez que se diz que algo é causa necessária e suficiente de suicídios o problema piora. Porque aumenta a culpa da família e das pessoas próximas – eles sentem que contribuíram com a pressão, que não notaram a mudança no filho ou no amigo, que foram negligentes. E também porque essa é uma das formas mais eficazes de propagar o suicídio – por meio do estigma.
É fato que existe o chamado efeito Werther, que leva a novos suicídios quando uma notícia é divulgada de forma sensacionalista, expondo detalhes do método, retratando o suicídio como a única saída para aquela pessoa e, como vem ocorrendo nas redes sociais, atrelando a morte a um fato específico. (Por exemplo dizer que alguém se matou “por causa do fim do namoro”, “por causa das notas”, “por causa dos pais” transmite a mensagem, para outras pessoas atravessando problemas semelhantes, que a morte pode ser uma solução). Mas esse  contágio social não a única (e talvez nem principal) força motriz por trás de novas tentativas.
Um grande publicado no Reino Unido há dois anos mostrou que adultos enlutados por suicídio têm risco significativamente maior de atentar contra a própria vida do que os enlutados por outra causa de morte súbita. No entanto isso se deve mais ao estigma que eles percebem – ter a sensação de serem rejeitados socialmente, evitados por amigos, culpados de alguma forma – do que exclusivamente à tristeza. Tanto que aqueles que não se sentem estigmatizadas não têm tal risco elevado.
Isso mostra que tão importante como a prevenção é a “pósvenção” (intervenção com as pessoas afetadas pela morte) do suicídio. Transmitir a mensagem de que sempre pode haver uma saída alternativa, que não há vergonha em consultar os profissionais que nos ajudam nas crises emocionais, divulgar sem preconceitos serviços de suporte como o CVV, são algumas das estratégias preventivas (confira outras aqui). Mas depois de ocorrido o fato, apontar a complexidade desse comportamento, esclarecendo que ele nunca pode ser reduzido a explicações simplistas, alivia a culpa de quem perde uma pessoa para o suicídio e reduz o estigma percebido, prevenindo em grande parte o componente contagioso do problema.
Não existe um culpado. Então em vez gastar energia para saber quem tem culpa, melhor é consolar quem – equivocadamente – acha que tem.

Pitman AL, Osborn DP, Rantell K, King MB. Bereavement by suicide as a risk factor for suicide attempt: a cross-sectional national UK-wide study of 3432 young bereaved adults. BMJ Open. 2016 Jan 26;6(1).

Veja como detectar e prevenir o suicídio, além de mitos sobre o tema

Problema voltou ao debate após mortes de estudantes em São Paulo

SÃO PAULO
Casos de suicídio recentes envolvendo estudantes de São Paulo levaram à mobilização de colégios particulares para tratar do problema, que tem aumentado entre crianças e adolescentes nas últimas décadas.
Abaixo, veja como detectar sinais de que uma pessoa precisa de ajuda e dicas de como auxiliá-la.

SINAIS DE ALERTA GERAIS

  • Falar sobre querer morrer, não ter propósito, ser um peso para os outros ou estar se sentindo preso ou sob dor insuportável
  • Procurar formas de se matar
  • Usar mais álcool ou drogas
  • Agir de modo ansioso, agitado ou irresponsável
  • Dormir muito ou pouco
  • Se sentir isolado
  • Demonstrar raiva ou falar sobre vingança
  • Ter alterações de humor extremas

PARA DEPRESSÃO EM ADOLESCENTES

  • Mudanças marcantes na personalidade ou nos hábitos
  • Piora do desempenho na escola ou em outras atividades
  • Afastamento da família e de amigos
  • Perda de interesse em atividades de que gostava
  • Descuido com a aparência
  • Perda ou ganho inusitado de peso
  • Comentários autodepreciativos persistentes
  • Pessimismo em relação ao futuro, desesperança
  • Comentários sobre morte, sobre pessoas falecidas e interesse por essa temática
  • Doação de pertences que valorizava

ALGUNS MITOS SOBRE O SUICÍDIO

“Se eu perguntar sobre suicídio, poderei induzir uma pessoa a isso”
Questionar de modo sensato e franco fortalece o vínculo com a pessoa, que se sente acolhida e respeitada
“Quem quer se matar se mata mesmo”
As pessoas que pensam em suicídio frequentemente estão ambivalentes entre viver ou morrer. Prevenção é impedir os casos que são evitáveis
"Ele está ameaçando o suicídio apenas para manipular os outros"
Muitas pessoas que se matam dão sinais verbais ou não verbais de sua intenção para amigos, familiares ou médicos. Não se pode deixar de considerar a existência desse risco
"Quem quer se matar se mata mesmo"
Essa ideia pode conduzir ao imobilismo. As pessoas que pensam em suicídio frequentemente estão ambivalentes entre viver ou morrer. Prevenção é impedir os casos que são evitáveis
"Uma vez suicida, sempre suicida"
A elevação do risco de suicídio costuma ser passageira e relacionada a algumas condições de vida. A ideação suicida não é permanente. Pessoas que já tentaram suicídio podem viver, e bem, uma longa vida

O QUE FAZER

  • Não deixe a pessoa sozinha
  • Tire de perto armas de fogo, álcool, drogas ou objetos cortantes
  • Leve a pessoa para uma assistência especializada
  • Ligue para canais de ajuda
188 ou 141
são os telefones do Centro de Valorização da Vida (CVV). Também é possível receber apoio emocional via internet (www.cvv.org.br), email, chat e Skype 24 horas por dia
90%
das pessoas que se suicidam possuíam transtornos mentais; elas poderiam ter sido tratadas
Fontes: American Foundation for Suicide Prevention; Centro de Valorização da Vida; "Comportamento Suicida: Vamos Conversar sobre Isso?", de Neury José Botega; e "Preventing Suicide: A Global Imperative", da Organização Mundial da Saúde

Trilhas na internet alimentam suicídio e são risco a corações frágeis

Comunidades exigem cautela por serem catalisadoras de ideias obsessivas


Marcella Franco
SÃO PAULO
Fora dos domínios obscuros da “Deep Web”, submundo da internet onde se desenrolam livremente os fóruns sobre assuntos grotescos, vídeos criminosos e outras barbaridades, há, também, na “Surface Web” (aquela porção legalizada que você acessa diariamente), algumas trilhas mal iluminadas nas quais é preciso cautela.
Sem qualquer transgressão aparente, essas estradas guardam riscos potenciais aos corações mais frágeis. São, por exemplo, comunidades no Facebook erguidas com o pretexto apenas de alimentar a morbidez humana divulgando perfis de pessoas que já morreram, mas que, na prática, resultam em verdadeiros catalisadores de pensamentos obsessivos e, frequentemente, ideias suicidas prévias.
Eu faço parte de uma destas comunidades. E lá, entre as frequentes mortes acidentais no trânsito, eletrocussões e afogamentos aos quais todos nós já parecíamos anestesiados, sempre houve um ou outro registro incômodo de suicídio no feed. No entanto, há menos de um ano casos de pessoas que dão cabo da própria vida passaram a dominar esta macabra linha do tempo, acessível às quase 75 mil pessoas inscritas.
E, mais que o aumento, nota-se uma interação cada vez maior com este tipo de publicação. Afora o trivial DEP (“Descanse em paz”), parte habitual do vocabulário local, vê-se todos os dias mais comentários invejando a suposta “coragem” dos suicidas, bem como avisos de “Quem sabe um dia eu também consigo”.
Como mãe, posso dizer que há poucas coisas mais apavorantes do que imaginar a morte de um filho, ainda mais quando ela é evitável. Porque é esta a característica menos debatida e, de maneira proporcionalmente inversa, a mais necessária de se falar sobre quando o assunto é suicídio: a chance que talvez tenhamos de impedi-lo.
De tão delicado que é o tema, a ONU oferece capacitação para jornalistas escreverem de maneira responsável e evitar o chamado “efeito contágio”. O Unicef, por sua vez, lançou no final de 2017 um robô interativo com um único propósito: simular no Facebook as últimas 48 horas de uma garota que cogita acabar com sua vida. No projeto, cabia ao usuário tentar mudar o destino da jovem.
Vejo diariamente mães no WhatsApp divulgando, apavoradas, eventos sinistros em colégios vizinhos. Ensinam umas às outras modos de bloquear aplicativos —um dos mais recentes, o Simsimi, foi proibido esta semana no Brasil— nos celulares de crianças que, cada vez mais novas, são lançadas à terra de ninguém do mundo virtual.
Será que o caminho é proibir o acesso? Denunciar mensagens? E, juro, estas não são perguntas retóricas. Quem sabe devamos começar pela empatia, especialmente no cruel tribunal da internet onde correm soltos o bullying e o julgamento precipitado —não sei.
Embora acredite, particularmente, que o caminho possa estar na informação acessível, e no amor firme e vigilante aos filhos, sigo, como todos, em choque. Oxalá o grande debate não demore, para que nunca mais vejamos pais enterrando seus filhos em circunstâncias assim.

Suicídio de adolescentes avança, e casos recentes mobilizam escolas de SP

Registros sobem desde 2000; colégio tem que se envolver, dizem especialistas

Marina Estarque
SÃO PAULO
As taxas de suicídio de crianças e adolescentes no Brasil têm aumentado nas últimas décadas, e casos recentes envolvendo estudantes de São Paulo levaram à mobilização de colégios particulares para tratar do problema.
Entre 2000 e 2015, os suicídios aumentaram 65% entre pessoas com idade entre 10 e 14 anos e 45% de 15 a 19 anos —mais do que a alta de 40% na média da população.
O levantamento do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, com base em dados do Ministério da Saúde, aponta que as taxas nesses grupos (de 0,8 e 4,2 por cem mil habitantes, respectivamente) estão abaixo do índice geral (5,5). Mas sua evolução preocupa.
Nas últimas duas semanas, três estudantes de colégios privados de elite da capital paulista se suicidaram —dois eram do Bandeirantes e um do Agostiniano São José. Boatos sobre jogos e aplicativos circularam nas redes sociais, para nervosismo dos pais.
O Bandeirantes afirma que os dois casos envolvendo alunos do colégio não estavam ligados entre si e nega qualquer relação com jogos ou aplicativos. O Colégio Agostiniano São José disse que “refuta os comentários indevidos divulgados pelas mídias sociais e que em nada acrescem à realidade do fato em si”.
Os episódios levaram as escolas a realizar atividades com alunos e pais para dar orientações sobre esse tema.

O Bandeirantes, que estava em período de provas, decidiu suspender alguns dias de avaliação. Em seguida, reuniu os estudantes para conversas.
“Os alunos puderam colocar seus sentimentos, conversar sobre luto e perda. Eles precisavam ser acolhidos”, afirma Estela Zanini, coordenadora do colégio, que também convocou uma especialista em suicídio para preparar a equipe de professores e dar palestras para pais e estudantes.
Mesmo em escolas onde não houve casos recentes, as mortes das últimas semanas impactaram a rotina. No Madre Alix, os professores realizaram rodas de conversa propostas pelos estudantes —alguns eram colegas dos que se suicidaram no Bandeirantes.
“Acho que toda escola está se repensando neste momento”, afirma Katia Chedid, diretora do Madre Alix, que tem um projeto que trabalha com valores sociais e emocionais.
Estudiosos mencionam questões sobre sexualidade, dificuldade de lidar com frustrações, bullying, pressão pela escolha carreira e por um bom desempenho escolar como conflitos que surgem nesta idade e podem funcionar como agravantes. Além disso, as redes sociais, em muitos casos, podem passar a impressão de que todos estão felizes e, assim, contribuir para aumentar a angústia dos jovens.
“A adolescência já é um período conturbado e, atualmente, eles sofrem muita pressão da sociedade e das famílias. Principalmente na elite paulistana, o jovem é cobrado para ter um alto desempenho, passar em uma faculdade excelente, ter uma carreira de sucesso, estudar fora. E pode ser que ele não queira isso”, afirma a psicóloga Karen Scavacini, cofundadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio.
Na sua opinião, as escolas têm um papel fundamental, assim como as famílias, em identificar e ajudar jovens nestas situações. No entanto, de acordo com ela, a maioria dos colégios não tem planos de prevenção. “Eles atuam mais de forma reativa, quando um caso já ocorreu”, diz. 
A doutora em psicologia Luciene Tognetta, pesquisadora de grupo de estudos da Unicamp e da Unesp, também defende ação mais ativa das escolas. Para ela, é imprescindível incluir mais disciplinas e atividades que desenvolvam habilidades socioemocionais.
“Os currículos ocidentais sempre desprezaram isso e focaram na memorização do conteúdo, mas isso não basta para viver em sociedade.” 
Segundo especialistas, os adolescentes também estão mais vulneráveis ao suicídio porque, entre outros fatores, tendem a ser mais imediatistas e impulsivos. “O cérebro do adolescente ainda não está plenamente maduro. O sistema de freios e contrapesos precisa ser formado, em uma gestação social e cultural”, explica Neury Botega, psiquiatra e professor da Unicamp.
O psiquiatra José Manoel Bertolote, da Unesp, diz que a alta recente de suicídios foi verificada mais entre homens.
“Não temos explicação cabal para esse fenômeno, mas, como um dos fatores frequentemente associados ao suicídio é a presença de um transtorno mental (particularmente depressão, alcoolismo e esquizofrenia), acredita-se que a desatenção à saúde mental e a dificuldade para se obter um pronto atendimento está na raiz do problema”, afirma.
O CVV (Centro de Valorização da Vida), que presta atendimento de prevenção do suicídio, notou um aumento na demanda de jovens em seus canais de comunicação.
Carlos Correia, porta-voz do CVV, cita como hipóteses a ampliação do acesso ao serviço por celular e pela internet, além da influência do tema tratado em série televisiva.
O centro teve aumento de demanda em geral: passou da média de 1 milhão de atendimentos ao ano para 2 milhões em 2017. Prevê chegar a 2,5 milhões em 2018 —para isso, precisa de mais voluntários.