sexta-feira, 4 de maio de 2018

Universidade e inteligência artificial, o advento dos robôs

Claudia Costin

Claudia Costin
É professora visitante de Harvard. Foi diretora de Educação do Banco Mundial e ministra da Administração.

Instituições têm o desafio de ensinar competências em que nos saímos melhor que as máquinas

Sempre houve, em países desenvolvidos, forte relação entre necessidades da sociedade e boas universidades. Desde a emergência desta, sua função principal foi a de preparar estudantes para os papéis necessários para a época, como pessoas letradas para conduzir os negócios da alma ou do Estado, na Europa Medieval, ou, mais recentemente, profissões demandadas pelo mercado de trabalho.
Da mesma forma, coube às instituições de ensino superior produzir conhecimento que permitisse avanços no enfrentamento de desafios e no estabelecimento de novas fronteiras. 
Como nos lembra Joseph Aoun em seu livro, “Robot-Proof: Higher Education in the age of Artificial Intelligence”, os seres humanos caminharam na Lua, dividiram o átomo e desenvolveram a internet a partir de pesquisas realizadas em universidades.
A cada transformação histórica no processo produtivo, como a Revolução Industrial e a criação de organizações complexas com cadeias verticais de comando, a resposta encontrada foi, por um lado, extinguir postos de trabalho, mas, por outro, criar novos e demandar mais educação de seus ocupantes. O mesmo ocorreu com o advento dos computadores.
Mas, há hoje, frente à emergência da inteligência artificial,  uma lógica diferente: a velocidade de extinção de empregos se acelerou e passou a atingir mesmo trabalhos que demandam competências cognitivas não rotineiras. 
Quando se lida com máquinas que aprendem, não basta demandar maior escolaridade  dos seres humanos nem ensiná-los a pensar; há que se ensinar a pensar diferente.
Esse é o novo desafio para a universidade, segundo Aoun. Ela deve ensinar os alunos a aprender ao longo da vida e oferecer cursos de diferentes durações e intensidades, para profissionais que mudam constantemente de postos de trabalho.
Deve também ensinar competências que são especificamente humanas, em que nos saímos melhor que robôs, como pensamento crítico ou resolução criativa e colaborativa de problemas, e promover duas características interligadas: imaginação e curiosidade.
Para isso, deve se ligar em rede a outras escolas terciárias, criando o que Aoun chama de multiversidade. Precisa ainda acompanhar os egressos em seus caminhos profissionais com atividades que complementem a formação recebida, inclusive mentorias ou cursos que não necessitam ser previamente definidos como de graduação ou pós, com certificações por blocos independentes, ligados às necessidades de recapacitação de cada um. 
Isso não vai resolver todo o problema criado pela automação, mas formará, com certeza, seres humanos mais aptos a enfrentar suas consequências.

Educação: em busca do tempo perdido

Ana Maria Diniz

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Ana Maria Diniz
A educação que vale a pena

Só uma transformação significativa do sistema educacional é capaz de mudar o curso da nossa história e colocar o Brasil no caminho do desenvolvimento; e esta é a nossa última chance


Sábado, 28 de abril, foi o Dia da Educação. Criada há 18 anos, durante o Fórum Mundial de Educação, em Dakar, a data representa o compromisso das 164 nações ali reunidas, entre elas o Brasil, em oferecer uma Educação de qualidade para suas populações. Por conta da ocasião, e a convite do Valor Econômico, escrevi um artigo sobre a urgência de priorizarmos a Educação em nosso país. O texto, que reproduzo para os leitores do blog, foi publicado sexta, dia 27, na versão impressa do jornal:
Muito se discute sobre qual reforma, dentre as tantas necessárias no Brasil, o próximo presidente irá priorizar logo após tomar posse, em janeiro de 2019. Como se sabe, os primeiros 100 dias de um governo são cruciais para se emplacar mudanças que poderão ditar os rumos do país não só durante o novo mandato, mas nas décadas seguintes.
No páreo, concorrendo ao primeiro lugar, estão a Reforma Política, pela gritante necessidade de substituir o sistema atual por um que funcione e que atraia gente boa e compromissada com os objetivos da sociedade, a Reforma da Previdência, pela urgência inequívoca do equilíbrio das contas públicas, e a Reforma Tributária, capaz de tornar o Brasil um país mais competitivo e turbinar o progresso.
Mas qual é a Reforma Mãe? A que colocará, de fato, o Brasil em outro patamar de desenvolvimento e de inserção no mundo? Para mim, é a Educacional. Se não encararmos de frente o problema da Educação, vamos parar no tempo. Nenhum país rompeu um ciclo vicioso de pobreza, corrupção e violência sem uma Educação de qualidade e digna.
Desde 1990, aumentamos a oferta de vagas, mas ainda não oferecemos um bom ensino. Nada menos que 55% das crianças até o 3º ano do Fundamental não estão aptas a ler e escrever estruturas simples. Quase metade dos estudantes tem nível de aprendizagem inadequado, mostra o PISA, e isso independe de condição social:  os alunos com maior nível socioeconômico têm desempenho pior do que os mais pobres de Macau e Vietnã.
Várias condições tornam a nossa Educação uma das mais atrasadas do mundo. O mau uso do dinheiro público é uma delas. Outra é a burocracia. Ambas sobrecarregam o setor público, aniquilam a produtividade e prejudicam a Educação, nos prendendo a um looping de retrocesso. Enfim, criamos um sistema educacional mais preocupado em manter a máquina funcionado, muitas vezes para beneficiar o próprio sistema, do que com a aprendizagem.
Eu acredito que esta é a nossa última chance de colocar o ensino em primeiro lugar. Para isso, precisamos de um plano estratégico, com etapas e passos bem definidos não só na implementação, mas na continuidade, e que contemple ao menos três mandatos. Estudos do Todos pela Educação mostram que é possível mudar a cara da nossa Educação em doze anos.
Este plano precisa de ingredientes nada misteriosos ou milagrosos: um projeto bem arquitetado para a erradicação do analfabetismo; um projeto sério de valorização do professor; uma política nacional para a Primeira Infância; um governo que coordene a ação de quem executa a Educação na ponta (estados e municípios), dê incentivos e fiscalize a implementação de diretrizes para que todos tenham acesso a um ensino qualificado.
A exemplo do Chile e da Coreia do Sul, o Brasil deveria ter a Educação no centro de suas reformas. Com os devidos esforços no setor, em 20 anos esses dois países aumentaram a produtividade e hoje trilham um caminho mais próspero. No Brasil, todo o lavor das últimas três décadas em torno da Educação parece ter sido inócuo. Nossa produtividade permanece estagnada em sua “soneca de 50 anos”, como colocou a revista The Economist.
Para que mudar o curso da nossa história, não basta a crença de que sem Educação não há progresso. Nem é suficiente o comprometimento dos políticos que virão a assumir o país em elevar a qualidade do ensino. É preciso coragem para encarar nossas fraquezas, detectar onde erramos e, a partir daí, iniciarmos uma transformação profunda e significativa do sistema educacional, uma mudança alinhada com o projeto de país que pretendemos ser.

terça-feira, 1 de maio de 2018

O Brasil não sabe educar

Os cursos de pedagogia não atraem os melhores e formam mal aqueles que atraem

Ana Carla Abrão*, O Estado de S.Paulo

Educação pública básica gratuita, em um país injusto como o Brasil, é política de redução de desigualdade e, justamente por isso, um imperativo social. Afinal, educação é acesso a oportunidades e à possibilidade de uma vida melhor. Sendo tudo isso, deveria ser prioridade de Estado, e não apenas o slogan bonito de um governo que nasceu morto em 2015. Mas há muitos anos já não é.
Embora tenhamos avançado na universalização do ensino, garantindo acesso à escola a 94,2% das crianças entre 4 e 17 anos, e tenhamos dobrado a escolaridade média da nossa população entre 1990 e 2016, nossas conquistas não vão muito longe quando se avalia a qualidade dessa educação. Ao contrário, os números olhados com mais profundidade desenham um quadro devastador que nos condena a um futuro de atraso.
Dados compilados pela Todos pela Educação, Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) criada com foco em educação básica, expõem a situação precária da educação pública no Brasil. Na matemática, apenas 43% dos alunos que chegam ao final do 5.º ano do ensino fundamental têm aprendizagem adequada. No 9.º ano, esse número cai para 18%, e chega aos vergonhosos 7% na 3.ª série do ensino médio. Ou seja, 93% dos nossos jovens que completam o ensino médio não sabem resolver problemas de porcentagem ou uma equação de 2.º grau.
Da mesma forma, os números do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), coordenado pela OCDE, mostram que os nossos resultados não são nada alentadores. Conseguimos avanços até 2009, mas desde então nossa avaliação vem caindo, atingindo um resultado que coloca nossos melhores alunos abaixo dos piores alunos de países como o Vietnã ou a Estônia. Com uma nota média de 396 pontos nas avaliações de leitura e matemática em 2015, estamos abaixo da média da América Latina e em situação muito inferior aos demais países emergentes.
O problema por trás da baixa qualidade da nossa educação é complexo e, como tantos outros que estão presentes no Brasil de hoje, exige enfrentar as questões de frente – e em suas diversas dimensões. Neste caso como em outros, não será aumentando gastos públicos que teremos resultados melhores.
O Brasil já gasta o equivalente a 5,5% da renda nacional bruta em educação, muito acima da média mundial de pouco mais de 4%, e mais do que gastam Reino Unido, Estados Unidos ou Canadá. Dependemos, por outro lado, da realocação de recursos, revertendo o foco colocado na educação superior, e de mudanças estruturais no sistema atual de gestão da educação.
Há sim questões relativas a melhoras na formação de professores. Como ressalta o Todos pela Educação, nossos cursos de pedagogia têm pouca atratividade e baixíssima efetividade. Não atraem os melhores e formam mal aqueles que atraem. Não preparam para a docência e pouco investem no ensino da arte de ensinar. Indicações políticas e baixa exposição à aprendizagem são outras fontes dos péssimos resultados.
Mas há um outro conjunto relevante de distorções que precisa ser considerado – e alterado. O professor de uma escola pública precisa estar sujeito aos incentivos corretos, à avaliação de resultado, à demissão por baixa performance e à cobrança pelo rendimento do aluno. Há que se indignar com o absenteísmo e com a baixa aprendizagem. Há que se evoluir na gestão, há que se perguntar quantos professores estão fora de sala de aula – e quantos mais há que se contratar por conta disso. Há que se racionalizar o número de escolas e reduzir a ociosidade para que se possa ter no ensino integral a regra, e não a exceção.
Se na escola privada os instrumentos de gestão funcionam para os filhos daqueles que podem pagar, mais ainda deveriam para os que dependem do ensino público para que seus filhos tenham uma vida melhor. 
O futuro das nossas crianças e jovens e, portanto, do Brasil, depende de colocarmos os interesses políticos em segundo plano, alçando ao primeiro as escolhas públicas que tenham no aluno e na qualidade de ensino as reais motivações. Afinal, educar é muito mais do que garantir acesso à escola.
*ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETE EXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO DA COLUNISTA

Não há uma família do mundo que não pergunte: “O que vai acontecer com emprego do meu filho, do meu neto, com a entrada de tantos robôs no setor produtivo?”.

Novas tecnologias podem provocar saída de multinacionais do Brasil, diz economista

Para José Pastore, redução de custos com indústria 4.0 tira atrativo da mão de obra barata no país


O economista José Pastore, 82, especialista em questões trabalhistas
O economista José Pastore, 82, especialista em questões trabalhistas
O economista José Pastore, 82, especialista em questões trabalhistas - Marlene Bergamo/Folhapress


Raio-X 

José Pastore, 82

FORMAÇÃO 

Bacharel em ciências sociais pela USP, mestre em ciências sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, doutor em sociologia e doutor honoris causa em ciência, ambos pela Universidade de Wisconsin (Madison, EUA)

CARREIRA 

É professor titular da Faculdade de Economia e Administração da USP e presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho, da FecomercioSP. Foi chefe da Assessoria Técnica do Ministério do Trabalho e membro do Conselho de Administração da OIT (Organização Internacional do Trabalho)

OUTROS TÍTULOS

Membro da Academia Internacional de Economia e Direito e da Academia Paulista de Letras



Érica Fraga
SÃO PAULO
A quarta revolução industrial vai tirar o atrativo do custo baixo da mão de obra brasileira para as empresas, pois as novas tecnologias têm permitido que elas consigam “fazer mais do que antes, com menos pessoas, menos salários, menos dor de cabeça”.
A afirmação é de José Pastore, 82, um dos maiores especialistas brasileiros em relação do mundo do trabalho. 
Segundo ele, há o risco de que muitas multinacionais deixem de ver vantagem em operar no Brasil, que, além de permanecer longe da fronteira tecnológica, sofre com precariedade educacional crônica e com excesso de burocracia.
“Muitas multinacionais começam a apresentar sinais de volta a seus países de origem. E isso é um problema que preocupa bastante”, diz Pastore, que é presidente do Conselho de Sustentabilidade da FecomercioSP, que promoveu recentemente o seminário “Como será o trabalho do futuro à luz de novas tecnologias?”

Há um esforço para mensurar quantas vagas serão criadas e eliminadas na esteira da quarta revolução industrial. Há um exagero nisso? 
Acho que essa ansiedade é mundial, não há uma família do mundo que não pergunte: “O que vai acontecer com emprego do meu filho, do meu neto, com a entrada de tantos robôs no setor produtivo?”. Na literatura, você vai encontrar resposta para tudo. Tem gosto para tudo. Você vai ter autores de respeito dizendo que [a tecnologia] mais destrói do que cria, e vai ter outros
dizendo que mais cria do que destrói. E tem aqueles por quem tenho muita admiração que dizem: “A questão não é o que destrói e o que cria, o problema é o que é transformado”. A grande maioria dos empregos e do trabalho certamente passará por muita transformação em razão das mudanças tecnológicas. E isso aqui também tira o sono da gente, porque a pergunta é: “Será que o país, a escola, a empresta estão preparadas para fazer o ajuste?”.
Por que o senhor disse admirar os especialistas mais moderados nesse debate? 
Porque, olhando para os países, você vai encontrar casos como EUA, Japão e Alemanha, que usam novas tecnologias em grande profusão e têm um nível de geração de emprego admirável, desemprego baixíssimo. A literatura mostra que na Alemanha, por exemplo, a velocidade de entrada de robôs é igual ao surgimento de novos empregos. Os EUA estão com 4% de desemprego.
O Japão também. Então, essa questão de que só destrói não é verdadeira, acho que há empregos que são destruídos e outros que são criados, mas tem a grande maioria que se transforma. Então, eu tendo a ter simpatia por isso porque acho mais realista.
Há diversas projeções divergentes sobre o impacto da tecnologia sobre o emprego. Isso tira credibilidade do debate e gera mais confusão do que orientação? 
Acho que as divergências que surgem só agravam a ansiedade que existe. Há muitas estimativas diferentes, mas também estudos como o da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, feito por pesquisadores da Áustria, que dizem que a profissão não some. Então, quem é médico hoje vai continuar médico daqui a 10 anos, 8 anos, mas o que ele vai fazer vai ser transformado.
Outros falam que não é questão de olhar para o saldo, vamos olhar o impacto que tem na renda, que desiguala ou cria polarização porque destrói muitas atividades do meio e preserva as pontas, as altamente especializadas e aquelas que não podem ser robotizadas embaixo, que é o zelador, o garçom, a enfermeira, quem faz manutenção de equipamentos. A questão da polarização é mais importante que olhar para o saldo, porque demanda políticas específicas para lidar com suas consequências, como a desigualdade de renda.
O senhor mencionou que as chamadas profissões do meio estão desaparecendo. O que mais já se vê de transformação concreta? 
Você vai ter mudança de funções de atividades a começar pela sua profissão de jornalista. A sua profissão está cheia de novidade. Tem coisas de ponta hoje. É possível escrever uma reportagem sem a participação do jornalista humano e isso tem sido feito de forma intensiva.
Há advogados de ponta que fazem a petição deles em cima de um número monumental de informações [levantadas por tecnologia] para fazer o melhor argumento possível. Na medicina, há os médicos que confiam mais no diagnóstico feito por robôs e big data do que no seu próprio. São transformações visíveis. 
Isso também já é visto aqui no Brasil? 
No campo industrial, a CNI (Confederação Nacional da Indústria) tem algumas pesquisas mostrando que menos de 40% das indústrias brasileiras estão na quarta revolução industrial. Ou seja, a grande maioria ainda não chegou lá. E as que estão, entram lentamente. Algumas com mais velocidade, outras mais devagar. No setor de serviços, a coisa é diferente. No financeiro, que é um dos principais do segmento, a velocidade é espantosa, de automação e inteligência artificial. 
Hoje nos EUA o ecommerce é responsável pelo dobro das vendas do que há seis, cinco anos atrás e tem lojas fechando até na Quinta avenida porque ninguém tem interesse em comprar em uma loja e às vezes não tem condições de pagar aluguel caro. Aqui no Brasil também está acontecendo isso, a penetração do ecommerce é muito rápida e certos produtos, como material de escritório, livros, música, são mais comprados no ecommerce do que em lojas físicas.
O risco de que a atual revolução tecnológica aumente a desigualdade de renda é concreto? Essa ameaça existe no Brasil? 
Esse risco é concreto porque aumentou a diferença da remuneração do capital em relação à remuneração do trabalho. A remuneração do capital agora está maior do que a do trabalho porque as tecnologias dão saltos de produtividade fantásticos e acabam dispensando certas habilidades humanas. Então, a remuneração do ser humano tende a ser postergada ou reduzida em relação à remuneração do capital e isso gera desigualdade. Gera desigualdade entre profissionais de vários tipos que são afetados pela entrada de tecnologia.

Isso é uma coisa séria para o Brasil porque muitas multinacionais vêm para cá, assim como para outros países em desenvolvimento, porque o trabalho ainda é barato. Agora, com as novas tecnologias, o trabalho brasileiro, apesar de barato, se torna muito caro, porque você consegue fazer muito mais do que antes, com menos pessoas, menos salários, menos dor de cabeça.

Então muitas multinacionais começam a apresentar sinais de volta a seus países de origem porque lá elas conseguem fazer mais quase sem trabalho, com muita automação, além de estarem perto da logística e dos consumidores. E isso é um problema que preocupa bastante. 
O que diminuiria o risco de o Brasil perder esses investimentos? Se o Brasil tiver condições tecnológicas de ficar na fronteira e pessoal qualificado, esse aqui é um mercado consumidor bom também. Há muita chance de ter empresas prósperas aqui, mas sabemos que há vários entraves nessa equação. A coisa é preocupante porque, ao mudar a diferença de remuneração entre capital e trabalho, isso pode gerar muito deslocamento de empresa ao longo do globo todo. Não digo que o risco é de debandada maciça, mas uma debandada de muitas empresas.
O que o Brasil poderia estar fazendo? 
Para enfrentar essa questão de desigualdade de renda, destruição de emprego, transformação de trabalho etc., os países avançados, como EUA, Alemanha e Coreia do Sul, possuem conselhos especializados na formulação de políticas especificas para esse assunto.

Cingapura foi mais longe e, além do conselho, tem experiência prática na difusão do ensinamento de novas tecnologias. Cingapura montou um Pronatec de exportação. E vários países estão se apoiando em cursos rápidos, por meio de internet a distância, para poder acompanhar a velocidade da mudança tecnológica. Então, o Brasil tem muito a fazer nesse campo ainda.
No que tange à qualificação da mão de obra, não preciso dizer que nosso sistema educacional tem uma precariedade crônica. As burocracias também estimulam a automação, a inteligência artificial. Quando o empresário vê que é muito complicado, ele fala “eu vou robotizar”.
Então, burocracia tributária, trabalhista, do ambiente instigam uma aceleração da busca de proteção do negócio via automação. E a gente está fazendo pouco nesse campo aqui. No campo tributário, Bill Gates acha que está na hora de pensar em tributar os robôs.
E o que o senhor acha dessa discussão? 
A tributação do robô é muito controvertida. No meu entender, tributar robô é inibir a criatividade humana. Agora, por que é controvertida? Porque há um argumento. O Bill Gates fala assim: “Olha, se você não quer inibir a criatividade humana, tributa o lucro recorrente do uso das novas tecnologias e usa esse lucro para o sistema educacional”.
Outra discussão importante é sobre educação continuada, que é algo que dá certo. O Japão e a Alemanha são dois casos de sucesso que permitem aos jovens acompanhar a evolução tecnológica. 
Em termos de formação, o que o senhor acha dessa discussão de novas competências e habilidade? 
Para acompanhar essa velocidade meteórica das novas tecnologias, me parece fundamental ter uma boa educação geral. Saber fazer conta, escrever, ler, interpretar e conhecer a lógica das ciências. Além disso, você precisa reconhecer as novas habilidades, as novas exigências que estão mais ligadas ao mundo da produção. Mas o que facilita a mobilidade de uma área para outra é a qualidade da educação básica, porque é ela que permite aprender, se ajustar às novas exigências.
As mudanças que estão sendo discutidas na educação no Brasil nos fazem caminhar nessa direção? Eu acho que está longe. Nós precisaríamos ter outros esquemas. Uma coisa é você ensinar, outra é aprender. O Brasil está avançando na tarefa de ensinar. Tem mais gente na escola, os métodos estão melhorando, o currículo etc. Mas aprendizagem é o que você mede no Pisa [avaliação educacional], e o que você mede no Pisa está deixando o Brasil muito mal na foto até o momento.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Como identificar sinais e prevenir suicídio entre adolescentes

Segundo a OMS, 90% dos casos podem ser evitados; estar atento aos avisos que a pessoa dá é essencial para impedir a tragédia

Por Marcella Centofanti


A divulgação de casos recentes de suicídio entre alunos de escolas particularesde São Paulo deixou adolescentes, pais e professores alarmados. Há motivos para preocupação. Embora adultos se matem mais, o crescimento dessas fatalidades entre os jovens é maior no Brasil. De 2005 a 2016, últimos dados disponíveis no Ministério da Saúde, o suicídio na faixa etária de 10 a 14 aumentou 31%, passando de 0,54 para 0,71 por 100 mil habitantes. Entre aqueles com 15 a 19 anos, subiram 26%, saltando de 2,97 para 3,76 por 100 mil pessoas. Estudiosos no tema acreditam que os números reais sejam maiores – o tabu provoca subnotificação. Diante desse cenário, surge o debate: como impedir que novas tragédias aconteçam?
Mortes auto infligidas são arrasadoras para familiares e amigos da pessoa que morreu. Uma estimativa feita pela psicóloga Julie Cerel, presidente da Associação Americana de Cuidados com o Suicídio, revela que 135 indivíduos são afetados, em média, quando alguém tira a própria vida – um terço de forma mais severa. Cerca de 5% de todos esses afetados repetem o comportamento.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 90% dos casos de suicídio poderiam ser evitados. As comunidades desempenham um papel fundamental na prevenção dessa tragédia, segundo a OMS, na medida em que podem oferecer apoio a indivíduos vulneráveis e estimular seu tratamentoapropriado.
Hoje, no Brasil, o principal meio disponível para quem precisa de ajuda é o Centro de Valorização da Vida (CVV), associação sem fins lucrativos que há 54 anos oferece serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio. O Ministério da Saúde recorreu ao CVV para tentar barrar o crescimento de mortes autoprovocadas no país. Desde março de 2017, as ligações ao número 188 são gratuitas, inclusive por celular e orelhão. Com a mudança, os atendimentos saltaram de 1 milhão para 2 milhões por ano. A projeção para 2018 é 2,5 milhões.
O CVV não tem informações sobre a idade das pessoas que procuram o serviço, uma vez que as ligações são anônimas. Estima, no entanto, que o número de adolescentes em busca de socorro aumentou. “Percebemos que jovens gostam de se comunicar por chat e e-mail. Na época do lançamento do seriado 13 Reasons Why, os atendimentos por e-mail cresceram 445%”, afirma Carlos Correia, porta-voz da associação. Divulgada em 2017, a série da Netflix conta a história de uma menina que tira a própria vida.
Alguns fatores explicam porque adolescentes podem tomar essa atitude tão drástica. Com o cérebro em formação, jovens são naturalmente mais impulsivos. Há ainda a imaturidade inerente à idade, predisposição genética e influências ambientais e sociais. Histórico familiar, abusos (físicos, sexuais e psicológicos, como o bullying), uso de álcool e drogas e distúrbios mentais (depressão, transtorno bipolar e esquizofrenia são alguns deles) estão entre os fatores de risco.

Como ajudar

De acordo com a OMS, a maioria das mortes autoprovocadas são precedidas de avisos – é mito que indivíduos que falam sobre suicídio não querem concretizá-lo. Por isso, o primeiro passo para evitar que uma pessoa tire a própria vida é estar atento aos sinais verbais e comportamentais que ela dá (ver abaixo).
Com a experiência de 26 anos como voluntário no CVV, Carlos Correia aponta de que maneira ouvir um desabafo alheio. “Não interfira na fala da pessoa, não julgue, não desmereça seu sentimento e não aponte caminhos. Ouça o que o outro tem a dizer com atenção, carinho e respeito”, diz. Ofereça seu tempo. “Você vai quebrar a narrativa da pessoa se olhar no relógio enquanto ela fala.” Esteja disponível para conversar novamente e informe sobre ajuda profissional – o papo entre amigos não substitui o suporte médico e psicológico. “É preciso quebrar o tabu do suicídio. E falar sobre ele é a melhor solução para isso”, afirma Correia.
A psicóloga Karina Okajima Fukumitsu, especialista nos estudos de suicídio e pós-doutora em psicologia, listou sinais a que familiares, professores e amigos devem ficar atentos:

Sinais de alerta verbais

“Resolverei o problema de vocês”
“Em breve, vocês não precisarão se preocupar comigo”
“Se isso acontecer novamente, prefiro estar morto”
“Não aguento mais!”
“Eu sou mesmo um fracassado e inútil”
“Estou cansado dessa vida, não quero continuar”
“Eu não consigo aguentar isso”
“Quero sumir!”

Sinais de alerta comportamentais 

Automutilação
Isolamento
Pertubações no sono (excessivo ou insônia)
Dificuldade de concentração
Irritabilidade, intensa raiva, desejo de vingança
Medos e preocupações
Pensamentos sobre morte ou sobre morrer
Culpa, vergonha e cobranças e não ter atingido expectativas
Oscilação de humor, pessimismo, desesperança, desespero, desamparo
Ansiedade, dor psíquica e stress acentuado
Sensação de estar preso e sem saída
Desfazer-se de objetos importantes
Despedir de parentes e amigos

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Uma opressão maior que a vida




A infelicidade extrema, a falta de esperança e a frustração com as vicissitudes inerentes à vida têm produzido um quadro alarmante na última década no Brasil: em média, 11 mil pessoas se matam por ano, um a cada 48 minutos, 30 por dia. Jovens com imensurável potencial para se destacar em inúmeras atividades estão decidindo por fim à própria vida bruscamente por não saber lidar com as opressões do mundo atual. Em vez de acalentar projetos, muitos interrompem seus sonhos com frequência inaceitável. Na semana passada, o tema ganhou visibilidade novamente no tradicional Colégio Bandeirantes, na zona Sul de São Paulo. A escola, cuja qualidade do ensino a coloca entre as mais conceituadas da Capital, comunicou a ocorrência de dois suicídios entre seus alunos, um de 16 e outro de 17 anos, em um intervalo de dez dias. No mesmo período houve um terceiro caso no Colégio Agostiniano São José, na zona Leste da cidade. A notícia causou comoção nas redes sociais e, ao mesmo tempo, abriu um debate franco – e oportuno – sobre o assunto.




De forma quase silenciosa, o suicídio é, hoje, a quarta maior causa de mortes entre pessoas de 15 a 29 anos no País. É a terceira entre homens. Embora com uma ligeira queda em 2016, as ocorrências vêm apresentando uma incômoda tendência de alta nesta década. Mundialmente, o suicídio é a segunda maior causa de morte na mesma faixa etária. Uma das principais causas dessa onda nefasta é a epidemia de depressão e de outras doenças psiquiátricas que assola a sociedade e afeta uma grande população jovem. Os que se matam sofrem, em geral, com alguma dessas doenças e enfrentam grande solidão e tristeza. “É bastante difícil para todos nós lidar com essa situação. É como um tsunami”, afirma a coordenadora do Bandeirantes, Estela Zanini. “Essas duas tragédias afetaram muito a escola, geraram grande ansiedade entre professores, pais e alunos e nos levaram a intensificar várias ações preventivas e de apoio”.


“Se eu tivesse a chance de voltar no tempo para valorizar mais os sinais que ela estava dando, que não era só um problema da idade, mas um sofrimento real, eu voltaria ”Terezinha Máximo, 45 anos, mãe de Marina, que se suicidou aos 19 (Crédito:Gabriel Reis)


Nenhum dos dois estudantes era alvo de bullying, um dos fatores que costumam desencadear processos suicidas. Os dois tinham amigos, seus pais eram presentes e ambos tiravam notas altas, acima da média. Não foram influenciados por jogos ou séries de TV ou um pelo outro, segundo a escola. Os dois não se conheciam. Eram de turmas diferentes: um do segundo ano do ensino médio e outro do terceiro. O colégio tem 2750 alunos. De acordo com Estela, os dois conseguiam enfrentar o altíssimo nível de exigência e de competitividade do Bandeirantes com relativa facilidade. Estavam, porém, enfrentando dificuldades pessoais e pressões sociais que mesmo as pessoas mais próximas desconheciam. O primeiro, S.C.R. que cometeu um ato mais planejado, sofria com sintomas de uma depressão e recebia acompanhamento médico. Suicidou-se um dia antes da semana de provas. Não deixou nenhum bilhete nem qualquer pistas sobre o que foi o estopim da decisão de se matar. Desolado, seu pai o descreveu com ternura no Facebook: “Amado, doce, sensível, inteligente, aplicado, exigente, articulado, carinhoso, protetor, amigo, fiel, engajado, questionador e com um olhar para as questões do nosso mundo que não tenho palavras para explicar.” O segundo, que tinha um irmão gêmeo, foi mais impulsivo e não dava sinais preocupantes de que poderia se matar. Tudo aconteceu de repente, depois de uma festa, na madrugada de sábado para domingo, 22. O deflagrador do suicídio foi uma desilusão amorosa, depois de ter visto a namorada com outro garoto. Ele chegou em casa e, sem dar nenhuma pista do que faria a seguir, saltou do oitavo andar. Diferentemente do primeiro caso, os pais não se manifestaram publicamente.


“Ela não dava nenhum sinal de que pretendia tirar a própria vida. Estava normal, prestando vestibular para Direito” Ivo Oliveira Faria, 59 anos, pai de Ariele, que se suicidou aos 18 (Crédito:Gabriel Reis)

A direção da escola tomou a decisão sensata de abordar o assunto de forma direta e está acolhendo seus alunos mais vulneráveis psicologicamente, além de ter planejado diversas ações preventivas depois que os casos aconteceram. Professores e funcionários receberam treinamento e foram estabelecidos espaços de diálogo para todas as turmas. Para as classes de terceiro ano do ensino médio, as aulas foram suspensas no dia 23 e no dia 24 foram organizados encontros para conversa e reflexão, além de ações de acolhimento. A escola diz que está preparada para ajudar os alunos no enfrentamento do luto. Com 74 anos de existência, o Bandeirantes tinha registrado, até então, dois casos de suicídio, um há 15 anos e outro há 30 anos.
“A gente está recolhendo os escombros, a escola está realmente afetada e nosso trabalho de acolhimento agora é como um atendimento de emergência”, explica a psicóloga Karina Okajima Fukumitsu, responsável pelo programa de prevenção pós-suicídio no Bandeirantes. A escola tinha chamado Karina para lidar com o luto do primeiro aluno, morto no dia 10 de abril, e quando ia implantar seu programa aconteceu o segundo caso. Houve um grande número de pais pedindo mais informações. “O suicídio é um ato de comunicação. O mais importante é não negar o fato, a negação do sofrimento é a causa maior de perturbação”, diz Karina. “O que provoca mais problemas são as elucubrações e as coisas que são faladas.
A dura realidade é que as pessoas ficam sem chão. Como a escola vai lidar com a ausência desses alunos que de uma hora para outra se tornaram muito presentes? Toda a escola, a direção, os professores, os alunos têm tentado digerir o que é muito indigesto.” Segundo ela, muitas escolas enfrentam o problema com seus alunos, mas evitam qualquer divulgação. Desde que começou a trabalhar com o Bandeirantes, ela já foi procurada por oito escolas interessadas em seus serviços – em palestras de esclarecimento para pais e em treinamento de grupos de apoio. Uma das recomendações da OMS é não divulgar detalhes sobre os métodos de realização do suicídio para não influenciar pessoas mais vulneráveis.

Quem teve a dolorosa experiência de perder uma filha dessa forma foi a dona de casa Terezinha Máximo, de 45 anos. Sua caçula Marina se suicidou em março do ano passado, aos 19 anos. A jovem, que estudava filosofia na Universidade Federal do ABC, estava em tratamento contra depressão, mas mesmo com esse apoio psicológico e com a ajuda da família e dos amigos sucumbiu ao sofrimento. “A gente fica com uma série de perguntas, uma série de porquês e fica pensando no que pode ter feito de errado”, afirma Terezinha. Marina era uma menina alegre que passou por uma intensa mudança de humor a partir dos 17 anos. “No começo achávamos que fosse TPM, problemas de adolescente que ficariam para trás, mas a situação se agravou”, lembra Terezinha. A garota passou a fazer tratamento psiquiátrico e a tomar medicação, mas isso não impediu que ela passasse a se automutilar, um sinal de alerta em muitos processos suicidas (leia quadro). Em certo momento, começou a dizer que não queria continuar daquela forma. “A pior parte de tudo isso é reaprender a viver sem a pessoa”, afirma Terezinha. Ela e o marido Joseval, que têm outro filho de 27 anos, montaram um blog e coordenam hoje um grupo de apoio para ajudar pessoas a se recuperar do luto do suicídio. “Se eu tivesse a chance de voltar no tempo para valorizar mais os sinais que ela estava dando — não era só o problema da idade, mas um sofrimento real, eu voltaria”.
Sensação parecida é a do oficial de Justiça aposentado Ivo Oliveira Faria, de 59 anos. Sua filha Ariele, de 18 anos, se suicidou em março de 2014. “Naquele dia, a gente almoçou normalmente num restaurante e a única coisa que ela fez de diferente foi pedir um suco de manga em vez de laranja”, lembra. “Ela não dava nenhum sinal de que pretendia tirar a própria vida, estava normal, tinha terminado o ensino médio e estava prestando vestibular para Direito”. Ariele era uma menina calada, mas muito afetuosa e maternal. Demonstrava grande voracidade de leitura e na escola tinha desempenho mediano.
Três meses antes de se suicidar ela comunicou o pai de que pararia de frequentar a Igreja Gnóstica Cristã, o que fazia desde a infância com a família. “Disse para ela que não haveria problema, que eu lhe daria todo o apoio”, afirma Faria. Antes do último ato, Ariele deixou um bilhete em que dizia que não aguentava mais, que sua decisão não tinha culpas e que gente morta não decepciona ninguém. “Entrei em parafuso depois da sua morte. Me falaram de um grupo de apoio aos sobreviventes do suicídio, o Vita Alere, e fui numa primeira reunião ainda em 2014”, diz. “Frequento o grupo desde então para lidar com meu luto.” Criar um grupo para lidar com o luto foi o que fez o geógrafo cearense Tadeu Dote Sá, que perdeu a filha Bia, de 13 anos, em 2008. Tadeu criou o Instituto Bia Dote de Amor e Paz, onde são promovidas reuniões, palestras, rodas de conversas e muitas outras ações que ajudam na prevenção do suicídio. “Investimos no instituto como se fosse uma faculdade ou um carro que a gente daria para a Bia”, diz Tadeu.
A decisão de se matar sofre influências biológicas, psicológicas, sociais e culturais. A adolescência é um período de especial vulnerabilidade porque envolve mudanças hormonais, definições de personalidade, cobranças de desempenho, obrigando meninos e meninas a enfrentar um mundo em transformação. “O jovem está mais doente psiquicamente de um modo geral”, diz a psicóloga Karin Scavacini, que está à frente do Instituto Vita Alere de prevenção e reação pós-suicídio. “Há uma dificuldade de aceitar a experiência da solidão e do sofrimento, baixa tolerância à frustração e uma obrigação de parecer de bem com a vida.” A ansiedade em relação ao desenvolvimento escolar e profissional tem afetado mais as novas gerações, sobretudo a partir do ensino médio e durante a universidade. No ano passado, houve pelo menos seis tentativas de suicídio entre alunos do quarto ano da Faculdade de Medicina da USP. “Em 90% dos casos de suicídio, a pessoa tinha uma doença psiquiátrica que pode ou não ter sido diagnosticada antes da morte”, afirma o psiquiatra Celso Lopes de Souza. “A coisa é mais complexa do que achar culpados únicos, causas únicas.” Para o psiquiatra, na maioria dos casos, a pessoa que se mata não quer morrer. Ela apenas quer renascer de uma situação difícil que está vivendo e que acha que nunca vai acabar. O psicólogo americano Edwin Shneidman, considerado o pai da suicidologia moderna, diz que o suicídio é um ato definitivo para um problema que tende a ser temporário.
De acordo com a psicanalista Débora Damasceno, diretora da Escola de Psicanálise de São Paulo, os suicidas têm algo em comum: falta de perspectiva para o futuro. “O que os adultos precisam fazer é responsabilizar o jovem pela própria saúde mental. Isso acaba com a pressão de que ele não pode falar. Mas o adulto tem que estar disposto a ouvir”, afirma. Segundo ela, os adultos têm uma conduta protecionista com os jovens, o que faz com que a autonomia deles seja tirada. “A pergunta que o jovem tem que fazer é: ‘Eu estou conseguindo lidar com os meus sentimentos’? O impulso do suicídio não é do nada, é algo que vem acontecendo gradativamente”, explica. Débora também afirma que quando o adolescente não quer falar sobre suas questões é preciso observar sinais. “Se eles são bem comportados demais, não têm um comportamento de questionar a própria realidade e não pensam no futuro, essa não é uma conduta comum de um adolescente”, diz.
Uma das consequências mais dramáticas dos suicídios é o desconsolo e a desolação daqueles que ficam, principalmente os mais próximos. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que um suicídio afeta diretamente entre seis e dez pessoas. Algumas são contagiadas a ponto de também cometerem um ato final. Os sentimentos de quem conviveu intimamente com o suicida envolve culpa (“eu poderia ter feito alguma coisa”), vergonha (a ideia de que suicídio é um fracasso, uma covardia, e não se deve falar do assunto), impotência (por não ter conseguido fazer nada para evitá-lo) e falta de conhecimento (as profundas razões que levam alguém a se matar são um mistério). Acima de tudo, há uma grande dificuldade de respeitar o sentido da vida do outro e aceitar sua decisão.


A importância de falar

Um dos trabalhos mais consistentes de prevenção ao suicídio no Brasil é realizado pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), fundado em 1962, que, nos últimos anos, tem aberto novos canais gratuitos de comunicação e ampliado sua capacidade de atendimento para todas as classes sociais, o que tem causado um grande aumento da demanda por seus serviços. Em 2017, o número de chamadas para o CVV duplicou, saltando de um milhão, em 2016, para dois milhões. Dois eventos no ano passado — a série do Netflix “13 Reasons Why” e o jogo Baleia Azul —, justificam parte desse aumento, diz o porta-voz do CVV, Carlos Correia. Durante a exibição da série, as escolas entraram em pânico e se falou muito em bullying e suicídio. Mais adolescentes e jovens entraram em contato. “Os relatos que recebemos demonstram uma solidão muito grande e muita dificuldade da pessoa compartilhar o que está sentindo”, afirma Correia. “Além de não julgarmos as pessoas pelo sofrimento, damos a oportunidade para ela fazer uma reflexão sobre a própria vida em um ambiente receptivo e amistoso”. Citando projeções da OMS, Correia diz que 90% dos casos de suicídio poderiam ser evitados com um esforço de prevenção adequado. A meta do Ministério da Saúde é diminuir em 10% os casos de suicídio no Brasil até 2020 — objetivo alinhado com o da Organização Mundial de Saúde. Ainda que a redução seja alcançada, o número permanecerá alto. Mudar esse quadro definitivamente depende de uma atenção maior às situações que fragilizam os jovens e tornam o sentimento de opressão maior que a vontade de viver.

Acesso ao ensino superior

Mozart Neves
Diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna. Foi reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), secretário de Educação de Pernambuco (2003-2006) e presidente do Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação). Foi presidente executivo do Todos Pela Educação (2007-2010)

O maior objeto de desejo para a larga maioria dos jovens é obter um diploma universitário, não só pelo status social que isso traz, mas também porque representa maiores oportunidades de emprego qualificado no mundo do trabalho. Estudos do economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas/RJ, mostram que, para cada ano de estudo, há um impacto médio de 12% na renda do trabalhador. Mas, se essa pessoa tem ensino superior, o impacto é de 36%. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) apontam que, no período de janeiro a maio do ano passado, havia menos 102.483 vagas voltadas para trabalhadores com ensino fundamental completo ou incompleto – ou seja, os postos de trabalho “encolheram” para aqueles com menos instrução; por outro lado, para trabalhadores com ensino médio e/ou ensino superior, mesmo que incompleto, o saldo foi positivo, com 85 mil novas vagas disponíveis!
Na perspectiva do aumento da produtividade de uma nação, o impacto mais significativo ocorre a partir dos onze anos de escolaridade. Ou seja, o impacto médio dos anos associados ao ensino superior na produtividade do trabalho é de 25%.
Apesar do reconhecimento do valor do ensino superior, o percentual de jovens de 18 a 24 anos (faixa etária esperada para cursá-lo) com acesso a ele ainda é muito baixo no Brasil, não obstante o crescimento verificado na última década. Atualmente, para cada 100 jovens nessa faixa etária, apenas 18 estão no ensino superior, número bem inferior aos verificados em países vizinhos, como Argentina, Chile e Uruguai.
Para acelerar esse crescimento, a Meta 12 do Plano Nacional de Educação (PNE), que se encerra em 2024, se refere especificamente à expansão do ensino superior no Brasil. De acordo com ela, pretende-se chegar a um percentual de 33% de jovens de 18 a 24 anos nesse nível de ensino. Se considerarmos o crescimento verificado nos últimos cinco anos (2011 a 2015), o país não alcançará essa meta, que já foi a mesma colocada no PNE anterior, de 2001 a 2010.
Contribuem para isso pelo menos dois importantes fatores: o crescimento do número de desempregados jovens e a redução do financiamento público de estudos nas instituições particulares de ensino superior via Fies – importante instrumento de financiamento do ensino superior para jovens de baixa renda, que, no entanto, atende apenas a uma pequena parte do contingente jovem nessa situação.
Adicionalmente, e não menos relevante, há outro fator que, se não resolvido, será o impeditivo determinante para o alcance dessa meta do ponto de vista não do ingresso na universidade, mas da permanência e da conclusão dos estudos: a baixa qualidade da educação básica em nosso país. Muitos jovens até conseguem entrar na universidade, mas não alcançam o êxito esperado, em função dos significativos déficits de aprendizagem que trazem consigo. Por exemplo, de cada 100 alunos que concluem o ensino médio – e que estariam a priori aptos a tentar uma vaga na universidade –, apenas sete aprenderam o que seria esperado em matemática; em língua portuguesa, esse número é um pouco maior – 28, mas nada animador.
Portanto, para que o sonho do acesso ao ensino superior se realize, é preciso fazer dois grandes movimentos: melhorar a qualidade da educação básica e ampliar as fontes de financiamento para os jovens de baixa renda. Isso requer que o país, de fato, priorize a educação e a veja como o novo nome do desenvolvimento, como diz o movimento Santa Catarina pela Educação. Se para alguns isso pode parecer custo, para outros significa investimento. Como diz Derek Bok, ex-presidente da Universidade de Harvard: se você acha a educação cara, experimente a ignorância.