domingo, 12 de maio de 2019

'Jogos são mais efetivos na avaliação do que provas', diz especialista do MIT

Pesquisadora americana defende ambientes digitais para avaliar aplicação do conteúdo em contexto real
Entrevista com

Jennifer Groff, pesquisadora do MIT e diretora pedagógica da rede de escolas Lumiar

pesquisadora MIT
Jennifer Groff, pesquisadora do MIT e especialista em educação Foto: Jennifer Groff

Os jogos são mais eficazes do que as avaliações tradicionais para mensurar o aprendizado de competências como colaboração, resolução de problemas e pensamento sistêmico. A opinião é da especialista norte-americana em Educação Jennifer Groff, autora do estudo Os Potenciais dos Ambientes Baseados em Jogos para Dados de Aprendizagem Integrados e Imersivos.
Pesquisadora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Jen também é diretora pedagógica da Lumiar, rede de escolas com unidades na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil. No ano passado, ela foi nomeada uma das cem maiores influenciadoras em tecnologia da educação pela revista Ed Tech Digest.
Você defende que os jogos permitem a avaliação das competência do século 21 com mais facilidade do que os métodos de avaliação tradicionais. Que competências seriam e por que isso acontece?
Muitas das principais competências que são discutidas atualmente – como colaboração, resolução de problemas, pensamento sistêmico e outros – são difíceis de mensurar, principalmente com o uso de formatos tradicionais de avaliações, que são, em geral, eficazes para aferir conhecimentos ligados a conteúdos. Essas competências que priorizamos hoje não são sobre o conhecimento de algo, mas preferencialmente como você aplica suas habilidades em um domínio específico, em um contexto real. Como os jogos digitais são ambientes simulados e microcosmos, eles funcionam como um rico contexto para que os estudantes usem habilidades e competências. E, como são ambientes digitais, eles nos possibilitam coletar dados sobre as aptidões demonstradas. É um processo de mensuração de aprendizado mais efetivo do que uma prova.
Geralmente, os games são usados como ferramenta de apoio, complementar às aulas. Eles poderiam ocupar todo o tempo da aula, como ferramenta principal?
Claro. Há diversos exemplos nos quais professores talentosos usaram jogos digitais complexos como Civilization ou Diplomacy por várias semanas, durante as quais os estudantes trabalharam em equipes para explorar uma série de conceitos e habilidades. Existem muitos jogos excelentes que podem ajudar a aplicar grande parte do currículo. Dito isto, acredito que os jogos são uma das muitas ferramentas pedagógicas com fortes evidências que apoiam a sua eficácia. Mas, apesar de poderosos, não devem ser a única estratégia para instrução. Criar um ambiente de aprendizagem forte é usar uma gama de ferramentas pedagógicas, bem como definir as mais efetivas que os alunos precisam a cada momento. O ambiente de aprendizado deve ser integrado e holístico.
Os custos para implantação e manutenção de infraestrutura para games em sala de aula costumam ser altos. O que as instituições podem fazer para lidar com esse desafio?
Os custos podem ser altos, mas nem sempre são. Já há alternativas. Existem diversos jogos digitais muito bons que são gratuitos na internet e apenas requerem equipamento e conexão para acessá-los. Sites como www.brainpop.com/games e www.gearlearning.org proveem acesso livre a muitos que podem ser utilizados online ou baixados como aplicativos em dispositivos móveis e jogados offline. Mesmo os jogos comerciais, muitos deles já são oferecidos de forma online, enquanto anteriormente quase sempre eram exigidas tecnologias ou dispositivos específicos. Uma escola ou uma rede de ensino pode identificar um número de recursos pedagógicos com base em games que valorizam e desejam utilizar, analisar quais requisitos técnicos eles têm em comum e, assim, adquirir as tecnologias que mais eficientemente atendem a tais necessidades e estão em seus orçamentos.
Temos espaço para implementação dos jogos em larga escala, como na rede pública? No Brasil, são cerca de 40 milhões de alunos na educação básica. 
Absolutamente. As escolas precisam apenas de conexões à internet e alguns aparelhos – como laptops e tablets – que permitam aos estudantes utilizá-los pelo menos em parte da semana. Como mencionado anteriormente, existem muitos bons jogos digitais educativos que são grátis ou custam pouco ao estudante. Fornecer uma formação profissional introdutória aos educadores sobre como usar os games como ferramentas educativas também pode ser muito útil – mas de modo geral é absolutamente algo que pode ser implementado nacionalmente em todo o Brasil.
No Brasil, a formação dos professores é um grande desafio. Os jogos também podem auxiliar nessa tarefa? De quais formas?
Os jogos podem ser poderosos ambientes de aprendizado para alunos de todas as idades, inclusive alunos-professores. Eu mesmo conheço vários projetos relacionados a essa formação de docentes por meio de jogos, como o simSchool e o Laboratório de Sistemas de Ensino do MIT (Massachusetts Institute of Technology). Eles criam ambientes baseados em jogos para ajudar os professores a desenvolver suas habilidades em várias áreas relacionadas à prática em sala de aula.
Hoje, as avaliações são padrão. No artigo, você defende que os jogos possibilitam que o aprendizado seja aferido com mais exatidão e de forma mais individualizada. Como se dá isso e quais as vantagens dessa avaliação mais personalizada?
Ambientes baseados em jogos digitais criam a oportunidade para essa avaliação personalizada em diversos aspectos. Primeiramente, como são ambientes imersivos intimamente relacionados com contextos do mundo real, eles refletem de modo mais acurado problemas reais e, consequentemente, mensuram com mais precisão a forma de aplicação das habilidades e conhecimentos dos estudantes. Além disso, em vez de termos o estudante sentado para um teste formal uma vez ao mês, os jogos digitais são dinâmicos e responsivos, capazes de coletar dados sobre o aprendizado de forma mais holística e de um modo contínuo.
Aprendizagem e avaliação aconteceriam de forma simultânea...
Isso. A aprendizagem e as avaliações devem estar em um firme circuito de feedback, guiando o aprendiz em tempo real no seu caminho de aprendizado. Formas tradicionais de aprendizado não são capazes de fazer isso. Elas colocam grande quantidade de estresse no aluno e criam uma disrupção nos ciclos dos ambientes de aprendizagem. Quando os dados são coletados e utilizados em tempo real nesses ambientes digitais, nós temos uma imagem bem mais rica e dinâmica do estudante. Além disso, o estudante é também guiado de forma mais eficiente no seu aprendizado: o sistema responde aos dados que está coletando sobre o aluno e modifica o ambiente de aprendizagem (experiência de jogo digital), com base no que está aprendendo sobre o aprendiz. É uma personalização eficaz. 


No cérebro, decoreba entedia e aprendizado é fonte de prazer

Estudo de universidade canadense mostra que novidades estimulam o órgão

Roberto Lent
Professor do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ e pesquisador do Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino

Roberto Lent
É intuitivo pensar que a aprendizagem dá prazer, e que tanto melhor ela será quanto mais prazer nos der.
Isso significa que decorar é diferente de aprender, pelo menos porque não dá prazer. Mas será que esses processos podem ser seguidos pela atividade funcional no cérebro?
Esse foi o pressuposto em que se baseou uma equipe de pesquisadores canadenses da Universidade de Calgary, em artigo científico recente. O grupo quis avaliar a eficácia dos métodos de ensino de neuroanatomia que estavam sendo utilizados para universitários de ciências da saúde. Imaginem. 
Se há conteúdo mais relacionado à chamada "decoreba" é a anatomia do cérebro, que os alunos até apelidam de "neurodecoreba". 
O objetivo era ensinar a anatomia dos 12 pares de nervos cranianos e acompanhar tudo pela atividade elétrica produzida no cérebro dos alunos.
Os estudantes recebiam retornos positivos ou negativos de um programa de computador, em função das respostas que davam para identificar os nervos em diagramas e fotos do cérebro. 
A seguir, aulas sobre o assunto e atividades de laboratório com cérebros reais. E, ao final, novos testes online sobre os sintomas clínicos de lesões dos nervos. Um teste de retenção era aplicado 20 semanas depois dos exercícios de aprendizagem.
Ao longo desse processo, os pesquisadores registravam o eletroencefalograma (EEG) dos alunos. Quer dizer, buscavam os potenciais elétricos que indicam a atividade das áreas cerebrais. 
No EEG, encontraram um potencial que aparecia especificamente em uma região do cérebro situada atrás da orelha, relacionada ao reconhecimento visual de imagens complexas. 
Além dele, um outro que aparecia consistentemente bem no topo do crânio, uma região associada a sentimentos de prazer.
Bem, o potencial elétrico do reconhecimento visual era bem intenso no primeiro teste (imagens desconhecidas: que será que estou vendo?), diminuía a seguir (ah, são nervos cranianos) e se mantinha estável nos testes subsequentes. 
O segundo potencial comportava-se da mesma forma: alto no primeiro teste (que barato, estou aprendendo!) e mais baixo nos testes subsequentes (já aprendi... perdeu a graça).
O que esse experimento indica? Primeiro, confirma que os potenciais registrados no eletroencefalograma são associados às operações mentais realizadas durante um processo de aprendizagem. 
Segundo, revela que eles mostram um processo mais ativo de reconhecimento visual de objetos novos (os nervos cranianos) nas fases iniciais da aprendizagem, não tão necessário depois que os nervos eram "aprendidos". 
Em terceiro lugar, indicam também grande sensação de prazer no início do processo, com uma relativa diminuição depois: é o momento de aprender que dá prazer! 
E, finalmente, os resultados se mantinham até mesmo após 20 semanas, o que indica o sucesso dos métodos de ensino empregados, com a estabilização da aprendizagem. A conclusão é que nada se aprende sem prazer. E decorar é chato.

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Nova pedagogia cria alunos egocêntricos, afirma especialista sueca

Para pedagoga, ensino centrado nos alunos está entre causas da má qualidade da educação

A pedagoga, uma senhora de cabelos brancos, em frente a uma fonte num jardim
A pedagoga, uma senhora de cabelos brancos, em frente a uma fonte num jardim
Pedagoga sueca Inger Enkvist, que critica inovações na educação como aprendizado centrado no aluno - Jonas Andersson/Lunds Universitet


Laura Mattos
SÃO PAULO
Ensino centrado nos alunos, fim das aulas expositivas e das provas, aprendizado por projetos, desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais. Esses e outros conceitos que se disseminam por escolas de países ocidentais, inclusive do Brasil, são um erro.
A opinião é da pedagoga sueca Inger Enkvist, que tem causado polêmica ao criticar a chamada nova pedagogia, em sua opinião a causa da má qualidade da educação e da indisciplina de crianças e jovens, que se tornam egocêntricos, não aprendem a respeitar os colegas e os professores e não têm limites.
Ela está em São Paulo e fez na noite desta quarta-feira (8) a palestra de abertura do Centro de Discussão Educacional, novo laboratório de ideias, ou “think tank”, da Escola Superior de Propaganda e Marketing.
Sua presença serviu de contraponto no evento, com plateia de educadores e empresários convidados, à socióloga Manolita Correia Lima, 60, coordenadora do Núcleo de Inovação Pedagógica da ESPM, criado para estudar tendências da educação e reformular o currículo da universidade considerando que os novos alunos são o centro do aprendizado desde o ensino infantil.
Inger, 71, autora de “Educação: Guia para Perplexos” (editora Kírion) e “Repensar a Educação” (Bunker Editorial), defende suas ideias nesta entrevista à Folha, em que aborda aspectos ideológicos e políticos para ela envolvidos na educação.
O que é novo e o que é velho quando falamos de pedagogia?
Há dificuldade com essas terminologias. Muitas palavras vagas são usadas nesse campo, que é influenciado pela emoção. Além disso, designam procedimentos que têm mudado ao longo dos anos. Diria que hoje o principal conteúdo da “velha pedagogia” é uma classe em que o professor explica, os alunos escutam e anotam, o professor prepara provas escritas, e os alunos estudam para essas provas. Outra palavra para a mesma atitude seria “tradicional”.
“Nova pedagogia” designa métodos que incluem trabalhos por projetos, em grupo, resumos escritos em vez de provas e apresentações orais acompanhadas de escritas. O professor é visto como alguém do grupo, um coach. Outros fatores tendem a acompanhar essas atitudes. À “velha pedagogia” é associada a visão de que ordem e obediência são importantes para que os alunos aprendam e que os professores devem ser bem formados. A “nova pedagogia” inclui a visão de que a escola não é só para aprender conteúdo e que é importante que inclua propósitos sociais. Os professores devem ser amigáveis e acessíveis, e nenhum estudante pode ser colocado para fora da classe por se comportar mal ou por não estudar.
Muitas pesquisas mostram que os melhores países e as melhores escolas apresentam uma combinação dessas duas atitudes em direção ao tradicional. O professor organiza a aula, explica o conteúdo e checa os trabalhos dos alunos, mas a atmosfera é positiva, e exemplos práticos e trabalhos em grupos são incluídos por pequenos períodos. Salas de aula que dependem fortemente das iniciativas dos próprios alunos têm resultados inferiores, especialmente para aqueles estudantes com maiores dificuldades.
 
Por que algumas ideias da chamada “nova pedagogia” têm-se disseminado tão fortemente pelo mundo?
Essa é uma questão que só pode ser respondida com suposições. Minha suposição seria que tem a ver com a política. A esquerda política tem desejado criar um “novo homem”, e esse projeto começa sempre com as crianças. As escolas são precisamente o lugar onde a sociedade tem acesso às crianças longe de seus pais. Pessoas que querem mudar a sociedade têm ido dar aulas e administrar escolas. A geração que entrou no campo da educação nos anos 1960 e 1970 foi muito influente. O que aconteceu é contraditório. Essa era uma geração antiautoritarismo. Contestava a sociedade autoritária, mas impôs sua própria autoridade. O que se espalhou foi um questionamento da autoridade como tradição e como aprendizado.
Os novos educadores se dedicaram a incluir os alunos com todos os tipos de problema e a se concentrar na situação deles. O lado negativo é que, se permitem que alguns alunos acabem com a concentração da sala de aula, não fazem o que é melhor para todos os alunos. Há uma pesquisa que diz que, se um estudante aprende muito pouco durante os três primeiros anos na escola, será quase impossível superar essa perda de aprendizado depois. Então por que isso se espalhou pelo mundo ocidental? Não foi em razão dos resultados, mas com uma convicção politicamente fundamentada de que é “democrático”.
A nova forma que esse pensamento adota é que a escola deveria não somente oferecer a possibilidade de se estudar de graça, com igualdade de acesso, mas também a de assegurar que todos tenham o mesmo resultado. Esse novo ideal é chamado de equidade. Se todo mundo aprender o mesmo, ainda que muito menos, isso não é visto com um problema real. Minha explicação para a disseminação da nova pedagogia é o sonho de cidadãos perfeitamente iguais.
Não deveríamos supor que a nova pedagogia se disseminou porque os métodos tradicionais têm se tornado ineficientes?
Não, porque as novas ideias, aplicadas de forma massificada, são menos eficientes, o que pode ser claramente visto no Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Alunos]. Países como Cingapura, Hong Kong e Japão têm cuidadosamente conduzido aulas centradas no professor que também incluem algum trabalho em grupo, e eles têm uma performance muito melhor do que os países que ensinam a nova pedagogia.
É correto então considerar que a pedagogia tradicional pode ser mais relacionada à direita política e que a esquerda é mais entusiasta da nova pedagogia?
Eu evito esses termos, mas é verdade que parte da esquerda se propõe a promover sua visão condenando outras. Sua questão é uma prova de que esse campo tem sido politizado. Se houvesse simplesmente duas teorias, alguém poderia fazer experiência e ver qual delas é a mais eficiente. Os pedagogos que propõem a nova pedagogia tendem a não aceitar provas, porque costuma dizer que, ainda que haja outros métodos mais eficientes, eles representam o que é bom. Em outras palavras, o campo da pedagogia é uma combinação de alguns aspectos que podem ser avaliados e de outros emocionais e ideológicos, que não podem ser decididos por evidências.
O layout da sala de aula influencia o aprendizado?
Sim. O principal alinhamento deve permitir que todos os alunos ouçam e vejam as explicações do professor. Para alunos mais velhos, pode ser feito um círculo. Entretanto, isso depende do número de alunos por classe. Se há mais de, digamos, 25, é quase impossível que se mantenham atentos se as carteiras não estiverem arrumadas de forma que todos possam ver e ouvir bem.
É possível manter as tradicionais fileiras de alunos, todos olhando para a lousa, escutando o professor e anotando mesmo quando as crianças e jovens estão imersos na linguagem não linear da tecnologia?
Sim, é. Primeiramente, boas aulas em que você senta e escuta são empolgantes porque você aprende coisas novas. O que o professor diz é adaptado ao que você é capaz de entender e é apresentado de forma que você entenda. Um bom professor também proporciona variações do “senta e escuta” na sala de aula.
É comum atualmente pensar que, porque os jovens estão na internet, eles têm um novo modo de aprender. No entanto, na internet, eles não estão aprendendo novos conceitos e novas relações no campo intelectual de forma eficiente. Usar a internet na escola pode ser divertido, mas é uma perda de tempo se comparamos com o uso de um bom livro didático. Muitas pesquisas dizem nos que nós não aprendemos de fato em frente às telas, e sim decidimos se vamos deixar aquela página para ir para outra mais interessante. Geralmente, o problema não é ouvir e ler muito e sim muito pouco. Jovens têm-se tornado menos capazes de se concentrar em ler e escutar. A esse respeito, em geral, são estudantes menos competentes.
A sra. considera um erro a tendência do ensino centrado no aluno?
Em primeiro lugar, esse termo é enganoso. Ele normalmente se refere aos estudantes terem o direito de escolher o que aprender e em qual ritmo. Isso rompe a unidade da sala de aula e muda o papel do professor para alguém que precisa ter vários conteúdos diferentes para oferecer para estudantes, os quais parecem trabalhar por conta própria. Aprendizado centrado no aluno é a solução para professores que têm que organizar o trabalho de estudantes com habilidades e interesses muito diferentes na mesma sala de aula. Porém, aprendizado eficiente é um conteúdo preparado e explicado por um professor. De forma que isso possa funcionar, os estudantes têm que estar no mesmo nível mais ou menos, que é como estão em Cingapura, Finlândia, Estônia, Suíça e outros países bem-sucedidos na educação.
Por que a senhora acredita que os professores estão perdendo a autoridade?
As razões são diversas. Na América Latina, uma razão é que muitas escolas foram estabelecidas antes que houvesse fundo adequado e professores bem treinados para assumi-las. Ao mesmo tempo, mais ou menos nos anos 1960 e 1970, as mulheres tiveram acesso mais fácil a todo o tipo de profissão. Mulheres com interesses e capacidades intelectuais deixaram o ensino para ganhar salários mais altos e por trabalhos com condições mais recompensadoras. A qualidade da educação estava baseada nessas mulheres, que eram inteligentes, trabalhavam duro e aceitavam salários um tanto baixos. Quando elas saíram, as vagas foram preenchidas, em geral, por pessoas menos qualificadas e menos dedicadas.
É possível ter um sistema equilibrado em que os professores mantenham a autoridade e, ao mesmo tempo, o aprendizado seja centrado nos alunos?
A questão está preocupada com termos e não com realidades. O aluno é sempre o centro, uma vez que é o aluno que está aprendendo. Nesse sentido, o termo “centrado no aluno” é vazio. A educação realmente centrada no aluno são aulas particulares, e isso não pode ser introduzido em larga escala porque não há professores suficientes, e os custos seriam proibitivos. O bom ensino é baseado em um professor inteligente e bem formado com uma classe disposta a aprender.
Uma tendência forte na educação é a necessidade de se desenvolver habilidades sociais e emocionais nos alunos, que iriam ajudá-los na carreira e também fazê-los mais felizes. O que a sra. acha?
Essa é mais uma falsa premissa. O ensino bom automaticamente desenvolve essas habilidades. Quando tudo funciona bem, o estudante no primeiro ano aprende a ser pontual, a se sentar quando deve se sentar, a ouvir atentamente, a fazer perguntas educadamente, a participar em situações de aprendizado respeitando os outros alunos, a seguir instruções, a se concentrar em aprender, por exemplo, a ler, e a trabalhar de forma cuidadosa quando está aprendendo a escrever no livro de exercícios. Tudo isso é promover habilidades sociais e emocionais ao mesmo tempo em que se aprende o conteúdo. O que é um problema é quando a escola entende que ser centrada no aluno ou ser inclusiva é permitir que os alunos não sigam regras e instruções. Isso faz os alunos tão egocêntricos que, aí sim, eles precisam desse conhecimento extra de “habilidades sociais e emocionais”.
A sra. escreveu um artigo sobre a influência do politicamente correto na relação entre professores e alunos, dizendo que os professores hoje são alertados a evitar falar de temas sensíveis, como feminismo, racismo e gênero. A sra. defende que essa situação criou um ambiente em que todos têm medo de todos. Como isso poderia mudar?
Essa é uma das mais importantes questões atuais. Se continuarmos a deixar que ideólogos ditem o que deve ser pesquisado, ensinado e dito, deixamos o campo da liberdade de pensamento que tem nos levado ao progresso. Devemos defender professores, pesquisadores e jornalistas que tentam se basear em fatos mais do que em ideologias. Essa é mais uma razão pela qual professores deveriam ser recrutados entre as melhores universidades, porque serão muito bem informados. As administrações estão com medo e curvadas diante das ondas da internet. 

sábado, 4 de maio de 2019

Líder em educação, Singapura vai agora focar nas emoções dos estudantes

O mundo do futuro vai passar a exigir maior nível de maturidade socioemocional, diz especialista de Singapura

Mariana Tokarni, da Agência Brasil

Destaque em avaliações e rankings educacionais internacionais, Singapuraagora tem o desafio de ultrapassar as notas altas e voltar-se para o desenvolvimento do indivíduo. Os talentos de cada estudante estão sendo respeitados? Os alunos são capazes de serem gentis e ajudar os outros? Essas são algumas das questões que o país pretende solucionar, de acordo com o professor da Escola de Políticas Públicas da Universidade de Singapura (NUS) Saravanan Gopinathan.
“As notas acadêmicas por si só não refletem que tipo de pessoa as obteve. O mundo do futuro, que vai ser muito mais complicado, muito mais imprevisível e fluido, vai exigir um nível de maturidade socioemocional para que ele possa lidar com imprevisibilidade“, diz.
“A preocupação é: como asseguramos que as crianças sejam indivíduos diferentes, que sejam vistas como tendo certas preferências, talentos e ansiedades? Como os professores entendem isso e como o currículo e como a pedagogia refletem essa mudança que precisamos fazer?”, acrescenta.
Gopinathan é um dos palestrantes do curso oferecido pela NUS para líderes do ensino superior. O professor destaca ainda o papel dos professores nesse processo: “Nenhum sistema educacional pode ser melhor que os seus professores e, por isso, passamos muito tempo pensando em como selecionar os professores, como prepará-los e como fazer com que eles se aperfeiçoem e vejam a carreira docente como uma carreira para a vida”.

Competitividade

Voltar o ensino para capacidades socioemocionais é algo que tem sido feito em várias partes do mundo. A própria Base Nacional Comum Curricular (BNCC), aprovada pelo Brasil em 2017 para o ensino infantil e fundamental e, em 2018, para o ensino médio, prevê que em todo o período escolar sejam desenvolvidas, além de capacidades acadêmicas, também habilidades socioemocionais.
Singapura, ao tratar dessas questões, mantém-se alinhada ao que está sendo debatido no restante do mundo e talvez, mais uma vez, posicione-se entre os melhores também nesse quesito.

Importância da educação

Estar entre os melhores do mundo é algo estratégico para Singapura. A cidade-Estado não dispõe de fonte de recursos naturais para manter a própria economia. A saída encontrada desde que separou-se da Malásia e passou a ter a configuração atual, em 1965, foi investir em pessoal e mostrar-se boa o suficiente para ser necessária ao mundo. “O custo da liderança é muito alto e nós não podemos custear falhas”, diz Gopinathan.
Uma das escolhas que foram feitas, ainda na década de 1960 já pensando no crescimento econômico da região, foi ter o inglês como língua oficial nas escolas. Ao todo, são quatro: além do inglês, mandarim, malaio e a língua indiana tamil. A maior parte da população, 75%, é chinesa. Mesmo assim, optou-se pelo inglês já pensando na internacionalização, de acordo com Gopinathan.
Hoje, Singapura, que até a década de 1960 era um país em desenvolvimento, é considerada desenvolvida. Atingiu o status de melhor cidade do mundo para se fazer negócios e tem o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) entre os países asiáticos e o 11º melhor do mundo, segundo dados de 2014 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
“Se se tem uma economia forte, você pode ir a exposições, pode ir para concertos, se não tem uma economia forte, nada disso é possível. A educação é para que as pessoas possam criar empregos”, diz o professor adjunto da NUS N. Varaprasad, sócio do Grupo de Consultoria em Educação de Singapura, que também é um dos palestrantes do curso.
O sistema de ensino é baseado em excelência. Na própria universidade, os alunos são encorajados a morar nas residências estudantis. Isso porque a universidade fica distante das áreas residenciais da cidade e, quanto mais tempo no campus, mais tempo estudando.
Nesse contexto, deixar a competitividade de lado e respeitar as emoções não parece algo simples. Ambos professores usaram em suas falas a mesma expressão: “Amanhã, alguém poderá estar comendo o seu almoço”. Gopinathan complementa: “Estamos sempre estressados e sempre correndo. O medo do desemprego é muito alto”.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Como despertar nos jovens a vontade genuína de aprender?

Ana Maria Diniz

BLOGS
Ana Maria Diniz
A educação que vale a pena

A verdadeira motivação é intrínseca, vem de dentro para fora, e é isso que os educadores precisam instigar nos alunos


Pergunte a um jovem de 15, 16 anos, a razão de ele frequentar a escola e certamente ouvirá “por obrigação” ou “porque tenho que ir”. Agora, questione um adolescente dessa mesma faixa etária que abandonou os estudos sobre o que o levou a tomar tal decisão – bem provavelmente ele dirá “que faltava interesse, motivação”.
Já faz um bom tempo que pais e mães observam em seus filhos um fenômeno que desafia educadores e vem crescendo em número e relevância: com o passar dos anos, o entusiasmo e o engajamento da criança com a escola e com o aprendizado diminuem; nos anos finais do ciclo básico, eles despencam. Uma pesquisa do Instituto Gallup com alunos de 3 000 escolas públicas e privadas dos Estados Unidos dá uma dimensão da discrepância: entre os alunos que frequentavam o 5º ano, 74% se diziam entusiasmados com os estudos; entre os estudantes do Ensino Médio, apenas 32%.
Os anos finais do Fundamental marcam o início do chamado “precipício escolar”, fase em que os jovens estão mais desmotivados e desinteressados do que nunca em relação aos estudos e, portanto, mais propensos a ter um baixo rendimento escolar, a desistir do aprendizado e, por fim, a abandonar a escola. O problema é mundial, mas, no Brasil, esta é uma situação crítica. A ausência de motivação é o fator que mais impacta negativamente o desempenho dos estudantes brasileiros, sendo responsável pelo baixo rendimento de 29% dos alunos, segundo estudo da consultoria McKinsey. O desinteresse é a principal causa da evasão escolar no país: de acordo com a FGV, 45,1% dos jovens deixam a escola por essa razão.
Uma nova hipótese vem sendo sugerida por pesquisadores preocupados com a atratividade na Educação e ela se baseia na observação de que na maioria das escolas os estudantes são motivados a aprender somente por fatores extrínsecos, ou seja, que vêm de fora para dentro. Eles fazem a lição de casa porque professores mandam e estudam porque os pais querem. Podem também se motivar por um objetivo utilitário, como  passar de ano. O problema é que a motivação condicionada a recompensas e fatores externos tende a perder força com o tempo, seja porque agradar os pais e os professores deixa de ter valor para o aluno, seja porque com o passar dos anos escolares as dificuldades aumentam e os estudantes não conseguem manter o bom desempenho de antes.
A verdadeira motivação é a intrínseca, aquela que vem de dentro para fora, e é essa motivação que os educadores precisam instigar nos alunos. Há maneiras comprovadas de ativá-la nos jovens dentro do ambiente escolar. Já se sabe, por exemplo, que os jovens se interessam e aprendem mais por meio da solução de problemas do mundo real;  que eles se sentem mais motivados quando podem escolher o quê vão aprender e como vão aprender; e, por fim, que eles se sentem altamente motivados quando estabelecem seus próprios objetivos acadêmicos.
O que estamos esperando para levar esse conhecimento para dentro das escolas?

domingo, 28 de abril de 2019

O fundo do poço

Imagem Leandro Karnal

COLUNISTA
Leandro Karnal

A doença psíquica pode ser combatida, o preconceito parece ser mais complicado
Faz vários anos que li O Demônio do Meio-Dia – Uma Anatomia da Depressão (Cia das Letras). A obra virou um best-seller e foi considerada, pelo The Times, um dos cem melhores livros da primeira década do nosso século. 
O livro é grande e, mesmo assim, pequeno para tudo que deve abarcar. A narrativa é completa: inclui a radiografia da depressão do autor, a análise científica e médica e reflexões amplas. 
Citei a obra em palestras e em vídeos. Como leigo, pareceu-me muito boa. Isso bastou para que muitos enviassem perguntas sobre depressão para mim, um historiador! Suspeito que a abundância de consultas tenha origem na propagação do drama entre nós. 
Tenho insistido naquilo que aprendi com especialistas. Depressão não é frescura ou falta do que fazer. Solomon é enfático: levava uma vida produtiva e feliz até que, um dia, começou a ser atacado por uma tristeza profunda que esgotou sua vontade. Não conseguia usar o telefone, tomar um banho ou sair do quarto. Seu corpo virou chumbo. Não era tédio ou preguiça. Até então, o autor se declarara um homem muito dedicado ao trabalho. Temos muita compreensão para aceitar males físicos e pouca paciência para os psíquicos. 
O mal é forte. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima em 4,4% da população mundial afetada (dados de 2015, a situação pode ter se agravado). No Brasil, o número salta para 5,8 %. Isso representa uma cidade como São Paulo povoada só pelos atingidos pela doença. Somos campeões latino-americanos de depressão e de ansiedade. A mesma OMS estima que, em poucos anos, a depressão será a mais incapacitante de todas as enfermidades. 
A depressão pode levar ao suicídio. Entre 15 e 29 anos, retirar a própria vida é a segunda maior origem de óbitos. Nem todo suicida é depressivo e nem todo depressivo é suicida, porém, o caso grave vai provocando um vazio tão doloroso que, lentamente, começa a apontar a morte como fator de libertação. 
A depressão mata, este é o maior risco. A depressão provoca internações e incapacidades laborais, este é um dano enorme. A depressão causa uma infelicidade recorrente nas suas vítimas. Seja leve, moderada ou grave, ela é um obstáculo à vida plena. Pior: ela causa vergonha! Uma leucemia é uma doença gravíssima que desperta solidariedade entre quase todos os envolvidos. O deprimido quase sempre tem dificuldade de contar seu problema. Sempre parecerá ao leigo que é falta de vontade ou até falta do que fazer. “Um tanque de roupa suja resolveria”, quantas vezes já se ouviu essa frase infeliz. O deprimido luta consigo e com os outros e sente, nos olhares ao redor, a condenação implícita de muitos. Ser vítima da depressão é combater em muitas frentes.
Meu amigo Ricardo Krause é psiquiatra e me forneceu mais dados. A depressão maior altera até o quadro orgânico do cérebro. O mal pode aparecer muito cedo, antes dos 10 anos de idade. Depressão não diz respeito à quantidade de tristeza sentida; importa mais a qualidade do sentimento negativo. Por fim, ele ensinou que o especialista Aaron T. Beck batizou a tríade depressiva clássica: visão negativa de si, do mundo e do futuro. Eis o tripé da dor total. 
Vivemos em uma época na qual a infelicidade é considerada algo excepcional e evitável. Para todos nesta geração de redes sociais, só há sorrisos e alegrias. Nunca fomos tão relutantes em admitir o sentido trágico da existência. Assim, uma pessoa que tenha perdido alguém ou que passe por desemprego tem uma reação natural de tristeza. A fase de luto e seu desfile de lágrimas e angústias é natural. Estamos confundindo tristeza com depressão. Elisabeth Kubler-Ross estabeleceu que o luto clássico tem uma trajetória de cinco etapas: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Nem todos apresentam essa ordem e nem todos apresentam todos os sintomas. A notícia de que você tem um mal incurável ou a perda de alguém que você amava pode desencadear o ciclo do luto previsto pela pesquisadora suíça. A rigor, não se trata de depressão como doença psíquica. Dor com causa objetiva, dor que passa, dor que dilacera mas que vai ficando menor com o passar do tempo é tristeza, por mais terrível que seja. Depressão é outra coisa. Pode ter um gatilho ou não. Na maioria das vezes, piora sem acompanhamento profissional ou, em casos graves, sem medicamentos apropriados. Raramente, o indivíduo tem condições de sair da depressão sozinho.
Um dia, nos jardins da Rede Bandeirantes, o saudoso Ricardo Boechat contou-me sobre a depressão que sofrera (torno público porque ele a tornou antes). Atolado em trabalho, louvado em prosa e verso, bem casado e com filhos lindos, cheio de perspectivas positivas e alvissareiras, foi tomado por um incontornável sentimento negativo e depressivo. Homem inteligente, jornalista versado nas tragédias do mundo e pouco inclinado ao melodrama, sentiu-se engolfado pela doença. Falou-me muito da luta e do tratamento. Abracei-o, emocionado. Afirmei que não saberia o que dizer diante do drama. Ele sorriu e comentou: “Não precisa dizer nada, basta não julgar”. Outro amigo, padre Fábio de Melo, tornou conhecido outro mal que o acometeu: síndrome do pânico. A doença psíquica pode ser combatida, o preconceito parece ser mais complicado. Aprendi muito com Solomon, Boechat e padre Fábio. Depressão não é escolha, preconceito é. Conhecimento pode ajudar a superar ambos. Bom domingo para todos nós. 

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Homeschooling não é solução, é distração

Ana Maria Diniz

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Ana Maria Diniz
A educação que vale a pena

Neste momento, com tantas coisas mais importantes para se fazer na Educação e tantas crises para se administrar, inclusive a do MEC, não faz sentido tratar o ensino domiciliar como prioridade

Nunca passou pela minha cabeça, como mãe, tirar meus quatro filhos da escola para ensiná-los eu mesma, em casa. Há vinte ou trinta anos atrás, quando eles eram crianças, o homeschooling era uma possibilidade bem mais remota e excêntrica do que é hoje e quase ninguém cogitava uma atitude dessas, até porque não se questionava tanto a escola. Mas acho que, mesmo se fosse agora, eu não tomaria essa decisão. Provavelmente eu não me sentiria com habilidade e competência, talvez nem tivesse paciência, para assumir essa responsabilidade a menos que não houvesse outra alternativa. Para mim, a escola não é só importante pelo conhecimento, mas também pela convivência com outras crianças. Matriculei meus filhos na escola bem cedo, aos 2 anos, porque sempre acreditei que o ambiente escolar é bem mais saudável para os pequenos do que deixá-los em casa sob a supervisão de um adulto.
Educar um filho é a tarefa mais importante na vida dos pais. No entanto, assumir a responsabilidade de ensiná-lo pessoalmente conteúdos e métodos de aprendizado nem sempre é a melhor ideia. Quando a figura do pai se mistura com a do educador e os ambientes escolar e familiar se fundem, o contraponto entre duas realidades distintas, fundamental para a construção da nossa personalidade, não acontece. Mesmo assim, hoje, olhando à minha volta, vejo amigos meus, inclusive alguns muito esclarecidos, querendo se aventurar nessa prática. E arrisco a dizer que a decepção com as escolas e seu modelo falido é o que mais os motiva a considerar a ideia.
Pensando sobre o assunto, respeito a decisão das famílias que aderiram ao ensino domiciliar e acho que a modalidade deveria ser legalizada no país. Mas, nesta semana em que o tema volta a ser discutido com força total no Congresso, quero deixar bem clara minha posição: isso, certamente, não vai resolver o problema da Educação brasileira e tratar do assunto, neste momento, com tantas coisas mais importantes para se fazer, como garantir que todo o brasileiro seja bem alfabetizado aos 7 anos, e tantas crises para se administrar, inclusive a do MEC, todo esse debate e alarido em torno do homeschooling é, no mínimo, uma grande distração. De qualquer forma, o homeschooling não precisa ser demonizado. Ele já acontece em 63 países, como Estados Unidos, França, Portugal e México. Não faz sentido continuarmos a tratar os cerca de 15 mil brasileiros que optaram por educar os filhos dentro de casa como se fossem criminosos ou mantê-los no limbo da ilegalidade. Apenas acho que a prática não deve ser incentivada, pois ela serve a uma minoria.
Em vez de fecharmos os olhos para a realidade, temos que entender melhor porque a prática de homeschooling, criada nos anos 70 na esteira da liberação dos costumes e adotada majoritariamente por famílias religiosas até os anos 2000, vem crescendo de forma vertiginosa no mundo inteiro – agora, mais recentemente, também entre famílias comuns, sem crenças ou motivações religiosas. Temos que nos perguntar: que fenômeno é este? A falência do modelo atual de escola é a única explicação para isso? Qual é o papel do fácil acesso à informação neste cenário? Graças à tecnologia, hoje quem adere ao método dispõe de muito mais meios e recursos. Apesar disso, são raríssimas as famílias que têm condições reais de ensinar e de dar o suporte adequado para seus filhos estudarem em casa e aprenderem de fato. Também são poucos os jovens que têm a disciplina e a determinação para estudar por conta própria e ser bem sucedido.
Por isso, na minha opinião, caso a prática seja liberada em nosso país, as crianças e jovens educados em casa devem participar de avaliações como Saeb, Prova Brasil e Enem para comprovar se eles estão realmente aprendendo fora da escola. Estamos em meio a uma mudança de era e, nesse cenário, novas possibilidades tendem a surgir e a se consolidar. O homeschooling é uma delas. Mas jamais será a solução em massa para resolver o problema da Educação brasileira, de agregar qualidade à garantia de aprendizado para todos.