sábado, 29 de outubro de 2016

Mídias digitais: seu filho usa da maneira certa?

A Academia Americana de Pediatria divulga novas recomendações para o uso de tablets, celulares e computadores por crianças e adolescentes. E não é só o tempo de utilização que conta

Cilene Pereira

A academia Americana de Pediatria divulgou na semana passada suas novas recomendações para que crianças e adolescentes naveguem com equilíbrio pelo mundo digital. A entidade, cujas orientações costumam servir de parâmetro para a conduta de médicos, pais e governos na maioria dos países, deixou patente que é preciso prestar atenção não somente ao tempo que os jovens passam com tablets e celulares, mas ao quê e como eles entendem o que vêem ou jogam.
Por isso, as orientações fazem distinções por faixas etárias, respeitando o grau de compreensão da criança em cada uma. O uso de mídias digitais deve ser evitado por bebês menores de um ano e meio. Até essa idade eles precisam explorar o mundo real e manter interação social com cuidadores nos quais confiam. Isso é fundamental para que desenvolvam apropriadamente o raciocínio, a linguagem e a coordenação motora. Além disso, os bebês têm dificuldade para transferir o que enxergam no celular, por exemplo, para a realidade tridimensional em que vivemos.
A partir dessa idade e até por volta dos cinco anos, a exposição aos recursos digitais pode produzir alguns benefícios, desde que as atividades sejam de boa qualidade. A associação americana cita como opções programas e aplicativos infantis de tevês públicas e do velho Vila Sésamo, agora repaginado para tablets e celulares. Na avaliação dos especialistas, grande parte do que está disponível é ruim e não contempla as necessidades educacionais dos pequenos. “Daí a importância de os pais acompanharem os filhos durante o uso, que deve ser feito por no máximo uma hora por dia”, diz a pediatra Evelyn Einseinstein, da Sociedade Brasileira de Pediatria.
As figuras interativas dos e-books prejudicam a capacidade de a criança entender o conteúdo
A mesma recomendação vale para os e-books, geralmente recheados de figuras interativas. Ao contrário do que se imagina, esses recursos prejudicam a capacidade de a criança entender o conteúdo. Funcionam como distração. Habilidades necessárias para o bom desempenho escolar, como persistência para a conclusão de tarefas, controle do impulso, pensamentos flexíveis e criativos e equilíbrio emocional são promovidas principalmente em brincadeiras reais, não estruturadas e que requerem convivência social.
Na casa da relações pública Giuliana Gregori e do advogado Bruno Paletta, em São Paulo, Arthur, de três anos e meio, até tem acesso aos digitais – ele ganhou o próprio Iphone quando tinha menos de um ano de idade. Mas não troca as brincadeiras no parque pelos joguinhos online. “Ele usa quando quer, por pouco tempo, e para acesso a brincadeiras pontuais”, diz Giuliana. “Arthur dá mais valor para as interações no mundo real.”
Cabe aos pais darem o exemplo. Não devem fazer da tecnologia o centro da vida
NAVEGAR COM SEGURANÇA
A utilização por jovens em idade escolar precisa ser ainda mais monitorada. O uso excessivo está associado à obesidade e a comportamentos de risco, como a auto-mutilação ou distúrbios alimentares. Por essa razão, as diretrizes instruem os pais a estimularem seus filhos à prática de exercícios físicos pelo menos uma hora por dia e a dormirem entre oito e doze horas por noite. Uma das formas de garantir o sono é impedir que os aparelhos sejam usados uma hora antes de se deitar.
Nessa fase, os pais devem estimular conversas sobre os cuidados necessários para se navegar com segurança na rede, evitando o assédio de pedófilos ou outras armadilhas perigosas. Também é o momento de falar a respeito de cidadania, respeito ao outro e à diversidade de opiniões. “A família deve criar um ambiente de segurança para que o jovem recorra a ela quando tiver dúvidas sobre o que está vendo”, diz Jenny Radesk, pediatra e especialista em desenvolvimento comportamental da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. Ela é uma das responsáveis pelas novas orientações.
No Brasil, as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria são basicamente as mesmas das agora lançadas pelos americanos. A entidade nacional pretende atualizá-las adicionando a orientação para que crianças entre dois e cinco anos tenham acesso ao meio digital somente uma hora por dia.
Aos pais, cabe dar o exemplo e não fazer da tecnologia o centro da vida. Pediatras brasileiros e americanos enfatizam que a mensagem passada aos filhos deve ser a de que ela tem seu valor, desde que desfrutada com parcimônia e qualidade. Luiza Reginatto Diório, de três anos, vê o comportamento equilibrado dos pais, Giuliana Reginatto e Luiz Antonio Diorio, em relação aos aparelhos, e segue pelo mesmo caminho. “Se as crianças percebem que o celular é o centro das atenções na vida dos pais, até mesmo durante as refeições, é muito provável que o encantamento pelos aparelhos seja maior”, diz Giuliana. “Por isso, procuramos dedicar nosso tempo a brincar junto com a Luiza, a construir coisas com ela, como desenhos e quebra-cabeças, a cantar juntos. O mundo real, assim, vai naturalmente se tornando mais interessante do que o das telas.”
ALGUMAS DAS PRINCIPAIS ORIENTAÇÕES
>> Evite o uso de tablets e celulares por crianças com menos de um ano e meio
>> Pais que decidirem permitir o uso a partir dessa idade devem escolher programas de qualidade e assisti-los junto com seus filhos para ajudá-los a entender o que estão vendo
>> Entre 2 e 5 anos, o limite de exposição deve ser de uma hora por dia
>> A partir dos 6 anos, os pais precisam estabelecer limites em relação ao tempo e tipo de mídia usado e garantir que o acesso não prejudique o sono, a atividade física ou outros hábitos saudáveis
>> Uma das formas de fazer isso é proibir a utilização uma hora antes de dormir. Outra é reservar horários sem que os aparelhos estejam por perto. Nas refeições e na cama, por exemplo
>> Conteúdos violentos devem ser evitados a qualquer custo. Estima-se que até os 12 anos uma criança já tenha visto cerca de 8 mil mortes e 100 mil cenas de violência em ambiente virtual ou na tevê
>> Desencoraje o manuseio enquanto o jovem faz a lição de casa
>> Converse sobre como navegar na rede com segurança e saber respeitar o outro e as diferenças de pensamento nas redes sociais
Fotos: Airam Abel; Andre Lessa/IstoÉ

Assistam é Muito Interessante. 'Falta a necessidade do autoconhecimento aprofundado'

Mílton Jung | Mundo Corporativo

Mílton Jung recebe Denis Giacometti, publicitário e coordenador do Projeto 30, que entrevistou 1.200 profissionais que completaram 30 anos de vida para avaliar como foi o desenvolvimento de carreira desses jovens.


Giacometti apresenta os resultados da pesquisa. Segundo o publicitário, 62% estão frustrados com relação a sua vida e 52% estão frustrados com a carreira que escolheram.

Atualidades - Índice de mortalidade está mais ligado a gordura na cintura do que a aumento de peso

drauzio varella
Drauzio Varella
Médico cancerologista, dirigiu o serviço de Imunologia do Hospital do Câncer. Um dos pioneiros no tratamento da Aids no Brasil e do trabalho em prisões. Escreve aos sábados, a cada duas semanas.

Por 6 milhões de anos, a humanidade passou fome. No tempo das cavernas, nossos antepassados disputavam carcaças de animais com urubus e hienas.
Moldado na penúria, nosso cérebro desenvolveu redes de neurônios que estimulam a fome e fecham os olhos para a saciedade até passarmos mal de tanto comer. Essencial para a sobrevivência da espécie, esse mecanismo chegou intato até nós.

Então veio a segunda metade do século 20, em que novas tecnologias de produção agrícola, de armazenagem e preservação permitiram oferecer alimentos de boa qualidade a grandes massas populacionais. A dieta da classe média de hoje é mais nutritiva do que a dos nobres de antigamente.

Um cérebro engendrado para enfrentar epidemias de fome não estava preparado para o convívio com a fartura. A capacidade do organismo de transformar em gordura qualquer caloria em excesso, essencial para a sobrevivência em época de vacas magras, voltou-se contra nós.

As consequências foram desastrosas: 52% dos brasileiros estão na faixa de excesso de peso ou obesidade, número que ultrapassa 70% nos Estados Unidos e no México. A obesidade se tornou epidêmica na América Latina, Europa, Austrália, nos países árabes e até na China.

Para avaliar os riscos do acúmulo excessivo de tecido adiposo, foi criado o índice de massa corpórea (IMC), calculado a partir da relação entre o peso e o quadrado da altura (IMC = Peso/altura x altura).
Valores para o IMC abaixo de 18,5 caracterizam subnutrição; entre 18,5 e 24,9 está o peso saudável; de 25 a 29,9, o excesso de peso; e acima de 30, a obesidade.

Embora útil, o IMC não leva em conta a constituição física: um homem de 1,80 m, musculoso, com ossatura robusta, não pode ter o peso de um longilíneo da mesma altura. Da mesma forma, não permite distinguir aqueles com distribuição uniforme de tecido gorduroso dos que o acumulam no abdômen.

A relação entre massa corpórea e mortalidade não é linear, entretanto. Naqueles com IMC acima de 30 e nos que caem na faixa da subnutrição, a mortalidade é mais alta, constatação conhecida como "paradoxo da obesidade". Essas análises, no entanto, são influenciadas por cigarro, doenças pré-existentes, sedentarismo, emagrecimento ou curto período de observação.

Vários estudos mostraram que o acúmulo de gordura na cintura (corpo em forma de maçã) aumenta o risco de doença cardiovascular, porque está associado a depósitos de tecido adiposo entre as vísceras abdominais, distribuição não encontrada nos casos em que a gordura está localizada preferencialmente nas cadeiras (em forma de pera).

Em 2014, epidemiologistas da Mayo Clinic, nos Estados Unidos, fizeram a análise conjunta (metanálise) de 11 estudos que incluíram 650.386 mulheres e homens, acompanhados por um período de até 21 anos.

Ajustados pelas características demográficas, níveis de atividade física e IMC, os resultados mostraram que, nos homens com circunferências abdominais maiores que 110 cm, a mortalidade geral foi 52% mais alta do que naqueles com circunferências menores que 90 cm.

Nas mulheres com circunferências superiores a 95 cm, a mortalidade foi 80% maior do que naquelas com medidas inferiores a 70 cm.

Esses números se mantiveram em todas as faixas de IMC. Nos homens, para cada 5 cm a mais na circunferência abdominal, houve aumento de 7% no risco de morte; nas mulheres, esse aumento atingiu 9%.
Em outro estudo que envolveu um banco de dados com 15.547 participantes com doença cardiovascular, em três continentes, foi avaliada a relação entre as medidas da circunferência abdominal e da circunferência da bacia.

Pessoas com IMC na faixa da normalidade, mas com obesidade central, tiveram os piores índices de sobrevida. Por exemplo, as participantes com IMC = 22 e relação diâmetro da cintura/diâmetro da bacia igual ou superior a 0,98 tiveram mortalidade mais alta do que aquelas com o mesmo IMC nas quais a relação foi igual ou menor do que 0,89. O mesmo aconteceu em outras faixas de massa corpórea.

Conclusão: estar acima do peso ou cair na faixa da obesidade pelos critérios do IMC não leva a aumento da mortalidade, desde que o tecido gorduroso não esteja concentrado na cintura.

Todo poder ao professor

A maior pesquisa já feita em Educação mostra que nada faz mais diferença na vida profissional de alguém que um bom professor. A boa notícia é que há um caminho claro para formá-los. A má é que, no Brasil, ainda estamos longe de tomar essa direção

Flávia Yuri Oshima

Aula numa escola na Finlândia.Por lá,o professor é o principal investimento do pais em edducação (Foto: OLIVIER MORIN/AFP)
Esqueça os computadores e tablets, os laboratórios bem equipados, o nível socioeconômico do aluno, mais horas de aula e métodos inovadores de ensino. Nada, absolutamente nada, é mais importante para o desenvolvimento de uma criança – e consequentemente na vida profissional de um adulto – do que ter um bom professor. Ninguém nunca questionou o valor dos professores. A novidade é que a maior pesquisa já feita em Educação comprovou que ter um bom professor não só é importante para a educação do aluno, como esse é o fator de maior influência no aprendizado, em qualquer lugar do mundo, independentemente do método de ensino ou da idade da criança.
A cada ano de aula com um bom professor, as crianças aprendem o equivalente a um ano e meio a mais de estudo na comparação com alunos que têm professores apenas medianos. Os estudantes de um professor ruim, por sua vez, aprendem metade ou menos do que deveriam em um ano. O impacto dos bons professores ecoa por toda a vida adulta dos estudantes. Eles têm mais chances de cursar uma faculdade, de ter um bom emprego, de levar uma vida mais saudável e de contar com rendimentos maiores ao longo da vida.
Para chegar a essas conclusões, o professor neozelandês John Hattie, diretor do Instituto de Pesquisas em Educação da Universidade de Melbourne, na Austrália, fez uma meta-análise: cruzou informações de 65 mil grandes estudos realizados nos centros de pesquisa mais conceituados do mundo. Essa é a maior análise de dados já feita na área de Educação em toda a história acadêmica. As informações coletadas ao longo de mais de 20 anos permitiram aferir também uma análise de custo e eficácia de cada um dos fatores que podem ter impacto na Educação. Nessa relação, os professores também dão um banho na comparação com todos os outros fatores. O investimento em professores é mais eficaz e também mais barato do que uma série de outras medidas
Diminuir o número de alunos por sala de aula custa cinco vezes mais do que formar e manter um bom professor e dá quatro vezes menos retorno. Reforçar o ensino com aulas complementares fora do horário-padrão exige o dobro do investimento e é cinco vezes menos eficiente. A melhoria das instalações da escola também custa o dobro do valor do bom professor e é nove vezes menos eficaz.  “Com esses dados em mãos, nenhum país que realmente se importe com Educação pode se negar a investir na profissão”, disse John Hattie a ÉPOCA.
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Crianças em salas de aula em Cingapura .A valorização dos professores levou o país á primeira posição no ranking internacional de educação (Foto: CAROLINE CHIA/AFP)
O levantamento de Hattie desfaz também um mito sobre a área: bons professores seriam aqueles que nascem com a vocação para o magistério.  Saber dar uma boa aula é uma habilidade que deve ser desenvolvida, com treinamento, planejamento e acompanhamento. Assim como é possível formar superatletas com o preparo adequado, também é possível formar excelentes professores. Isso é o que fazem os países com os melhores resultados educacionais do mundo.
Essas conclusões podem ser valiosas na definição de políticas públicas para países de grande desigualdade social como o Brasil. A estrutura que famílias ricas oferecem compensa mais facilmente o impacto de ter professores medianos na formação das crianças. É entre as crianças mais pobres que o efeito do bom professor é potencializado. A presença entre alunos da periferia de um professor como Luiz Felipe Lins, da reportagem a partir da página 56, pode neutralizar a influência negativa da pobreza no aprendizado. Os estudantes pobres costumam aprender até 40% menos que alunos mais ricos. A análise de Hattie mostra que, nos Estados Unidos, a diferença de desempenho entre os alunos brancos e negros (de até 25%) desapareceria em s oito anos se os negros tivessem aulas com professores classificados entre os 20% mais bem preparados .
Os países com melhores desempenhos educacionais são os que perceberam esse tipo de impacto e investiram pesadamente na formação de bons professores. É o caso de Cingapura, o atual 1o lugar no Pisa (ranking internacional que mede as habilidades em matemática, leitura e ciências). Por lá, o pré-requisito de um candidato a professor é que suas notas estejam entre as 30% mais altas do país. O primeiro-ministro entrega pessoalmente o canudo de professor para cada aluno que se forma na profissão. Mais do que a remuneração, os professores de Cingapura são os profissionais de maior prestígio do país. O mesmo ocorre na Finlândia, na Coreia do Sul e em Hong Kong – para ficar apenas entre os primeiros colocados do Pisa.
Os métodos usados para dar aula nesses países diferem, mas as estratégias para formar e manter excelentes professores são similares. A boa notícia, portanto, é que o mapa para chegar a uma nação de educadores de primeiro nível existe. Nas nações que mais sabem educar suas crianças, o processo de valorização da profissão de professor começa no perfil do aluno atraído para a área. Ser professor na Finlândia ou em Cingapura é tão difícil quanto se formar como médico. O vestibular para os cursos de formação de professores seleciona os melhores alunos do país. A carreira de professor seduz tanto pelo que proporciona financeiramente quanto pelo prestígio que confere a quem chega lá. O professor é respeitado – a ponto de ter um primeiro-ministro como paraninfo de formatura.
A má notícia é que a estrutura de formação de professores no Brasil percorre caminhos literalmente opostos aos das melhores práticas internacionais. Por aqui, os estudantes que ingressam nas faculdades de pedagogia estão entre os 20% piores colocados nas provas do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem. Um professor ganha em média 57% menos que outros profissionais com o mesmo número de anos de formação. O desprestígio da profissão é notório. Apenas 2% dos alunos no ensino médio pensam em dar aula. A maior parte dos estudantes dos cursos de licenciatura e de pedagogia os escolhe ou por falta de opção ou porque querem ser pesquisadores.
Nos países com bom desempenho educacional, ensinar ao professor métodos de como dar aula tem tanta (ou mais) importância quanto dominar conteúdos específicos, mesmo nos cursos de licenciatura. Isso não ocorre à toa. O planejamento das aulas, o controle do tempo, a assertividade e a capacidade de prender a atenção dos alunos estão entre as ações de maior impacto na qualidade do aprendizado. Os bons professores também são capazes de mudar o conteúdo ensinado. Mais do que ensinar pontos factuais, o professor deve ser capaz de desenvolver no aluno a capacidade de análise e de raciocínio lógico. “O importante não é ensinar matemática. Mas, sim, ensinar o aluno a aprender matemática”, disse Lee Sing Kong, professor e ex-diretor do Instituto Nacional de Educação de Cingapura, a ÉPOCA.
Essa é justamente a maior fragilidade que o Brasil tem na formação de seus professores. Tanto as faculdades de pedagogia quanto as de licenciatura negligenciam – às vezes, por completo – a didática em sala de aula. “Os cursos são estruturados para formar intelectuais e pesquisadores”, diz Bernardete Gatti, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas e uma das maiores especialistas em carreira de professores do país (leia sua entrevista na página 62). “Alguns acadêmicos chegam a se escandalizar com a ideia de dar aulas voltadas para a prática de sala de aula. Eles encaram esse assunto como algo de menor valor”, diz ela.
Outro ponto em comum aos países com bons professores é a avaliação constante da qualidade da aula. Para isso, é comum haver supervisores assistindo às aulas, sem aviso prévio, não só na fase de formação do professor, mas ao longo de toda a sua carreira dentro da sala de aula.
Novamente, por aqui vamos na contramão. O Brasil faz parte do grupo de países que mantêm a sala de aula como uma “caixa preta”, na denominação da OCDE, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Nesses países, entrar na sala de aula para aferir a forma como o professor desempenha seu papel é um constrangimento, mesmo se combinado previamente. Em alguns locais do Reino Unido, os sindicatos conseguiram proibir que avaliadores tomassem nota durante a aula de um professor, com o argumento de que a prática colocaria em xeque a autoridade do mestre diante da classe.
A falta de cultura de avaliação de desempenho dos professores está no cerne dos problemas que temos no Brasil com os cursos de formação destinados aos 500 mil professores na ativa na rede pública. Somente o governo federal, sem contar o dinheiro de estados e municípios, investiu R$ 1 bilhão em cursos de aperfeiçoamento para professores do ensino médio em 2014. Não há, entretanto, medição de impacto dos gastos com esses treinamentos no aprendizado do aluno. “As poucas iniciativas realizadas com esse objetivo não conseguiram mostrar uma relação entre o investimento feito nos professores e a melhora das notas dos alunos”, diz Sergio Firpo, professor da Cátedra Instituto Unibanco no Insper. “Não há dados para apoiar qual é a forma mais efetiva de usar os recursos de treinamento de professores.”
Outro ponto crítico para a formação de um quadro nacional de bons professores no Brasil é a estabilidade no emprego, que torna praticamente impossível, na prática, excluir da rede pública os profissionais ruins, ao contrário do que ocorre nas escolas privadas e na maior parte das profissões. Segundo pesquisas, tirar da rede de ensino os professores classificados entre os 5% piores dá mais resultado no aprendizado final do aluno do que dar bônus salarial para a metade dos professores com melhor desempenho. “Manter os ruins afasta os bons e mina a atratividade da carreira entre os jovens”, diz Bárbara Bruns, diretora de Políticas de Educação do Banco Mundial.
Para que o Brasil consiga avançar no roteiro que leva um país a ter excelentes professores e, consequentemente, boa educação, precisamos virar pelo avesso a forma como formamos e valorizamos nossos professores. “Não há como melhorar a carreira de professores sem fazer  uma revolução, desde a formação inicial até as avaliações de desempenho”, diz Bernardete Gatti. Revoluções na área de Educação não são feitas da noite para o dia. Um primeiro passo, porém, poderia ser dado imediatamente no Brasil. Criar instrumentos para que os altos investimentos (já existentes) em formação de professores resultem em profissionais mais bem preparados e valorizar aqueles cujos alunos aprendem mais pode ser um começo para uma revolução. O maior problema da educação brasileira está à frente do quadro-negro. E a solução, também.

"Nossas faculdades não sabem formar professores"

Uma das maiores pesquisadoras em Educação do Brasil diz que a mentalidade predominante nos cursos de pedagogia é anacrônica e não atende às demandas sociais do país

Flávia Yuri Oshima

A professora Bernardete Gatti, de 74 anos, interessou-se por formação de professores na década de 1960, quando ninguém no país falava no assunto. Saiu pelo mundo em busca do conhecimento que ainda não existia aqui. Fez seu doutorado na Universidade de Paris, seguiu para o Canadá, para um pós-doutorado na Universidade de Montreal, e para os Estados Unidos, para outro pós-doutorado na área, desta vez na Universidade da Pensilvânia. Deu aulas de psicologia da educação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Hoje, coordena as pesquisas da Fundação Carlos Chagas. Defende, sobretudo, que nenhuma formação de professores pode ser eficaz sem ênfase nas práticas de como ensinar – algo que não ocorre nas faculdades. Bernardete é a favor da criação de um exame nacional para professores, do aumento de salário, como peça-chave para mudar o perfil dos candidatos à profissão, e de avaliações constantes de professores, atreladas à remuneração.
A pesquisadora da Fundação Carlos Chagas Bernadete Gatti.Há 50 anos,pesquisa no Brasil e lá fora como aprimorar os professores (Foto: Anna Carolina Negri/ÉPOCA)
ÉPOCA – O que falta na formação para professor?
Bernardete Gatti – 
O problema da formação de professores começa na faculdade. Os docentes de pedagogia e das licenciaturas – de matemática, língua portuguesa, biologia etc. – não sabem ensinar para quem dará aula. Isso porque eles mesmos não aprenderam como fazer isso. Para não dizer que a formação didática não existe, podemos dizer que ela é precária. A maioria dos futuros professores não aprende como lecionar. Não recebem na faculdade as ferramentas que possibilitarão que eles planejem da melhor forma possível como ensinar ciências, matemática, física, química e mesmo como alfabetizar. Muitos de nossos professores saem da faculdade sem saber alfabetizar crianças. É um problema grave.
ÉPOCA – Muito já se discutiu sobre como melhorar essa formação. Por que esses cursos não mudam?
Bernardete – 
A gente constata em entrevistas e em pesquisas com docentes das faculdades que eles não têm a noção de que estão formando um profissional da Educação, que vai para a sala de aula lidar com crianças e adolescentes. Eles trabalham para formar intelectuais e pesquisadores. Até certo ponto isso é importante. Mas essa é apenas parte da formação. É preciso focar também na prática social nas escolas. Dizer para os acadêmicos que eles têm de formar professores para a sala de aula chega a escandalizá-los. Muitos encaram essa questão como algo menor. Essa mentalidade vem de longe, lá dos séculos XVI, XVII. E até hoje prevalece. 
ÉPOCA – Quais são os exemplos que podem nos inspirar?
Bernardete –
 Há iniciativas bastante interessantes na Austrália, em alguns locais nos Estados Unidos, na França, na Bélgica e na Itália. Essas iniciativas têm em comum o fato de preservar a vivência em sala de aula do professor universitário. Aquele docente que formará o professor trabalha em pesquisa, dá aula na universidade, mas não perde o vínculo com o que ocorre na educação básica. Isso é importante porque, à medida que as coisas mudam – e tudo muda sempre –, o conhecimento muda e as relações educacionais também. As novas gerações trazem culturas diversificadas. Quem formará os professores tem de frequentar a educação básica para acompanhar esse movimento e manter-se em sintonia com as vivências escolares.
ÉPOCA – Os cursos de pedagogia e de licenciatura proliferam nas instituições de ensino superior. Os problemas mudam de acordo com o tipo de faculdade?
Bernardete –
 A maioria dos professores hoje é formada por instituições de natureza privada (80% deles). Em muitas delas, os cursos são encurtados  e, de certa maneira, aligeirados. Esse encurtamento não é permitido por lei. Ele ocorre porque as aulas podem ser substituídas por seminários culturais e atividades programadas. O problema é que esses eventos não são desenvolvidos a contento. Grande parte da formação é feita à distância. O aluno que passa por esse tipo de faculdade sai com precárias condições de entrar numa sala de aula. É despreparado, especialmente, para trabalhar com alfabetização. Por isso, vemos esses resultados de alfabetização problemáticos no país (13 milhões de pessoas não sabem ler e escrever. Uma em cada cinco crianças de 8 anos não lê).
ÉPOCA – Um professor precisa passar por um estágio obrigatório de 400 horas. Esse período é suficiente para dar a experiência de sala de que os professores precisam?
Bernardete –
 A questão principal é que essas 400 horas não são cumpridas como deveriam. A pesquisa de campo mostra continuamente que esses estágios são feitos a toque de caixa. Não há controle algum se as horas foram cumpridas, se o estudante estagiou mesmo ou se simplesmente a declaração de que ele estagiou foi assinada por alguma instituição que nunca o teve em sala de aula. As faculdades não providenciam convênios com escolas ou redes para fazer um projeto de trabalho dos estagiários junto aos professores da rede. Um complicador é que  60% dos cursos de pedagogia são feitos à distância. Nesse modelo, o estudante perde muito da relação com as crianças. Sem um programa de estágio estruturado, esse déficit na formação só aumenta.
ÉPOCA – Em carreiras como Direito e medicina, o aluno que conclui a faculdade tem de fazer um teste rigoroso que mostre que ele aprendeu o que precisa. Isso poderia ser aplicado também aos candidatos a professor?
Bernardete –
 Seria factível tanto para a pedagogia quanto para as licenciaturas ter um exame nacional para professores. Isso foi ensaiado na fase em que Fernando Haddad foi ministro da Educação (2005 a 2012), tanto que os pressupostos de um exame dessa natureza estão prontos lá no Inep (órgão do governo responsável pelas avaliações de Educação do país). Mas não foi adiante porque há muita resistência e interferência política em relação a isso. Não sei se essa seria uma solução. Mas um exame nacional como o da OAB seria  um indicador do nível de formação de nossos professores.
"Um exame nacional para professores como o da OAB seria um indicador do nível de formação de nossos profissionais
ÉPOCA – É possível sanar o déficit de formação que os milhares de professores em serviço carregam?
Bernardete –
 Com esforço muito grande. Os alunos saem da faculdade para a sala de aula com uma formação tão precária que os esforços de especialização são punidos. O problema é que temos uma distorção. Como as faculdades são muito ruins, o que deveria ser uma especialização vira uma formação básica dada quando o professor já tem alunos em sala. A formação continuada deveria ser um aprimoramento, uma forma de enriquecer as aulas que ele já deveria saber conduzir. Isso não acontece. Então, bancamos cursos para formar alfabetizadores, cursos para dar iniciação em matemática, cursos para professores de ciências. Estados e municípios não têm condições de programar e de controlar o que é feito nessas formações continuadas, e os resultados educacionais continuam sendo bastante precários apesar de todo o dinheiro investido – que não é pouco.
ÉPOCA – O que tornaria essa carreira mais atraente?
Bernardete – 
Olha, muita gente já disse que maior remuneração não faz tanta diferença, mas eu sou contra. Para mim, remuneração é chave. Aumentar os salários é fundamental para valorizar a profissão, para trazer gente mais bem preparada para a sala de aula e para fazer os que já estão nela correr atrás de melhorar. Ninguém escolhe uma carreira só por ideologia. Você olha o que será seu futuro profissional. E a carreira do professor, em geral, não delineia um futuro muito bom. Ela cria uma armadilha. Para o professor avançar em termos de salário, ele é obrigado a deixar de ser professor para ser coordenador ou ser diretor. Tem de abandonar a sala. Isso ocorre justamente quando ele já tem experiência em dar aula. Acho que a carreira tem de dar incentivos para que ele se mantenha na sala. 
ÉPOCA – Qual sua opinião sobre a estabilidade? Ela compromete a qualidade?
Bernardete –
 Essa é uma discussão complexa. A vantagem da estabilidade é que se pode investir bastante no professor porque ele ficará na rede. Ela prejudica o desenvolvimento do profissional porque pode gerar muita acomodação. Agora, repito, num país como o nosso, a estabilidade é uma questão complexa, que tem de ser discutida em profundidade. Não dá para dizer: “Sou contra ou sou a favor e pronto”. Uma ação eficaz para garantir a estabilidade sem comprometer a qualidade é acompanhar com rigor o estágio probatório de três anos (até então o professor não tem estabilidade) e estabelecer pontos de passagem na carreira atrelados a aperfeiçoamento, aumento de qualidade da aula e remuneração.

Um mestre de 176 medalhas

Luiz Felipe Lins transforma crianças carentes e desmotivadas em campeões nas olimpíadas de matemática. Sua história mostra como um bom professor pode ser decisivo na trajetória de seus alunos

Flávia Yuri Oshima 


O professor Luiz Felipe Lins  com uma turma de nono ano.Ele cria estratégias para mostrar a matemática do dia a dia (Foto:  Stefano Martini/ÉPOCA)
O professor que ensina do jeito que a criança aprende
Anna Julya do Espírito Santo da Silva, de 15 anos, nunca foi uma aluna exemplar. Seu problema não era a compreensão dos conteúdos, mas a preguiça em concluir as tarefas de classe e de casa. A displicência primeiramente a afastou das notas mais altas. Depois,  passou a comprometer o aprendizado. “Fui acumulando defasagem em matemática”, diz Anna Julya. “Depois de um tempo, já não conseguia acompanhar a turma.” Em 2013, ela foi reprovada no 7o ano.
Com esse histórico, Anna Julya destoa do grupo de crianças com ótimo desempenho acadêmico que a Escola Municipal Francis Hime reuniu, a pedido de ÉPOCA. Para sair na foto dos alunos que são medalhistas da Olimpíada de Matemática do Estado do Rio de Janeiro (Omerj), ela arrumou de improviso uma medalha de prata – tomou emprestada uma das nove de seu amigo Victor Marinho, de 13 anos. Mas não se trata de fraude. Ela havia esquecido a medalha em casa e aquele era um dia de tirar retrato. Pouco mais de seis meses depois de ter sido reprovada por causa da matemática, Anna Julya se tornou, de fato, uma atleta dos números: competiu e ficou entre os melhores estudantes de matemática do Rio de Janeiro.
Anna Julya bombou o sétimo ano em matemática.No ano seguinte com os métodos do professor Luiz Felipe,ela levou medalha de prata na olimpíada estadual de matemática (Foto:  Pedro Farina/ÉPOCA)
ana julia  (Foto: ana julia )
A mudança brusca na trajetória de Anna Julya com os números se deu depois de alguns meses de aula com Luiz Felipe Lins, de 44 anos, professor de matemática da Francis Hime, uma escola pública localizada na Estrada do Pau da Fome, em Taquara, um bairro de classe média baixa da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Desde 2005, quando foi criada a Obmep (Olimpíada Brasileira de Matemática do Ensino Público), Anna Julya, Victor e outras dezenas de alunos de Luiz Felipe conquistaram 176 medalhas e centenas de menções honrosas nas quatro versões de olimpíadas de números que existem – duas estaduais e duas nacionais.
Victor Marinho,foi para o Francis Hime com 9 anos ,atras do professor de seu irmão mais velho.Já abocanhou oito medalhas em matemática incluindo uma de ouro (Foto:  Pedro Farina/ÉPOCA)
vicitor (Foto: vicitor)
Esses números são, por si só, impressionantes. São ainda mais admiráveis porque Luiz Felipe não treina uma garotada pré-selecionada – como fazem alguns cursinhos de ponta, para alardear percentagens admiráveis de sucesso de seus alunos no vestibular. Luiz Felipe dá aula para estudantes da periferia – entre eles, vários moradores de favela – que chegam com todo tipo de dificuldade de aprendizado ao ensino fundamental II, a etapa que vai do 6º ano ao 9º ano. Uma vez em sua classe, vários começam a se sobressair – quase como por milagre. O desempenho de Luiz Felipe se torna mais reluzente quando se conhecem os indicadores do desempenho alarmante dos estudantes brasileiros em matemática: apenas 16% das crianças que deixam o 9º ano têm o nível de conhecimento adequado na área. Ao final do ensino médio, a taxa cai para meros 9%.
Como Luiz Felipe consegue driblar as estatísticas nacionais e colocar seus alunos entre os melhores do estado e do país em matemática? Não há uma resposta única para essa questão. Pelo contrário: a resposta pode variar tanto quanto o número de alunos. O segredo do sucesso de Luiz Felipe, a despeito das salas lotadas e da diferença de aprendizado dos estudantes, é ensinar cada criança da forma como ela é capaz de aprender.
Foi assim que ele agiu quando Anna Julya chegou a sua sala de aula. Ela não dominava conceitos que já devia conhecer e se embaralhava com os cálculos. Não à toa, quando as aulas de matemática começavam, Anna Julya ficava na defensiva. Era quieta e absolutamente desinteressada. Aquela era a disciplina que dera a ela seu primeiro grande fracasso na vida escolar. Luiz Felipe seguia com suas aulas e observava o efeito de diferentes estratégias na garota. Como era seu rendimento quando trabalhava em grupo? Ela manuseava material para comprovar alguma teoria? Finalmente, Luiz Felipe encontrou uma outra Anna Julya quando lançou em sala um jogo em que cabia aos alunos decifrar um enigma. “Ficou evidente que ela gostava de desvendar  problemas”, diz Luiz Felipe. “Quando deparava com um, ela se concentrava até descobrir o caminho da resposta.”
Ao lado,Luiz Felipe entre a tia Luiza (á esquerda) e a mãe ,Elvira,na casa de dois quartos que aluga em Curicica. (Foto:  Pedro Farina/ÉPOCA)
Ao ver como a disposição de Anna Julya mudava quando tinha de resolver problemas, Luiz Felipe passou a adaptar os conteúdos de matemática que ela deveria aprender para esse formato. A menina começou então a se aplicar nos cálculos mais difíceis para chegar às soluções de cada problema. “Passei a trabalhar outros conceitos nesse formato com ela”, diz Luiz Felipe. Quando o professor sugeriu que ela se inscrevesse na olimpíada, Anna Julya achou que fosse uma brincadeira. “Disse para ele que eu era péssima em matemática”, diz ela. “Daí ele falou: ‘Para com isso, menina, ninguém lida com problemas como você’. E não foi que eu ganhei?”, diz sorrindo.
A sensibilidade e a habilidade que Luiz Felipe desenvolveu para lidar com os alunos mais preguiçosos e prender sua atenção se devem, em grande parte,  ao fato de que ele próprio foi um deles. Em sua adolescência, o desinteresse de Luiz Felipe, durante algumas aulas, era tamanho que o levou a uma sucessão de advertências. Elas culminaram na repetência, na 5a série do 1º grau (atual 6º ano). “Ele não era baderneiro, mas imitava pomba!”, conta Luiza Lins, tia de Luiz Felipe, que ajudou a criá-lo. “A professora dizia que ele passava a aula fazendo purrrr, purrrr, purrrrr”, afirma ela, entre indignada e divertida.
Como dar aula particular para 4º ao mesmo tempo
Para dar conta de quase 40 crianças com níveis diferentes de conhecimento e de aprendizado numa mesma sala, Luiz Felipe lança mão de métodos pouco ortodoxos. Para ensinar matemática, recorre a jogos de diferentes tipos que ele mesmo cria, a celulares amarrados a cabos de vassoura, a balanças de bandejas laterais e a material de construção civil. Todas essas invenções partem de uma premissa: que o aluno deve entender para que serve o que vai aprender.
“Quando eu era aluno, uma pergunta não me saía da cabeça: para que serve isso que eu tenho de aprender?”, diz Luiz Felipe. Ao ouvir a mesma pergunta de seus alunos, não foi difícil colocar essa questão como prioridade. Antes de qualquer teoria, as crianças devem ver na prática a utilidade de cada conteúdo escolar.
Luiz Felipe passou a criar jogos para ensinar matemática ao lidar com salas de aulas numerosas e com grandes disparidades de nível de conhecimento entre as crianças – dois problemas comuns à maioria das escolas públicas. “O jogo possibilita que os alunos que entendem mais rapidamente ensinem os outros, ao mesmo tempo que se ocupam de forma produtiva”, diz ele. “Enquanto isso, consigo dar mais atenção às crianças com maior dificuldade.” Logo, Luiz Felipe percebeu que os jogos são também ferramentas eficientes (e divertidas) para mostrar a utilidade de teorias. Hoje, parte substancial de suas aulas ocorre nesse formato.
Para alguém com a lembrança de uma aula tradicional de matemática, testemunhar o professor Luiz Felipe em ação com crianças de 11 anos ou com adolescentes de 14 anos produz o mesmo efeito curioso: é fácil esquecer de que se trata de uma aula de matemática. A primeira diferença é que ninguém assiste a nada – todo mundo participa ativamente da aula.
Luiz Felipe Lins (Foto: Luiz Felipe Lins)
Uma lição sobre soma de números negativos, na sala do 6o ano, começa com as crianças divididas em grupos de quatro. A brincadeira é andar sobre um tabuleiro gigante. Cada criança deve pegar um cartão com um número positivo ou negativo. Quando o número é positivo, a criança anda para a frente. Quando é negativo, movimenta-se para trás. De acordo com o cartão recebido, ela deve também registrar o número da casa em que parou.
O objetivo do jogo não é chegar à casa final do tabuleiro, mas chegar à casa correta de acordo com os cartões que cada criança receber. Todos podem ganhar e todos podem perder. As crianças não sabem, mas enquanto pulam de uma casa para a outra estão efetuando suas primeiras contas com números negativos. Saltando, elas percebem que, ao somar, ficam com menos do que tinham antes. Elas pularão muitas casas antes de aprender a teoria dos números negativos.
Teoria tem hora
Adiar teorias é uma prática comum de Luiz Felipe. Para ele, é um engano exigir da criança abstrações, como fazê-la imaginar o que são números negativos ou frações. Antes, é importante mostrar do que se trata no mundo das coisas concretas. “Nos Estados Unidos, aprende-se fração aos 8 anos. Por lá, eles falam em um quarto de hora e um quarto de dólar”, diz Luiz Felipe. “Aqui, não há esse contato concreto com a fração. Por isso, torna-se mais difícil para a criança imaginar o que é isso.” Antes de encarar contas com frações, os alunos de Luiz Felipe têm de se armar com uma folha de papel de tamanho A4 e medir, com essa folha, quantos metros quadrados tem a sala em que estão. O próximo passo é ir até um pedreiro e entrevistá-lo sobre o material necessário para construir uma sala daquele tamanho.
Com a receita em mãos, as crianças têm o fim de semana para visitar uma loja de materiais de construção. Lá descobrem que dois pacotes de cimento não são suficientes, mas três são demais. Ao chegarem à quantia exata de material, as crianças descobrem que precisarão comprar dois sacos e um terço de cimento, dez pacotes e meio de tijolos e 3 litros e meio de tinta.
Nas aulas de Luiz Felipe, a entrada no mundo das equações matemáticas se dá por meio de uma pequena balança vermelha antiga, com bandejas laterais, que parece saída de um cenário de novela. Com o uso da balança, os alunos aprendem que, para manter o equilíbrio, todo material que se acrescenta de um lado deve ser acrescentado do outro. Tudo o que se tira de um lado deve igualmente sair do outro. “Elas nunca mais mexerão de um lado sem se preocupar com o impacto do outro lado, pois é disso que se trata a equação matemática: manter o equilíbrio”, diz Luiz Felipe.
Uma das últimas invenções do professor tenta dar um sentido prático aos estudos de trigonometria. Normalmente, os alunos começam a estudar o assunto na 7a série com o cálculo de grau, minuto e segundo. “Para nós, adultos, não faz nenhum sentido calcular grau, minuto e segundo. Faz menos sentido ainda para crianças”, diz Luiz Felipe. Antes de entrar na teoria, os alunos de Luiz Felipe aprendem a usar o pau de teodolito, que o professor, em tom de brincadeira, compara com o pau de selfie. Teodolito é uma espécie de telescópio usado em topografia para medir ângulos verticais e horizontais. Com um cabo de vassoura e um celular preso à ponta, as crianças improvisam um teodolito. Contam com a ajuda de um aplicativo instalado no celular, que lhes permite calcular o ângulo e a altura do pôr do sol e de qualquer outro ponto distante. “É um jeito de eles começarem a usar trigonometria antes mesmo de saber esse nome”, diz Luiz Felipe.
“Ele nos mostra para que servem as coisas! A gente não decora, quando vamos lá fazer, sabemos o que queremos descobrir”, diz Lucas Coelho, de 14 anos, um dos medalhistas olímpicos de Luiz Felipe. Nos dois anos em que competiu nas olimpíadas de matemática, Lucas ganhou uma medalha de bronze e uma menção honrosa. Fala com tal empolgação das aulas de Luiz Felipe que levanta a voz e os amigos pedem calma. “A maioria dos professores fica brava quando perguntamos para que serve o que estudamos”, diz.
Os esforços dos alunos da Francis Hime não são recompensados apenas com medalhas ou notas. Há alguns anos, um ritual se repete todos os anos na escola: numa data fixa do calendário escolar, as melhores escolas particulares de ensino médio da região de Jacarepaguá, no Rio, participam de uma exposição na Francis Hime. O objetivo das escolas é atrair, com bolsas de estudos integrais, o maior número de alunos possível da Francis Hime para suas salas. Bons alunos costumam significar pontuações maiores no Enem – um marketing e tanto para qualquer colégio.
Os irmãos Lucas e Matheus Silva Brito, de 18 anos, estudaram durante três anos num dos colégios privados da região, com bolsa integral. Como aluno de Luiz Felipe, Lucas ganhou três medalhas de matemática. Hoje, ele cursa engenharia mecatrônica na Universidade Católica de Petrópolis.  Matheus, que ganhou duas medalhas, está se preparando para a prova de bolsa de estudos da Pontifícia Universidade Católica (PUC) para cursar eletrotécnica. “Perdemos o medo dos números”, diz ele. O pai dos garotos, Pierre dos Santos Brito, dono de uma serralheria e pai de mais dois filhos, não conseguiria bancar as faculdades nem o ensino médio privado para os meninos. As aulas de matemática de Luiz Felipe não mudaram apenas a relação de Lucas, Matheus e de seus colegas com os números.  Mudaram também a trajetória de muitos deles.
Como Luiz Felipe virou professor
A maior análise de dados já feita em educação mostra que, de todos os fatores com influência na vida do aluno, do ambiente à educação dos pais, nenhum tem tanto impacto quanto ter um bom professor. Para chegar a essa conclusão, a pesquisa feita pelo neozelandês John Hattie, diretor do Instituto de Pesquisas em Educação da Universidade de Melbourne, na Austrália, cruzou informações de 65 mil grandes estudos feitos nos centros de pesquisa mais conceituados do mundo. O levantamento concluiu que cada ano de aula com um professor excelente faz com que as crianças avancem o equivalente a um ano e meio em relação a quem tem um mestre mediano. O efeito de ter bons professores durante vários anos é decisivo: os alunos têm muito mais chance de entrar numa faculdade e, consequentemente, de obter melhores empregos e ter uma renda significativamente maior.
A questão que atormenta os governos é: como formar professores excelentes? A história de Luiz Felipe dá algumas pistas. Embora seja comum ouvir que “ele nasceu com o dom de dar aula”, Luiz Felipe na verdade desenvolveu suas habilidades com muito trabalho e recorrendo a ajuda dentro e fora da escola. A primeira vez que Luiz Felipe encarou sozinho uma sala de aula foi uma surpresa para ele. Como aluno do 3o ano de matemática da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), ele cumpriria seu primeiro dia de estágio fora dos muros da universidade. Ele aguardava o professor de matemática numa escola estadual para jovens e adultos na periferia do Rio, quando o diretor entrou na sala e o informou que o professor, a partir daquele dia, seria ele. “Fui um desastre de professor”, lembra Luiz Felipe. “Ora dava exercícios muito adiantados, ora muito básicos. Não fazia a menor ideia de como começar cada aula.”
As aulas do professor Luiz Felipe Lins mudaram a relação dos alunos com os números e a trajetória de vida de muitos deles
Depois desse fiasco, Luiz Felipe pediu ajuda aqui e ali, na faculdade e na própria escola, até conseguir estruturar o que chama de esquema clássico de aulas. Explicava o ponto e dava exercícios para a turma. Em alguns meses, seus alunos conseguiram recuperar o atraso. À medida que se tranquilizava com a tarefa de ensinar, outra inquietação surgia. Luiz Felipe percebeu que suas aulas eram tediosas e metódicas, iguais às da sua infância. “Eu não tinha ideia se os alunos com as melhores notas tinham compreendido o que deveriam ou se apenas memorizaram”, diz.
Essa angústia o levou a procurar a turma do Projeto Fundão, um grupo de professores de matemática que se encontra para discutir formas de melhorar as aulas. O nome vem do campusda Ilha do Fundão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), local onde ocorrem as reuniões. “Lá tive contato com teorias sobre como ensinar, algo que não tinha estudado na faculdade, e encontrei professores com problemas parecidos com os meus”, diz ele. Luiz Felipe frequentou os encontros semanais por dois anos. “No Fundão, entendi o que me faltava para ser um bom professor. Mas onde aprendi, na prática, a dar aulas foi num curso chamado álgebra para a sala de aula, na Pontifícia Universidade Católica (PUC)”, afirma. “Até então eu era um matemático tentando desastradamente dar aula.” Durante os dois anos na PUC, Luiz Felipe desenhou sua didática. “Ela nasceu das dificuldades e da realidade dos meus alunos.”
Professor 24 horas
A tímida Kettellyn Rodrigues dos Santos, de 14 anos, está no 9o ano. Desde o 6o, sai de casa às 4h40 da manhã para assistir às aulas da Francis Hime às 7h30. Ela mora em Vargem Grande, a 50 quilômetros da escola. Para atravessar os bairros Vargem Pequena, Jacarepaguá e Curicica  e voltar para casa, a menina passa cinco horas por dia no ônibus. “Quero ser médica”, diz Kettellyn, ao explicar sua Via Crucis. “Só posso estudar em faculdade pública. E, para conseguir isso, quero ser aluna do professor Luiz Felipe. Aprendi a estudar com ele.”
Kettellyn também participa das olimpíadas de matemática. Há cinco anos, coleciona menções honrosas, mas nenhuma medalha. “Acontece uma coisa ou outra e eu não passo para a fase final”, diz ela. Ainda assim, não desiste.  “A medalha não é tão importante. Enquanto estudo para as olimpíadas, estudo para tudo. E participar das provas ajuda a me preparar para os vestibulares.”
A reputação de Luiz Felipe atrai alunos de longe, como Kettellyn, e faz com que ele seja muito assediado por escolas particulares. No ano passado, um empresário paulista ofereceu R$ 20 mil de salário para que Luiz Felipe coordenasse uma fundação escolar na região do Circuito das Águas, no interior de São Paulo. Foi a primeira vez em que ele balançou. “Eu teria liberdade para mexer no método e no treinamento dos professores”, diz Luiz Felipe. Pensou também que poderia deixar de pagar o aluguel da casa de dois quartos em que mora com a mãe, dona Elvira, de 64 anos, vendedora aposentada. Mas recuou.  “Teria de deixar a sala de aula… não aguentaria”, diz.
Neste ano, cedeu a um dos convites. A dona de uma escola no bairro onde mora,  Curicica, uma velha conhecida, ficou viúva e o convenceu a ajudá-la. Luiz Felipe dá aulas lá duas manhãs por semana. Juntando o salário bruto das duas escolas, Luiz Felipe tira pouco mais de R$ 8 mil por mês. “É um bom salário, não é? Não me falta nada”, diz. 
Em sua casa, a decoração dá dicas da dedicação de Luiz Felipe às aulas e aos alunos. O enxoval estampado com operações matemáticas está em todos os lugares: nas almofadas da sala, na mesa da cozinha, na colcha de cama. Solteiro, Luiz Felipe mantém um quarto que parece de adolescente. Medalhas, retratos de alunos, diplomas e condecorações enchem a única parede sem prateleiras. Pelos cantos do quarto, estão cartolinas, peças de EVA, cola, tesoura e fitas coloridas. “São para os jogos que crio”, explica. “Tudo o que o Luiz Felipe faz é para os alunos”, diz dona Elvira. “Ele se preocupa tanto com os meninos que até eu me pego rezando por eles.” Próximo aos porta-retratos com fotos dos alunos, estatuetas de São Jorge, São Longuinho, São Judas Tadeu e do Pai Joaquim, uma entidade espírita, mostram que Luiz Felipe também reza.
Na sala de aula, muitas vezes, ensinar matemática é a menor das preocupações de Luiz Felipe. Na convivência com colegas e em cursos de especialização, ele encontrou o treinamento pedagógico que não recebeu na faculdade. Mas, no dia a dia, ele se debate com questões que pedagogia nenhuma resolve. Um de seus alunos passou a receber bombons – reservados àqueles que acertam os resultados – mesmo sem dar as respostas certas. “Chegou muito perto!”, diz Luiz Felipe, diante dos protestos dos demais alunos. O garoto de 11 anos aprecia a atitude protetora do professor. E, embora falte às aulas com frequência, não perde as de matemática. Eles não conversam sobre isso, mas ambos sabem o porquê desse tratamento privilegiado. Há dois meses, o menino viu o irmão de 15 anos ser arrastado para fora de casa por milicianos da comunidade onde mora. Foi a última vez que o viu. Desde então, seu rendimento na escola caiu. “O que faço é tentar dar uma aula que os fará esquecer, por algumas horas, o que os perturba”, diz Luiz Felipe.
Há quatro anos, um de seus alunos, de 13 anos, que se tornara craque em matemática, saiu da escola e nunca chegou em casa. Seu corpo foi encontrado numa vala na comunidade onde morava. A polícia diz que foi o tráfico. Ninguém mais soube de nada. “Os professores deveriam receber treinamento para lidar com essas situações”, diz ele.
Episódios graves como esses são raros, mas o cotidiano das crianças, oriundas muitas vezes de famílias vulneráveis, é recheado de situações delicadas. Um divórcio conflituoso, um caso de violência doméstica e mesmo uma gravidez indesejada param no colo do professor. “Não adianta dizer que não é trabalho da escola. Para muitos alunos, aqui é o único local em que podem se recuperar”, diz. 
Neste ano, a fama de Luiz Felipe de conseguir ensinar mesmo as crianças com maior atraso escolar lhe trouxe novos desafios. A direção da Francis Hime lhe encaminhou quatro crianças com graus diferentes de autismo. Duas delas estão na mesma sala, mas são muito diferentes. Uma é um gênio em matemática, mas tem dificuldades de relacionamento. A outra não entende o básico da lógica dos números. Pela regra, a Secretaria de Educação do Rio de Janeiro deveria preparar previamente os professores para lidar com crianças especiais. A prática é distinta. “Nunca recebi treinamento algum para ensinar crianças com autismo”, diz Luiz Felipe. Ele fez por conta própria dois cursos on-line sobre educação inclusiva ao mesmo tempo que finalizava seu mestrado profissional sobre o uso de jogos no ensino de matemática. No final do ano letivo, descobriu que a Secretaria dará um curso sobre Helena Antipoff, psicóloga e educadora russa especialista em crianças com deficiências. Enquanto o curso não chega, Luiz Felipe lê o que pode sobre ela. “É muito interessante. Mas não será fácil”, diz. Para os professores, mesmo os melhores, nunca é.

O Censo do Ensino Superior

A função dos mecanismos de avaliação e do Censo é oferecer às autoridades as informações de que precisam para aprimorar um sistema educacional que sempre primou pela falta de qualidade.

O Estado de S.Paulo
29 Outubro 2016 | 03h00

Depois de ter registrado taxas anuais de crescimento de até 13% na primeira metade da década de 2000, o número de novas matrículas em cursos de graduação agora está caindo. Em 2014, foram 3,1 milhões de ingressantes, ante 2,9 milhões em 2015 – uma queda de 6,1%. Entre 2013 e 2014, o número de novos alunos teve crescimento de 16%. Essa é uma das principais informações do Censo do Ensino Superior de 2015, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, do Ministério da Educação (MEC).
A queda mais acentuada ocorreu nas universidades particulares, que em 2015 tiveram 6,9% a menos de novos alunos do que em 2014. Nas 63 universidades mantidas pela União e nas faculdades comunitárias mantidas por municípios, a redução do número de novos alunos foi de 2,6%. Segundo o Censo, só nas universidades mantidas pelos Estados houve um pequeno aumento no número de matrículas. Ao todo, 13.088 novos alunos ingressaram nas 41 universidades públicas estaduais. O Censo também informa que os cursos presenciais tiveram uma queda de 6,6% no número de novas matrículas. Já o ensino a distância perdeu 4,6% de novos alunos, em relação a 2014.
A vertiginosa expansão do ensino superior na primeira metade da década de 2000, com o surgimento de novas universidades particulares e confessionais e o aumento de vagas nas universidades federais, foi o desdobramento natural de um processo iniciado com a universalização do ensino básico, na década de 1990, e o crescimento do número de estudantes do ensino médio. Agora, o setor está perdendo fôlego, a ponto de o Censo ter registrado que 57,9% das vagas oferecidas pelas universidades públicas, confessionais e particulares não foram preenchidas no ano passado.
Isso se deve a três motivos. O primeiro foram as mudanças nas regras de acesso ao Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Ao passarem a exigir dos vestibulandos nota mínima de 450 pontos no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), as novas regras reduziram a procura de novos contratos de financiamento por parte de quem deseja estudar na rede privada. O segundo motivo é a crise econômica. A recessão levou muitos vestibulandos a perder o emprego, ficando sem condições de pagar a mensalidade de uma faculdade ou as prestações dos contratos de financiamento estudantil firmados antes das mudanças no Fies. O terceiro motivo são as mudanças demográficas que o País vem sofrendo. Com o crescente envelhecimento da população e a progressiva redução do número de jovens, era natural que diminuísse a demanda por uma vaga nas instituições de ensino superior.
Ainda assim, a rede privada continua sendo responsável pela matrícula de 81,7% de ingressantes em cursos de graduação. Em 2015, as universidades particulares e confessionais matricularam 2,38 milhões de novos estudantes. Com relação ao total de matrículas, essas instituições detêm 75,7% dos 8 milhões de estudantes de graduação do País. Quanto à formação acadêmica dos professores, o Censo informa que na rede privada apenas 20,8% dos docentes têm doutorado – na rede pública, 57,9% têm o título de doutor.
Pouco antes da divulgação do Censo, o MEC anunciou os números do Enem de 2015, que registraram o aumento das disparidades entre o ensino público e o privado, em matéria de desempenho dos estudantes. A função dos mecanismos de avaliação e do Censo é oferecer às autoridades as informações de que precisam para aprimorar um sistema educacional que sempre primou pela falta de qualidade. Infelizmente, essas informações revelam que o ensino médio se encontra numa situação trágica e que a maioria dos universitários estuda em instituições cujo nível médio de qualidade permanece muito abaixo das universidades mais conceituadas. Essas informações mostram, assim, o quanto o Brasil ainda precisa investir para que não sejam negadas às novas gerações a formação de que precisam para se emancipar social, econômica e culturalmente.