terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O cubo mágico da formação de professores

Ações pontuais não vão resolver a questão, mudanças em várias frentes são necessárias

*Priscila Cruz e Olavo Nogueira Filho
*Mestre em administração pública pela Harvard Kennedy School, é fundadora e presidente do Movimento Todos Pela Educação

*Pós-Graduado em gestão pública pelo Centro de Liderança Pública, é gerente geral do todos pela educação

Você já tentou resolver um cubo mágico? Se já conseguiu fazê-lo, sabe que pouco adianta resolver uma face toda e partir para as seguintes. É preciso ir resolvendo todas ao mesmo tempo, porque cada face, cada peça está relacionada com as demais e as influencia. Essa é uma boa imagem para ilustrar e ajudar a entender o desafio da estrutura de formação de professores no Brasil.
Ainda que haja enorme convergência em torno do papel central do professor para mudarmos de patamar na educação, ações pontuais não vão resolver a questão. Serão necessárias mudanças em várias frentes, progressivas, simultâneas e articuladas, para de fato elevarmos a profissão docente ao patamar que lhe cabe, como a principal e mais importante do País. Como as seis faces do cubo mágico, destacamos aqui seis frentes – identificadas a partir da contribuição de dezenas de especialistas – que precisam ser destravadas.
Primeiro, o potencial de impacto de uma agenda de mudança que objetiva aproximar a estrutura de formação docente dos desafios da prática em sala de aula está altamente relacionado à capacidade do País de tornar a carreira docente muito mais desejada e atrativa para os jovens. Até hoje nenhum país no mundo – nenhum! – conseguiu constituir um conjunto de professores de excelência partindo de um cenário em que a maioria dos que optam pela carreira são alunos egressos do ensino médio com desempenho escolar abaixo de uma média nacional já muito baixa, como no Brasil. Isso tem que ver, é claro, com a valorização da carreira como um todo, desde a remuneração até o respeito pela sociedade.
Segundo, ainda há um tímido entendimento (ou falta de priorização) por parte dos gestores estaduais e municipais de que o debate sobre formação de professores tem nos critérios de ingresso e progressão na carreira importantes indutores de mudanças. No que diz respeito ao ingresso, é ali que, em tese, se devem estabelecer o perfil docente desejável e os critérios para contratação, e também o momento em que se desenvolve o estágio probatório de três anos. Já no âmbito da progressão é que está um dos principais mecanismos de incentivo e, portanto, a oportunidade de reconhecer a busca do desenvolvimento profissional como parte essencial da evolução na carreira.
Terceiro, o marco regulatório brasileiro recente que rege a temática é genérico e pouco indutor. Assim, na prática, observa-se que os cursos de pedagogia e licenciatura (seja em universidades públicas ou particulares) e os programas de formação continuada nas redes de ensino que quiserem avançar no sentido proposto podem fazê-lo. Mas se não quiserem, seja por que motivo for, conseguem navegar sem dificuldade no campo da subjetividade para cumprir as regras, em especial na formação inicial.
Quarto, encarar a complexidade inerente da formação inicial e continuada dos professores. Uma boa atuação docente depende muito menos de vocação e muito mais de uma estrutura de formação que, prioritariamente, saiba como promover a articulação entre teoria e prática e o efetivo ensino da didática. A falta de prestígio da temática nas universidades, o alto número de formadores dos futuros professores que não têm a experiência de atuação em sala de aula na educação básica e a ainda pouca indução do governo federal para estimular o desenvolvimento e a ampliação da capacidade instalada nessa área de conhecimento são algumas das explicações para o baixo número de experiências de sucesso no Brasil.
Quinto, a refratária dinâmica escolar ao desenvolvimento da escola também como lugar da formação docente. O processo de implantação de políticas e programas de formação continuada – estratégia-chave para o curto prazo, já que são mais de 2 milhões de professores na ativa – muitas vezes esbarra na falta de condições adequadas na escola. Por exemplo: é sabida a ampla relevância da troca de experiências entre os professores de uma mesma unidade escolar sobre sua prática pedagógica, porém são poucas as redes de ensino que estabelecem políticas consistentes para criar tais condições, em especial no que tange à atuação do coordenador pedagógico e ao uso efetivo de um terço da carga horária, assegurado por lei nacional, para atividades fora da sala de aula.
Sexto, não há uma definição clara, em âmbito nacional, do que se espera da atuação docente em sala de aula, o que dificulta o avanço de um debate mais objetivo e preciso sobre o que especificamente precisa ser alterado ou mantido na estrutura de formação. É como perguntar que caminho se deve seguir sem saber aonde exatamente se quer chegar. A experiência internacional mostra que a definição colaborativa, envolvendo os professores, de parâmetros da prática docente para nortear os programas de formação inicial e continuada, numa perspectiva referencial, e não focada em responsabilização, é uma política-chave para impulsionar melhoras relevantes e, inclusive, maior valorização da carreira.
Assim como no cubo mágico, a inter-relação dessas diferentes faces ou dos desafios da formação de professores é clara e elevada. Ou seja, mudanças transformadoras na formação de professores – e, consequentemente, nos resultados de aprendizagem dos alunos – só serão concretizadas se a abordagem for coordenada e norteada por uma visão sistêmica. Com a nova estrutura curricular proposta para o ensino médio, recém-aprovada pelo Congresso Nacional, e o avanço da Base Nacional Comum Curricular, ambas em discussão há anos no País, o momento é agora. Caso contrário, a maioria das promessas – positivas e desejáveis – de melhora da educação básica pública brasileira não passará disso: serão apenas promessas.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Cerca de 758 milhões de adultos ainda não são alfabetizados

Priscila Cruz
Priscila Cruz é fundadora e presidente-executiva do movimento Todos Pela Educação. Graduada em Administração (FGV) e Direito (USP), mestre em Administração Pública (Harvard Kennedy School), foi coordenadora do ano do voluntariado no Brasil e do Instituto Faça Parte, que ajudou a fundar.

Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos Pela Educação, fala sobre os dados alarmantes divulgados pela Unesco

Na última quarta-feira (15), a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) liberou o 3° Relatório Global sobre Aprendizagem e Educação de Adultos. Segundo o documento, cerca de 758 milhões de adultos ainda não sabem ler nem escrever, sendo a maioria mulheres. No Brasil, esse número corresponde a 13 milhões de pessoas.
Para Priscila Cruz, presidente-executiva da ONG Todos Pela Educação, o preocupante quadro é fruto de um descaso histórico com a Educação por parte de muitos países. Para a especialista, o primeiro passo para mudar essa realidade é “garantir que todas as crianças sejam alfabetizadas”.
Ouça aqui a participação de Priscila Cruz, no De Olho na Educação da Rádio Estadão.

Censo Escolar mostra que mais jovens estão na escola, mas não aprendem


Ilona Becskeházy e Paula Louzano | Missão Aluno

Dados relativos ao ano passado trazem como notícia positiva um crescimento da cobertura e abrangência da educação no país. Só que as avaliações dos estudantes revelam que o aprendizado não evoluiu.

Gestão educacional deve contar com a participação de pais e professores


Associações de Pais e Mestres estão previstas no PNE e permitem que famílias e docentes tenham atuação direta no processo educacional das crianças

Todos Pela Educação

A gestão democrática é o tema da 19ª meta do Plano Nacional de Educação (PNE). Ela garante que membros da comunidade escolar como familiares e professores participem efetivamente da gestão escolar, tornando mais diverso o processo de tomada de decisões que podem impactar a aprendizagem das crianças e jovens. Os efeitos desse tipo de gestão, segundo algumas pesquisas têm mostrado, pode ser bastante positivo.
Um dos muitos mecanismos que possibilitam essa participação é a associação de pais e mestres (APMs), prevista na estratégia 19.4 do PNE. Essas entidades não têm fins lucrativos e têm como objetivo representar os interesses educacionais comuns dos membros da comunidade escolar. Todos podem participar, inclusive pais de ex-alunos.
As APMs são reconhecidas por auxiliarem a escola a cumprir o projeto político-pedagógico, sempre representando a opinião de familiares e professores. Outro papel bastante relevante dessas organizações é a gestão do dinheiro recebido pela escola. São elas que decidem como os recursos públicos recebidos pelas unidades de ensino serão gastos – como, por exemplo, na melhoria da infraestrutura.
Existem APMs em todas as escolas?
Não existe uma regulamentação que obrigue a instituição das APMs nas redes de ensino. Elas são obrigatórias apenas nas escolas que participam do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE). Os únicos dados disponíveis sobre a quantidade de APMs existentes no Brasil são justamente referentes ao programa: segundo o Observatório do PNE,  70% das cerca de 130 mil escolas participantes contam essas instituições na sua gestão.

Para saber mais sobre as APMs, clique aqui.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Enquanto você só come comida “saudável”, eu sigo feliz comendo comida de verdade

Luciana Kotaka
LUCIANA KOTAKA é psicóloga, colunista, blogueira, escritora apaixonada pelo comportamento humano, em busca constante do papel da obesidade e dos transtornos alimentares como sintoma de uma sociedade ansiosa e angustiada.

Pode ser muito tênue a linha que separa o saudável do patológico

Não faltam comentários e críticas a respeito da fala de Rita Lobo essa semana. Eu não vou entrar nesse assunto, até porque confesso que me incomoda muito. Isso aí, psicólogo também se incomoda, ainda mais quando se trata de um assunto do qual deveria ser direcionado ao bem-estar, porém não é isso que vemos nas mídias sociais e nos consultórios em que se atendem transtornos alimentares.
Qual o limite entre saudável e o patológico? Tudo que se torna excessivo e um estilo de vida inflexível se torna problemático. É preciso compreender a diferença entre esses dois aspectos, pois há muita gente misturando alhos om bugalhos.
Então, eu cuido de minha alimentação e busco sempre comer o melhor possível, mas há pouco tomei um sorvete de flocos delicioso. Isso mesmo. Trabalho com obesidade e sou uma pessoa saudável sim, porém sinto prazer em comer o que gosto, isso não quer dizer que cometa excessos que são considerados tralhas alimentares, mas porque não consumir algo que gosto.
Você pode pensar que isso não é possível, ainda mais se estiver no grupo daqueles que conseguiram entrar em uma rigidez alimentar da qual se mata por dentro mais não come um bombom de chocolate. Por favor, sabemos que isso não é verdade, a grande maioria se acaba com uma caixa de bombom quando está sozinho dentro de quatro paredes ou mesmo no carro na volta do trabalho, mas sai pregando que não sai da linha nunca.
Minha opinião é muito clara, desde que nascemos somos contemplados com o leite da mãe, a comida sempre terá um papel de conforto, de prazer, por isso não acredite que possa eliminar isso de sua vida.
Porém, você pode tentar me convencer que ama comida super saudável, eu posso até te dar um crédito, mas espero não te encontrar em casa em um dia de festa porque não quer levar sua marmitinha ou mesmo ficar sabendo que não foi ao almoço de domingo na casa dos pais porque lá não tem sua comida adequada para o seu consumo. A rigidez em relação ao que se consome acaba trazendo várias consequências à vida das pessoas, inclusive não saber como se comportar quando não se está em um local onde não há as comidas ditas saudáveis, podendo até entrar em pânico.
Não meus queridos, não estou exagerando, ouço relatos como esses semanalmente em meu consultório e posso afirmar que sou muito mais feliz do que você comendo meu sorvete de flocos. Olhe, estava uma delícia! E não vou correr para a esteira para queimar as calorias que generosamente coloquei boca adentro.
Vamos parar de ler as notícias e mesmo os comentários de nossa colega Rita Lobo somente olhando por um viés, pois é isso que está acontecendo nesse momento, não só em relação à alimentação, mas com muitas matérias que são postadas diariamente. Uma questão séria de comunicação, a pessoa se apega ao que acredita e pronto, não analisa o contexto geral e avaliar o que o outro quer realmente dizer.
Devemos cuidar da saúde, comer com qualidade e tentar sempre aprender mais, mas lembrando que o equilíbrio ainda é a chave do sucesso, tanto mental como físico.

'A utopia foi privatizada', afirmou Zygmunt Bauman em entrevista inédita. Filósofo polonês morto em 2017 falou sobre política, tecnologia e como enxergava o futuro

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Zygmunt Bauman (Poznań, 19 de novembro de 1925 – Leeds, 9 de janeiro de 2017[2]) foi um sociólogo polonês, professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e Varsóvia.

Daniel Augusto* , 
Colaboração para o Estado de S. Paulo


Quando eu e o diretor de fotografia Jacob Solitrenick tocamos a campainha da casa de Zygmunt Bauman, já estávamos com todo o equipamento pronto para iniciar a entrevista. Ao entrarmos, porém, o sociólogo não deixou que começássemos a trabalhar: fez questão de nos servir um lanche com frutas, papear um pouco, como quem reduz a velocidade a que estamos acostumados no cotidiano, abre uma brecha de humanidade na produtividade. Não que ele estivesse sem o que fazer: precisava arrumar as malas para uma conferência fora do país, tinha que deixar uma lista de e-mails respondida, entre outros assuntos. Mas não pôde deixar de abrir uma pausa na urgência, um desses gestos pequenos e gigantes ao mesmo tempo, lição de adequação entre o pensamento e o cotidiano: não basta criticar o tempo que vivemos, é preciso vivê-lo de outra maneira. 
Bauman nasceu na Polônia em 1925, mas residia na Inglaterra, onde foi professor titular da Universidade de Leeds. No decorrer da sua trajetória, publicou dezenas de livros, traduzidos para diversas línguas. Aliava uma vasta observação do mundo contemporâneo com uma escrita acessível ao leitor não-especializado: seu conceito de modernidade líquida, por exemplo, suscitou debates nas universidades, mas também na imprensa, nas artes, assim por diante. 
Fui entrevistar o sociólogo em junho de 2012 por conta de uma série de televisão que escrevi e dirigi, Incertezas Críticas, produzida pela Grifa Filmes. Meu objetivo era inserir determinados aspectos do nosso presente num horizonte mais amplo: isto é, apresentar algumas possibilidades de análise e interpretação de temas como a crise econômica, a internet, a arte contemporânea, entre outros, de modo a sugerir quadros conceituais menos fixados na urgência das últimas notícias. Nesse sentido, a conversa com Bauman era promissora: ao longo da sua obra, existe uma variedade de assuntos notável, que caminha lado a lado com uma ambição interpretativa alargada. 
Ao saber da morte de Bauman no último dia 9, decidi tornar público parte do material da entrevista, ainda inédita. Como se verá, muito do que foi dito naquela tarde ajuda a explicar o mundo que vivemos hoje.
Como você relaciona crise econômica e modernidade líquida?
A incerteza é a única certeza que temos. Não sabemos mais como planejar a longo prazo e, quando planejamos, não temos certeza se o plano vai se concluir. Isso se aplica ao nível individual e ao nível social. A crise econômica é só um dos exemplos dessa instabilidade.
Como isso se dá?
Poder é a capacidade de realizar as coisas. Política é a capacidade de decidir quais coisas serão realizadas. As duas coisas, poder e política, até 50 ou 60 anos atrás, andavam juntas, dentro do quadro dos Estados-nações. As pessoas podiam estar à direita, esquerda ou no centro do espectro político, mas todas concordavam em um ponto: o que fosse decidido, as instituições políticas do Estado tinham o poder e os instrumentos para realizar. Então, a questão toda era quem estava sentado no palácio presidencial ou no comando do governo. Uma vez lá dentro, poderiam fazer política de um jeito ou de outro. Tinham os meios, os instrumentos e a capacidade para fazer isso. Não funciona mais assim.
Como funciona?
Na Europa, temos governos que trabalham com algo que, na área de sociologia, chamamos de double bind. Trata-se de uma pressão dupla em direções extremamente opostas. Por um lado, eles estão expostos ao eleitorado, porque são reeleitos ou tirados do poder a cada 3 ou 4 anos. Portanto, precisam escutar o que o povo quer. Por outro lado, os governos sofrem a pressão extraterritorial de finanças, capitais, bancos internacionais, corporações etc. Estes não dependem do eleitorado, não foram eleitos e não ligam nem um pouco para qual será a reação da população. Querem que o governo deixe de escutar o povo e faça as vontades dos acionistas pois, para eles, a economia equivale aos interesses dos acionistas, isto é, destes que podem ganhar bilhões do nada, ou destruir bilhões, em um dia. São pressões opostas. O resultado disso é que o governo tem opções limitadas.
As crises tendem a se multiplicar?
Eu não acho que essa situação de desordem econômica, pois é difícil chamar isso de ordem, poderia sobreviver sem uma crise constante. Deve haver algum lugar onde os capitais possam se reabastecer ou rejuvenescer, sugando os espólios de outros locais. Então, o que é característico do sistema mundial hoje, em tempos de modernidade líquida, é a constante mudança ou flutuação de poder econômico de um lugar para outro. A situação é essa: por um lado, há poderes que estão livres de qualquer controle político; por outro lado, há políticos que sofrem com a falta de poder. Temos poder sem política e política sem poder.
Como isso afeta cada um de nós?
Até recentemente, os Estados tinham a obrigação de prover as necessidades básicas da vida. Mas, por causa do déficit de poder dos governos nacionais, eles não conseguem mais prover. Portanto, os governos precisam deixar de lado as funções que tinham como obrigações. Eles tem duas formas de deixar de lado essas funções. Uma delas é privatizar. A outra forma é rebaixá-las a um nível que, após Anthony Giddens, chamo de política da vida real. Na política da vida real, eu, você e todas as pessoas, somos ao mesmo tempo parlamento, governo e judiciário. As pessoas têm que decidir o que fazer, executar e julgar. Assim, diversas funções que eram antes realizadas por uma comunidade, agora estão nos ombros dos indivíduos. 
Quais as consequências dessa política da vida real?
Por um lado, é um grande avanço de liberdade individual. Em princípio, você pode ser o dono da sua própria vida. É o que chamo de indivíduos de jure: nós somos indivíduos por decreto. Assim, goste ou não, você é culpado por suas derrotas. Se você fracassa, não pode culpar a ninguém. O que, é claro, afeta sua autoestima. Se os seus pais sofressem de insônia, era sobretudo porque tinham medo de não estar suficientemente bem conformados aos padrões. Mas, caso você sofra de insônia, não é por medo de desviar da norma. Pelo contrário, você pode agir como quiser. Você pode ter medo, talvez, de ser incapaz de realizar algo. Sentir que não tem os recursos, o talento, a capacidade ou a energia suficientes para ser quem gostaria de ser. Supostamente, você é livre para escolher sua identidade, mas na prática você não consegue realizar isso. Portanto, você é um indivíduo de jure, mas não é um indivíduo de fato. Essa situação traz sentimentos muito desagradáveis, que são muito comuns no mundo hoje. Um deles é o sentimento de ignorância constante, de não saber o que vai acontecer. Outro sentimento é o de impotência, isto é, mesmo que eu saiba exatamente qual o perigo, não posso fazer nada para impedir. Não tenho o poder para isso. A combinação desses sentimentos, ignorância e impotência, resulta no de humilhação, que é um golpe pesado na autoconfiança e na autoestima. De acordo com as estatísticas, a depressão é a doença mais comum do momento. Muita gente fica deprimida em algum momento. A depressão é o produto dessa sensação de não ter controle, de estar abandonado. Às vezes, chamamos isso de exclusão. Nós somos excluídos de onde a ação acontece, de onde a vida real é vivida. Não conseguimos chegar lá.
Nessa perspectiva, dá para pensar em utopia?
Viver nessas circunstâncias exige que as pessoas tenham nervos muito fortes. Que tenham determinação e também que pensem em maneiras de transformar o mundo em que vivem. É muito difícil de propor isso e mais ainda de conseguir. As utopias, há 50 ou 60 anos, eram utopias sobre uma sociedade perfeita, na qual cada pessoa teria um lar com segurança e todos estariam mais ou menos satisfeitos com a vida. Ter uma boa vida significava viver dentro de uma boa sociedade, por causa dela e graças a ela. Hoje, essa utopia não existe mais. Utopia, como muitas outras coisas na vida, foi privatizada. A utopia privatizada não é sobre uma sociedade melhor, mas sobre indivíduos melhores, cada um em suas situações individuais, dentro de uma sociedade muito ruim. Sobre a sociedade, dizem que não dá para mudar. Mas o que as pessoas podem fazer é cuidar de si mesmas, de seus entes queridos, sua família, cônjuge, o que seja. Encontrar um lugar confortável em um mundo essencialmente desconfortável. 
Você pode dar um exemplo de utopia privatizada?
O Facebook. Nele, você pode ter um mundo imaginário, on line, que não aparece na realidade offline. Você pode ser quem você quiser online. Pode ter várias identidades diferentes, pode fingir ser algo que não é, pode realizar todos os seus sonhos. É uma maneira de fugir das duras exigências e asperezas do mundo offline. Uma outra reação é buscar algum tipo de mudança na sociedade como um todo. Por exemplo, os movimentos Occupy.
Como você vê o futuro a partir dessas alternativas?
Eu não sou pessimista nesse sentido. Porque toda árvore de carvalho de cem anos começa com uma muda apenas. E, então, se torna um carvalho majestoso em cem anos. Todas as maiorias na história começaram como minorias. Se não fosse assim, ainda estaríamos no período paleolítico: se ninguém quisesse sair da caverna, ainda estaríamos lá. Aqueles que decidiram sair, eram minoria. Então, cedo ou tarde, o ser humano vai encontrar soluções, mudar os hábitos, mudar a si próprio e começar a viver de outra maneira. Tenho quase certeza disso, mas o problema que me preocupa é quanto tempo isso levará para acontecer. 

Armadilhas da inteligência e da fé. A leitura do passado é sempre um diálogo com valores presentes

COLUNISTA

Leandro Karnal


Sóror Juana Inés de la Cruz é o maior nome das letras mexicanas do século 17. É autora pouco conhecida no Brasil. Seu mais famoso poema, Homens Néscios (Hombres Necios) é analisado por quase todo estudante da língua espanhola. Na obra, a religiosa acusa os homens de duplicidade: não sabem se querem mulheres recatadas que recusem assédio ou as que dizem sim às investidas. Quando uma aceita ser cortejada, o homem a repudia como fácil (ou com qualificativos piores). Caso ela resista bravamente ao avanço, é tachada de fria ou mal-resolvida. Em plena Cidade do México colonial, a escritora denuncia a perene duplicidade masculina de projetar nas mulheres sua própria tolice.

Juana era uma mulher bonita e de brilhantismo incomparável. Nascera em situação ambígua para os rígidos padrões oficiais do mundo de então. Filha da Igreja, ou seja, gerada dentro de uma relação não oficial, demonstrou um precoce e intenso gosto pela leitura e pela escrita. Dizem ter aprendido latim em velocidade assombrosa: 20 lições. Tinha forte talento poético. Escreveu peças que chegaram a ser representadas em plena Madri, capital do império. Era talentosa, mas, para o mundo mexicano da segunda metade do século 17, tudo isso era nublado por ser mulher e filha ilegítima.

Não tinha condições de um bom casamento pela “mancha de origem”. Acabou entrando para o convento das jerônimas, pois seu objetivo era estudar. Leitora voraz, escritora prolífica, hábil na confecção de doces (com o auxílio de uma escrava) que vendia para obter mais livros, instrumentos científicos e musicais, Sóror Juana foi uma personagem atípica em um mundo masculino e oprimido pela censura. Sua fama crescia a cada ano e suas boas relações na corte vice-reinal despertavam temores e invejas.

Ousada, a monja discordou, em público, de um sermão do Pe. Vieira, o famoso jesuíta do Império Português. A chamada Carta Atenagórica (porque digna da sabedoria da deusa Atena) fez sucesso e escândalo, especialmente porque uma freira fazia críticas teológicas a um padre. A poesia Primeiro Sonho (de complexa leitura), a peça chamada Auto do Divino Narciso, a popular e já referida Homens Néscios e a Carta Atenagórica constituem um bom recorte para conhecer a obra da chamada décima musa ou a Minerva da América.

Há alguns anos, coordenei um grupo de estudos na Unicamp baseado na biografia escrita por Octavio Paz: Sóror Juana Inés de la Cruz - As Armadilhas da Fé. O autor é um prêmio Nobel reconhecido pelo talento literário. Trata do mundo dos conventos, da vida cultural, de tudo o que constituiu o mundo do vice-reinado da Nova Espanha.

Em posicionamento analítico muito distinto, Angel Rama afirma (A Cidade das Letras) que Sóror Juana e suas peças e arcos triunfais eruditos, juntamente com autores como Carlos de Sigüenza y Góngora, constituíam um “anel” de proteção e legitimação do poder colonial. O mundo erudito da corte era uma maneira de tornar o poder válido, cercado por aura de uma competência e inteligência única.

A Netflix lançou uma série com a vida de Sóror Juana Inés de la Cruz. A criação de Patricia Arriaga-Jordán foi elaborada para o canal Once (México). O enfoque destaca algumas questões que biógrafos discutem. Qual foi a relação da religiosa com a vice-rainha, María Luisa Manrique de Lara y Gonzaga, esposa do vice-rei Marquês de la Laguna? Seria uma relação amorosa? Há posições variadas. A série insiste, taxativamente, que sim.

A leitura do passado é sempre um diálogo com valores presentes. Os episódios roçam em temas como percepção da igualdade de gêneros, o feminismo e a posição crítica com exercícios de fé barroca estranhos ao nosso universo. O olhar de 2017 para um flagelante é sempre de comiseração horrorizada, já que nossas formas de punição e sacrifício são outras. Revela, assim, a duplicidade de toda série histórica: serve para nos conhecer e ao passado. 
Talvez, com um pouco mais de verba, a equipe da série poderia ter feito tomadas externas de cenas maiores, como procissões, autos de fé e da própria catedral do México. Domina o plano interno e os diálogos com poucas pessoas. Mesmo assim, as imagens tornam-se obrigatórias para os apaixonados pela obra da autora.

Toda obra é uma coleção de liberdades poéticas e de composição de personagens. O austero arcebispo Aguiar y Seijas nunca visitou o convento das jerônimas e não poderia oferecer a ela a possibilidade de deixar de ser freira, como mostra o episódio final. A escolha é uma opção atual, relida de forma psicologizante.

O fim da biblioteca da intelectual, mais de quatro mil volumes (algo extraordinário para a época), é alvo de debates. Teria ela sido forçada ou, coberta de pudores e escrúpulos religiosos, teria mandado vender sua coleção?

O tema é vasto. Inés não era uma feminista nem uma crítica da Igreja. São máscaras póstumas que vamos colocando de acordo com necessidades contemporâneas. Inés era Inés: uma mulher brilhante, linda, cheia de conflitos em um mundo complexo, submetida a fios que urdiam a ela, ao arcebispo e ao seu confessor. Parte disso é a armadilha da fé que Octavio Paz descreveu: ser freira possibilitou muita coisa e a impediu de outras. Essa é a situação de cada um de nós: tudo que nos nutre também nos mata. O mérito da angústia de Inés é que a transformou em páginas brilhantes. A desgraça é que a nossa angústia só dá insônia e azia. Bom domingo a todos vocês.