terça-feira, 25 de abril de 2017

O que o jogo da Baleia Azul nos ensina

rosely sayão
Rosely Sayão
Psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia a dia dessa relação.

As notícias sobre o jogo da Baleia Azul provocaram diferentes reações na sociedade. Primeiramente, elas colocaram na ordem do dia as reflexões e os debates a respeito do suicídio. Sabemos que o índice de suicídio vem crescendo no mundo todo, em todas as faixas etárias, em especial entre os jovens e adolescentes.

O Brasil segue essa tendência global, e o tema costuma ser tratado como tabu, ou melhor, não costuma ser tratado. A polêmica em torno da "Baleia Azul", portanto, provocou pelo menos uma consequência produtiva. Falar sobre o suicídio, um assunto tão inquietante e espinhoso, é bem melhor do que silenciar.

São diversas as razões que nos levam a evitar conversas a respeito desse tema, mas a principal delas é o receio de colocar o suicídio em evidência para os jovens e, sem querer, apresentar essa possibilidade como uma saída para quem vive um problema –ou vários. Entretanto, o silêncio é ainda pior: é como se negássemos a existência dessa possibilidade, em vez de enfrentá-la.

Pois bem: logo após o primeiro impacto da Baleia Azul, que afetou famílias com filhos adolescentes, mudamos o jogo. Na internet, bem como nas rodas de amigos e conhecidos –presenciais e virtuais–, piadas e caricaturas do jogo começaram a mostrar uma outra face de nossas posições em relação aos mais jovens.

Primeiramente, um chinelo de dedo com a tira azul substituiu a baleia e se propagou rapidamente pela internet, sugerindo que o que os adolescentes que se aproximam de jogos perigosos precisam mesmo é de castigo para aprender a viver.

Logo após esse "meme", surgiu um outro que, no lugar da baleia, mostra uma carteira de trabalho com o texto "É dessa baleia azul que os adolescentes precisam". Curioso como a ideia de trabalho se aproxima à de castigo, não é?
Esses exemplos mostram o nosso despreparo para lidar com os adolescentes. Nós, que passamos a adolescência em um mundo com características diferentes do atual, ainda achamos que eles devem ser tratados como fomos –ou como imaginamos que fomos.

A maioria dos adultos não se lembra das angústias e inquietações que viveu nessa fase da vida e, por isso, trata com um certo desdém o sofrimento dos jovens.
Vamos relembrar: os adolescentes, no presente, sofrem uma pressão desmedida para que tenham sucesso escolar e pessoal, além de boa aparência, segundo determinados modelos; para que sejam populares; para que participem de determinados grupos sociais, e para que sejam felizes, muito felizes, porque damos "tudo o que não tivemos" a eles! E isso tudo é somado às inquietações de quem vive um momento de crise. Crescer dói, é preciso que lembremos sempre disso!

O que nossos jovens e adolescentes querem e precisam –e que pouco temos ofertado– é a nossa presença verdadeiramente interessada na vida deles.

Precisamos desenvolver empatia e compaixão pelos adolescentes: tentar trazer para nós o lugar que eles ocupam nesta época da vida para nos aproximarmos deles com intimidade, sem, porém, invadir sua privacidade; para dialogar sem moralismos; ouvir com atenção e interesse o que dizem abertamente e aprender a ler o que dizem nas entrelinhas.

"Conte comigo sempre." É essa a mensagem que cada jovem e adolescente precisa ouvir dos adultos, principalmente dos pais e professores.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Criança e Natureza: Como o brincar ao ar livre na escola prepara para a vida

O aprender vai além dos livros. O brincar livre na natureza é uma atividade que ensina e desenvolve diversas habilidades na infância


MARIA ISABEL BARROS é engenheira florestal e mestre em conservação de ecossistemas, trabalha com educação e conservação da natureza. Desde 2015 é pesquisadora do projeto Criança e Natureza, do Instituto Alana.



O que nossas crianças fazem na escola? Estudam e realizam uma infinidade de atividades como aulas de música, atividades esportivas e idiomas? Não que esses aprendizados não sejam importantes para a formação de uma criança, mas colocamos tantos compromissos na vida delas que não as deixamos aproveitar, plenamente, a fase mais especial de suas vidas, que é a infância. Por que entendemos a escola como um local para tarefas e lições e não como um espaço para a criança descobrir, criar, inventar e protagonizar?
A falta de contato e de oportunidades de brincar com regularidade e liberdade ao ar livre está na base de muitos problemas enfrentados pelos pequenos atualmente, como o aumento da obesidade infantil e as dificuldades de concentração, equilíbrio e atenção. Por isso, é importante que nas primeiras fases escolares a criança possa explorar o ambiente em que ela está: brincar na terra, pular na chuva, interagir com um inseto, tomar sol, acompanhar o desabrochar de uma flor, olhar as folhas de uma árvore cair ou plantar um grão de feijão e vê-lo brotar. Deixar os pequenos liderar suas explorações e interações com o ambiente natural ou mesmo experimentar a contemplação, a solidão e o ócio que a natureza permite são aspectos fundamentais de uma infância plena e saudável. 
A qualidade dessas vivências autônomas, na natureza, para além das dinâmicas e limitações que caracterizam o tempo vivido na escola ou em outros ambientes de cuidado ou aprendizagem é muito especial. A educadora Márcia Harmbach conta, a partir de sua experiência em educação infantil em uma escola pública de São Paulo, quanto é fundamental e possível garantir para a criança, no espaço escolar, o brincar livre na natureza e como isso contribui para seu desenvolvimento cognitivo, social e emocional. Assista no episódio “Educação Infantil e o livre brincar na natureza”, produzido pelo Criança e Natureza, do Instituto Alana.

De nada adianta um bom conselho para quem não quer escutar


Mario Sergio Cortella | Academia CBN

Àqueles que sofrem de surdez seletiva, ou seja, que não acham necessário fazer o que é certo, o ensino se torna inútil. Ou, como escreveu o alemão Johann Wolfgang von Goethe, em 'Fausto': 'morre o dizer sagaz na orelha dura'.

Carregar babá de branco a restaurante é sinal de que você é um rico bobo

luiz felipe pondé
Luiz Felipe Pondé
Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência.

Sempre se soube que sucesso desumaniza. Só gente iniciante não sabe disso. Sucesso é muito bom. Não me entenda mal. Desumaniza porque pode fazer você achar que você é o máximo em tudo, quando o foi apenas em algo em particular, e, às vezes, esse algo é bem banal se tomarmos a totalidade das atividades e experiências humanas.

Mas o sucesso não só desumaniza, ele pode deixar você ridículo se você não perceber que a melhor forma de conviver com o sucesso é fingir que ele não existe. Pra você e para os outros. Eu sei que é difícil, então melhor consultar um profissional do ramo. Existem alguns bons por aí. Ouvi dizer que existem até alguns workshops que ensinam você a não ser um jovem de sucesso ridículo por causa do próprio sucesso. Lúcifer foi o primeiro jovem de sucesso bobo da história. E acabou ficando com o porão.

Quando o sucesso atinge você muito cedo na vida, a chance de você virar uma besta arrogante é enorme.

A juventude já é "um sucesso" em si, apesar de temporário e condenado à extinção com os anos. Quando associada a dinheiro ganho (ou herdado e ganho), essa tendência é reforçada. Quando a esse processo é adicionado o acesso a muita informação, mesmo que picada, superficial, mas abundante, ao simples toque de um rápido clique "mobile", você pode ver diante dos olhos o fenômeno tão discutido hoje em recursos humanos: jovens que estão sempre diminuindo todo ser humano que chegou ali antes dele. O pior é que tem gente de 60 anos que acha que se humilhando diante deles, dizendo que "o mundo é dos jovens", receberá um pouco de misericórdia. Bobinhos.

Muito disso é culpa dos pais, como bem mostra a psicóloga americana Jean Twenge em sua obra. "Generation Me" e "Narcissism Epidemic", dois de seus títulos, mostram bem como crianças criadas por pais que sempre as acharam o máximo, e, com o tempo, passaram a invejar a juventude delas (principalmente as mães), facilmente se transformam em jovens arrogantes e crentes de que abafam porque foram à Mongólia nas férias. Essa moçada cresceu achando mesmo que as opiniões que acumulou ao longo dos poucos anos de leitura rápida é, de fato, relevante. Pouca experiência de vida associada a muito dinheiro e a muita "cultura mobile", pode dar em várias faces ridículas do sucesso.

E quando essa turma tem filhos (se os tem...)? Surgirá a babá de branco em meio aos restaurantes de gente rica. Carregar uma babá de branco para um restaurante é sinal de que você tocou o fundo do poço da babaquice de rico. Vejamos a cena.

E, assim, chegaremos a uma outra face ridícula do sucesso. Essa você vê em restaurantes, clubes e aeroportos. Trata-se desses casais com um filho só que carrega uma babá a tiracolo.

O pai, com aquela cara de quem realmente acredita que tem a mulher na mão porque dá Chanel pra ela aos 35 anos de idade. Um daqueles descritos no parágrafo acima. Logo descobrirá o efeito devastador e purificador do tédio feminino –aquele mesmo que dizem por aí que é culpa do patriarcalismo.
Risadas?

Aliás, o patriarcalismo também é culpado pelo capitalismo, pela poluição ambiental, pela Inquisição e pelo fato da gravidade atrair corpos humanos. A mãe, com aquela dureza advinda de muitas bolsas Chanel e muito tédio, controla sua babá com um simples olhar a distância.

A babá, quase sempre vestida de branco, com aquele rosto cheio de mal-estar e vergonha, tenta fingir que não odeia aquilo tudo. Corre atrás do pequeno (miúdo, como diriam nossos irmãos portugueses) de um lado para o outro, segurando seu iPad.

O pequeno, aluno da Saint Paul ou de uma Waldorf da moda, logo dará bolsas Chanel ou se for uma pequena, as ganhará.

Mas, mesmo com rosto de mal-estar e vergonha por estar entre "gente rica", nossa babá suporta estoicamente a humilhação da roupa branca que não é de médica. Mas, quando se precisa de dinheiro, se precisa de dinheiro, coisa que em nosso mundo de plástico se esqueceu.

A pergunta é: como alguém não ensina para essa gente brega que não se leva babá pra restaurantes?

domingo, 23 de abril de 2017

Maconha e grávidas. Índice alto de consumo de maconha no início da gravidez pode ser um indicador de que a droga está sendo usada pelas garotas para aliviar a náusea

COLUNISTA

Jairo Bouer


Garotas grávidas têm duas vezes mais chance de fumar maconha do que as demais adolescentes. Essa é uma das principais conclusões de um grande levantamento sobre consumo de drogas divulgado na última semana.
Pesquisadores do Instituto Nacional de Abuso de Drogas (NIDA), dos EUA, analisaram dados de 410 mil mulheres de 12 a 44 anos, de 2002 a 2015. Segundo eles, 14% das grávidas de 12 a 17 anos fumam maconha, enquanto entre as garotas que não engravidaram esse índice é de 6%. Em contrapartida, gestantes mais velhas têm metade da chance de fumar maconha do que as mulheres que não estão grávidas. As informações são do jornal inglês Daily Mail.
Entre as mulheres de 12 a 44 anos, 6% relataram ter usado maconha no primeiro trimestre de gravidez, 3% no segundo trimestre e 2% no trimestre final da gestação. Para os especialistas, no grupo das garotas grávidas, em que praticamente uma em cada sete consome maconha, há uma percepção peculiar dos efeitos da droga. Além de ter um perfil mais “inocente”, ela é considerada até benéfica para a saúde. Já entre as mulheres mais velhas esse fenômeno não aconteceria, o que faz com que elas tenham menos comportamentos de risco em relação à maconha, principalmente durante a gestação.
O índice mais alto de consumo de maconha no início da gravidez pode ser um indicador de que a droga está sendo usada pelas garotas para aliviar a náusea. Bom lembrar que o uso de qualquer droga, até mesmo a maconha, durante a gravidez, é um fator de risco para o desenvolvimento físico e neurológico da criança, principalmente quando esse uso acontece no primeiro trimestre da gestação.
O trabalho publicado no periódico Annals of Internal Medicine encontrou 14 mil mulheres grávidas no universo das mais de 400 mil avaliadas. Embora as taxas de gestação na adolescência estejam caindo nos Estados Unidos nos últimos anos, o consumo de maconha nessa fase da vida, além dos riscos para o feto, é preocupante porque pode trazer complicações e impactos para a saúde e o comportamento das jovens mães, que estão com suas redes de neurônios ainda em fase intensa de remodelamento e ajustes.
Para os especialistas, muitas dessas meninas fumam maconha porque ainda não sabem que estão grávidas. Uma vez informadas dos riscos para a gestação, a tendência é que consumam menos a droga. Por isso, é importante trabalhar esse tema durante o pré-natal.
Estudos anteriores já haviam ligado o consumo de álcool e outras drogas a um maior número de parceiros sexuais e maior risco de gravidez, mas esse trabalho trouxe novos dados, mais específicos, sobre o impacto da maconha.
Beber e guiar. Por falar em álcool, aqui no Brasil, dados divulgados na última semana pelo Ministério da Saúde revelam que o número de homens que dirigem depois de beber voltou a aumentar, alcançando quase 13%. Os dados fazem parte da pesquisa Vigitel de 2016 (inquérito sobre saúde realizado por telefone). Já entre as mulheres esse índice é de 2,5%. O valor indica um padrão de maior risco em relação ao álcool por parte da população masculina, o que não é exatamente uma novidade.
Em 2013, um ano depois da Lei Seca, os números do “beber e guiar” para os homens tinham caído para 9,4% e, para as mulheres, 1,6%. As informações são de Lígia Formenti, do Estado. Os dados das pesquisas indicam que é importante investir mais e melhor em prevenção.

Ler ou não ler, eis a questão. Gênio da criação, William Shakespeare é uma sementeira quase infinita de ideias

COLUNISTA

Leandro Karnal


Ele não surgiu de família privilegiada. Seu pai era um modesto fabricante de luvas. O local de nascimento estava distante de centros cosmopolitas e pujantes. Nunca fez estudos superiores. Jamais cruzou os mares que cercavam sua ilha. Sua existência transcorreu num universo de poucos quilômetros. Casou-se com uma namorada já grávida. Para inspirar mais cuidados sobre um destino que já se anunciava comum, em vez de abraçar uma profissão bem-aceita socialmente, manifestava desejo de fazer versos, atuar e escrever peças. Não tinha brilho no berço e suas escolhas indicavam um túmulo opaco. As lãs medíocres que teceriam sua vida estavam dadas ali, em 23 de abril de 1564. Origem não é destino e família não determina tudo. O homem que tudo tinha para ser medíocre e comum se tornou William Shakespeare, o maior autor de todos os tempos. Hoje, 23 de abril, lembramos seu aniversário de nascimento e de morte. 
A frase mais conhecida de toda a literatura é o “ser ou não ser”. Mesmo sem saber inglês, mesmo sem nunca ter enfrentado o monumento criativo chamado Hamlet, crianças aprendem a frase na boca de Nigel, a cacatua da animação Rio 2. A frase se transforma em signo aberto que voa por todos os lados. Da mesma forma, Romeu passa a ser sinônimo de jovem enamorado, Otelo, de ciúmes, Macbeth, de ambição, e Lear, de sandice desorientada. Talvez Harold Bloom tenha razão: Shakespeare inventou o humano como o entendemos hoje. Coisa de um bardólatra, um amante obsessivo da obra do filho de Stratford-upon-Avon. Provavelmente seja mesmo. Estamos condenados a uma cegueira neste mundo. Se vamos ser ofuscados, ao menos que seja pela luz de William Shakespeare. 
Desde a primeira vez que li o Hamlet, imaginei: e se eu fosse livre como o príncipe dinamarquês? E se eu não estivesse preso a medos, convenções, covardias e ambiguidades e tivesse o impulso de focar até o fim em uma meta com consciência e inteligência? Nunca saberei, porque nunca fui tão livre como o melancólico Hamlet. 
No filme As Pontes de Madison (1995, Clint Eastwood), Meryl Streep interpreta uma pacata dona de casa que se enamora de um fotógrafo que passa pela cidade. A paixão desestabiliza sua vida. A protagonista pensa em largar filhos, posição e marido e se lançar à aventura extrema de uma paixão fora do remanso fluido dos rios pequeno-burgueses. Há um momento-chave: o carro para e ela está nele com o marido. Ela quer seguir o coração, largar aqueles seres e correr para seu amor. A personagem, então, coloca a mão na maçaneta do veículo. Chove e o carro com o fotógrafo está à frente. O tempo é curto, a angústia dilacerante. Se ela abrir, largará a honradez da dona de casa interiorana. Fugirá de tudo que a definiu e entrará numa zona nova, desafiadora e distante da única zona de conforto que conheceu. O olhar dela expressa tudo, a cena se desenrola por imagens e uma direção de câmera nervosa. Bem, nossa heroína afasta a mão da porta libertadora e aceita permanecer onde está e onde ficará até a morte. Venceu a covardia ou a coragem? Dilema de Antígona: sigo o coração ou a lei? 
A cena do cinema dialoga com o mundo shakespeariano. A diferença é que o drama da personagem não é uma cena filmada, mas um diálogo representado, uma reflexão que se desenrola. Tudo o que o olhar da esposa-mãe-amante do filme nos diz, indiretamente, o bardo desenvolve com os diálogos mais dilacerantes da literatura teatral. 
As cenas são infinitas. Hamlet passa pelo odioso padrasto-assassino que, ajoelhado, reza. Pensa em matá-lo e desenvolve a possibilidade e suas consequências. A mão não está na maçaneta do carro, porém na lâmina que empunha. Mais longa ainda é a reflexão de Macbeth pouco antes de matar seu senhor e rei. Ninguém crava um punhal, mata ou morre, sem construir uma análise discursiva elaborada na obra de Shakespeare. 
A hybris (o desequilíbrio) que rege a tragédia clássica continua na obra do inglês. O que diferencia o bardo de Sófocles, autor da Antígona ou do Édipo Rei, é o salto do mundo interno, tímido no coro das obras gregas e avassalador nas peças do autor inglês.

É um salto enorme. Mesmo personagens que são criadas a partir de uma crítica ou preconceito, como Polônio (do Hamlet) ou Shylock (do Mercador de Veneza), dizem coisas sábias e ponderadas. As reflexões sobre poder do último rei York, Ricardo III, estão muito à frente da personagem central de House of Cards. Talvez pudéssemos supor que o deputado/presidente Francis Underwood só desnuda a ação política porque houve um Ricardo III. 
Shakespeare é uma sementeira quase infinita de ideias. Ele é um inesgotável poço de personagens e um guia luminoso para voar milhas acima das platitudes do mundo atual. William é um gênio da criação e um mestre da psique humana que possibilita, em poucas linhas, avançar quilômetros na compreensão do mundo. Eis Shakespeare, homem a quem devo uma parte expressiva da minha parca consciência. Desafie-se e leia uma grande peça dele. Se o momento for adequado (porque nem sempre estamos aptos a Shakespeare), a luz vai transformar sua vida. Se ainda não for sua hora de entrar na aventura, paciência, ele espera na estante até você crescer. Somos todos anões. Subir no ombro de gigantes permite-nos contemplar um horizonte espetacular. Happy birthday, Will! Bom domingo a todos vocês!

sábado, 22 de abril de 2017

Tentativa de suicídio pode não buscar morte, mas mensagem, diz psiquiatra


O professor da Unicamp e psiquiatra Neury José Botega em palestra na cidade de Mandaguari (PR)


JAIRO MARQUES
DE SÃO PAULO


Diante dos recentes casos de suicídio e de tentativas de suicídio de jovens pelo país, o psiquiatra Neury Botega, 59, da Unicamp, uma das mais reconhecidas autoridades médicas do Brasil quando se trata de prevenção à busca pela morte, aponta possíveis razões para esse fenômeno.

Pós-doutor pela Universidade de Londres, fundador da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio e autor de livros sobre o tema, Bodega fala sobre os perigos da dependência tecnológica, as armadilhas emocionais por trás de jogos e seriados e as mudanças nos limiares de suportar angústia pelos jovens, a resiliência.
*
Folha - Jogos do tipo baleia azul ou séries como 'Os 13 Porquês' podem potencializar o desejo por suicídio?
Neury Botega - Podem, mas são coisas diferentes. Baleia azul é algo perverso, sádico, torturante, pois trabalha com a habituação da dor. O adolescente vai se dessensibilizando, tomando atitudes mais graves e amedrontadoras até estar totalmente sem medo e excitado para o desafio de pôr em risco a própria vida. O jogo é criminoso, é caso de polícia.
"Os 13 Porquês" [da Netflix] gera uma boa expectativa porque está fazendo a sociedade conversar sobre suicídio, o que sempre foi tabu. Mas isso só faz sentido se, de fato, pais, professores e amigos abrirem um canal para que a angústia flua e encontre palavras no lugar de um desespero.
Mas há perigos, principalmente para o jovem mais vulnerável, que sofre e não tem formas de pedir ajuda e está perdido em si mesmo, sentindo-se isolado.
Pode ser alguém em depressão, o usuário de drogas, aquele com família disfuncional ou com humor muito instável. O adolescente é mais impulsivo, neurologicamente, ele ainda não tem o sistema nervoso central completamente desenvolvido.
Todo manual de prevenção ao suicídio diz para não dar detalhes sobre o método, não publicar fotos, não dramatizar, não fazer do suicida um herói, pois tudo isso aumenta o risco de contágio. A série comete todos esses pecados, além de romantizar o ato.
Suicídio se explica por uma grande combinação de fatores, junto com a história de vida, que une genética, família, sociedade, cultura etc.

A mistura entre o lúdico e o real avança entre os jovens?

O que mais tem chegado ao consultório são pais apavorados com o filho adolescente ou antes disso, que não sai de frente do computador, do jogo. Há casos dramáticos em que os pais, desesperados porque o filho não come, só joga, levam a comida para ele no quarto, o que incrementa um círculo vicioso.
A mistura entre realidade e ficção sempre aconteceu nessa fase da vida. Pode ser algo normal, um devaneio, indo até a obsessão, o delírio.

A reclusão cibernética é um alerta para os pais?

Claro. É preciso estar atento à mudança de um padrão de comportamento, observado ao longo de um período de tempo. É normal passar uma tarde toda trancada no quarto. Mas, várias tardes, é um sinal que algo pode estar errado. Não quer dizer que há um risco de suicídio, mas que algo não está bem.

Nas redes sociais, há quem diga que falta 'pulso firme' com os adolescente. É por aí?

Pulso firme é expressão perigosa, que pode ter consequências drásticas. Os pais precisam é botar limites em seus filhos, da mesma forma que devem incentivá-los a serem autônomos e livres.
Colocar limites não é castigo. É preciso conversar, trocar olhares, refletir sobre os problemas juntos. Não dá para liberar a internet a toda hora, ficar na frente da TV na hora do jantar.

Estudantes de medicina da USP também estão entre vítimas de tentativas de suicídio. Alegam, entre outras razões, o peso das obrigações estudantis. São novos tempos?

Sim. Há um sofrimento psíquico grande quando se chega ao terceiro ano e é preciso estudar demais, com provas muito difíceis. A partir do quarto ano, com um contato mais intenso com pacientes, mais angústia é mobilizada.
No caso da USP, penso ser necessário uma análise do currículo. Mas também é preciso discutir como é o mundo mental de um jovem que faz medicina. O quanto ele tem de resiliência e suporta de pressão? A tolerância das pessoas mudou demais nos últimos anos. Temos uma geração imediatista e provavelmente com grau de resiliência menor.
Defendo que cursos de medicina não comecem imediatamente ensinando com cadáveres e que haja disciplinas no campo das artes e da filosofia, que ajudam a lidar com o ser humano.
De qualquer forma, é preciso entender que a tentativa de suicídio, muitas vezes, não objetiva a morte. Ela traz uma mensagem: eu não aguento mais essa situação, não consigo transformar meu sofrimento em palavras e ações construtivas.

Sinais de Alerta

  • Falar sobre querer morrer
  • Procurar formas de se matar
  • Falar sobre estar sem esperança ou sobre não ter propósito
  • Falar sobre estar se sentindo preso ou sob dor insuportável
  • Falar sobre ser um peso para os outros
  • Aumento no uso de do álcool e drogas
  • Agir de modo ansioso, agitado ou irresponsável
  • Dormir muito ou pouco
  • Se sentir isolado
  • Demonstrar raiva ou falar sobre vingança
  • Ter alterações de humor extremas
  • Quanto mais sinais, maior pode ser o risco da pessoa
O que fazer
  • Não deixar a pessoa sozinha
  • Tirar de perto armas de fogo, álcool, drogas ou objetos cortantes
  • Ligar para canais de ajuda
  • Levar a pessoa para uma assistência especializada
Alguns pontos de alerta para depressão em adolescentes:
  • Mudanças marcantes na personalidade ou nos hábitos
  • Piora do desempenho na escola, no trabalho e em outras atividades rotineiras
  • Afastamento da família e de amigos
  • Perda de interesse em atividades de que gostava
  • Descuido com a aparência
  • Perda ou ganho inusitado de peso
  • Comentários autodepreciativos persistentes
  • Pessimismo em relação ao futuro, desesperança
  • Disforia marcante (combinação de tristeza, irritabilidade e acessos de raiva)
  • Comentários sobre morte, sobre pessoas falecidas e interesse por essa temática
  • Doação de pertences que valorizava
Cerca de 90% das pessoas que morrem de suicídio possuíam transtornos mentais. Elas poderiam ser tratadas e acompanhadas
*

Telefones e sites de ajuda:

Centro de Valorização da Vida (CVV): 141
Também é possível entrar em contato e receber apoio emocional do CVV via internet, a partir de email, chat e Skype 24 horas por dia
Fontes: American Foundation for Suicide Prevention; Centro de Valorização da Vida; "Comportamento suicida: vamos conversar sobre isso?", de Neury José Botega, membro-fundador da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio; "Preventing Suicide: A Global Imperative", da Organização Mundial da Saúde