sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Não se Iludam. Demorou anos para Parir...Vai levar outros anos para sair do papel... e se sair do papel vai de encontro a escolas Ultrapassadas....

claudia costin
Cláudia Costin
É professora da FGV e professora-visitante de Harvard. Foi diretora de Educação do Bird, secretária de Educação do Rio e ministra da Administração.

A Base e os seus desafios


O Brasil, assim como os países mais avançados em educação, tem agora uma Base Nacional Curricular que define direitos de aprendizagem das crianças e adolescentes até o final do ensino fundamental. Essa condição é necessária para poder melhorar a qualidade do ensino e garantir equidade. Mas certamente não é suficiente.

Apesar de ter sido um avanço importante, o desafio maior começa agora. Primeiro porque a Base ainda não está completa. Falta a parte referente ao ensino médio, a ser completada no primeiro trimestre de 2018, e a tradução da Base em currículos subnacionais, ou seja, de Estados e municípios, que deverão ser mais precisos e detalhados. Também precisarão, se quiserem ter chances de nortear as atividades em sala de aula, ser elaborados em parceria com os professores.

Além disso, o maior desafio começa agora, segundo especialistas experimentados em processos semelhantes, como a professora Rebecca Kockler, gestora do departamento de educação de Louisiana, nos Estados Unidos, que obteve recentemente resultados educacionais impressionantes.

Segundo Kockler, a elaboração de materiais curriculares, a formação dos professores para a utilização dos currículos e a preparação de avaliações de aprendizagem precisam ser implementadas de forma adequada.

Nesse sentido, é alvissareiro o que, sob a liderança de Alexandre Schneider, a cidade de São Paulo pôde realizar, ao elaborar seu currículo municipal para o ensino fundamental, levando em conta a versão mais atualizada da Base. Um elemento de destaque foi o processo de elaboração: os professores foram ouvidos, por disciplinas e escolas; além disso, houve uma escuta organizada de cerca de 46 mil alunos sobre como gostariam que as aulas fossem conduzidas.

O currículo, que inclui materiais instrucionais para professores e alunos e ferramentas testadas de avaliação de aprendizagem, é bastante contemporâneo, contemplando competências para o século 21.

Trabalha tópicos como empatia, resiliência e persistência, sem deixar de ter altas expectativas de aprendizagem para todos. Contém também uma parte referente a modernas tecnologias, e ambientes de aprendizagem especialmente projetados estão sendo criados para isso, num processo que influenciou o governo federal a igualmente contemplar o tema na Base.

Agora, outras cidades começam a preparar seus currículos. Muitas irão fazê-lo em colaboração com seus Estados, mas todas podem contar com a iniciativa de pioneiros como Schneider para se inspirar –afinal, na implementação, em São Paulo, erros e acertos ocorrerão, mas os resultados positivos serão certamente escaláveis.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Dados do IBGE mostram que evasão escolar ainda é muito alta no Brasil



Escola da Vida - Antônio Gois
Os desafios da educação no Rio de Janeiro e no Brasil.



A situação é mais grave no Ensino Médio. A cada dez jovens dentro da faixa etária correspondente a esse ciclo escolar, sete estão, de fato, no Ensino Médio; dois estão na escola, mas atrasados; e um abandonou os estudos.

Bullying: você está educando seu filho corretamente?

Os temas do 'Família' desta semana são críticas e bullying. Assista ao vídeo


Rosely Sayão responde a uma mãe que quer saber como educar sua filha em relação às críticas, já que a menina ficou muito chateada com a discordância de uma amiga. A psicóloga diz que opiniões de amigos podem ser bem-vindas e costumam ajudar no crescimento. “Temos que deixar os filhos conhecerem a vida como ela é”, diz.








Brasil tinha 11,8 milhões de analfabetos em 2016

Segundo dados do IBGE, o analfabetismo na faixa de 15 anos ou mais ficou em 7,2% no ano passado


Por Agência Brasil


Em 2016, a taxa de analfabetismo das pessoas de 15 anos ou mais de idade no Brasil foi estimada em 7,2% (11,8 milhões de analfabetos).
Esse percentual apresentou relação direta com a faixa etária, aumentando à medida que a idade avançava, até atingir 20,4% entre as pessoas com mais de 60 anos.
A meta 9 do Plano Nacional de Educação (PNE), lei sancionada em 2014, previa a redução da taxa de analfabetismo para 6,5%, em 2015 no país, o que não foi alcançado, conforme mostra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) 2016, divulgada hoje (21) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A taxa de analfabetismo para as pessoas pretas ou pardas (9,9%) – nomenclatura usada pelo IBGE – foi mais que o dobro da observada entre as pessoas brancas (4,2%) em todas as regiões do país.
Segundo o IBGE, o Nordeste apresentou a maior taxa de analfabetismo (14,8%), índice quase quatro vezes maior do que as taxas estimadas para o Sudeste (3,8%) e o Sul (3,6%). No Norte, a taxa foi 8,5% e no Centro-Oeste, 5,7%. A meta 9 do PNE para 2015 só foi atingida nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Para a analista do IBGE Marina Aguas, as políticas públicas de redução do analfabetismo devem focar as regiões Norte e Nordeste.
No país, a taxa de analfabetismo para os homens de 15 anos ou mais de idade foi 7,4% e para as mulheres, 7%.
De acordo com a analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE, Helena Oliveira Monteiro, a pesquisa mostra a continuidade das diferenças regionais e a desigualdade por cor ou raça.
“Historicamente, pessoas brancas têm mais acesso à escola. Isso está associado à renda, que produz maior oportunidade de acesso ao ensino”, disse a pesquisadora.

Nível de instrução

No Brasil, 51% da população de 25 anos ou mais tinham até o ensino fundamental completo ou equivalente em 2016; 26,3%, o ensino médio completo, e 15,3%, o superior completo.
Considerando a cor ou raça, as diferenças no nível de instrução são significativas: enquanto 7,3% das pessoas brancas não tinham instrução, 14,7% das pessoas pretas ou pardas estavam nesse grupo.
Situação inversa ocorreu no nível superior completo: 22,2% das pessoas brancas tinham esse nível de instrução, ao passo que entre as pretas ou pardas a proporção era de 8,8%.
No ano passado, o número médio de anos de estudo das pessoas com 25 anos ou mais foi oito. As regiões Nordeste e Norte ficaram abaixo da média nacional, com 6,7 anos e 7,4 anos respectivamente, enquanto as regiões Sul (8,3 anos), Centro-Oeste (8,3 anos) e Sudeste (8,8 anos) situaram-se acima da média.

País tem menos estudantes na pré-escola e no ensino médio do que meta do Plano Nacional de Educação

Daniela Amorim, O Estado de S.Paulo

RIO - O governo tem um longo caminho a percorrer para conseguir cumprir as metas de universalização da educação no País, previstas no Plano Nacional de Educação - PNE instituído pela Lei n. 13.005, de 2014. Por enquanto, o Brasil tem menos estudantes na pré-escola e no ensino médio do que o estabelecido.
Outro desafio consiste em aumentar até 2024 de 30,4% para 50% o porcentual de bebês de 0 a 3 anos matriculados em creches por todo o território. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua): Educação, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Um dos objetivos que consta no Plano Nacional de Educação é expandir em quase 10 pontos porcentuais a fatia de crianças de 4 e 5 anos na pré-escola, atualmente em 90,2%, meta que deveria ter sido cumprida em 2016.
A taxa de escolarização para as crianças de 6 a 14 anos de idade, porém, alcançou 99,2% em 2016, o equivalente a 26,5 milhões de estudantes. Apesar do resultado muito próximo da meta de universalização, entre os adolescentes de 11 a 14 anos ainda havia uma lacuna a ser preenchida: nessa faixa etária, a taxa de matriculados nos anos finais do ensino fundamental caía a 84,4%.
"Cerca de 15,6% das pessoas nessa idade estavam atrasadas na escola, seja porque foram reprovadas ou porque deixaram os estudos", disse Helena Monteiro, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE.
"Isso obviamente se retratará no futuro, porque essas pessoas chegarão atrasadas ao ensino médio. Conforme os níveis de instrução vão subindo, esses descasamento vai aumentando, vai gerando um bola de neve", complementou Marina Aguas, também analista do IBGE.
A taxa de escolarização dos jovens de 15 a 17 anos foi de 87,2%, o equivalente a 9,3 milhões de estudantes. O resultado ficou aquém da meta, que previa universalização do ensino nessa faixa etária até 2016.
"Para esse ano (2016, ano de referência da pesquisa), o acesso à escola já deveria estar universalizado", frisou Helena.
Além disso, apenas 68% dos jovens de 15 a 17 anos estavam cursando a série adequada.
Entre as pessoas entre 18 e 24 anos, a taxa de escolarização caiu a 32,8%, 7,3 milhões de estudantes. Quando considerados os que estavam cursando a etapa adequada, a proporção era de apenas 23,8%. O Plano estabelece que esse porcentual seja elevado a 33% até 2024.
"A diferença entre essas taxas é quem ainda está na cota dos atrasados. E tem uma população enorme que nem está estudando, então chama a atenção", lembrou Marina.
Em 2016, 24,8 milhões de jovens entre 14 e 29 anos de idade não estudavam nem tinham concluído uma graduação.
Entre os homens, o trabalho ainda era a principal razão para o abandono do estudo (citado por metade deles), enquanto que para as mulheres os afazeres domésticos e cuidado de pessoas ainda travavam os investimentos na escolaridade. Pouco mais de 30% delas alegaram estar trabalhando ou procurando emprego, enquanto que 26,1% explicaram que precisavam cuidar dos afazeres domésticos, de crianças, idosos ou deficientes em vez de estudar. 

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Por que as redes sociais estão levando jovens a se matar?




Thais Carvalho Diniz Do UOL, em São Paulo 19/12/2017 04h00  

 Jovens de 15 a 29 anos estão se matando mais. O assunto que ainda é tabu nas famílias, escolas e rodas de conversas informais cresce a passos lentos, mas de forma constante no Brasil. Segundo o Mapa da Violência divulgado em abril, entre 1980 e 2014, houve um aumento de 27,2% no número de suicídios dessa faixa etária. E chegando ao final de 2017, ano em que passamos pela Baleia Azul e séries como "13 Reasons To Why", que trouxeram à tona o tema na esfera adolescente, a questão que fica é: por que pessoas que estão começando a vida querem acabar com ela?

 Para os especialistas entrevistados pelo UOL, é inevitável trazer para o centro da discussão o cenário da sociedade atual, que apresenta famílias afastadas e relações rasas para tentar entender o contexto desses dados. Entre as causas e consequências do afastamento humano, está a tecnologia, que influencia fortemente a maneira como nos relacionamos. 

A terapeuta ocupacional e pós-doutora em saúde coletiva Fernanda Marquetti acredita que o suicídio é um produto do que acontece socialmente dentro de uma cultura. Se estamos tão tecnológicos, pode estar aí a resposta das mortes. 

"Claro que esses jovens não estão se matando porque todos começaram a ter transtornos psiquiátricos. O mundo caminha para um esvaziamento cada vez mais profundo das relações, os adolescentes não conseguem se relacionar fora do mundo digital. As tentativas e os suicídios aparecem como expressões máximas dessa dificuldade", fala a professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). 

Se essa geração nasceu com a tecnologia e o contato é inevitável, precisamos de educação para lidar da melhor forma com ela. "Estudos mostram que a busca pelo like é tão viciante como droga, principalmente para o cérebro em formação, como é o caso do jovem até os 21 anos. E eles são menos capazes de racionalizar. Não é que todos sejam inconsequentes, mas há uma impulsividade maior", afirma psicoterapeuta Karen Scavancini, autora do livro "E Agora? Um Livro para Crianças Lidando com o Luto por Suicídio" (AllPrint Editora). 

Karen fala ainda que a dependência de redes sociais expõe o jovem ao cyberbullying. Aquela humilhação que antes era restrita ao ambiente escolar, agora não tem mais controle, ocorre via celular, computador e 24 horas por dia. "O bullying tinha um rosto. Hoje, qualquer um fala o que quer porque está protegido pelas telas. Existe uma manipulação muito maior, sem noção alguma das consequências e por pura maldade." 

Automutilação digital 

A tendência entre jovens americanos de postar e compartilhar nas redes sociais mensagens abusivas sobre si mesmo de forma anônima já é preocupação para os especialistas no Brasil. Em um estudo recente com mais de 5 mil estudantes nos Estados Unidos, com idades de 12 a 17 anos, um em cada 20 revelou ter praticado a automutilação digital. 

"Eles não encontram o próprio lugar, precisam lidar com pressões sociais, rankings escolares..... E o jovem não questiona o que vê nas redes sociais. Quanto mais horas ele passa ali, vendo vidas perfeitas, maior o a chance de depressão e suicídio. Fora a falta de interação, exercício físico, programas em família", fala Karen. 

Se você está lendo e pensando "que frescura", o exercício deve ser o oposto. Tente se lembrar dos conflitos que você teve durante a adolescência. 

"Não é para culpar alguém. Quando uma pessoa se mata, ninguém é responsável. Mas precisamos pensar que se relacionar por mensagem é muito pouco para sustentar uma vida. E são os adultos --que também estão influenciados por esse meio de viver- que precisam reverter essa forma de relacionamento", argumenta Fernanda Marquetti. 

90% dos suicídios poderiam ser evitados, segundo a OMS 

O doutor em saúde pública pela USP (Universidade de São Paulo) Thiago Nagafuchi concluiu sua tese sobre suicídio na era digital em junho deste ano. Para ele, a maior barreira para tratar o tema ainda é o tabu no qual está envolto. "As pessoas em sofrimento têm necessidade em comunica-lo, mas esbarram nessa censura." 

E já que as pessoas têm se expressado muito mais pelos meios digitais, inclusive transmitindo online a própria morte, esse deve ser um meio de prevenir também. 

"É um desafio gigantesco, mas precisamos refletir sobre formas específicas de fazer prevenção na internet, porque ela demanda formas ágeis por conta de que muitas coisas acontecem em tempo real. Criar espaços de diálogo, seja por meio de reportagens, encontros, programas de TV. Trazer o assunto à tona e conversar sobre isso."

Conversar sobre suicídio? 

A CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) dos Maus-Tratos em Crianças e Adolescentes do Senado apresentou na última quarta-feira (13), três cartilhas de prevenção contra o suicídio, a automutilação, o bullying e o cyberbullying. O objetivo é orientar pais, responsáveis e professores. As cartilhas serão distribuídas nacionalmente e estarão disponíveis online. 

O senador Magno Malta (PR-ES), presidente da comissão, disse que a estrutura do projeto foi pensada para ser clara e acessível e, por isso, está apresentada no formato de perguntas e respostas. "O suicídio é a terceira maior causa de mortes entre crianças e adolescentes no país", disse Malta.  

domingo, 17 de dezembro de 2017

Currículo novo não basta para ensino melhorar, afirma gestora americana

Rebecca Kockler. New Orleans, LA. October 2016. Gestora responsável pela área pedagógica do Departamento de Educação da Louisiana, Rebecca Kocler Foto: Divulgação DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM
Gestora responsável pela área pedagógica do Departamento de Educação da Louisiana, Rebecca Kocler

FÁBIO TAKAHASHI
DE SÃO PAULO


Estado norte-americano com renda per capita abaixo da média daquele país, Louisiana tem chamado atenção pelos avanços em seus indicadores educacionais.

O Estado alcançou o maior avanço na 4ª série no último exame nacional em leitura; em matemática, o segundo maior crescimento (em ambas as matérias, porém, segue abaixo da média).

Uma das chaves apontadas para esse desempenho foi uma reforma no sistema educacional tendo como base novos padrões para aprendizagem e novos currículos.

Esses documentos passaram a nortear escolha de materiais didáticos, formação de professores e avaliação.

A mudança começou em 2010, quando organização que representa os Estados lançou documento que estabeleceu o que cada aluno deveria saber, em cada série, do ensino infantil ao médio (programa chamado "Common Core", o núcleo comum).

A adoção de política semelhante está em curso no Brasil, com a Base Nacional Comum Curricular. A versão final brasileira foi aprovada nesta sexta-feira (15) e aguarda homologação do Ministério da Educação.

Como nos EUA, a ideia é que o documento sirva como diretriz para definir o que os alunos devem aprender.

Cada Estado define então como implementá-la e as estratégias a serem usadas para que os alunos aprendam o que se espera (o currículo).

O caso da Louisiana, mesmo visto como de sucesso nos EUA, mostra o quão difícil é a implementação de tal política. Se os alunos da 4ª série melhoraram, os da 8ª obtiveram notas menores (seguindo um padrão nacional).
O próprio Common Core, sete anos após o lançamento, foi abandonado por ao menos 8 dos 45 Estados que o adotaram inicialmente.

Áreas republicanas passaram a ver a iniciativa excessivamente atrelada ao então presidente democrata Barack Obama. Em alguns Estados, como Nova York, a implementação foi acelerada e passou a sofrer resistência de professores e alunos.
Em Louisiana, o Common Core sobrevive. Estudo da ONG Rand mostrou que professores do Estado são os que mais alinharam suas atividades ao núcleo comum.

No fim de outubro, o Movimento pela Base, organização privada que defende a Base Nacional brasileira, trouxe para São Paulo a gestora responsável pela área pedagógica do Departamento de Educação da Louisiana. Rebecca Kockler, 36, falou com professores e gestores sobre a implementação do currículo.
*
Folha - Por que Louisiana tem chamado atenção nos EUA?
Rebecca Kockler - Temos fornecido muitos recursos para os distritos [municípios] melhorarem a forma de ensinar. Outros Estados ficam mais na determinação das grandes diretrizes. Decidimos fazer isso porque vimos disparidades muito grandes no Estado em padrões e expectativas de aprendizagem.
O que nos importa é que os estudantes acumulem conhecimento a cada ano, e não replicar o que sempre foi feito. Se decidimos aumentar as expectativas de aprendizagem, precisávamos aumentar o apoio ao sistema. Alunos de baixa performance começaram a melhorar. Muita gente começou a perguntar como isso ocorreu.

As notas em Louisiana têm aumentado na 4ª série, mesmo durante a adoção dos novos currículos. Em outros Estados, as notas desabaram durante esse processo. O que há de diferente em Louisiana?
Não acho que você possa individualizar uma única política para explicar os resultados. Dentro das escolas, vemos coisas que melhoraram rapidamente devido aos novos padrões e currículos. Os alunos estão lendo livros que não liam há cinco anos.
Mas estender essa explicação para o âmbito estadual é muito mais complexo. Não está claro se foi por causa do currículo ou da capacidade dos professores ou outra coisa. Talvez seja uma mescla.

O que está claro é que os professores ensinam hoje considerando uma meta mais alta. Não que isso ocorra em todas as classes, todos os dias. Isso leva tempo e muito trabalho. Os padrões por si não mudam a forma de ensinar.
Isso vem com a implementação: avaliação, treinamento de professores.
Por outro lado, você não consegue mudar sem novos padrões. Nossos estudantes devem estar em condições de competir com os de Massachusetts [o melhor Estado nos EUA]. Para isso, precisamos saber onde está a barra deles, para ajustarmos a nossa barra.

Estados têm abandonado o Common Core. O que Louisiana faz para manter a política?
Primeiro, gostaria de ressaltar que muitos dos Estados que não estão usando mais o Common Core, na verdade, mudaram o nome, mas mantiveram praticamente o mesmo conteúdo. Fizeram pequenos ajustes, como nós.
Uma das coisas que nos impulsionou na implementação foi a participação dos professores. Chamamos entre 100 e 200 professores, dependendo do ano, para nos ajudar. Avaliaram a elaboração dos materiais. Comunicaram o que estava mudando para os demais professores.
Eles sabiam dos desafios e das grandes expectativas para os estudantes. Eles não falavam "diminuam as expectativas", mas, sim, "precisamos de mais recursos aqui".
Mudamos diversas coisas a partir dessa participação. Currículo é o maior exemplo.
Inicialmente, pensamos em não interferir tanto na instrução. Os professores disseram: "Está mudando tanto que não precisamos apenas de exemplos de lições, precisamos ter definido como deve ser a instrução dia a dia".

Como vocês trabalharam os exames ligados ao novo currículo [em Nova York, professores reclamaram que os testes vieram antes dos treinos para ensinar os novos métodos]?
Adotamos o Parc [avaliação com base no Common Core] mas fizemos adaptações.
O desempenho dos alunos nos exames tem impacto na avaliação dos professores: 35% da avaliação do docente tem como base esses exames; 15% pode ser por avaliação interna da escola; e 50% de observação do trabalho do professor. Quando começamos os novos padrões, suspendemos por dois anos os 35% dos exames. Foi um período de aprendizagem. Hoje, o sistema voltou ao que era.

O que acontece com professor com baixa avaliação?
É uma decisão dos distritos. Eles podem decidir quem contratar ou demitir professores. Alguns pagam um extra, de acordo com essa avaliação. Alguns usam as duas coisas.

Qual o impacto dessa avaliação na implementação do novo currículo?
Foi importante. Obviamente essa forma de avaliação sempre causa tensão, mas no nosso caso entendemos que foi benéfico. A implementação fluiu melhor em locais onde os exames foram mais levados em conta.

Por que 8ª série não melhora?
Primeiramente, os dados mais recentes do Naep [a avaliação americana] se referem a um período que o novo currículo havia sido implementado havia apenas dois anos.
Alunos na 8ª série vêm com defasagens muito maiores acumuladas do que os da 4ª série. É difícil ensinar álgebra se o estudante não sabe fração. E mudanças levam tempo para trazerem resultado. Nos nossos exames estaduais temos visto melhorias na 8ª série. Mas se isso não se repetir no Naep, certamente teremos uma grande pergunta a responder: o que não está bem?

O que você pode falar para o Brasil sobre implementação?
Implementar novos padrões é difícil, mas todos alunos são capazes de chegar ao esperado. É difícil aumentar expectativas, e se você não tem clara a importância disso, você baixa a barra, o pior que pode acontecer.
Estejam próximos aos seus professores. Terceiro, as mudanças demoram. Adaptem a política para os contextos locais. E não é porque você adotou novos padrões que as crianças vão aprender mais. A adoção de padrões e currículos é apenas o primeiro passo.
*

Raio X

Trajetória
Ex-professora de história e ciências em escolas públicas de Nova Jérsei e Nova York
Cargo
Superintendente-assistente de conteúdo acadêmico do Departamento de Educação de Louisiana, Estado no sudeste dos EUA, que tem a 38º maior renda per capita entre os 50 Estados norte-americanos

Base Curricular