domingo, 20 de maio de 2018

A educação no País

Levantamentos da FIESP e do IBGE dão a medida das dificuldades que o País vem enfrentando na formação de capital humano, condição indispensável para a passagem a níveis mais sofisticados de produção

O Estado de S.Paulo
Na mesma semana em que a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) divulgou uma pesquisa sobre o conceito de Indústria 4.0 e os problemas que precisam ser enfrentados para sua adoção, dentre os quais a necessidade de mão de obra altamente qualificada, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua de 2017 que mostram que o cenário da educação brasileira, apesar de alguns avanços pontuais, continua trágico.
Os dois levantamentos dão a medida das dificuldades que o País vem enfrentando na formação de capital humano, condição indispensável para a passagem a níveis mais sofisticados de produção. O conceito de Indústria 4.0 engloba as principais inovações tecnológicas dos campos de automação, controle e tecnologia da informação, aplicadas aos processos de manufatura. Os números da Pnad ajudam a compreender os problemas que as entidades empresariais têm pela frente. Além da falta de mão de obra qualificada para trabalhar com as novas tecnologias, pelo levantamento do IBGE o Brasil não teria nem mesmo mão de obra qualificável, ou seja, com um mínimo de instrução para poder ser treinada e qualificada.
Segundo a Pnad, a proporção de brasileiros com menos de 1 ano de estudo caiu de 7,8% para 7,2% da população com mais de 25 anos, entre 2016 e 2017. Mas, dos 48,5 milhões de pessoas que tinham entre 15 e 29 anos de idade em 2017, 11,2 milhões – o equivalente a 23% do total – não trabalhavam, não estudavam e não se qualificavam. Em 2016, o índice foi de 21,9%. Em números absolutos, o crescimento desse contingente foi de 619 mil pessoas.
Pela meta 9 do Plano Nacional de Educação (PNE), que foi aprovado em 2014, o País deveria ter em 2015 até 6,5% da população com 15 anos ou mais sem saber ler ou escrever um bilhete simples. Os dados da Pnad mostraram que o índice foi de 7,7% naquele ano, tendo baixado para 7% em 2017, não atingindo, portanto, a meta. Em números absolutos, são 11,5 milhões de pessoas com mais de 15 anos que não sabem ler e escrever. A meta que previa que 85% dos estudantes do ensino médio estivessem na idade esperada nas três séries desse ciclo educacional também não foi atingida. Segundo o IBGE, em 2017 apenas 68% dos alunos desse ciclo de ensino estavam na etapa esperada.
Os dados da Pnad revelam ainda que o número de pessoas com mais de 15 anos matriculadas no sistema de Educação de Jovens e Adultos (EJA) cresceu 3,4% entre 2016 e 2017. Contudo, nos cursos de alfabetização voltados especificamente para adultos, o número de matrículas, que foi de 153 mil em 2016, caiu para 118 mil no ano passado. Em 2017, além disso, 7,2% da população com idade acima de 25 anos não tinha instrução e 33,8% tinham o ensino fundamental incompleto. Na prática, isso significa que 41% da população adulta é analfabeta funcional. São pessoas que sabem escrever o nome, mas não conseguem ler e compreender manuais de instrução para a operação de máquinas e equipamentos.
Os números da Pnad demonstram, mais uma vez, que a qualidade do sistema de ensino do País continua insatisfatória, a maior parte dos estudantes permanece defasada, o tempo médio de estudo é menor que nas economias com maior presença no comércio internacional e as taxas de evasão permanecem altas. Esse cenário sombrio decorre, basicamente, do modo inepto como o sistema educacional foi gerido pelos quatro governos petistas. Em vez de concentrarem a atenção em objetivos básicos, como o ensino de Português, Matemática e Ciências, eles adotaram políticas marcadas por prioridades erradas e orientadas por modismos pedagógicos e pelo discurso da democratização do ensino, descuidando da formação básica das novas gerações e do fortalecimento do ensino médio, o que resultou nas dificuldades que o País enfrenta para adotar novas tecnologias e modernizar a economia.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Carreira e estudo caminham juntos

Especialistas ressaltam peso da educação continuada num mercado em transformação


Caminhos e carreiras
Murilo Cavelliccu, diretor de Gente e Gestao da Catho (E) e  Ricardo Basaglia, diretor executivo da Michael Page, com a jornalista Renata Cafardo Foto: Ernesto Rodrigues/Estadão


Tulio Kruse, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo
18 Maio 2018 | 05h00
Reformar-se constantemente para se adequar a um mercado em transformação. A ideia de que a tecnologia vai revolucionar as bases da produção, de forma acelerada e imprevisível, tem feito organizações e escolas repensarem a preparação dos profissionais. A resposta de especialistas em carreiras e das universidades para a questão tem sido clara: reforçar a importância da educação continuada.
Em parte, a preocupação com a garantia do emprego é resultado dos avanços em áreas como automação e inteligência artificial. No Brasil, por exemplo, cerca de 15,7 milhões de trabalhadores podem ser afetados pela automação, segundo pesquisa da consultoria McKinsey. São profissionais que terão parte de suas funções afetadas, mudarão para outras áreas dentro de suas empresas, e podem até migrar para novas profissões. Para 70% da força de trabalho, segundo a consultoria, cerca de um terço das suas funções serão automatizadas.
O impacto dessa transformação nas taxas de desemprego vai depender de fatores como crescimento econômico, média salarial, envelhecimento da população e investimento em capacitação profissional. Em cada país, a adaptação ao novo cenário deve ocorrer de forma diferente.
“Os ocupantes desses empregos passarão por um período crítico e penoso em suas vidas, mas poderão atenuar esse infortúnio se estiverem preparados para exercer novas funções – e isso é conseguido com a chamada educação continuada, na qual o profissional está sempre se reciclando”, disse o vice-reitor de Planejamento, Administração e Finanças da Universidade Paulista (Unip), Fábio Romeu de Carvalho, na abertura do Fórum Estadão Caminhos e Carreiras. “O ser humano jamais deixará de ter o seu valor.”
O aprendizado para a carreira pode vir tanto através das aulas quanto pela experiência: no próprio trabalho, em estágios e em projetos de extensão acadêmica proporcionados pelas instituições de ensino. Uma vez no mercado, muitas vezes com pouco tempo para se dedicar a novos estudos, o profissional deve estar atento à evolução que a atividade no emprego proporciona, aconselham especialistas.
“Enquanto você está saltando de uma curva de aprendizado para outra, esse ciclo continua virtuoso”, diz o diretor de Gente e Gestão do site de empregos Catho, Murilo Cavellucci. “Se você estacionar no seu aprendizado, possivelmente é hora de buscar um novo desafio. É mais um olhar para dentro do que para fora.”
Automação. Para especialistas em carreira, muito da ansiedade relacionada à discussão sobre uma suposta extinção de empregos por causa da automação tem contornos de exagero. As profissões não desaparecem subitamente, eles dizem, e a atenção do estudante deve ficar mais focada na transformação do modelo da carreira do que no fim do emprego.
Além disso, um caminho seguro é apostar naquilo que programas e máquinas não dominam: emoção, empatia e ética. “Não é a inteligência artificial que acaba com a maior parte dos empregos, e sim a inteligência emocional que acaba com a maior parte dos empregos e das carreiras”, conta o diretor executivo da consultoria em recrutamento Michael Page, Ricardo Basaglia.
A última pesquisa da empresa aponta que 91% dos profissionais são contratados por questões técnicas e depois demitidos por questões comportamentais, segundo o diretor. “O foco em se desenvolver emocionalmente é o que faz a maior parte dos executivos avançarem.”
Empreender. Para quem pensa que o empreendedorismo é mais baseado na intuição para negócios do que na educação constante, o fundador do site Getninjas, Eduardo L’Hotellier, rebate o que chama “mito do Vale do Silício” – a impressão de que exemplos como Steve Jobs, que largou a faculdade na Califórnia para fundar a Apple, se aplicam a qualquer caso.
“Ele passou na faculdade, estava fazendo o curso e conseguiu, com as conexões ali e o aprendizado que ele teve, empreender”, ele ressalta. “Uma boa formação acadêmica e um bom início profissional não é 100% necessário – é possível ir sem – mas com certeza ajuda muito.”
L’Hotellier, ele mesmo um exemplo de sucesso no empreendedorismo, à frente de uma empresa com 110 funcionários, também teve de adaptar sua formação para seus objetivos: formado em Engenharia, fez pós-graduação focadas em Administração e Finanças.
TRÊS PERGUNTAS PARA....
Eduardo L’Hotellier, fundador e presidente executivo do site Getninjas
1. Empreender é para todo mundo? Como saber se é para você ou não?
Acho que empreender é para quem tem a vontade e a coragem de fazer, e sabendo que é o caminho mais difícil, porque a segurança financeira não vem com o empreendedorismo. Ter um emprego é muito mais seguro financeiramente na maioria das vezes. Para empreender, você tem de saber que pode não dar certo. Você tem de ser uma pessoa que propensa a tomar riscos que não são pequenos.
2. Como sua graduação ajudou no caminho que você escolheu?
Minha formação mais básica é de Engenharia, depois estudei Administração. Mas o que falta é um pouco de mundo real. Você aprende teorias administrativas, administração científica, administração moderna. Mas como você contrata uma pessoa? Como fazer uma entrevista para contratar, ou como demitir? Como dar feedback para um funcionário?
A faculdade pode nos ensinar boas teorias, mas falta prática.
3. Qual o maior desafio para empreender?
É construir um time ao redor de você. Ninguém empreende sozinho. Você precisa atrair bons profissionais. E é muito difícil no começo. Primeiro, você não tem dinheiro para pagar bons salários. Segundo, você não tem histórico para falar que é bom. Você tem um sonho, uma ideia maluca e tem de convencer alguém a comprar essa ideia, quando ela poderia trabalhar numa grande empresa, ganhando mais. 

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Receita de Cingapura? Professores escolhidos entre elite intelectual e salário equiparado a funções de prestígio

Receita de Cingapura? Professores escolhidos entre elite intelectual e salário equiparado a funções de prestígio


Entre os anos 1950 e 60, Cingapura era um pequeno entreposto comercial, com uma população majoritariamente analfabeta e empobrecida. Hoje, poucas décadas mais tarde, é um hub financeiro internacional que lidera o mais importante ranking mundial de educação.
Na faixa etária de 15 anos, os estudantes de Cingapura foram os que tiveram melhor desempenho em matemática, ciência e leitura na mais recente avaliação do PISA, exame internacional em que o Brasil ainda se mantém estagnado nas posições mais baixas.
Essa transformação na educação cingapuriana teve como norte uma ideia: "Ser professor não é um emprego, é uma profissão responsável por moldar as futuras gerações. Tratamos os professores como joias", explicou Goh Chor Boon, gerente-geral da Universidade Tecnológica de Nanyang, que abriga o Instituto Nacional de Educação de Cingapura.
Goh esteve no Brasil neste mês para explicar o salto educacional de seu país em um seminário promovido pelo Instituto Ayrton Senna e pelo Itaú Social.
Na prática, disse Goh, a abordagem significou elevar o status dos professores em Cingapura: eles passaram a ser escolhidos entre os 5% dos alunos com o melhor desempenho acadêmico do país e tiveram equiparação salarial inicial com outras profissões de prestígio.
"Um novo professor tem a mesma remuneração que um novo advogado ou médico no serviço público", explicou Goh durante o seminário. Há também bônus por desempenho em sala de aula, que pode ser de quatro a cinco salários. Ao avançar na carreira, o professor pode se tornar, por exemplo, pesquisador em educação ou mentor.
Em troca, é exigido que os docentes entreguem "profissionalismo, paixão e gana de moldar o futuro da nação", além de encararem a profissão como uma "missão" - a de formar alunos autônomos em seu aprendizado "que possam sobreviver em qualquer lugar do mundo".
Também cabe aos professores manter uma formação constante: segundo Goh, eles passam, obrigatoriamente, por 100 horas anuais de treinamento, para se atualizarem com as práticas de ensino mais eficientes e modernas. A "sinergia" entre o Ministério da Educação, as instituições de ensino superior e as escolas têm a missão de garantir que os docentes desenvolvam e apliquem pedagogias inovadoras e cada vez mais voltadas a "valores e à resolução de problemas da vida real".
"Os professores têm de ser alunos a vida inteira", argumentou o cingapuriano. "Quando eles param de aprender, o ensino sofre."

Rápida mudança

Para entender o sistema educacional e seu rápido processo de reforma, é preciso voltar no tempo na história de Cingapura. Antiga colônia britânica, a cidade-Estado começou a se autogovernar em 1959. Em 1963, passou a fazer parte da Malásia, mas tornou-se independente apenas dois anos depois.
Até essa época, a educação era restrita à elite. O então premiê Lee Kuan Yew, fundador do Estado de Cingapura, viu a educação universalizada como uma forma de unificar o país (pequeno, porém multiétnico - formado sobretudo por pessoas de origens chinesa, malaia e indiana) e prover mão de obra para o avanço econômico que viria em seguida.
Uma nova reforma, em 1997, procurou novamente adaptar o ensino à economia tecnológica e financeira em que o país - desprovido de recursos naturais e obrigado a importar desde comida e água até areia para a construção civil - passou a se destacar.
Foi criada, então, a política de "escolas pensantes, nação aprendiz", com um currículo baseado na ideia de que todas as crianças têm potencial a ser desenvolvido, de valorização da diversidade e de inteligência emocional e social.
É, segundo Goh, um sistema "pragmático", abordagem que o país usou para enfrentar o pós-colonialismo britânico e unificar o país.
"A nação decidiu deixar o legado colonialista, mas adotamos o (idioma) inglês, obrigatório em todas as escolas." Deixaram de existir escolas específicas para grupos étnicos, e todo o sistema passou às mãos do Estado - não há, segundo Goh, escolas privadas em Cingapura.

Pressão excessiva

Vale destacar, porém, que Cingapura tem características únicas, que tornam comparações internacionais difíceis.
A pequena ilha abriga 5,8 milhões de pessoas, menos da metade da população da cidade de São Paulo. O sistema de governo é altamente centralizado e de caráter autoritário - o mesmo partido domina a política cingapuriana desde a independência, dando pouco espaço a manifestações por parte da oposição ou da imprensa. O país não é considerado uma democracia eleitoral.
E até mesmo os pensadores do sistema educacional cingapuriano se deram conta de que o modelo exigente e meritocrático passou a exercer grande (e pouco saudável) pressão sobre os alunos para manter o alto desempenho e para entrar nas melhores escolas.
"As escolas se tornaram espaços estratificados e competitivos. Famílias com renda mais alta têm mais capacidade de oferecer às crianças atividades extras. (...) Os que não podem arcar com esses custos dependem da motivação individual das crianças e dos recursos oferecidos pela própria escola para recuperar um possível atraso", afirmou, em artigo à BBC no ano passado, Lim Lai Cheng, diretora da Universidade de Administração de Cingapura.
Feito esse diagnóstico, ela explicou que Cingapura tem tentado desestimular a obsessão por notas e vagas nas melhores escolas, passando a enfatizar "valores e princípios" e o bem-estar das crianças - a exemplo do que é feito na Finlândia, outro país que é referência na educação global.
"Também houve iniciativas pedindo que escolas e faculdades tivessem um processo de admissão mais flexível, com a avaliação de qualidades como motivação, resiliência e entusiasmo", disse Lim. "Trata-se de uma abordagem mais suave, enfatizando valores e princípios e tentando aprimorar o elo entre escola e trabalho. É a busca para a próxima fórmula da educação em Cingapura."

Prestígio e formação

Além dessa evolução no modelo de ensino, o que outros países como o Brasil podem tirar de lição de Cingapura, dizem especialistas, é justamente seu empenho em melhorar exponencialmente a formação e o prestígio dos professores.
Em relatórios recentes, a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, que aplica o exame PISA) afirmou que, assim como na pequena nação asiática, os países devem se esforçar para tornar a carreira docente mais atraente aos melhores alunos. Os professores devem ter "status, (bons) salários e autonomia profissional", diz a OCDE, uma vez que a qualidade do corpo docente é vista como condição fundamental para elevar a qualidade da educação como um todo.
Segundo Goh, a orientação dada aos interessados na carreira de docente em Cingapura é: "se você quer só um emprego, procure outro". "Porque o futuro do país depende dos professores. Então, ele precisa demonstrar paixão e o desejo de fazer o seu melhor."

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Por que as empresas não sabem como será o trabalhador do futuro?



Há alguns anos, a consultoria Deloitte construiu salas de videoconferência altamente tecnológicas em suas principais sedes ao redor do globo - inclusive São Paulo - por acreditar que o futuro seria um tempo em que praticamente não haveria reuniões presenciais.
A tecnologia usada na época continua inovadora. As salas têm telões enormes que dão aos participantes da reunião - ainda que estejam em continentes diferentes - a sensação de estarem em volta de uma mesma mesa, lado a lado.
Praticamente não há diferença entre o real e o virtual - e, ainda assim, o espaço não tem o protagonismo que se imaginou para ele. Mais que isso, as reuniões periódicas - e presenciais - entre os principais líderes da consultoria no mundo continuam acontecendo. Algumas vezes por ano, Altair Rossatto, CEO da Deloitte no Brasil, pega um avião para alguma parte do planeta para se reunir "olho no olho" com os colegas.
"Às vezes você já tem a tecnologia disponível, mas há coisas que exigem um período maior de adaptação", ele diz.
O exercício de pensar o futuro faz parte do dia a dia da maioria das empresas. Antecipar tendências é uma das estratégias das companhias para ganhar espaço no mercado ou mesmo para garantir sua sobrevivência no longo prazo. Muitas vezes, contudo, elas erram.
E hoje, diante das mudanças aceleradas da tecnologia e da chegada da "indústria 4.0" - em que as máquinas cada vez mais desempenham funções humanas -, as empresas estão perdidas quando olham para a frente, especialmente em relação aos seus funcionários.
Uma pesquisa da Deloitte feita com 1,6 mil presidentes de grandes companhias em 19 países - incluindo 102 no Brasil - e divulgada em abril mostrou que 86% dos CEOs acreditam estar fazendo "tudo o que podem" para criar uma força de trabalho para a "quarta revolução industrial". Mesmo assim, apenas um quarto do total disse estar confiante de que seu quadro de funcionários tenha a composição e as habilidades necessárias para o futuro.
Os resultados aparentemente contraditórios, na avaliação da Deloitte, são um retrato do momento atual de inflexão, uma mistura entre "esperança e ambiguidade".
"No Brasil, mais de 90% das empresas entendem que estão fazendo o necessário para o treinamento atual das competências necessárias. Porém, elas não conseguem enxergar o que têm de fazer daqui pra frente. Essa mudança é o desafio", pondera Ronaldo Fragoso, sócio da Deloitte e coordenador do estudo no país.
Se as empresas não sabem o que fazer, também não conversam sobre isso tanto quanto deveriam. O assunto "talentos e recursos humanos" ocupava o último lugar entre 12 tópicos discutidos com maior frequência, segundo a pesquisa, ressaltado por apenas 17% dos CEOs, logo atrás de "incomodar os concorrentes", com 24%.
No Brasil, o porcentual é um pouco mais alto - 31% -, mas segue entre os assuntos menos discutidos na direção das empresas, ainda de acordo com a pesquisa.

O futuro das profissões

Uma das dificuldades das empresas é prever o impacto da tecnologia sobre o emprego, o que explica em parte os resultados. Dentro de 20 anos, quais ocupações continuarão existindo e quais serão desempenhadas pelas máquinas?
Há algumas décadas, os especialistas em ciência da computação perceberam que os computadores também eram capazes de aprender. Quando expostos a um volume grande de informações sobre um mesmo assunto, eles conseguiriam identificar padrões comuns e fazer previsões em cima de dados.
A aprendizagem automática ("machine learning"), a inteligência artificial e a internet das coisas (a conexão entre o mundo físico e a internet) darão forma ao futuro do trabalho, ainda que esses contornos estejam pouco definidos.
Um exemplo prático nesse sentido é o das "legal techs", empresas de tecnologia voltadas para a área do Direito que usam supercomputadores capazes, por exemplo, de ler e interpretar contratos. Em 2016, a IBM deu um passo além e lançou o primeiro robô-advogado, batizado de Ross, contratado no mesmo ano pelo escritório da Baker&Hostetler, em Nova York.
A mesma plataforma de inteligência artificial da IBM que deu origem ao Ross, chamada Watson, vem também sendo "treinada" na área de saúde e há alguns anos tem se mostrado capaz de diagnosticar diversos tipos de câncer com a mesma precisão que os oncologistas.
Para William Maloney, economista-chefe do Banco Mundial para a área de Crescimento Equitativo, Finanças e Instituições, mudanças como essas sinalizam que o advogado e o médico continuarão existindo no futuro, mas seu trabalho será diferente.
"A mudança maior vai ser nas tarefas, não nos empregos", ele ressalta. O avanço da tecnologia tem criado uma demanda por novos serviços complementares a ela, pondera o economista, que vão mudar a cara de algumas profissões.
"As habilidades requeridas por esse novo mercado de trabalho serão cada vez mais complementares às funções desempenhadas pelas máquinas", destaca.
Isso já acontece, por exemplo, na filial brasileira de outra empresa de auditoria e consultoria, a EY, que vem usando um robô para fazer seu processo de faturamento.
Para aproximá-lo dos "colegas", ele ganhou até nome, Billy, uma prática que tem ficado mais comum nas empresas que incorporam essas máquinas à equipe, conta Oliver Kamakura, sócio de consultoria em gestão de pessoas da EY.
"Eles vão passar a ser nossos companheiros de trabalho."

Choque de gerações

A inquietação das empresas em relação ao trabalhador do futuro é também reflexo da dificuldade que elas já sentem hoje para lidar com as gerações mais jovens, acrescenta Kamakura.
"Existe uma percepção de que o perfil dos funcionários vem mudando, mas as empresas ainda têm dificuldade para ajustar seus modelos de negócio para atrair esses novos talentos", diz ele.
Um exemplo prático é o da carreira tradicional - de trainee a gerente, uma jornada que dura pelo menos 15 anos -, ainda valorizada pelas grandes empresas, mas cada vez menos atraente para os mais jovens.
"Nós fizemos uma pesquisa nas Américas e verificamos que os 'millennials' querem ter experiências diversificadas pelo menos até os 38 anos. Como as empresas vão fazer frente a essas expectativas?", questiona Kamakura.
Nesse cenário, as companhias tradicionais vêm perdendo espaço e relevância para empresas que há dez anos não existiam, e que funcionam com a lógica das empresas de tecnologia. "Elas erram mais rápido e aprendem mais rápido com os erros. Para as empresas 'tradicionais', as grandes mudanças são como dar um cavalo de pau em um transatlântico".

Um futuro com menos empregos?

Os especialistas concordam que a tecnologia substituirá as funções repetitivas e tende a eliminar os empregos de baixa qualificação, mas discordam em relação ao impacto dessa mudança sobre as taxas de desemprego ao redor do mundo.
Nas economias mais desenvolvidas, a "quarta revolução industrial" já começa a criar uma polarização no mercado de trabalho, diz Maloney, do Banco Mundial, suprimindo as funções "do meio", aquelas que não pagam os menores salários, mas também não englobam os empregos de alta qualificação. Um exemplo são as linhas de montagem nas indústrias.
Nos emergentes, como o Brasil, ele ressalva, esse redesenho ainda não é visível. São muitos os setores que ainda usam mão de obra de forma intensiva.
O problema nesses casos é que a mão-de-obra é pouco qualificada e, de forma geral, as iniciativas dos governos locais para aumentar os indicadores de educação têm sido pouco eficientes. Com um mercado de trabalho cada vez mais restrito para os menos qualificados, também há risco de aumento do desemprego. "Mas nós não sabemos em que velocidade isso pode acontecer."
Há algo ainda mais grave: as economias menos desenvolvidas parecem estar perdendo uma chance importante de se beneficiar da "quarta revolução industrial". "As empresas desses países deveriam estar adotando novas tecnologias e investindo agressivamente em pesquisa e desenvolvimento. Os governos não deveriam estar pensando em outra coisa. E não estamos vendo nenhuma das duas coisas", destaca Maloney.
Essa é a principal característica do que o economista chama de "paradoxo da inovação": o retorno dos investimentos em inovação são muito mais altos em países pobres e, no entanto, o esforço dessas nações para tirar proveito disso é muito pequeno.
"Nós não completamos nem a terceira revolução industrial", concorda Altair Rossato, da Deloitte, referindo-se à perda de competitividade e de produtividade da indústria brasileira nas últimas décadas.
Sem um esforço para consertar os problemas estruturais de suas economias e para elevar o investimento em inovação, países como o Brasil correm o risco de perder relevância na economia global.

'Imposto dos robôs'

Nos países ricos, o impacto negativo da automatização sobre o nível de emprego é algo que já preocupa especialistas e governos.
No ano passado, Bill Gates, cofundador da Microsoft, defendeu a criação de um imposto sobre a robotização do processo produtivo como forma de suavizar esses potenciais efeitos negativos.
"Hoje, a renda do operário que trabalha na fábrica é taxada. Se um robô desempenhar a mesma função, ele deveria ser taxado em um nível similar", justificou.
Os recursos arrecadados, ele disse em entrevista na época, poderiam ser usados para financiar treinamento e desenvolvimento de ocupações em que o ser humano ainda é imprescindível, mas que são pouco incentivadas - cuidadores de idosos ou trabalhar com crianças nas escolas.
Também em 2017, o Parlamento Europeu chegou a discutir uma "robot tax" para financiar algum tipo de proteção social aos trabalhadores que perdessem o emprego para as máquinas. A medida proposta por Mady Delvaux, parlamentar de Luxemburgo, entretanto, foi rejeitada em fevereiro daquele ano. O assunto, contudo, continua sendo discutido na Comissão de Assuntos Legais da UE.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Suicídios recentes de jovens levaram discussão sobre o assunto para as salas de aula

Conversa de pai - Ilan Brenman

Suicídios recentes de jovens levaram discussão sobre o assunto para as salas de aula

Ilan Brenman e Petria Chaves conversaram com a psicóloga e psicanalista Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar. Segundo ela, no momento atual, transmitimos aos jovens que eles vão 'desmoronar' se tiverem que encarar o 'não' e a falta.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Universidade e inteligência artificial, o advento dos robôs

Claudia Costin

Claudia Costin
É professora visitante de Harvard. Foi diretora de Educação do Banco Mundial e ministra da Administração.

Instituições têm o desafio de ensinar competências em que nos saímos melhor que as máquinas

Sempre houve, em países desenvolvidos, forte relação entre necessidades da sociedade e boas universidades. Desde a emergência desta, sua função principal foi a de preparar estudantes para os papéis necessários para a época, como pessoas letradas para conduzir os negócios da alma ou do Estado, na Europa Medieval, ou, mais recentemente, profissões demandadas pelo mercado de trabalho.
Da mesma forma, coube às instituições de ensino superior produzir conhecimento que permitisse avanços no enfrentamento de desafios e no estabelecimento de novas fronteiras. 
Como nos lembra Joseph Aoun em seu livro, “Robot-Proof: Higher Education in the age of Artificial Intelligence”, os seres humanos caminharam na Lua, dividiram o átomo e desenvolveram a internet a partir de pesquisas realizadas em universidades.
A cada transformação histórica no processo produtivo, como a Revolução Industrial e a criação de organizações complexas com cadeias verticais de comando, a resposta encontrada foi, por um lado, extinguir postos de trabalho, mas, por outro, criar novos e demandar mais educação de seus ocupantes. O mesmo ocorreu com o advento dos computadores.
Mas, há hoje, frente à emergência da inteligência artificial,  uma lógica diferente: a velocidade de extinção de empregos se acelerou e passou a atingir mesmo trabalhos que demandam competências cognitivas não rotineiras. 
Quando se lida com máquinas que aprendem, não basta demandar maior escolaridade  dos seres humanos nem ensiná-los a pensar; há que se ensinar a pensar diferente.
Esse é o novo desafio para a universidade, segundo Aoun. Ela deve ensinar os alunos a aprender ao longo da vida e oferecer cursos de diferentes durações e intensidades, para profissionais que mudam constantemente de postos de trabalho.
Deve também ensinar competências que são especificamente humanas, em que nos saímos melhor que robôs, como pensamento crítico ou resolução criativa e colaborativa de problemas, e promover duas características interligadas: imaginação e curiosidade.
Para isso, deve se ligar em rede a outras escolas terciárias, criando o que Aoun chama de multiversidade. Precisa ainda acompanhar os egressos em seus caminhos profissionais com atividades que complementem a formação recebida, inclusive mentorias ou cursos que não necessitam ser previamente definidos como de graduação ou pós, com certificações por blocos independentes, ligados às necessidades de recapacitação de cada um. 
Isso não vai resolver todo o problema criado pela automação, mas formará, com certeza, seres humanos mais aptos a enfrentar suas consequências.

Educação: em busca do tempo perdido

Ana Maria Diniz

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Ana Maria Diniz
A educação que vale a pena

Só uma transformação significativa do sistema educacional é capaz de mudar o curso da nossa história e colocar o Brasil no caminho do desenvolvimento; e esta é a nossa última chance


Sábado, 28 de abril, foi o Dia da Educação. Criada há 18 anos, durante o Fórum Mundial de Educação, em Dakar, a data representa o compromisso das 164 nações ali reunidas, entre elas o Brasil, em oferecer uma Educação de qualidade para suas populações. Por conta da ocasião, e a convite do Valor Econômico, escrevi um artigo sobre a urgência de priorizarmos a Educação em nosso país. O texto, que reproduzo para os leitores do blog, foi publicado sexta, dia 27, na versão impressa do jornal:
Muito se discute sobre qual reforma, dentre as tantas necessárias no Brasil, o próximo presidente irá priorizar logo após tomar posse, em janeiro de 2019. Como se sabe, os primeiros 100 dias de um governo são cruciais para se emplacar mudanças que poderão ditar os rumos do país não só durante o novo mandato, mas nas décadas seguintes.
No páreo, concorrendo ao primeiro lugar, estão a Reforma Política, pela gritante necessidade de substituir o sistema atual por um que funcione e que atraia gente boa e compromissada com os objetivos da sociedade, a Reforma da Previdência, pela urgência inequívoca do equilíbrio das contas públicas, e a Reforma Tributária, capaz de tornar o Brasil um país mais competitivo e turbinar o progresso.
Mas qual é a Reforma Mãe? A que colocará, de fato, o Brasil em outro patamar de desenvolvimento e de inserção no mundo? Para mim, é a Educacional. Se não encararmos de frente o problema da Educação, vamos parar no tempo. Nenhum país rompeu um ciclo vicioso de pobreza, corrupção e violência sem uma Educação de qualidade e digna.
Desde 1990, aumentamos a oferta de vagas, mas ainda não oferecemos um bom ensino. Nada menos que 55% das crianças até o 3º ano do Fundamental não estão aptas a ler e escrever estruturas simples. Quase metade dos estudantes tem nível de aprendizagem inadequado, mostra o PISA, e isso independe de condição social:  os alunos com maior nível socioeconômico têm desempenho pior do que os mais pobres de Macau e Vietnã.
Várias condições tornam a nossa Educação uma das mais atrasadas do mundo. O mau uso do dinheiro público é uma delas. Outra é a burocracia. Ambas sobrecarregam o setor público, aniquilam a produtividade e prejudicam a Educação, nos prendendo a um looping de retrocesso. Enfim, criamos um sistema educacional mais preocupado em manter a máquina funcionado, muitas vezes para beneficiar o próprio sistema, do que com a aprendizagem.
Eu acredito que esta é a nossa última chance de colocar o ensino em primeiro lugar. Para isso, precisamos de um plano estratégico, com etapas e passos bem definidos não só na implementação, mas na continuidade, e que contemple ao menos três mandatos. Estudos do Todos pela Educação mostram que é possível mudar a cara da nossa Educação em doze anos.
Este plano precisa de ingredientes nada misteriosos ou milagrosos: um projeto bem arquitetado para a erradicação do analfabetismo; um projeto sério de valorização do professor; uma política nacional para a Primeira Infância; um governo que coordene a ação de quem executa a Educação na ponta (estados e municípios), dê incentivos e fiscalize a implementação de diretrizes para que todos tenham acesso a um ensino qualificado.
A exemplo do Chile e da Coreia do Sul, o Brasil deveria ter a Educação no centro de suas reformas. Com os devidos esforços no setor, em 20 anos esses dois países aumentaram a produtividade e hoje trilham um caminho mais próspero. No Brasil, todo o lavor das últimas três décadas em torno da Educação parece ter sido inócuo. Nossa produtividade permanece estagnada em sua “soneca de 50 anos”, como colocou a revista The Economist.
Para que mudar o curso da nossa história, não basta a crença de que sem Educação não há progresso. Nem é suficiente o comprometimento dos políticos que virão a assumir o país em elevar a qualidade do ensino. É preciso coragem para encarar nossas fraquezas, detectar onde erramos e, a partir daí, iniciarmos uma transformação profunda e significativa do sistema educacional, uma mudança alinhada com o projeto de país que pretendemos ser.