segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Meu professor preferido da escola tinha partido e surtava diariamente

gregorio duvivier
Gregorio Duvivier
É ator e escritor. Também é um dos criadores do portal de humor Porta dos Fundos. Escreve às segundas.

Na minha escola a gente podia escolher entre o literário e o científico. Quem escolhesse o primeiro, teria oito horas de filosofia por semana. Todas elas com o mesmo professor. Um sujeito que podia ser tudo menos simpático.

Levy Midon tinha uma barriga dura e um bigode ruivo de gaulês, como Abracurcix –mas sem o carisma. Não sorriu. Não perguntou nossos nomes. Na primeira vez que entrou na sala, tivemos a certeza de que nossa vida seria um inferno.

Um aluno falou, blasé, que aquela aula seria tempo perdido porque "filosofia não servia pra nada".

Antes que o estudante terminasse, o sangue subiu à cabeça já vermelha do professor: "Nada serve pra porra nenhuma, seu imbecil!", ele berrava, batendo os punhos na mesa.

"Você vai morrer! Não importa o que você faça! Sabe o que não serve pra nada? Você. Eu também não sirvo pra nada. Mas você serve pra menos ainda, porque você acha que serve pra alguma coisa." E ele foi se acalmando, aos poucos, enquanto deixava claro para quão pouco servia a vida.

Sem que percebêssemos, a aula tinha começado. Quando descobrimos que ele podia surtar a qualquer momento, assistíamos à aula vibrantes e estarrecidos, como quem brinca com um tigre.

Uma vez, falei que os franceses eram fascistas porque tratavam mal as crianças. Midon virou um camarão graúdo: "No seu país, meio milhão de crianças mora na rua! E você está cagando pra elas! Fascista é você que só se importa com criança branca e rica".

"Iaaaaau", todos berravam, fazendo a famosa onomatopeia de humilhação moral, hoje talvez substituída por "chupa!".

Sempre que consultado, o professor versava sobre qualquer assunto: futebol, cinema, dicas de masturbação, a vida íntima dos outros professores, sua própria vida íntima, a morte da esposa num acidente de carro. Tudo estava em pauta.

A não ser o assunto da semana. Hegeliano, sobre atualidades não falava de jeito nenhum. "A coruja de Minerva só levanta voo no crepúsculo", dizia, e se calava.
Ficamos amigos dele. Quando se apaixonou, levou a namorada pra sala pra que a gente a conhecesse.

Quando me formei, não sabia o que cursar. Tinha medo de, escolhendo a literatura, ser pobre pra sempre.

Perguntei a ele o que achava. "Você já escolheu", ele disse, "quando escolheu um professor pobre pra escolher. Você não perguntou a um banqueiro. Essa é a tragédia da vida, meu amigo. Você não consegue não escolher."

Nunca mais nos encontramos.

Quarta-feira visitei a escola. Perguntei por ele. Morreu no início do ano, disseram-me. Do coração. 

Cálculo me amedrontava, afirma jovem que desistiu do curso de física


"Cálculo 1 me amedrontava. Quando o professor passava lista, eu ficava chorando por dentro. Quando se desenvolvia questão na sala, ficava me perguntando o que eu estava fazendo ali. Os olhos, sempre esbugalhados, deixavam claro que eu não fazia ideia do que estava vendo."

O depoimento, compartilhado por cerca de 500 pessoas nas redes sociais, foi escrito por Caio Augusto Meneses dos Santos, 20, ex-aluno do curso de física da Universidade Federal de Sergipe.

É uma paródia de texto do colunista da Folha Gregorio Duvivier sobre seu relacionamento com a atriz e cantora Clarice Falcão.

"Foi amor à primeira vista", escreveu Duvivier. "Foi decepção à primeira vista", registrou Caio Augusto. O desapontamento ocorreu logo no início, relata. "Estudei em escola pública e achava que era bom em matemática, mas, no ensino superior, é diferente", diz. Hoje, ele pretende cursar publicidade.


Casos como o de Caio Augusto são mais comuns nas universidades privadas, mas não são difíceis de encontrar também nas públicas. Nessas instituições, aevasão é de 17% no primeiro ano dos cursos de ciências, matemática e computação e de 12% no caso de engenharia, produção e construção.
As deficiências do ensino básico desestimulam até mesmo os alunos que conseguem passar pelos concorridos vestibulares desses cursos.

"Como aluno de escolas públicas a vida toda, eu tinha muita dificuldade", afirma Vinicius Peixoto, 23, que desistiu da graduação em engenharia na UFTM (Universidade Federal do Triângulo Mineiro) após três anos.

 Era frustrante ficar seis horas estudando para tirar zero em uma prova."

ProvasPara medir o desempenho dos alunos do ensino médio, o MEC realiza o Saeb a cada dois anos. São aplicadas provas de português e matemática aos estudantes do 5º e 9º do ensino fundamental e 3º do médio

Índice
As notas, combinadas com a taxa de aprovação escolar, são usadas para calcular o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), um indicador da qualidade das redes de ensino e escolas

Quem participa
Todas as escolas públicas brasileiras com pelo menos 20 estudantes matriculados no 5º e 9º anos do ensino fundamental. No ensino médio, a aplicação é por amostragem 

*Critério estipulado pelo movimento Todos Pela Educação, com base na escala do Saeb


Sem preparo e financiamento, 3 em 10 alunos largam cursos de exatas


Professores de engenharia conhecem o fenômeno, que se repete ano a ano em diversas faculdades do país. Em fevereiro, as aulas começam cheias. Em abril, quando saem as primeiras notas, começa a debandada. Até dezembro, 3 em 10 alunos terão deixado o curso.

Graduações de exatas lideram o ranking de evasão no primeiro ano do ensino superior particular, mostra levantamento do Semesp (Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior) feito a partir do censo da educação superior do Inep, instituto de pesquisa ligado ao Ministério da Educação.

Os dados mostram que, na área de ciências, matemática e computação, 29,1% deixam o curso em até um ano. Em segundo lugar na lista do abandono vem o grupo de cursos de engenharia, produção e construção, com 27,7%.

O cálculo considera as matrículas em graduações presenciais de alunos sem financiamento estudantil. Entre os que têm Fies, os índices são de 10% para ciências, matemática e computação e de 8,4% para engenharia, produção e construção.


Para Rodrigo Capelato, diretor-executivo do Semesp, a explicação para a diferença é que o aluno com financiamento já assumiu um compromisso financeiro e, ao fazer isso, pensou melhor antes de escolher o curso.

Sem Fies
25,90
7,4
Com Fies
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Sem Fies



Para ele, a área de exatas tem duas particularidades que favorecem a evasão: a alta empregabilidade da área de tecnologia da informação, que faz alunos deixarem o curso no início ao começarem a trabalhar; e, principalmente, a deficiência na formação básica de matemática.

As notas dos alunos do ensino médio na disciplina pioram desde 2011, ao contrário do que ocorre em língua portuguesa, mostram os resultados da Prova Brasil, avaliação oficial da educação básica.

"Alguns estudantes chegam com dificuldade em trabalhar com equações e trigonometria, mas outros têm dúvidas sobre as quatro operações matemáticas", diz Gisleine Coelho, coordenadora do curso de engenharia da Anhembi Morumbi.

A dificuldade de acompanhar matérias iniciais fez Juliana Valverde, de Salvador, desistir de engenharia de produção após um semestre. "Sempre estudei em colégio público, e a base não foi o suficiente", diz. "Resolvi não insistir." Hoje, ela faz curso técnico na área de alimentos.

Agricultura e veterinária
29
Ciências, mat. e comput.
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Engenh., prod. e serviços
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Serviços
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Saúde e bem estar social
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Humanidades e artes
25
Sociais, negóc. e direito
25
Educação
22
Agricultura e veterinária



CONTRA-ATAQUE

Para impedir que alunos como Juliana desistam de cursos de exatas, faculdades particulares passaram a modificar o currículo e dar aulas de reforço em noções básicas de matemática e física. O foco é o início dos cursos. 

"Se ajudarmos a passar pelos três primeiros semestres, a chance de evadir é bem menor", afirma Mario Ghio, diretor acadêmico da Kroton.

Na instituição, a maior particular do país, 32% dos alunos de engenharia abandonam o curso no primeiro semestre. A média das outras graduações é de 25%. Para reduzir o índice, são oferecidos programas de reforço e de acompanhamento individual.

Na Anhembi Morumbi e na Estácio de Sá, além do reforço, foi introduzida uma mudança no currículo. Na primeira, foi criada a disciplina de fundamentos de ciências exatas, com conteúdo básico. Já a Estácio de Sá inseriu uma matéria sobre bases da física.

"Antes, partíamos do pressuposto, errado, de que o aluno de engenharia sabia a física do currículo do ensino médio", diz o reitor, Ronaldo Mota. "Mas, quando víamos as notas da disciplina de física 1, era um desastre. A reprovação chegava a 70%." Segundo ele, a evasão nas engenharias ao longo do curso, que já foi de 50%, hoje está em 30%.
Nota adequada*
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2005
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2007
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2009
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2013
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Nota adequada*
ProvasPara medir o desempenho dos alunos do ensino médio, o MEC realiza o Saeb a cada dois anos. São aplicadas provas de português e matemática aos estudantes do 5º e 9º do ensino fundamental e 3º do médio

Índice
As notas, combinadas com a taxa de aprovação escolar, são usadas para calcular o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), um indicador da qualidade das redes de ensino e escolas

Quem participa
Todas as escolas públicas brasileiras com pelo menos 20 estudantes matriculados no 5º e 9º anos do ensino fundamental. No ensino médio, a aplicação é por amostragem

*Critério estipulado pelo movimento Todos Pela Educação, com base na escala do Saeb


sábado, 1 de outubro de 2016

Atualidades

"Morrer de tanto trabalhar" gera debate e onda de indenizações no Japão
Zaria Gorvett
Da BBC Capital 01/10/201613h19
 
Os japoneses levam jeito para inventar palavras, principalmente as que se referem ao universo corporativo. Arigata-meiwaku, por exemplo, significa um favor que alguém fez sem ser solicitado e que você tem que agradecer mesmo assim; ou majime, um colega honesto e confiável que cumpre as tarefas sem fazer drama.
 
Mas existe um termo japonês que muitos de nós simplesmente não conseguimos entender: karoshi, ou simplesmente "morrer de tanto trabalhar".
 
Relatos de profissionais japoneses morrendo depois de jornadas de trabalho exaustivas estão nos noticiários há décadas. E os números indicam que não se trata de uma lenda urbana.
 
Esse fenômeno social foi inicialmente identificado em 1987, quando o Ministério da Saúde japonês começou a registrar os dados depois da morte repentina de uma série de executivos em altos cargos.
 
O problema é tão generalizado que se uma morte for considerada karoshi, a família da vítima recebe uma compensação do governo da ordem de US$ 20 mil por ano, além de uma indenização da empresa, que pode chegar a US$ 1,6 milhões.
 
Para isso, a vítima precisa ter trabalhado mais de 100 horas extras no mês anterior à sua morte - ou 80 horas extras por dois meses consecutivos ou mais nos seis meses anteriores.
 
Quando a lei foi implantada, as autoridades notavam cerca de 200 casos por ano. Mas em 2015, os pedidos de indenização chegaram ao número recorde de 2.310, segundo relatório do Ministério do Trabalho do Japão.
 
E isso pode ser apenas a ponta do iceberg: de acordo com o Conselho Nacional de Defesa para Vítimas de Karoshi, os números reais podem chegar a 10 mil por ano - aproximadamente a mesma quantidade de pessoas mortas no trânsito anualmente no país.
 
Propósito e motivação
Eis um caso típico de karoshi: Kenji Hamada era funcionário de uma empresa de segurança em Tóquio. Tinha uma jovem esposa dedicada e um histórico profissional excelente. Para ele, era normal trabalhar 15 horas por dia e encarar 4 horas diárias no transporte público.
 
Até que alguém o viu debruçado sobre sua mesa no escritório. Foi vítima de um ataque cardíaco aos 42 anos de idade.
 
Hamada morreu em 2009, mas o karoshi fez sua primeira vítima 40 anos antes, quando um homem saudável, de 29 anos, sofreu um derrame depois de fazer turnos consecutivos no departamento de distribuição do maior jornal do Japão.
 
"Depois da derrota da Segunda Guerra Mundial, os japoneses passaram a ser os profissionais com a jornada de trabalho mais longa do mundo", explica Cary Cooper, especialista em estresse da Universidade de Lancaster, na Grã-Bretanha.
 
No Japão pós-guerra, o trabalho devolveu aos homens um propósito. Havia estímulos financeiros e motivação psicológica. As empresas aderiram a essa nova ordem e começaram a custear clubes de funcionários e outros benefícios como transporte, moradia, atenção de saúde e creches. E, logo, o mundo do trabalho passou a ser o centro da vida do adulto japonês.
 
Décadas depois, em meados dos anos 80, a coisa começou a desandar. Problemas na economia alimentaram uma escalada rápida e insustentável nos preços de ações e imóveis. O crescimento galopante, conhecido como "economia da bolha", levou os assalariados japoneses a seu limite.
 
No auge dessa fase, quase 7 milhões de pessoas (cerca de 5% da população do país na época) trabalhavam 60 horas por semana. Enquanto isso, os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a Alemanha ainda navegavam na tranquila jornada de 9h às 17h.
 
Segundo uma pesquisa conduzida em 1989, 45,8% dos chefes de seção e 66,1% dos chefes de departamento em grandes empresas japonesas acreditavam que iriam morrer de tanto trabalhar.
 
Quando a economia da bolha entrou em colapso, no início dos anos 90, a cultura do excesso de trabalho só piorou. No período conhecido como "década perdida", okaroshi atingiu proporções epidêmicas. O número de mortes de gerentes e outros executivos atingiu o auge e nunca mais baixou.
 
De quem é a culpa?
A morte de homens de meia-idade com alguma doença crônica é uma coisa. A morte de homens jovens, saudáveis e no melhor ponto de suas carreiras é muito mais alarmante.
 
Entre os milhares de casos registrados no Japão, surgem dois possíveis culpados: o estresse e a falta de sono. Mas será que isso pode mesmo matar uma pessoa?
 
É verdade que a ideia de sair para trabalhar após uma noite de insônia é horrível. No entanto, quase não há indícios científicos de que a falta de sono possa matar. O que há são provas de que dormir pouco pode aumentar o risco de doença cardíaca, distúrbios do sistema imunológico, diabetes e algumas formas de câncer.
 
E, contrariamente às expectativas, não há evidências de que o estresse, por si só, provoque um ataque cardíaco. Mas ele pode levar a hábitos nada bons para a saúde, como fumar, beber, ter uma alimentação ruim ou não fazer exercícios.
 
Portanto, o karoshi pode não ser causado pelo estresse ou pela falta de sono. Mas, curiosamente, pode estar ligado à quantidade de tempo passado no trabalho.
 
Ao analisar os hábitos e a saúde de mais de 600 mil pessoas, cientistas da University College London descobriram que aquelas que trabalhavam 55 horas por dia tinham 30% mais chances de sofrer um derrame do que aquelas que faziam jornadas semanais de 40 horas.
 
Não se sabe exatamente por quê, mas os especialistas acreditam que isso seja o resultado de se passar muitas horas sentado à mesa do escritório.
 
Fenômeno mundial
Os japoneses já não trabalham tanto quanto antes. Em 2015, um típico assalariado japonês passava menos horas no escritório do que seus colegas nos Estados Unidos. O campeão mundial de excesso de trabalho atualmente é o México, segundo um estudo da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).
 
Como era de se esperar, relatos de karoshi fora do Japão estão aumentando. A China perde cerca de 600 mil pessoas para o guolaosi (versão local do karoshi) a cada ano - ou 1,6 mil por dia.
 
"Índia, Coreia do Sul, Taiwan e China - a próxima geração de economias emergentes está seguindo os movimentos do Japão pós-guerra", afirma Richard Wokutch, professor de administração na escola Virginia Tech, nos Estados Unidos.
 
No coração financeiro de Londres, alguns casos também chamaram a atenção. Em 2013, o estagiário Moritz Erhardt, do Bank of America Merrill Lynch, morreu no banho após passar 72 horas trabalhando sem parar.
 
O jovem de 21 anos teve um ataque de epilepsia que pode ter sido deflagrado pelo excesso de trabalho. Após a tragédia, o banco limitou a jornada dos estagiários a 17 horas por dia.
 

Será culpa então de uma cultura de "estar presente"? Cooper acredita que sim. Em muitos países, parte do problema não é só a cultura de trabalhar duro, mas de ser visto fazendo isso. "Dá-se muita importância ao tempo que a pessoa passa no escritório, mas trata-se de uma atitude contraproducente", afirma.

Brasileiro tem uma imaturidade de esperar muito dos outros e pouco de si próprio

Dimenstein trabalha na CBN há 20 anos e fala sobre como as pessoas podem despertar a vontade de transformar ferramentas que podem ajudar a cidade. Ele diz que a realidade é feita de euforias, alegrias e tristezas, e histórias devem ser contadas.

'Os jovens de hoje estão ainda mais exigentes do que há 25 anos'

O comentarista da CBN Marcelo Tas participou do programa especial de aniversário da rádio que toca notícia. Petria Chaves e Fabíola Cidral apresentaram o Caminhos Alternativos ao vivo e com plateia.
Fabíola Cidral e Pétria Chaves recebem Marcelo Tas no Caminhos Alternativos especial (Crédito: Giovanna Fraga)
Fabíola Cidral e Pétria Chaves recebem Marcelo Tas no Caminhos Alternativos especial
Crédito: Giovanna Fraga

http://download.sgr.globo.com/sgr-mp3/cbn/2016/colunas/caminhos_161001.mp3

Além de contar sobre sua trajetória, Marcelo Tas disse ainda que o rádio é o veículo que sempre o fascinou por conversar com o ouvinte. Durante o programa, um dos temas mais discutidos foi a atuação dos adolescentes na sociedade: 'é preciso olhar para os problemas do Brasil e entender que não há saída mágica'.

Por que não apostar na meritocracia?

Fernando Schüler (Foto: divulgação)

Sem a pressão da concorrência e dos consumidores, o governo precisa ser obsessivo com a gestão, para que os direitos dos mais pobres, inscritos na Constituição, possam virar realidade

01/10/2016 - 10h00 - Atualizado 01/10/2016 10h00

No setor privado, a concorrência trata de eliminar a ineficiência. Se o Uber começar a cobrar caro e usar carros velhos, a turma troca de aplicativo. Se a loja da esquina atender mal, o consumidor caminha mais uma quadra. Não precisa de lei para avaliar a produtividade dos funcionários. O mercado mesmo avalia. O dono ou o conselho da empresa sabe dos números e entra em campo rapidinho se os resultados não aparecerem.
E no setor público? Qual é a alternativa de “consumo” de um cidadão que entra na fila do seguro-desemprego? Ou do estudante da rede pública de uma cidade que tira um vergonhoso 3,8 no Ideb, como fez a minha Porto Alegre? Quem é o conselho que vai cobrar quando um projeto não dá certo, mas custa muitos zeros depois da vírgula? Quando prorrogam por 50 anos os incentivos da Zona Franca de Manaus sem muita visão de custo-benefício? E o que fazer quando um funcionário não tem vocação ou competência para fazer seu trabalho? Ele é assíduo e não tem uma infração sequer na ficha. Só não é produtivo. O que o dono do serviço público acharia disso?
É aí que mora o problema. No mundo das coisas públicas, o dono é o cidadão, e ele está muito longe de seus representantes. Os políticos prestam contas na eleição, mas são mestres em justificar qualquer coisa. O eleitor, por outro lado, tem pouca informação. Ele sabe que seu voto decide muito pouco e não vai gastar seu tempo analisando o impacto de políticas públicas. Os governos, por seu turno, não facilitam as coisas: são mestres em informar tudo, menos o essencial. Alguém sabe aí dizer quanto custa um aluno na rede pública? Ou o atendimento de um paciente na rede de saúde? Ou ainda se o serviço de água e esgoto seria melhor e mais barato se fosse privatizado? Alguém sabe, efetivamente, de alguma coisa?
É exatamente por não poder contar com a “disciplina do lucro” nem com o “olho do dono” que o setor público precisa redobrar seu cuidado com a gestão. Pensar o tempo inteiro em avaliação de programas, desempenho dos servidores e premiação de mérito.
Quando nossos constituintes escreveram a Carta de 1988, esqueceram de colocar o conceito de “eficiência” entre os princípios da administração pública. Eles lembraram da “legalidade”, da “impessoalidade”, da “moralidade” e da “publicidade”, mas não da eficiência. Eram os anos 1980, o Brasil saía do ciclo autoritário, as corporações do setor público eram organizadas e quase ninguém parecia representar o interesse difuso dos contribuintes.
Esse problema foi em parte corrigido em 1998, quando o Congresso aprovou a Emenda Constitucional 19, fruto da reforma do Estado. Não apenas o conceito de eficiência foi introduzido como caiu por terra a esquisita ideia da “estabilidade no emprego” dos funcionários públicos. A Constituição passou a admitir que o servidor poderia ser demitido por falta de desempenho e mandou que a matéria fosse regulamentada em lei. Era preciso definir o que é “desempenho” e como avaliar cada servidor.

Imagem de Brasília. O projeto da reforma do Estado está parado desde 2007. (Foto: Getty Images)
LENTIDÃO Imagem da Esplanada dos Ministérios, em Brasília. O projeto da reforma do Estado está parado desde 2007 (Foto: Getty Images)

O governo enviou um projeto de regulamentação. Ele foi aprovado na Câmara, no Senado, voltou à Câmara e ficou parado por lá. É o Projeto de Lei 248/98. Está desde 2007 esperando para ser votado. Confesso não saber por que engavetaram o projeto. Pressão corporativa? Falta de convicção? Procrastinação tropical? Não sei explicar, apenas acho que a pauta precisa ser retomada.
Esse foi o objetivo do estudo que lançamos com os colegas do Insper Sérgio Lazzarini e Sandro Cabral, sugerindo que se possa ir além: uma legislação mais ampla de responsabilidade gerencial. A intuição parte dos ganhos obtidos com a lei de responsabilidade fiscal. Assim como há freios e penalizações relativos às metas fiscais, deve haver para metas gerenciais. Por exemplo: a restrição a novas contratações e concursos sem que o governo implemente mecanismos efetivos de avaliação de desempenho.
É de esperar que um tema como este produzirá todo tipo de reação corporativa. Não faltará quem diga que a estabilidade é um direito “adquirido”. Imagino que desde a vinda da família real, em 1808. Tempos atrás li um artigo dizendo que se tratava de um direito “sagrado”. Quem sabe aí remontamos à primeira missa, relatada na carta de Caminha. Prefiro fugir dessas alturas e considerar o que de fato parece importar: estabilidade não é um direito constitucional. A Constituição diz o contrário: manutenção do emprego público depende do desempenho, medido periodicamente, até a aposentadoria do servidor.
Haverá quem diga que tudo significa cair na “falácia da meritocracia”. Dia desses ouvi um sujeito dizendo isso em um debate. Seu argumento era de que vivemos em uma sociedade desigual e que falar em mérito é “tratar de modo igual aos desiguais”. Bobagem. A sociedade como um todo não é meritocrática, mas ambientes controlados podem ser. É o caso do setor público, a partir de regras bem definidas e amplo direito ao contraditório.
O mais importante é lembrar que a modernização do Estado interessa prioritariamente aos mais pobres. São eles os maiores usuários de serviços públicos. As corporações têm sido hábeis em confundir seus interesses com os de toda a sociedade. Nossa democracia precisa aprender a separar o joio do trigo. Saber o que é interesse público, de toda a sociedade, e o que não passa de reivindicação corporativa. E nossa liderança pública precisa aprender a não ter medo de cara feia.
Pessoas de menor renda têm direito a um atendimento tão bom nos postos de saúde quanto tem a classe média alta em um laboratório bacana aqui no Itaim, zona chique de São Paulo. Esse era o sonho da Constituição, até hoje frustrado. E deve ser a obsessão de uma sociedade de direitos que se leva a sério.