Em estudo, o pesquisador Soumitra Dutta, da universidade de Corneel (EUA), concluiu que só os que tiveram maior acesso a educação e os mais ricos estão conseguindo tirar proveito completo do que a tecnologia oferece
Por Gustavo Brigatto
O uso de
tecnologia é
comumente
citado
como um
fator
nivelador
entre países
e classes sociais, ao facilitar o acesso a informações e, assim, promover o desenvolvimento de novos negócios. Mas o que
está acontecendo no mundo, na prática, não é isso. Segundo Soumitra Dutta, pesquisador da universidade americana Cornell, só os que tiveram maior acesso à educação e os
mais ricos estão conseguindo tirar proveito completo do que a tecnologia oferece.
"Só porque as pessoas têm acesso a
celulares, não significa que elas têm conhecimento suficiente para usar os aplicativos, ou o acesso em banda larga para
tirar proveito de todos os recursos que eles oferecem, disse Dutta, durante palestra no WCIT, congresso de tecnologia que
acontece até quarta feira em Brasília.
De acordo com ele, o fato de a tecnologia evoluir muito rápido faz com que haja uma lacuna entre os investimentos feitos
por países mais ricos e os mais pobres.
Na avaliação do pesquisador, a facilidade de fazer negócios em escala global
também é um fator que cria desigualdade, já que as companhias com mais recursos conseguem ser mais competitivas que
os concorrentes locais, o que lhes dá vantagens.
"Se você não tem boa educação, não tem boa infraestrutura, mesmo que eu
te dê tecnologia, você não vai conseguir tirar o proveito total disso", disse.
Na avaliação de Dutta, só sete países têm tirado proveito do impacto econômico trazido pelo uso da tecnologia: Finlândia,
Suíça, Suécia, Israel, Cingapura, Holanda e Estados Unidos. O avanço econômico proporcionado pelo uso da tecnologia
só é possível, segundo o pesquisador, quando há uma visão clara da importância estratégica desse assunto para o país.
Ele comparou o processo ao que o executivo chefe da GE está tentando fazer com a companhia, ao encaixar o gigante
industrial em um mercado em que a geração e a análise de dados vale tanto quanto a venda de um produto físico. "Isso
exige tempo e dedicação. Veja o caso de Cingapura, eles estão fazendo isso há mais de 20 anos. E são pequenos.
O Brasil
só vem tentando fazer isso há cinco anos. A consistência também é muito importante", disse.
Para Dutta, o Brasil tem uma mentalidade muito mais industrial do que digital, o que é um problema. O país, segundo
ele, deveria aproveitar sua vocação no setor agrícola para desenvolver tecnologias avançadas nessa área, com uso de
análise de dados e dispositivos conectados (IOT). "Como Israel, que desenvolveu uma indústria de alta tecnologia", disse.
Durante o congresso, a Agência de Desenvolvimento do Distrito Federal, a Terracap, anunciou a criação do Bio TIC, um
parque tecnológico que será instalado em Brasília com capacidade para abrigar 1,2 mil empresas. A expectativa é gerar até
25 mil empregos diretos em áreas como biotecnologia, nanotecnologia, saúde, cosméticos, entre outros segmentos,
segundo Julio César Reis, presidente da Terracap.
A construção do parque será financiada por meio de um fundo de investimento em participações (FIP) criado
especificamente para esse fim. De acordo com Reis, o FIP terá R$ 3 bilhões em recursos. Deste total, R$ 1,4 bilhão será
aportado pela própria Terracap na forma de um terreno de 90 hectares.
terça-feira, 4 de outubro de 2016
Educação “A escola que temos não faz sentido”, diz a presidente do Inep

No comando do Enem, Maria Inês Fini indica o que é importante no ranking e defende um novo modelo de ensino médio
Por Monica Weinberg
Há cinco meses como presidente do Inep, o instituto dedicado às avaliações do ensino ligado ao Ministério da Educação (MEC), Maria Inês Fini comanda a gigantesca engrenagem do Enem, exame que ela mesma criou, em 2008, no governo Fernando Henrique Cardoso. Tinha então o propósito de aferir o desempenho dos estudantes do ensino médio. Agora passaporte de entrada para as grandes universidades do país, o Enem atraiu 8 milhões de estudantes na última edição. A VEJA, Maria Inês concedeu uma entrevista em que não poupou adjetivos – negativos – ao analisar os resultados divulgados nesta terça-feira.
Quase 40% das escolas avaliadas no Enem receberam nota vermelha. Onde está o erro? No próprio modelo de ensino médio. Esse resultado mostra que a escola que temos no Brasil não serve aos jovens. E não adianta fazer remendo. Uma reforma é urgente.
Isso vale para escolas públicas e particulares? Sem dúvida. Mesmo as particulares estão muito distantes do ideal. O ensino médio brasileiro é maçante e ineficiente.
Ainda assim, os colégios privados vão bem melhor do que os públicos. Isso a preocupa? Muito. O aluno da escola particular pode receber em casa os estímulos que o professor não dá, mas o da pública, não. Ele depende do que é ensinado na sala de aula. O Enem mostra que esses jovens estão aprendendo pouco e se perdendo no meio do caminho.
Com base em que diz isso? A metade dos estudantes de escola pública que chega ao final do ensino médio não faz o Enem. Ou seja: uma multidão de jovens não vê a possibilidade de continuar estudando. Certamente o descompasso da escola com seus projetos contribui para isso.
O que pais que querem matricular o filho no ensino médio devem observar no ranking do Enem? A nota da escola, claro, mas não só ela. Divulgamos outros dados fundamentais. É importante olhar para aquela coluna que indica o período em que os alunos examinados permaneceram no colégio; quanto mais, melhor. Também mostramos a formação dos professores, um item crucial. Agora, para escolher mesmo, é preciso visitar escola a escola e entender a linha pedagógica de cada uma.
O que chama atenção nas escolas que aparecem no topo do ranking? Muitas são como cursinhos pré-vestibulares, inteiramente voltadas para o Enem, que reflete um modelo enciclopédico de escola. Eu pergunto: qual é o sentido dessa maratona toda?
Como presidente do Inep, qual é a sua resposta? Essa maratona não faz sentido. Precisamos de uma nova escola de ensino médio e de um Enem melhor.
Precisamos olhar para dentro das escolas e questionar o que fazemos com o futuro do Brasil
Ilona Becskeházy e Paula Louzano | Missão Aluno
Alunos que fazem o Enem são a elite da educação brasileira. Eles são os que ficaram até o fim do Ensino Médio e querem entrar no Ensino Superior. Se o que é cobrado é tão básico, e não conseguimos esse básico nem nas escolas de elite, situação é grave.
Para os pais que fizeram o esforço para colocar filhos nas escolas técnicas e nas privadas, é triste que alunos não consigam fazer bem uma redação, que é simples.
Pais devem olhar a nota de redação dos filhos e perceber que há um problema na escola. Ensinar redação é muito caro e há escolas que não estão dispostas a pagar.
Atualidades - 'Bomba-relógio' de suicídios: Como uma mescla de agrotóxicos, depressão e dívidas abala grupo de agricultores gaúchos
O Rio Grande do Sul tem 73.430 famílias (mais de 577 mil pessoas) que colhem 255 mil toneladas de tabaco anualmente
De Porto Alegre
Mas, quando Simone Rovadoski, 39 anos, saiu da casa para ajudar o marido José Dell Osbel, 44, no cultivo dos 48 mil pés de tabaco da família, encontrou-o morto.
"Não pude evitar que as crianças vissem. Foi um horror", relembra Simone sobre o suicídio do marido, em Gramado Xavier, a 156 km de Porto Alegre. "Ajuda a salvar meu pai, ajuda!", pedia o filho do casal, na época com 13 anos, para curiosos que se aproximavam.
Osbel passou a integrar as estatísticas que fazem do Rio Grande do Sul o Estado com mais casos de suicídios no Brasil: 10 a cada 100 mil habitantes.
A taxa é praticamente o dobro da brasileira (5,2 por 100 mil em 2012, segundo dados do Ministério da Saúde) e próxima da taxa mundial (11,4 por 100 mil, segundo a Organização Mundial da Saúde).
Agrotóxicos e depressão
Gramado Xavier, com pouco mais de 4 mil habitantes, fica na região central gaúcha, conhecida por ser um polo fumageiro - da indústria do fumo.
A conexão entre suicídio e plantadores de fumo é apontada em diversos estudos científicos. Um relatório da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa gaúcha apontava, em 1996, que 80% dos suicídios da cidade de Venâncio Aires, a maior produtora de tabaco do Estado, eram cometidos por agricultores. O mesmo estudo mostrava aumento nos suicídios quando o uso de agrotóxicos era intensificado.
Segundo uma pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o uso de agrotóxicos, como os organofosforados, aumenta as chances de depressão dos agricultores.
Em 2014, 20% de cem fumicultores entrevistados sofriam de depressão, segundo a UFGRS. O quadro depressivo por exposição aos venenos, somado a fatores sociais e culturais, pode evoluir para o suicídio.
A relação é contestada pelo Sindicato da Indústria do Tabaco local (Sinditabaco), que diz que "atrelar casos de suicídio ao uso de agrotóxicos na cultura do tabaco é inconsistente".
O Rio Grande do Sul tem 73.430 famílias (mais de 577 mil pessoas) que colhem 255 mil toneladas de tabaco anualmente, de acordo com a Afubra (Associação dos Fumicultores do Brasil).
A Afubra alega que as empresas fumageiras orientam os agricultores quanto à aplicação correta dos defensivos e o uso de equipamentos de proteção individual (EPIs). Segundo o Sinditabaco, "alguns produtores ainda resistem à utilização correta do EPI".
Mas "o agrotóxico, para fazer efeito, tem que ser aplicado quando tem sol, naqueles calorões infernais de novembro. O suor embaça os óculos (do equipamento), a máscara sufoca, falta ar. A luva prejudica a coordenação motora fina", conta Mateus Rossato, 35 anos, que trabalhou na lavoura da família dos 12 aos 20 anos, em Nova Palma, a 224 km da capital gaúcha.
Rossato avalia a falta de ergonomia dos equipamentos de segurança porque hoje entende sobre o corpo humano: é professor de Educação Física na Universidade Federal do Amazonas. Para ele, os equipamentos não são adequados às necessidades reais dos agricultores. E, mesmo quando são usados, não impedem que o veneno, que é carregado nas costas, escorra pelo corpo no momento da aplicação.
Doença da folha verde
Os danos à saúde relatados pelos próprios agricultores, porém, não são somente psíquicos.
Do total de entrevistados no estudo da UFRGS, 67% apresentaram os sintomas da doença da folha verde do tabaco (DFVT), causada pela intoxicação por nicotina através do contato da planta úmida com a pele. Os principais sintomas são vômito, tontura, dor de cabeça e fraqueza, de acordo com o Ministério da Saúde.
Antes de se suicidar, Osbel chegou a ser internado para tratar a depressão. Mas antes foi diagnosticado por diferentes médicos com sinais da doença da folha verde.
"Ele ia para a roça e logo tinha que procurar atendimento porque desmaiava", relembra Simone.
Ela conta que, depressivo e intoxicado, Osbel também abusava do álcool.
"Os agricultores acabam tratando seus problemas com o álcool. É mais um fator de risco", afirma o médico psiquiatra Rafael Moreno de Araújo, coordenador do Comitê de Prevenção do Suicídio da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (APRS).
O médico ressalta que o histórico familiar, influenciado tanto pela herança genética como pela cultura local, também colabora para o suicídio. Além de tudo, Osbel tinha um avô que havia se suicidado.
"É uma bomba-relógio", diz o psiquiatra ao enumerar os fatores de risco aos quais os fumicultores estão expostos: genética, baixa escolaridade, histórico familiar, estilo de vida estressante e intoxicação.
Dívidas com as fumageiras
A questão financeira é o principal gatilho para o estresse entre fumicultores. Eles precisam organizar o dinheiro que recebem apenas uma vez por ano para sustentar a família pelos 12 meses seguintes.
Além disso, a maioria deles tem dívidas com as próprias empresas que compram sua produção. Não é raro que os processos movidos pelas companhias terminem com a tomada das terras dos agricultores.
"A perda das terras é a perda da vida deles", analisa o advogado Mateus Ferrari, que atende diversos casos de agricultores endividados.
A dívida inicia quando o agricultor se compromete a entregar sua produção a uma empresa específica. A empresa fornece sementes, venenos e equipamentos de segurança e muitas vezes exige a construção de galpões. Mas tudo isso é descontado do valor a ser pago pela produção.
Quando esta é entregue, a empresa classifica as folhas através de uma amostra: quanto mais qualidade, mais será pago. Muitas vezes os agricultores recebem menos do que o planejado e ainda precisam pagar suas dívidas dos insumos.
"Eles não têm como argumentar, a maioria tem escolaridade baixa. É o tempo todo sob ameaça: 'vamos cancelar o pedido, colocar teu nome no SPC e acionar a Justiça'", relata Ferrari.
Sob ameaça de perderem suas terras e querendo receber os insumos da próxima safra, os agricultores acabam assinando sua confissão de dívida, não raro com juros sobre juros, sem estarem completamente cientes das consequências.
"A gente tenta salvar as terras, mas não há como combater os contratos. Então, tentamos um acordo para que os agricultores consigam pagar", explica Ferrari.
Depois que o marido se suicidou, Simone ficou um ano sem plantar porque, endividada, não conseguia adquirir insumos. Só retomou a lavoura porque fez novos créditos no nome "limpo" da filha, de 19 anos.
Falta de apoio
Alguns dos processos contra os agricultores são iniciados pela própria Afubra, em teoria representante deles. A entidade alega que só entra na Justiça contra os fumicultores "quando o individual se sobrepõe ao coletivo", mas não especificou os casos.
A entidade tampouco respondeu se ajuda os agricultores a entenderem seus contratos ou se atua de alguma maneira na prevenção de suicídios.
O Sinditabaco, questionado se auxilia os agricultores na prevenção do endividamento ou contabiliza o número de casos na Justiça, diz apenas que "trata dos assuntos comuns às empresas associadas e, portanto, não dispõe desse tipo de informação".
O pai de Júlio Selbach, 47 anos, do município de General Câmara, perdeu 22 hectares de suas terras na Justiça. "A causa está perdida, não conto mais com isso. Continuo lutando, mas vai ser muito difícil reverter", comenta Selbach.
Seu pai era seu fiador de uma dívida de R$ 150 mil que a família considera "inexplicável". "No final das contas tudo é legal. O orientador técnico da empresa traz um monte de folhas e manda tu assinar. Eles dizem 'não adianta nem tu ler que tu não vai entender. Se não quiser assinar o negócio termina aqui'", relata.
Por causa da dívida e da perda das terras do pai, Selbach largou a plantação de tabaco e agora produz leite. Ele conta que histórias como essa muitas vezes acabam em suicídio porque o "chefe" da família sente culpa por envolver a família em uma situação de conflito.
O psiquiatra coordenador da APRS corrobora a tese. "Nessa região o suicídio é um problema que atinge os homens, que têm essa responsabilidade de ser o provedor da família e acabam ficando com a culpa pela (má) safra, pela dívida", diz Araújo. Segundo ele, poucos desses homens procuram ajuda psicológica.
Há também, segundo ele, negligência no atendimento do sistema de saúde. "Às vezes o paciente chega (após ter tentado) suicídio, passa por uma lavagem no estômago e é liberado, sem avaliação psiquiátrica", relata.
Intoxicação infantil
O problema se torna ainda mais complexo porque a entrada de muitos agricultores na lavoura ocorre muito cedo. O marido de Simone, que se suicidou em 2013, trabalhou na lavoura de fumo por 34 anos, desde criança. Rossato, o professor de Educação Física, também trabalhou na roça quando era pequeno.
Por causa da presença constante das crianças no campo, casos de intoxicação e alergias são comuns.
O filho mais velho de Luciana Pereira da Rosa, 44 anos, de General Câmara, apresentou sinais de doença da folha verde quando tinha apenas 12 anos. "Ele ia para a roça colher fumo e vomitava direto", relembra a mãe.
O filho agora tem 28 anos e recentemente abandonou a atividade, junto com os pais. Todos se mudaram para Taquari, cidade próxima, por causa da alergia da irmã mais nova, hoje com sete anos. "A pele ficava vermelha, saía sangue e levantava uma casca. Era horrível", lembra Luciana.
Os médicos não davam um diagnóstico preciso sobre a causa, mas Luciana notava que as crises ocorriam logo depois que o glifosato era aplicado nos pés de fumo da família ou de vizinhos.
Com a mudança de cidade, a filha não ficou mais doente.
O Ministério Público do Trabalho do RS não dispõe de estatísticas sobre trabalho infantil nas lavouras. De acordo com a procuradora Erinéia Thomazini, de Santa Cruz do Sul, na região fumageira, "em muitos casos a denúncia de trabalho infantil sequer chega".
Uma pesquisa do IBGE aponta que 39.659 crianças de 10 a 13 anos trabalhavam no Rio Grande do Sul em 2010.
O Sinditabaco diz combater a prática, mas agrega que "temos ainda um caminho a percorrer para a completa erradicação do problema". A entidade aponta a necessidade de mais escolas rurais para auxiliar na prevenção.
Quem deixa a plantação de fumo diz que a sensação é de alívio. Mas notícias sobre suicídios de vizinhos e conhecidos sempre chegam.
"Lá na minha região tem uma expressão: 'só se vende corda com receita médica'. Isso porque é alta a incidência de suicídio dos agricultores. Você junta a depressão com a dívida, a frustração de perder uma safra. É o contexto perfeito para se suicidar", comenta Rossato sobre os conterrâneos.
Além disso, o silêncio dos agricultores sobre o tema agrava o quadro. " O suicídio parece que é tratado como um tabu, quase proibido ou até vergonhoso de falar. Claro que dói. Mas preciso falar porque quero que menos gente tire a própria vida, como meu marido fez", alerta Simone.
É inútil tentar moldar os filhos e entupi-los de atividades, diz psicóloga
REINALDO JOSÉ LOPES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Quem está à procura de um manual simples e prático para transformar seus filhos pequenos em crianças obedientes, estudiosas e com um futuro financeiro brilhante pela frente não deveria nem abrir o novo livro da psicóloga americana Alison Gopnik, da Universidade da Califórnia em Berkeley –a não ser que esteja disposto a mudar radicalmente de ideia a respeito do que significa "criar bem" um ser humano.
"Do ponto de vista da evolução, tentar moldar conscientemente como seus filhos ficarão quando adultos é tanto fútil quanto autoimplosivo", escreve a pesquisadora, sem meias palavras, em "The Gardener e the Carpenter" ("O Jardineiro e o Carpinteiro", ainda sem versão para o português).
O título da obra é, ao mesmo tempo, sua metáfora central. Carpinteiros, diz a pesquisadora, são os sujeitos que desbastam e serram a madeira bruta até que ela fique exatamente com o formato desejado (o de uma cadeira, por exemplo).
Jardineiros, por outro lado, podem até fazer alguns truques ornamentais com sua tesoura de jardim, mas simplesmente não têm como controlar o crescimento das plantas: o máximo que podem fazer é escolher um bom pedaço de solo, adubar e regar os brotos adequadamente.
A postura de Alison é, em parte, uma reação à mania do "parenting" (algo como "a arte de ser pai/mãe"), um termo cada vez mais usado nos EUA, em especial em livros de autoajuda sobre, é óbvio, a criação dos filhos.
Para ela, pensar segundo as diretrizes do "parenting" (as quais, aliás, podem variar brutalmente de best-seller para best-seller) equivale a transformar o ato de cuidar de crianças numa espécie de emprego não remunerado em tempo integral, enquanto ele deve ser encarado como um relacionamento, que inclui tanto amor quanto aprendizado constante.
Dito dessa maneira, parece uma visão clichê, mas a pesquisadora americana, mãe de três filhos e avó de três netos, faz questão de construí-la a partir do que estamos descobrindo sobre a evolução da natureza humana e de experimentos dos principais laboratórios de psicologia do planeta.
Ela argumenta que boa parte das delícias e dificuldades peculiares que enfrentamos ao cuidar de crianças são resultado do ciclo de vida bastante esquisito da espécie humana (quando comparado à maioria dos demais mamíferos): cooperação entre macho e fêmea para cuidar dos bebês (e também entre parentes e vizinhos, além dos pais biológicos), infância e adolescência incrivelmente longas, fêmeas que continuam vivas por décadas após a última ovulação.
GÊNIOS BRINCANDO
A infância aparentemente interminável dos filhotes humanos explica, segundo Alison, a importância do ato de brincar e de fazer bagunça. Para pais que estão ficando doidos tentando deixar a casa arrumada, as brincadeiras podem virar fonte de irritação e cansaço, mas elas são as principais ferramentas usadas pelos pequenos para investigar como funcionam os mundos físico e social, além de comprovadamente melhorar a criatividade e o aprendizado. A psicóloga, portanto, é inimiga declarada da tendência moderna de entupir as crianças com atividades de todo tipo, do balé à aula de informática. Tempo para brincar sem script definido é essencial, segundo ela.
Aliás, quando o assunto é aprendizado, Alison afirma que é preciso desconfiar do excesso de atividades formais e curriculares não apenas porque elas cansam e fazem atrofiar a criatividade, mas também porque as crianças pequenas possuem capacidades aguçadas de decifrar o mundo à sua volta que independem da sala de aula.
"As crianças aprendem mais, na verdade, a partir dos detalhes inconscientes do que seus cuidadores fazem do que com qualquer manipulação consciente ligada ao 'parenting'", escreve. Isso vale tanto para regras morais e sociais –com crianças, a máxima "faça o que eu digo, não faça o que eu faço" quase nunca funciona– quanto para o raciocínio.
A falta de conselhos mais claros e específicos no livro pode parecer frustrante para quem está arrancando os cabelos com a cria complicada ("Meu Deus, como eu faço para ele parar de assistir cenas de videogame no YouTube?"), mas pelo menos é mais realista do que 99% da baboseira que lemos por aí. Não tem atalho.
Não tem milagre. Muita coisa pode dar errado –ou "dar certo" de jeitos que ninguém poderia imaginar a princípio.
Como genitor de dois pequenos seres humanos, este escriba se sente tentado a concordar.
"THE GARDENER AND THE CARPENTER"
AUTOR Alison Gopnik
EDITORA Farrar, Straus and Giroux
QUANTO R$ 42,12 (ebook), 320 páginas
AUTOR Alison Gopnik
EDITORA Farrar, Straus and Giroux
QUANTO R$ 42,12 (ebook), 320 páginas
Aluno deve se sentir bem-vindo na escola o ano todo, e não só por adultos
Rosely Sayão
Psicóloga e consultora em educação, fala sobre as principais dificuldades vividas pela família e pela escola no ato de educar e dialoga sobre o dia a dia dessa relação. Escreve às terças-feiras.
Vamos falar de adaptação escolar. Mas você, caro leitor, deve estar se perguntando: a esta altura do ano letivo? E a resposta é sim, porque ainda constatamos que muitos alunos estão desadaptados à vida escolar e às suas exigências, ao convívio coletivo com seus pares de classe e de escola, às relações com professores e demais educadores escolares. E há um motivo importante para que isso tenha ocorrido: os processos de adaptação escolar são inexistentes na maioria das escolas.
Há poucos dias, conversei com a mãe de uma garota que, tendo se transferido de escola no início do segundo semestre, tem sofrido até agora com a agressividade de algumas colegas. A família já procurou a escola, e sabem o que ouviu de seu representante? Que a filha é muito bonita, causa inveja nas colegas e que, por isso, os eventos têm ocorrido. Como?
Vamos entender o que é adaptação. Em primeiro lugar, um aluno que se adapta a uma nova escola ou a um novo ano ou ciclo na escola que já frequentava, precisa sentir que é acolhido.
Acolhimento é dar as boas-vindas ao aluno, mas isso não deve ocorrer apenas nos primeiros dias em que ele chega à escola, mas diariamente, o ano todo. As boas-vindas sinalizam ao aluno que ele é bem quisto no ambiente escolar! Entretanto, ele não pode sentir que é bem-vindo apenas pelos adultos: precisa constatar que seus colegas também querem conviver bem com ele.
Acolhimento deve também oferecer ao aluno a percepção de que ele está em um ambiente seguro, principalmente no sentido emocional. Enfrentar grupos de colegas que o rejeitam não é um bom sinal disso, concorda, caro leitor? Ou seja: quando os pais de um aluno precisam procurar a escola porque o filho é, sistematicamente, hostilizado por algum colega ou grupo, isso é sinal de que a escola não se ocupa com o bem-estar emocional de seus alunos.
Acolher tem também o sentido de cuidar e, certamente, os alunos considerados "diferentes" pelos colegas e rechaçados por esse motivo não sentem que são bem cuidados pela escola. Se fossem, a instituição se anteciparia aos eventos e poderia, assim, oferecer a sensação a todos os alunos de que a escola cuida bem deles.
Para tanto, a instituição precisaria ter um planejamento minucioso de como realizar a adaptação escolar, que deve ocorrer durante todo o período letivo. Só assim o processo ganha um caráter profissional. Por quê? Quem é que não sabe que mesmo grupos de colegas que convivem bem podem, a qualquer momento, enfrentar conflitos? E sabemos que a administração dos conflitos que surgem entre os alunos não pode –aliás, não deve– ser realizada de modo espontaneísta ou de acordo com as convicções pessoais de cada professor ou trabalhador escolar, não é verdade?
Cada escola tem, hoje, um bom número de alunos que não se adaptaram ao processo escolar, ao convívio coletivo e público, à relação com as normas da instituição, à aprendizagem. E isso é responsabilidade da instituição.
Caro leitor, aí está uma boa dica para quando você conversar com a escola que seu filho frequenta ou que você pretende que frequente: perguntar qual o planejamento de adaptação escolar que ela tem, como ele é praticado, e se os alunos são envolvidos ativamente no processo ou se apenas recebem incumbências e/ou comandos de como se comportar.
De fato, quem são nossos educadores?
Na era da internet e das chamadas redes, reformar o ensino vai além da escola
*Flávio Tavares
*Professor aposentado da UNB, jornalista e escritor, prêmio jabuti de literatura em 2000 e 2005
A política educacional não é assunto privativo dos políticos, que, aliás, já têm decisões em demasia a depender só do que pensem, dos interesses que defendem ou da caça ao voto. Ensino e educação constituem parte sensível da organização da sociedade, sua base e arcabouço.
Basta essa constatação, que é axioma universal, para concluir que o governo Temer se precipitou e errou ao propor uma reforma no ensino médio por meio de medida provisória (MP), sem nenhum debate anterior entre educadores e a área educativa. As MPs são quase uma imposição em que o Legislativo não tem tempo sequer de ouvir com atenção os especialistas e a sociedade. A Constituição de 1988 instituiu-as para casos urgentíssimos que prescindam de explicações. Mas todos os governos as usaram no varejo, num temporal com raios e trovoadas de acréscimos plantados pela demagogia interesseira dos parlamentares.
Nos anos 1960 participei da implantação da Universidade de Brasília, em que a visão de Anísio Teixeira (somada à de Darcy Ribeiro, frei Matheus Rocha e outros, como Fernando Azevedo) tentou edificar uma educação superior abrangente, nos moldes das universidades norte-americanas. Depois, o poder ditatorial confundiu Harvard e o MTI com a Universidade de Moscou e a tentativa se frustrou...
Muito moço ainda, aprendi com eles que o ensino superior só é “superior” se, com as raízes da sociedade, apontar a rota do futuro. Alfabetizar e “fazer contas” é o início de um caminho em que se aprende a todo instante. Só não se aprende quando pensamos que “já sabemos tudo”. Na verdade, quando “sabemos tudo” apenas sabemos que nada sabemos. Galileu e Einstein sabiam que sabiam pouco, tal qual o genial Stephen Hawking sabe que quase nada sabe do universo e da vida.
O projeto de “reforma” do ensino do governo Temer parte do pressuposto contrário – por ele, um menino ou menina de 16 ou 17 anos já sabe tanto e está tão capacitado no conhecimento do mundo por ter cursado o primeiro ano do ensino médio que (a partir do segundo semestre do segundo ano) já pode escolher as matérias de ciências e línguas a seu bel-prazer... Obrigatórias mesmo, até o final, serão só Português, Inglês e Matemática. Nesse trio (cujo aprendizado será forte) estaria o umbigo do mundo e da vida!
Essa visão caolha distorce os fundamentos do ensino. Desde os primórdios o ensino é o êmulo da educação e define os caminhos da vida. Forma profissionais – do engenheiro ao marceneiro, do médico ao operário, do professor ao agricultor – para constituírem uma nação, um povo, cidades, núcleos de convivência.
Ensino e educação têm em si um sentido inato de solidariedade – quem sabe tem o dever de ensinar a quem não sabe. E aí chegamos ao absurdo maior da “reforma” pretendida: recém-saídos da adolescência (e conhecendo pouco do mundo) os alunos deverão guiar-se sozinhos e escolher as disciplinas a cursar antes de concluírem o segundo ano. Serão órfãos do conhecimento, carentes de bússola ou orientação.
Pergunto: na trepidante sociedade de consumo, em que a tecnologia da era digital torna quase tudo obsoleto em meses, poderão os jovens decidir sobre o que devem aprender se nem conhecem o significado que a disciplina X ou Y pode ter no futuro? Vão escolher por “ouvir dizer”, ou pelo que a propaganda lhes sugira. Isso pode ser pior do que o atual currículo escolar, que se aponta como único culpado pela desastrosa situação do ensino médio.
Será que (mesmo ampliando o número de horas-aula) a solução está em “afrouxar” e facilitar? Num século voltado para a tecnologia e a pesquisa, por que tornar “optativo” aprender Química, Biologia, Física ou História?
Por acaso nos esquecemos de que, no cotidiano, tudo é química? Começa pela cozinha – o alimento no fogão é a química mais velha e primitiva, mas com ela chegamos à portentosa química atual, que nos levou aos medicamentos e está presente em tudo: transforma petróleo em vestuário, borracha ou couro sintético, PVC e outras mil coisas imprescindíveis.
A maioria das críticas ao projeto menciona apenas a não obrigatoriedade de educação física, esquecendo outras carências. Por que desdenhar da física e não nos prepararmos para a robótica? Não penso em sondas a Júpiter, como a Nasa, mas em saber como se faz um chip, algo que só montamos sem decifrar o que é.
Por que desdenhar das ciências biológicas, que abrem caminho à medicina e à preservação da natureza? Por que ignorar a História, se é com a experiência do passado que a humanidade constrói o futuro? Mais que flexibilizar (ou afrouxar?), não será fundamental melhorar os conteúdos e entender que a educação vai além da escola?
No Brasil, quem educa com mais força e persistência? A escola convencional, com quadro negro e giz ou até com computador e internet? Ou a TV, que entra em casa em cores, sob o comando do Faustão, Gugu, Sílvio Santos, da Xuxa ou das vulgaridades do Ratinho e similares?
Não estarão aí os “educadores” de fato? As professoras do ensino fundamental (que em parte do Brasil ganham pouco acima do salário mínimo) podem equiparar-se à persistência de Ana Maria Braga e seu papagaio inteligente? A TV ensina em domicílio, é assídua, repetitiva e colorida. Assim, aponta e forma comportamentos.
Tudo o que apenas se ensina pode extraviar-se com o tempo. Quantas coisas nos ensinaram e esquecemos! Talvez nos tenham ensinado mal (e seguem assim), mas quem de nós sabe usar a equação do primeiro ou segundo grau na matemática diária, das compras no supermercado aos investimentos empresariais?
Educar é algo amplo e global, que não se limita à sala de aula. Na era da internet e das chamadas redes, reformar o ensino vai além da escola. Por que esquecer isso e deixar que a vulgaridade se torne a grande educadora?
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