domingo, 25 de dezembro de 2016

Otimismo e alegria para viver mais


Jairo Bouer  é um médico, educador, palestrante, escritor e apresentador de televisão brasileiro. Médico psiquiatra formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), e pelo Instituto de Psiquiatria da mesma universidade

As pessoas mais otimistas correm menos risco de morrer por qualquer doença

O ano não foi fácil para ninguém! Virar a página do calendário, embora simbólico, é um desejo autêntico de muitos brasileiros. Mas o que esperar de 2017? Se a ciência pode contribuir com essa resposta, ela nos brinda com dois estudos recentes que trazem uma boa notícia: otimismo e alegria são ingredientes fundamentais para quem quer viver mais e melhor.
O primeiro trabalho, realizado pela Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard (EUA), mostrou que ter uma atitude mais otimista em relação à vida ajuda as mulheres a viverem mais. Foram avaliadas mais de 70 mil enfermeiras de 2004 a 2012 e os resultados, publicados no periódico American Journal of Epidemiology.
As mais otimistas tiveram um risco 30% menor de morrer por qualquer doença quando comparadas às menos otimistas. Essa probabilidade foi 16% menor em relação ao câncer, 38% menor por doenças cardíacas, 39% menor por um acidente vascular cerebral (AVC), 38% menor por doenças respiratórias e 52% menor por infecções.
Para os pesquisadores, essa “proteção” não acontece apenas por eventuais hábitos mais saudáveis que os otimistas adotam em suas vidas. O fator psicológico é que teria um impacto direto sobre os processos biológicos que regulam nossa saúde.
Para quem quer “ir mais longe”, além de trabalhar os fatores clássicos de um estilo de vida mais saudável, como controle de peso, pressão e glicemia, alimentação adequada, sono reparador, atividade física regular e não fumar, desenvolver técnicas que reforcem o otimismo das pessoas pode fazer toda a diferença.
O outro estudo, realizado pela Universidade College de Londres (UCL), no Reino Unido, avaliou mais de 9 mil homens e mulheres dos 50 aos 60 anos e concluiu que as pessoas mais felizes têm um risco até 24% menor de morrer nos sete anos seguintes. As informações são do jornal britânico Daily Mail. Foram pesquisados fatores como o quanto as pessoas curtem sua vida, quanto apreciam a companhia de outras e, por último, o engajamento em atividades cotidianas prazerosas.
A aposta dos cientistas, que publicaram seu artigo no British Medical Journal, é que o humor das pessoas pode interferir na produção e na liberação de hormônios que controlam fatores de risco e de proteção para o corpo. Por exemplo, estar alegre pode reduzir o estresse e a ansiedade (baixando adrenalina e cortisol), o que pode contribuir para a melhora da pressão arterial. Além disso, as pessoas mais felizes tendem a adotar um estilo de vida mais saudável. Assim, elas vão beber e fumar menos, tendem a se exercitar mais, seguir uma dieta mais saudável e dormir melhor.
A sensação subjetiva de se sentir bem se correlaciona com concentrações diárias mais baixas do hormônio cortisol, que afeta o desenvolvimento de processos inflamatórios crônicos. Com menos inflamação, há benefícios para nosso sistema imunológico (de defesa), para a integridade dos nossos vasos sanguíneos e, também, para nosso metabolismo.
Os estudos sugerem que uma atitude mais positiva em relação à vida pode contribuir tanto biologicamente como emocionalmente para uma saúde melhor. Mas é importante também que não se crie uma ditadura do “tem de estar bem o tempo todo, custe o que custar”. Do ponto de vista prático, todos nós oscilamos.
Alguns trabalhos até apontam que ficar mal de vez em quando não faz para ninguém! Crises pessoais podem até servir como motivação para uma tentativa de mudança de hábitos de vida. Só é preciso atenção para que essas sensações negativas não passem a predominar na vida a ponto de produzir sintomas depressivos e ansiosos ou a comprometer o jeito de vermos o mundo.
Nessa balança diária dos nossos sentimentos, olhar para frente com um pouco mais de otimismo, buscando felicidade e realização pessoal, parece garantir mais saúde e tempo de vida. Em momentos críticos como o que vivemos, essa postura pode ser de vital importância.
Aproveito a última coluna do ano para desejar um 2017 com muita alegria, otimismo e saúde para todos. Que venha um ano melhor!
*É PSIQUIATRA

70% dos desvios nas cidades afetam a saúde e a educação

Levantamento do Estado com dados do Ministério da Transparência aponta que 729 cidades sofreram com desvios de verbas federais desde 2003; prejuízo estimado é de R$ 4 bilhões, dos quais 67% na Saúde e na Educação

Julia Affonso
As áreas de saúde e educação foram alvo de quase 70% dos esquemas de corrupção e fraude desvendados em operações policiais e de fiscalização do uso de verba federal pelos municípios nos últimos 13 anos. Os desvios descobertos pelo Ministério da Transparência, Fiscalização e Controladoria-Geral da União (CGU), em parceria com a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, evidenciam como recursos destinados a essas duas áreas são especialmente visados por gestores municipais corruptos.
Desde 2003, foram deflagradas 247 operações envolvendo desvios de verbas federais repassadas aos municípios. Os investigadores identificaram organizações que tiravam recursos públicos de quem mais precisava para alimentar esquemas criminosos milionários e luxos particulares. Além de saúde educação, também há desvios em áreas como transporte, turismo e infraestrutura.
Um exemplo foi a Operação Mascotch, de 2011, que desarticulou uma quadrilha que desviou mais de R$ 8 milhões de dinheiro da educação em 14 cidades do interior de Alagoas – o Estado com o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, similar ao da Namíbia. Os recursos deveriam alimentar crianças nas escolas, mas eram na verdade usados para comprar uísque 12 anos e vinhos importados.
O levantamento inédito feito pelo Estado com base em dados do governo federal desde 2003 mostra que houve fraude no uso de verbas federais em pelo menos 729 municípios – o que corresponde a 13% do total de cidades do País. Do Oiapoque ao Chuí, o prejuízo causado pela corrupção no período foi estimado em ao menos R$ 4 bilhões pela CGU.
Restaurantes. Alagoas pode estar no último lugar do ranking do IDH, mas lidera a lista dos Estados com mais municípios onde houve irregularidades detectadas pelas investigações federais, em termos proporcionais. Esquemas de corrupção foram desvendados em 70 das 102 cidades alagoanas – ou seja, em mais de dois terços das localidades do Estado.
O segundo pior IDH do Brasil também não fica muito atrás. O Maranhão foi palco, em outubro deste ano, da Operação Voadores, que revelou que parte da verba da saúde enviada pela União pagou vinhos e restaurantes de luxo na capital São Luis. O esquema sacava cheques de contas bancárias de hospitais públicos e desviava para benesses particulares.
Enquanto isso, quem depende da saúde pública enfrenta atendimento precário. No Hospital Genésio Rêgo, <IP9,0,0>um dos que tiveram recursos desviados, a paciente Míria Lima contou que a disputa pelos médicos é tanta que só consegue marcar consulta com o mastologista se for lá pessoalmente à 1 hora da manhã – depois disso, todos os horário já estão reservados. “Preciso fazer mamografia e ultrassom da mama, mas só dá para marcar os exames mais de um mês depois das consultas”, reclama
Qualidade. O levantamento mostra que, no geral, o principal programa afetado na área da saúde foi saneamento básico. No setor de ensino, quem mais perdeu, segundo a CGU, foi o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) – formado por recursos provenientes dos impostos e transferências dos Estados e municípios e que deveria ajudar a melhorar a qualidade da educação básica nos municípios.
Desvios como esses, segundo a literatura acadêmica recente, podem ser responsáveis por uma queda significativa na qualidade do ensino em um determinado município. Um artigo publicado em 2012 pelos pesquisadores Claudio Ferraz, da PUC-Rio, Frederico Finan, da Universidade da Califórnia, e Diana Moreira, de Harvard, revelou que alunos de municípios onde a CGU descobriu fraudes no uso de dinheiro da educação tinham aprendizado pior e taxas maiores de repetição de ano e de evasão escolar.
“Escolas em municípios onde foi detectado corrupção têm menos infraestrutura e professores que receberam menos treinamento. Além disso, professores e diretores listaram a falta de recursos como o principal problema em municípios corruptos”, escrevem. Segundo eles, como a qualidade da educação afeta o desenvolvimento econômico no longo prazo, o estudo sugere um canal direto pelo qual a corrupção diminui o crescimento do país.
O resultado ainda é mais relevante quando se leva em conta que a qualidade da educação pública no Brasil tem se mantido estagnada em áreas importantes, especialmente no Ensino Médio. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) para essa etapa do ensino se manteve constante entre 2011 e 2015 em 3,7, abaixo da meta do governo de 4,3. Segundo especialistas, um dos grandes problemas é a má qualidade da formação dos alunos no ensino fundamental, de responsabilidade dos municípios.
Problema geracional. Os desvios em alguns municípios brasileiros é recorrente. Patos, cidade 100 mil habitantes na Paraíba, comandada pela família do presidente da CPI da Petrobrás de 2015, Hugo Motta (PMDB), caiu em três operações em um ano. As ações investigaram fraudes em licitações da prefeitura e desvios da saúde e da educação.
Lá, a questão é também familiar. Em uma das operações, a mãe do deputado, Ilana Motta, acabou presa, e a avó do parlamentar, Francisca Motta, foi afastada do cargo de prefeita da cidade. Ilana era chefe de gabinete da própria mãe na prefeitura do município. Segundo as investigações, as fraudes envolveram mais de R$ 11 milhões em recursos que deveriam ter ido para o transporte escolar, Fundeb e para o pagamento de serviços de saúde de média e alta complexidade. // COLABOROU DIEGO EMIR, ESPECIAL PARA O ESTADO

‘É assassinato da esperança’, diz executivo da Controladoria sobre desvios da merenda

Wagner Rosário, secretário do Ministério da Transparência, Fiscalização e CGU, estima que esquemas de fraudes e desvios de recursos públicos que atingem pequenos municípios com baixo IDH podem superar 'um milhão de vezes' o rombo na Petrobrás descoberto na Lava Jato

Julia Affonso

Todos os recursos repassados pela União para Estados, municípios e Organizações Não-Governamentais são fiscalizados pelo Ministério da Transparência, Fiscalização e Controladoria-Geral da União. Cerca de 1400 auditores monitoram, no País, desvios de verba, fraude a licitação, falsificação de documentos e tudo mais que encontrarem de irregular pelo caminho. E não acham tudo.
Em 13 anos, a CGU deflagrou, em parceria com a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, 247 ações de investigação de verbas federais. O prejuízo mínimo é estimado em R$ 4 bilhões. A pasta identificou que 67% das fraudes ocorreram nas áreas da saúde e da educação de municípios carentes, que detêm reduzido Índice de Desenvolvimento Humano.
“As consequências são muito mais altas do que bilhões de desvios em obras. Não são só R$ 4 bilhões. Um estudo econométrico da consequência disso para um País chega na casa de trilhão. São R$ 4 bilhões camuflados, pode transformar isso em uma quantidade um milhão de vezes maior do que os prejuízos que a Petrobrás apresenta”, alerta o secretário-executivo da Transparência, Wagner de Campos Rosário, em referência à Operação Lava Jato, que abriu a caixa preta do grande esquema de propinas instalado na estatal petrolífera entre 2004 e 2014.
Além das fraudes milionárias, a CGU achou obras paralisadas e abandonadas, má conservação de equipamentos, armazenagem inadequada de medicamentos e falta de infraestrutura nas escolas.
“Quando você retira merenda de uma criança, você tira a possibilidade de crescimento daquele município a médio e longo prazo. É uma geração inteira que você está matando”, adverte Rosário, há 8 anos na Controladoria-Geral da União.
VEJA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA
ESTADÃO: Quanto perde um País que tem 67% de R$ 4 bilhões desviados da Saúde e da Educação?
WAGNER DE CAMPOS ROSÁRIO, SECRETÁRIO-EXECUTIVO DO MINISTÉRIO DA TRANSPARÊNCIA: Condena o País a uma situação que nós vivemos hoje. Uma desigualdade social muito grande, pessoas sem condições mínimas de dignidade humana. Enquanto a gente não tiver um desenvolvimento dessas crianças, em um nível intelectual aceitável, a gente não vai ter reflexo no crescimento e desenvolvimento do País. Os países que saíram de uma situação semelhante à nossa e trilharam um caminho de desenvolvimento e melhoria de qualidade de vida da população tiveram essas mudanças em momentos críticos. Em alguns foi uma guerra, uma crise, cada um tem a sua história. Eu acho que esse momento crítico a gente está vivendo no País. Hoje é um momento de inflexão para que as pessoas parem para observar que a atuação de cada cidadão é importante. Os órgãos de defesa do Estado são essenciais. Mas enquanto a população não verificar que benefícios particulares não podem estar acima dos benefícios coletivos, não se sentir parte de uma sociedade, não vai ter uma vitória. A gente hoje está submetida ao ciclo vicioso da corrupção. Altos níveis de desigualdade social, pessoas que não acreditam nos seus representantes, isso gera um problema que as pessoas não acreditam que é possível mudar. A gente pode mudar como cidadão, acabar com a cultura do ‘jeitinho’. Enquanto a população não mudar, o País não vai andar. Isso é mais importante que as leis. Não adianta exigir que as pessoas que nos representam mudem, porque elas vão ter exatamente o comportamento que nós temos.
ESTADÃO: Os esquemas têm mais facilidade de se infiltrar em cidades mais pobres?
WAGNER ROSÁRIO: Acredito que sim. Em uma população com menor nível de educação, o controle social vai ser menor. A pessoa não tem muita noção se aquele gasto pode ou não pode. Torna-se mais fácil desviar recursos ali. Para pessoas que foram submetidas a um Estado de extrema pobreza por muito tempo, um saco de arroz é muito. Pessoas que já têm acesso a coisas básicas, talvez aquele pouco que você dê seja muito pouco, ela não vai aceitar. O nível de cobrança aumenta. A melhoria da educação, da qualidade de vida, de uma série de coisas, é essencial. Municípios que já chegaram a um nível maior de educação não toleram níveis de corrupção maiores. É muito mais fácil você agradar uma pessoa que não tem nada, nem o que comer, do que uma pessoa que tem condições básicas, com tudo. Na área de saúde, por exemplo, quando a gente pega os números de desvios, a maioria das fraudes é em saneamento básico, saúde da família e atenção básica à saúde. Saneamento básico é básico. Isso vai influenciar a expectativa de vida das pessoas, onde não tem saneamento as pessoas vivem menos. É uma coisa puxando a outra. Nos municípios mais pobres é mais fácil se manter a corrupção.
ESTADÃO: Muitas vezes as investigações da CGU pegam desvios de R$ 50 mil, R$ 100 mil em prefeituras. Qual o impacto da perda desses valores para os municípios?
WAGNER ROSÁRIO: A gente tem alguns critérios que pautam nosso trabalho e são conhecidos por todos os auditores: criticidade, materialidade e relevância. A gente sempre olha se aquele recurso realmente tem valor. Se eu tenho que fiscalizar R$ 10 bilhões ou R$ 100 mil, eu vou em R$ 10 bilhões. Mas tem recursos que a criticidade me faz olhar para eles. Por exemplo, merenda escolar. Os valores para municípios são pequenos, só que eles impactam muito forte no futuro do município. Eu tenho que fiscalizar, como não fiscalizar isso? A gente chama isso de assassinato da esperança. Quando você retira merenda de uma criança, você tira a possibilidade de crescimento daquele município a médio e a longo prazo. É uma geração inteira que você está matando. A gente tem trabalhos que não são de investigação, mas geram benefícios financeiros muito maiores. Muitas vezes a gente é obrigado a abrir um pouco mão do critério de materialidade e atuar em criticidade. É um dilema que a gente vive aqui. Vamos pautar pela materialidade, pela criticidade ou pela relevância daquele tipo de gasto? Muitas das vezes a gente tem valores baixos nesses trabalhos. Eu não posso largar isso de lado, porque é o futuro daquele município e do País. Você tem que fazer aquilo chegar lá, essa é a luta.
ESTADÃO: São 247 operações de investigação e um prejuízo mínimo estimado em R$ 4 bilhões. A que valor pode-se chegar?
WAGNER ROSÁRIO: É um prejuízo mínimo, é o que a gente levantou durante as investigações. A gente foca muito nos prejuízos identificados financeiros. Os não-financeiros são muito maiores. Se fôssemos fazer um estudo econométrico das consequências, por exemplo, que você gera a um município que desvia dinheiro da merenda escolar, em que as crianças não têm o desenvolvimento básico cognitivo, qual é o custo disso para um município no futuro? Isso não está quantificado e é muito difícil quantificar. Nós temos alguns índices que mostram isso. Quando a gente pega esses Índices de Desenvolvimento Humano ou Ideb, você verifica que, normalmente, esses locais apresentam baixos níveis básicos de expectativa de vida, expectativa de estudo, de anos médio em escola. Na Operação Mascotch (em Alagoas), a gente fez entrevistas com professores que disseram que a alimentação ali era dia sim, dia não. Só aí são 50% de recursos desviados (da merenda). Quando era sim, normalmente serviam só parte. Você imagina uma criança que já é pobre, que não tem estímulo ao estudo e com fome. Qual é a probabilidade dessa criança ter um rendimento adequado na escola? Você matou uma geração. É uma fraude que às vezes não é alta, mas as consequências são muito mais altas do que bilhões de desvios em obras. Não são só R$ 4 bilhões. Um estudo econométrico da consequência disso para um País chega na casa de trilhão. São R$ 4 bilhões camuflados, pode transformar isso em uma quantidade um milhão de vezes maior do que os prejuízos que a Petrobrás apresenta.
ESTADÃO: A corrupção que tira a merenda e o transporte escolar afeta o desenvolvimento do município e dos habitantes?
WAGNER DE CAMPOS ROSÁRIO: Não há dúvida. Essa é uma das consequências da corrupção, retirar a possibilidade de desenvolvimento, de crescimento. Mantém a pobreza, gera uma descrença da população nos seus representantes, colocando em risco até o Estado Democrático. As pessoas têm de ter confiança nos seus governantes. Você tem uma desconfiança generalizada, isso tudo afeta o crescimento e gera a manutenção da pobreza naqueles municípios.
ESTADÃO: Nessas operações, mais de 700 cidades foram afetadas, a maioria no Nordeste. Por quê?
WAGNER ROSÁRIO: Cerca de 46% das operações estão no Nordeste, 23% na Região Norte. Nós temos algumas informações que talvez nos ajudem a entender o porquê. Muitas dessas operações aconteceram em recursos da Educação e Saúde. O Fundeb é um recurso a princípio vinculado a Estado e município. Quando a União complementa o dinheiro, nós fiscalizamos. Praticamente nós não fiscalizamos o Fundeb quando não existe complementação da União. Distrito Federal e Espírito Santo não têm complementação da União. Quando você vai analisar quem recebe, Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Rio Grande do Norte, a maioria está no Nordeste e dois Estados do Norte. A gente verifica que chegam mais recursos da União nesses locais e, com isso, a gente fiscaliza mais. Talvez se tivesse mais recursos do Fundeb em outros Estados, a gente teria verificado mais problemas nos outros Estados. Essa é uma das explicações. A outra é que quando você vem para a Região Sul e Sudeste, além dos municípios, você tem muita aplicação de recursos em estatais, tem muitos órgãos públicos. Nós fiscalizamos isso. Nós não temos tempo e equipe para verificar a execução do gasto público municipal dos recursos federais. A gente fiscaliza mais isso no Nordeste. Praticamente não tem órgão público, poucas estatais, quando tem alguma coisa é Universidade. Essas são duas variáveis, portanto, que devem ser levadas em consideração.
ESTADÃO: Os dados apontam uma recorrência de fraudes semelhantes nos mesmos municípios por anos. O que fazer?
WAGNER ROSÁRIO: Essa é uma pergunta que vale muito. Os órgãos de controle têm se especializado nesse tipo de fraude, talvez torne mais fácil identificar. Em alguns Estados a gente verifica que a fraude em merenda escolar parece recorrente. Merenda escolar facilita muito a fraude, por ser um tipo de gasto de consumo, é perecível. Se eu te perguntar o que você comeu na semana passada, talvez você não se lembre mais. É difícil você provar. Se a pessoa alega que deu a merenda, você vai pegar como prova uma criança de 8 anos? Isso é uma das coisas que talvez leve as pessoas a fraudar esse tipo de gasto. Transporte escolar a mesma coisa. A dificuldade de quem chega de fora é como verificar se aquelas crianças realmente moram naqueles pontos que estão dizendo. Ou se aquele transporte realmente é feito naquelas condições. É um tipo de trabalho que a gente tem de ir até a ponta e tentar identificar ao máximo. É um trabalho bem meticuloso, chegando de surpresa muitas das vezes para poder pegar os problemas.
ESTADÃO: Como avalia a capacidade de gestão dos recursos pelos municípios? Algumas cidades não chegam a usar o montante total da verba destinada pela União.
WAGNER ROSÁRIO: É comum isso, e a gente tem trabalho de fomentos à gestão. Não adianta ter um trabalho de controle federal forte e um controle estadual e municipal fraco. Como também não adianta ter um controle forte com gestões fracas. Os órgãos de controle estão se juntando, se unindo para tentar fomentar a parte de governança, fazer com que os gestores pensem no futuro. Isso é difícil, ainda está no início. Nós temos problemas graves de gestão, pessoas que não têm conhecimento da legislação para gestão dos recursos e ocasiona isso. Muitas vezes não é a corrupção, mas é a péssima gestão aliada ao fato de que a pessoa não consegue gastar aquela verba.
ESTADÃO: Uma gestão que não sabe administrar os recursos também atrapalha o crescimento do município?
WAGNER ROSÁRIO: Totalmente. Esses gestores são escolhidos pela população através do voto. É importantíssimo a população prestar atenção nisso. Gerir recursos, principalmente públicos, é difícil. A gente precisa ter pessoas preparadas. Esse é um desafio a ser vencido.
ESTADÃO: As operações identificaram esquemas que atuam simultaneamente em 35 cidades, às vezes 50. Há relação com a geografia dos Estados, o fato de os municípios serem muito próximos?
WAGNER ROSÁRIO: Já tivemos casos que foram em seis Estados diferentes, como na Operação Saúde. Fornecimento de medicamentos com duas fornecedoras na mesma cidade no Rio Grande do Sul. Um esquema de corrupção e pagamento de propina para poder vender remédio naqueles locais, entregar remédios vencidos. Fizemos uma operação nacional. Os municípios idem. Às vezes, em uma região, você tem uma determinada empresa que vence todas as licitações de alimentação escolar, remédio ou obras naquela região. Você começa a investigação e vê que o esquema está distribuído pelos municípios da região. A gente não vai a todos, porque você ficaria 10 anos investigando. A gente tenta matar o esquema. Seleciona quatro ou cinco municípios, realiza o trabalho, confirma as fraudes, deflagra com a Polícia e o Ministério Público. Por mais que outros municípios não estejam envolvidos naquela deflagração eles estariam se nós tivéssemos mais tempo para investigar. Nós não temos perna para mandar auditores para 50 municípios. O mais urgente é estancar aquela sangria e tentar tocar a investigação já com aquele esquema de fraude de recursos pelo menos interrompido. Quando você vai ver é um único esquema com o mesmo grupo empresarial atuando nos vários municípios. Aquilo ali é só uma amostra, teria muito mais municípios. As cidades que não estão na operação vão ser beneficiadas, porque aquele esquema vai ser quebrado.
ESTADÃO: Ao longo dos anos, as operações têm sido deflagradas com cada vez mais parcerias entre os órgãos. Qual a importância disso?
WAGNER ROSÁRIO: A corrupção é totalmente ligada à criminalidade organizada. Você tem divisão de funções, de tarefas. Pessoas que executam a corrupção, que vão lavar o dinheiro. Há um grupo organizado. O Estado é dividido por órgãos, cada um com uma atribuição. O Ministério da Transparência consegue entrar na aplicação do recurso público e identificar a fraude. A Polícia Federal tem uma expertise muito grande na parte de investigação criminal. O Ministério Público entra com essa ação e também realiza investigação. A Receita Federal sabe da parte tributária. Nenhum órgão é capaz de saber tudo. A gente tem que trabalhar em conjunto, isso gera aproveitamento. Quando você junta essas pessoas em torno de uma mesa e planeja conjuntamente, os trabalhos têm outro nível.

Cada post no Facebook é uma cruz erguida por um messias instantâneo

antonio prata
Antonio Prata
É escritor. Publicou livros de contos e crônicas, entre eles 'Meio Intelectual, Meio de Esquerda' (editora 34).


Um de nós elogiou o hambúrguer, o outro comentou sobre as carnes que tinham surgido nos últimos anos, o papo evoluiu pras técnicas de engorda do gado (no pasto ou em confinamento), o termo "confinamento" trouxe um certo desconforto com nosso hambúrguer e o Fabrício falou: "Ah, vamos mudar de assunto, minha vida já é complicada o suficiente, não quero agora, no dia 20 de dezembro, ter que começar a sofrer por todas as vacas do mundo."

Ficamos um tempo em silêncio, foquei no hambúrguer, na tarde ensolarada e nas pessoas que, à nossa volta, também faziam daquele almoço de terça-feira uma mini celebração de fim de ano, embaladas por essa brisa que vem de janeiro, aliviando um pouco a correria de dezembro.

A garota do caixa, conversando com o garçom, deu uma risada. Um barbudo desembrulhou um disco de vinil. Um careca chegou numa mesa grande e foi recebido com pompa e circunstância: "Pereba! Pereba! Pereba!"

Eu já estava quase ouvindo o mar quebrando na praia em algum ponto da Simão Álvares quando o Fabrício me trouxe de volta pro concreto: "A gente vive numa época muito religiosa". Concordei: "O terrorismo islâmico, a bancada da Bíblia, o Crivell...", "não", ele me cortou, "isso também, mas não tô falando de Deus.

Agora tudo é religião. A religião vegana e a religião carnívora. A religião do carro e a religião da bicicleta, a religião da amamentação e a religião da cesariana, a religião da Lava Jato e a do 'volta, Dilma!', todo mundo é fanático e se você discorda um tiquinho é um herege que tem que ser bloqueado da vida da pessoa, que nem no Facebook".

Quando ele acabou de falar, lembrei do filme "O Sétimo Selo", do Bergman. O Facebook me pareceu muito semelhante à Europa do século 14, devastada pela peste negra: cada post uma cruz erguida por um messias instantâneo, pequenas seitas de "likes" e "comments" atrás, vagando pelas planícies azuis das timelines, comungando a iluminação do dia.

"Goiabada no temaki, não!", "se o seu filho usa fralda descartável você é um assassino de golfinhos!", "eis aqui o que eu acho sobre o prepúcio nojento do terceiro pinto no clipe ridículo da Clarice Falcão". Uma diferença pras seitas do século 14 é que nas mídias sociais os chicotes são raramente usados para a auto penitência; costumam castigar mais o lombo alheio.

Antes da sobremesa já estávamos enredados na velha discussão de boteco do século 21: a humanidade sempre foi esse lixo e as redes sociais só revelaram o chorume ou o ódio e a intolerância aumentaram nos últimos anos? Não sei, mas tenho a sensação de que colaborou pra pindaíba termos parado de engordar as crianças soltas nos pastos e passado a criá-las em confinamento: escola, condomínio, inglês, clube, iPad.

Em 1985, quando ainda existia uma instância muito louca, libertária, diversa e apartidária chamada "rua", eu pastava uma hora no amigo judeu, outra na casa da amiga com a avó janista, comia sal no baio macrobiótico e bebia no açude de groselha Milani. "Tolerância" não era um conceito ensinado na escola, mas um pré-requisito básico para você conseguir brincar de esconde-esconde com 15 crianças diferentes.

Olho a garota do caixa rindo com o garçom, o barbudo do vinil tomando sua cerveja, o Pereba contando uma história na mesa grande, faz sol lá fora e um jacarandá estende sua sombra para dentro do restaurante: não é possível que todo mundo se odeie tanto.

'Devemos valorizar mais a reflexão', diz professor da School of Life

O jornalista David Baker, professor na School of Life do Reino Unido e do Brasil
O jornalista David Baker, professor na School of Life do Reino Unido e do Brasil

EVERTON LOPES BATISTA
DE SÃO PAULO


Dar uma pausa no trabalho para refletir é tão importante quanto produzir, defende David Baker, jornalista, co-fundador da revista "Wired", sobre tecnologia e inovação. Hoje, ele atua como coach profissional e é professor de cursos sobre criatividade e trabalho da School of Life do Reino Unido e do Brasil. Por e-mail, Baker conversou com a Folha sobre o assunto.

Folha - Qual o papel da criatividade no dia a dia?
David Baker - Pensamos que criatividade é só para artistas ou músicos, mas ser criativo é simplesmente pensar em um jeito diferente de fazer algo e testar para ver o que acontece. Fazemos isso quando experimentamos uma receita nova ou pensamos em um programa diferente para o fim de semana. Exercitar a criatividade nos conecta com o mundo.
Folha - Existe algum treinamento para se tornar mais criativo?
Todos nós já fomos criativos quando éramos crianças. É incrível a quantidade de brincadeiras que elas conseguem inventar com uma caixa de papelão, uma vassoura e algumas almofadas. Mas o sistema educacional tira essa habilidade de nós ao dar mais importância para o pensamento analítico e baseado em fatos do que para o uso da imaginação. O jeito é olhar ao redor para ver quais são os recursos disponíveis e pensar em como utilizá-los melhor. Gosto muito da forma como os brasileiros são capazes de improvisar e fazer bom uso do que têm nas mãos. Isso é algo que nós na Europa podemos aprender com o Brasil.
Folha - Quais as melhores formas de estimular a criatividade?
Algumas boas ideias vêm em momentos inesperados. Uma boa dica é anotar pensamentos que surgem durante o dia. Grande parte dessas anotações vão parecer sem sentido, mas em algum momento podem surgir grandes ideias. Também é bom deixar a cabeça livre, fazendo pausas para caminhadas ou colocando o pensamento em coisas diferentes do trabalho.
Folha - O que empresas podem fazer para estimular a inovação?
Funcionários e chefes precisam entender que as melhores ideias aparecem quando estamos relaxados. Devemos valorizar o tempo para reflexão assim como valorizamos os momentos nos quais produzimos. Uma boa forma de estimular a reflexão é dividir as reuniões em dois dias, assim todos têm tempo para pensar e podem trazer novas ideias no segundo dia.


A educação domiciliar deve ser legalizada?

Maria Celi Chaves Vasconcelos, da UERJ, diz que é preciso refletir sobre a demanda dos pais que vêm prática como melhor para seus filhos; Silvia Colello, da USP, defende a escola como espaço de convivência com a diversidade de crianças e professores

O Estado de S.Paulo

SIM - Maria Celi Chaves Vasconcelos.*
A escola como conhecemos é uma invenção relativamente recente, consolidada no Brasil no fim do século 19, quando, pouco a pouco, se torna hegemônica sobre as outras formas de educar. O século seguinte marca o período em que a educação realizada em instituições específicas para esse fim, mantidas ou autorizadas pelo Estado, passam a ser os únicos espaços considerados legítimos para a educação formal, destituindo de chancela legal qualquer outro formato da escolarização. Educação e escola tornam-se palavras tão imbricadas de sentido que são usadas como sinônimas, esquecendo-se a probabilidade de ações distintas entre essas duas concepções. 
Se o século 20 pode ser considerado o século da escolarização como um dos ideais sociais a ser universalizado, o mesmo se pode dizer desse novo século que se inicia? As inovações tecnológicas e os avanços relativos à cibercultura fazem com que desapareçam os limites físicos para a aquisição do conhecimento e outros lugares, como a própria casa, podem tornar-se espaços de educação formal. Essa possibilidade logo é percebida por famílias, especialmente algumas descontentes com os sistemas de ensino público e privado, que buscam alternativas para a educação de suas crianças. Ao empreender essa modalidade, optando por educar na casa, as famílias deparam-se com um grande obstáculo: a legislação brasileira. 
Embora a lei não especifique a proibição do ensino domiciliar, a falta de frequência à escola implica suposição de “negligência dos pais”. Por outro lado, também não há nenhuma regulamentação que normatize a forma como o ensino domiciliar possa ocorrer, fazendo com que o Estado, no cumprimento da legislação vigente, tenha de verificar se não está havendo abandono intelectual para a educação daqueles inseridos em outro sistema, diferente do escolar.
A cada dia faz-se mais urgente uma solução legal. Não se pode simplesmente desconsiderar a demanda dessas famílias, ou torná-la invisível, ainda que diante de tantas outras urgências que assolam a Educação. Um assunto tão complexo não pode sujeitar-se a brechas na lei, interpretações e julgamentos com base em eventos pessoais. Cabe lembrar, que havendo a alteração que permita essa modalidade, também seria necessária uma regulamentação prevendo a matrícula e avaliações periódicas dos homeschooler no respectivo sistema de ensino. Não se trata de “desescolarizar” a sociedade, mas refletir sobre a demanda dos pais que acreditam nessa prática como sendo a melhor para os seus filhos.
* É DOCENTE DA FACULDADE DE EDUCAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO E MEMBRO DO CONSELHO ESTADUAL DE EDUCAÇÃO DO RIO

NÃO - Silvia Colello. *
No desenvolvimento de um currículo, coleção de disciplinas a serem ensinadas e aprendidas. Educação não se reduz a transmissão de conteúdos, é processo mais complexo, que se beneficia da convivência em grupo e da pluralidade de experiências cognitivas, sociais, culturais e afetivas. Reduzir à transmissão de conhecimento é a primeira falha de quem defende a educação domiciliar. A criança educada em casa perde a oportunidade de conviver com a diversidade, de lutar por seus direitos e de conhecer as regras de convivência institucional. A construção da identidade depende dessas experiências.
O segundo ponto de deficiência é que, por mais geniais que sejam os pais como mentores, a longo prazo não poderiam suprir os benefícios da convivência com a pluralidade de professores, profissionais especializados nos vários campos de conhecimento e com formação pedagógica. Em uma conta básica, a criança ao longo do ensino fundamental teria contato com pelo menos 50 professores. É impossível que a experiência de lidar com todas essas pessoas possa ser substituída pelo restrito grupo familiar.
Muitos dos pais optam pela educação domiciliar por não quererem que os filhos sejam expostos a ideias que contrariem suas convicções. Educar e preparar uma criança para a vida não é esconder o diferente dela, mas fazer com que ela possa ter consciência sobre a realidade do mundo. Não entendo uma educação que se propõe a perpetuar os valores dos pais e fazer a cabeça do aluno, sem dar a ele o livre arbítrio para pensar por si só.
Ao optar pela educação domiciliar como alternativa para um ensino de qualidade, livre de violência ou bullying, os pais também correm o risco de passar à criança uma mensagem bastante discutível: “resolvemos o nosso problema em casa e o resto do mundo que se vire”.
Além de não preparar a criança para viver no mundo tal como ele é, a educação domiciliar mostra a ela que podemos nos isentar de lutar por uma educação de qualidade para todos. É lamentável o estado de precariedade de muitas escolas, mas a saída para isso é lutar pelo direito à educação, pela valorização do ensino e não resolver o problema no âmbito doméstico.
Por fim, essa criança pode até aprender em casa como resolver problemas de Matemática, mas quem vai ensiná-la a praticar esportes coletivos? Quem vai ensiná-la a ganhar e perder, defender seus pontos de vista, fazer trabalho em equipe?
* É DOCENTE DA FACULDADE DE EDUCAÇÃO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP), ATUA NAS ÁREAS DE PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO E LINGUAGEM.

sábado, 24 de dezembro de 2016

País já tem pelo menos 6 mil crianças sendo educadas em casa pela família

Supremo Tribunal Federal suspendeu análise de todos os processos em andamento que questionam a prática, vetada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Associação diz que número de famílias que adotam homeschooling dobrou em um ano

Isabela Palhares

O dia de Guilherme Dias, de 15 anos, começa como o da maioria dos meninos de sua idade. Ele acorda cedo, se troca, toma café da manhã e vai estudar. A diferença é que Guilherme não vai para a escola. Estuda em casa. Quando tinha 9 anos, os pais do garoto, insatisfeitos com o modelo escolar, decidiram que ele receberia a educação domiciliar – ou homeschooling, como é conhecida em outros países. No entanto, a prática não é legalizada no Brasil.

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BRASILIA DF BSB 19/12/2016 METRÓPOLE EXCLUSIVO EMBARGADO HOMSCHOOLING FAMÍLIA DIAS Pais que tratam sobre a autorização ao ensino em casa (homschooling). Família Dias que educa seus filhos em casa depois de ter tido problemas com a escola publica. Ricardo Dias, 46 e Lilian, 47 e Guilherme Dias, 15. Local - Águas Claras - Brasilia . FOTO IGO ESTRELA / ESTADAO

A opção pela educação em casa, que até poucos anos atrás se restringia a algumas famílias, tem ganhado adeptos. Com grupos nas redes sociais, as famílias têm difundido o homeschooling, aconselhado outros pais, promovido encontros entre as crianças e compartilhado materiais didáticos. A Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned) fez uma pesquisa e identificou que neste ano 3,2 mil famílias já aderiram ao modelo, atendendo cerca de 6 mil crianças. O dobro do que registrou no ano anterior.
A Aned afirma que o número é ainda maior, já que muitas famílias não divulgam que optaram por educar seus filhos em casa por medo de serem denunciadas. No Brasil, os casos de criança fora da escola são ilegais. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) determina que é obrigatória a todas as crianças de 4 a 17 anos a frequência em uma instituição de ensino. Caso não tomem iniciativas para matricular os filhos e garantir a frequência escolar, os pais podem ser denunciados por abandono intelectual. 
Procurado, o Ministério da Educação destacou que a proposta do ensino domiciliar “não apresenta amparo legal”, ferindo ainda o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) – que determina que os pais têm a obrigação de matricular seus filhos na rede regular de ensino – e a Constituição. 
Segundo a Aned, tramitam no Judiciário ao menos 18 processos do tipo. O debate chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) após os pais de uma menina de 11 anos entrarem com um mandado de segurança contra ato da Secretaria de Educação de Canela (RS), que negou pedido para que ela fosse educada em casa. A análise da ação foi suspensa em 2015, quando o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, reconheceu o caráter constitucional do tema e sua repercussão geral – com este instrumento jurídico, Barroso definiu que o órgão analisará o mérito da questão e a decisão resultante será aplicada posteriormente pelas instâncias inferiores em casos idênticos. Não há prazo para que os ministros decidam a questão. 
“Muitos países liberam a educação domiciliar (veja quadro no fim desta reportagem), mas aqui no Brasil a legislação nos trata como pais negligentes porque não queremos que nossos filhos estudem em escolas despreparadas, que não dão a atenção devida às crianças”, disse Ricardo Dias, presidente da Aned e pai de Guilherme e Lorena, que hoje têm 19 anos. 
Eles estudavam na rede pública e os pais estavam insatisfeitos com as greves e o comportamento dos alunos, que consideravam desrespeitoso aos professores e desinteressado. Foi quando a filha pediu para sair da escola que eles decidiram por educar os dois em casa. 
Dias disse que ele e a mulher montaram um programa de estudos, com material didático e o currículo seguido pelas escolas. Ele também os matriculou em atividades extras, como música, dança, luta e inglês. “Muitas vezes nos acusam de colocar os filhos numa bolha e não nos importarmos com a interação social. Na verdade, queremos uma socialização real, com adultos e crianças de várias idades”, disse.
Guilherme conta que estuda sozinho o conteúdo que os pais indicam para cada dia e tem a ajuda de uma professora particular para Matemática, disciplina que tem um pouco de dificuldade. “Começo de manhã e paro no fim da tarde. Estudo duas ou três matérias por dia, mas quando gosto de um conteúdo fico o dia todo nele. É uma liberdade que não teria na escola.” 
Ele diz gostar de fazer simulados do Enem e outros vestibulares para testar seus conhecimentos e assistir aulas de cursinhos pré-vestibulares pela internet. “Não sinto falta da escola, mas às vezes dos colegas, apesar de nos falarmos pelas redes sociais e nos vermos nos fins de semana.” 
Processo. Em 2015, quando Lorena, a filha mais velha de Dias, tinha 17 anos, a família recorreu à Justiça para que ela conseguisse um certificado de conclusão do ensino médio – para usar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para essa finalidade é preciso ter mais de 18 anos.
Com a decisão favorável, Lorena pode ingressar em uma faculdade particular para cursar jornalismo. “Nós achamos que era muito cedo para ela começar o ensino superior, mas ela queria muito e nós sabíamos que ela tinha uma maturidade e autonomia maior por ter estudado em casa”, contou Dias.
Dias, que também preside a Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned), defende que a educação domiciliar seja legalizada e regulamentada no país para que os jovens, assim como sua filha, não precisem recorrer à Justiça para conseguir a certificação antes dos 18 anos. “Nós temos o direito de educar nossos filhos da maneira que achamos melhor e, que sabemos inclusive, ser melhor academicamente do que a de muitas escolas”.
Ensino em casa
Vários países liberam a educação domiciliar, mas no Brasil a prática não é permitida pela legislação.