segunda-feira, 22 de maio de 2017

Legamos a nossos filhos mais sintomas do que valores

luiz felipe pondé
Luiz Felipe Pondé
Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência.

Os inteligentinhos hoje devem ir brincar no parque porque vamos falar coisa de gente grande.

Você quer saber se você é inteligentinho? Se começar a ficar incomodado e, para resolver isso, convencer-se de que a "educação que está dando para seu filho" fará dele uma pessoa mais tolerante, mais evoluída e mais ética, você é um inteligentinho.

Se acreditar que "a educação que está dando para seu filho" fará ele escolher sua religião e seu "gênero" de forma "autônoma e consciente", você é um inteligentinho.

Dizer frases do tipo "a educação que estou dando para meu filho" já é coisa de gente boba. Mas, quando você de fato acredita nisso, você é mesmo inteligentinho.

Legamos a nossos filhos mais sintomas do que valores. A psicanálise sabia disso, mas hoje, como tudo mais, aderiu ao marketing existencial e político. Em termos de ferramenta para pensar a realidade histórica, a psicanálise hoje é parte do sintoma e não da solução. Mais atrapalha do que ajuda.

De certa forma, a literatura de autoajuda é mais honesta do que psicanalistas pensando o mundo para salvá-lo. Pelo menos a autoajuda se sabe barata e vulgar. Os psicanalistas se acham chiques e sólidos em sua histeria cega (uso histeria aqui no sentido freudiano do termo –quem não souber o que é que olhe no Google).

O parricídio é um tema clássico na literatura especializada. Freud e Dostoiévski são dois dos maiores exemplos de quem pensou nisso.

Freud achava que "Os Irmãos Karamázov", de Dostoiévski, era o maior romance da literatura ocidental porque havia compreendido plenamente o complexo de Édipo. Dostoiévski pensava o parricídio tramado por seu filósofo Ivan Karamázov como profecia acerca da modernidade.

O projeto da modernidade era matar o pai como uma repetição festiva do macabro assassinato do pai da horda primitiva do mito freudiano "Totem e Tabu". Matamos o pai para sermos livres.

Para Dostoiévski, Ivan preconizava o projeto moderno de matar o pai: a tradição, a herança ancestral humana, Deus, o significado da vida herdado dessa herança, enfim, todo o arcabouço organizado da vida humana que alguns lacanianos chamaram um dia de "nome-do-pai".

Freud, por sua vez, sabia da entropia moderna: sabia que a modernidade na sua fúria carregava em si o projeto escondido da pulsão de morte, que é "a destruição do eu".

Hoje, "somos todos o pai". Toda a demonização do patriarcalismo como culpado até da poluição da Lua é apenas a parte ridícula disso.

A simples aniquilação de toda referência que não a do dinheiro e a da autonomia individual produziu uma devastação do mundo. A promessa era que a cultura e a política tomariam o lugar dos deuses e do pai. Hoje sabemos que a cultura é "fast food" e a política é histérica.

Sou um descendente direto de Ivan Karamázov, portanto, que os inteligentinhos não me venham com o eterno blá-blá-blá de que este seria um discurso nostálgico. Não.

Falo do lugar mais niilista possível: aquele de quem participa do ritual do assassinato do pai da horda primitiva a cada dia. Não há retorno para lugar nenhum. O estrago está feito. E, como sabia muito bem Freud, o pai era terrível.

O passado nunca foi feliz, como idealizaram os românticos. Faltam aos psicanalistas de hoje profundidade e coragem de não fazer parte do marketing existencial e político. Se vivessem na época de Freud, iriam condená-lo por falar obscenidades sexuais a serviço da depravação. A psicanálise se tornou histérica.

Veremos agora o matricídio. Se matamos o pai em nome da liberdade, agora afogaremos a mãe na eliminação pura e simples da maternidade a serviço da emancipação feminina e do mercado de carreiras.

Enquanto a verborragia sobre crianças e sobre valores femininos do "cuidar" cresce, as maternidades quebram por falta de mercado.

A maternidade prática desaparece sob o salto da maternidade teórica. Ninguém quer ter filhos, exceto quem não tem opção melhor. Ou gays, para se sentirem "normais". Os meninos se derretem de medo e as meninas se tornam fálicas sob as palmas da psicanálise rendida à histeria. 

Documentário investiga a realidade do ensino médio em escolas públicas

Gravação de cena do documentário 'Nunca me Sonharam' em escola pública brasileira
Gravação de cena do documentário 'Nunca me Sonharam' em escola pública brasileira

PAULO SALDAÑA
DE SÃO PAULO

Um retrato da juventude, um estudo sobre o ensino médio, uma reflexão sobre a desigualdade social do país. É disso que trata o documentário "Nunca me Sonharam", do diretor Cacau Rhoden, que estreia nos cinemas de São Paulo e do Rio no dia 8 de junho.

A primeira exibição pública ocorre na quinta-feira (25), no festival Ciranda de Filmes, que acontece de 25 a 28 de maio no Espaço Itaú de Cinema Augusta, na capital paulista. Além de estrear nos cinemas, a obra estará disponível na plataforma Videocamp, o que possibilita exibições gratuitas pelo país.

Na tela, relatos, opiniões e histórias desenham um retrato da educação pública e, em especial, do ensino médio.

A etapa é um dos grandes gargalos da educação brasileira. O país registra 1,6 milhão de jovens entre 15 e 17 anos fora da escola. Quase 10% deles não estudam nem trabalham. E, como apontam estudos, quem está na escola não vê muito sentido no que faz por lá.

Foram quase dois anos de produção, com mais de 70 entrevistas em oito Estados de todas as regiões do país. É dos jovens a maioria das vozes diante das câmeras.

O questionamento a uma visão restrita da juventude – de que ela seria só uma "fase" ou uma "transição"– é o ponto de partida do filme. "Eu quero participar da mudança, não quero aplaudir a mudança", diz uma jovem. "Quando vai chegar a nossa vez? Será que vai sobrar pra nós?", pergunta outra.

"O filme fala sobre a juventude num país que não escuta os jovens, e sobre a importância e a magia do conhecimento", diz o diretor.

Mesmo partindo de uma realidade até angustiante, o filme guarda poesia, sonhos, otimismo e esperança. Nisso, a figura do professor também aparece com força.
"Nunca me Sonharam" também mapeia os problemas da educação pública. Temas como a má formação docente para lidar com jovens e a dificuldade de replicar boas experiências educacionais se relacionam com os conflitos éticos da sociedade. Assim, racismo, machismo, pobreza e violência surgem como causa e consequência do fracasso escolar e social.

"Como meus pais não foram bem sucedidos na vida, eles também não me influenciavam", diz no filme o estudante Felipe Lima, no emocionante relato que inspira o título.

"Eles nunca me sonharam sendo um psicólogo, nunca me sonharam sendo professor, nunca me sonharam sendo um médico, não me sonharam. Eles não sonhavam e nunca me ensinaram a sonhar. Tô aprendendo a sonhar sozinho", diz.
Produzido pela Maria Farinha Filmes, o longa é uma iniciativa do Instituto Unibanco. Ricardo Henriques, superintendente do instituto, ressalta a perversidade de um país que está "sequestrando o direito de sonhar".

"Ao abrir mão de uma educação como direito de todos, a sociedade estabeleceu um teto para ela mesma. E é um teto muito baixo", diz ele.

Segundo Henriques, o que mais mobilizou o filme é a urgência de "colocar a discussão sobre educação na mesa de jantar de todos os brasileiros". Resta saber se os brasileiros, sobretudo a elite econômica, estão preparados para encarar tudo isso.

sábado, 20 de maio de 2017

O que ajuda a ser um bom aluno?

Pesquisas atuais reforçam que questões tão distintas como nutrição adequada, pais próximos e contato adiado com as drogas colaboram para o desenvolvimento cognitivo e para a vida escolar dos jovens


JAIRO BOUER -É médico formado pela USP, com residência em psiquiatria. Trabalha com comunicação e saúde. 

Você sabe o que pode fazer seu filho ir bem na escola? Motivação, capacidade de se concentrar, assiduidade, bom comportamento em sala de aula e compromisso em estudar para provas e realizar as tarefas de casa são algumas das chaves para as notas altas no final de cada bimestre. Trabalhos científicos recentes apontam outras questões que afetam a vida escolar dos jovens.
O primeiro deles, da Universidade Concordia em Montreal, Canadá, sugere que jovens que começam a fumar maconha antes dos 15 anos podem sofrer um impacto permanente em sua capacidade cognitiva. Em contrapartida, aqueles que experimentam a droga só com 21 anos raramente enfrentam algum problema. Os pesquisadores afirmam que o contato precoce com a droga provoca perda de memória, redução do Q.I. (quociente de inteligência), piora no desempenho escolar e maior chance de doenças mentais.
Há um mês, um estudo americano também encontrou relações significativas entre uso mais pesado de maconha e pior desempenho escolar, com notas mais baixas. Na iminência da legalização da maconha no Canadá (marcada para 1º de julho de 2018), os cientistas defendem que a restrição para menores de 18 anos, além de um controle rigoroso dos impactos na saúde, é medida urgente a ser adotada.
O segundo estudo, realizado pela London School of Economics, no Reino Unido, acompanhou 1.169 crianças que nasceram em casas de mães solteiras, que em seguida se uniram a um homem. Os resultados sugerem que, quando o pai biológico passa a viver com os filhos, a criança tem saúde, inteligência, habilidades sociais e desempenho na escola melhores. Quando a mãe segue sozinha ou passa a morar com um padrasto, não há esse impacto positivo. As crianças foram avaliadas ao completar 7 anos de idade.
Para terminar, um estudo norueguês da Uni Research, em Bergen, aponta que mães “veganas” (que não comem carne, leite e ovos) podem ter uma deficiência de vitamina B12. Isso, além de aumentar a chance de partos prematuros, pode interferir no desenvolvimento neurológico das crianças, fazendo com que elas tenham maior dificuldade cognitiva na infância. Foram avaliadas mais de 500 crianças no Nepal, e os resultados publicados no periódico American Journal of Clinical Nutrition.
Em resumo, as pesquisas mais atuais reforçam que questões tão distintas como nutrição adequada, pais próximos e contato adiado com as drogas colaboram para o desenvolvimento cognitivo e para a vida escolar dos jovens.

Suicídio entre crianças e jovens: risco crescente

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JAIRO BOUER
É médico formado pela USP, com residência em psiquiatria. Trabalha com comunicação e saúde.

As tentativas de suicídio e de automutilação entre crianças e adolescentes mais que dobraram nos Estados Unidos na última década, segundo dados divulgados durante o encontro anual das Sociedades Acadêmicas de Pediatria, em San Francisco, Califórnia. Os pesquisadores investigaram 32 hospitais infantis em todo o país e encontraram cerca de 118 mil casos no período. As ocorrências saltaram de 0,67% dos atendimentos médicos em 2008 para 1,79% em 2015. Cerca da metade dos pensamentos ou atos de automutilação e suicídio ocorreu na faixa dos 15 aos 17 anos, outros 37% na faixa dos 12 aos 14 anos e quase 13% entre as crianças menores, de 5 a 11 anos. Os dados revelam um crescimento contínuo, ano após ano, em todas as faixas etárias. Eles ecoam números recentes dos Centros de Controle de Doenças. As mortes por suicídio na faixa dos 10 aos 14 anos nos Estados Unidos tinham superado as mortes por acidentes de trânsito no final de 2016.
No Brasil, essa tendência também gera apreensão. Dados da Organização Mundial da Saúde mostram que o suicídio é hoje a terceira causa de morte de jovens de 15 a 19 anos no país, atrás apenas de violência interpessoal e acidentes de trânsito.
O Mapa da Violência 2017, feito com dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, divulgado em abril, já revelava um aumento de quase 10% das taxas de morte por suicídio de 2002 a 2014, na faixa dos 15 aos 29 anos. Se o período observado for maior (de 1980 a 2014), esse aumento é constante, da ordem de 27%.
O aumento é explicado pelos especialistas em função da expansão dos celulares e pelo maior uso das redes sociais. Bullying, violências e comparações que afetam a autoestima ganharam escala. Os jovens parecem enfrentar pressões crescentes. Nesse contexto, jogos virtuais como a Baleia Azul podem se tornar uma ameaça concreta.
Os casos de depressão – uma das principais causas de suicídio – também têm aumentado. Um estudo da Universidade de Washington e da Escola de Saúde Pública de Johns Hopkins Bloomberg, publicado no final de 2016, já apontava um salto de 8,4% para 11,3% do número de jovens que haviam enfrentado um episódio depressivo no intervalo de 2005 a 2014. Para complicar, a puberdade e as oscilações emocionais típicas da adolescência têm começado cada vez mais cedo, num momento em que, muitas vezes, a inexperiência e a falta de maturidade dificultam a resolução de conflitos pessoais.
É importante que pais, escolas e profissionais estejam atentos para atitudes e comportamentos que possam sugerir depressão ou risco de suicídio. Muitas vezes, o jovem sofre em silêncio enquanto um turbilhão emocional acontece dentro dele.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Não haverá futuro sem oportunidades para os mais jovens

Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e coordenador do curso de administração pública da FGV­SP, escreve neste espaço quinzenalmente

E­mail: fabrucio@gmail.com

Brasil, país do futuro. Eis uma frase que marcou o século XX. O problema é que nos atrasamos na criação da política mais importante para catapultar uma sociedade a um estágio melhor: a educação. Muitas transformações sociais ocorreram desde 1930, mas mantivemos uma enorme desigualdade porque a escola para todos, e de qualidade, não esteve no DNA do desenvolvimento brasileiro.

Essa situação só começou a mudar a partir da Constituição de 1988, quando foi proposta, de forma inédita em nossa história, a universalização do ensino fundamental. Nesse campo houve vários avanços, mas a desigualdade educacional atual é evidente no ensino médio. Exatamente na faixa etária em que os sonhos mais precisam ser alimentados, para que o adulto de amanhã seja plantado.

Quem quiser saber por que ainda estamos distantes de nos tornamos o país do futuro, precisa assistir o documentário "Nunca me Sonharam", que estreia na próxima quarta ­feira, dia 24, feito pelo Instituto Unibanco e dirigido por Cacau Rhoden. É preciso ouvir e entender esses jovens da escola pública para irmos além do Brasil oficial, das promessas das campanhas políticas, dos números sem alma. O filme é uma lição das desesperanças e esperanças de uma nação que não está sendo discutida pela opinião pública e pela mídia.

O documentário percorre escolas de ensino médio de várias partes do país e traz depoimentos dos jovens, de pessoas da comunidade, de professores, de diretores e de pesquisadores em educação. As imagens, os olhares e, sobretudo, as falas constroem a história de uma juventude com poucas oportunidades e para a qual é preciso dar uma chance se quisermos que o futuro do país seja melhor.

As falas do filme tecem uma narrativa singular da juventude pobre. Por conta dessa riqueza de ideias, palavras e expressões, resolvi construir o texto de uma maneira inusitada, utilizando, de forma literal ou aproximada, diversas frases que aparecem ao longo do documentário, sem citar diretamente os autores. Convido os leitores a procurar depois o que foi dito por mim nas passagens do filme.

O início de tudo é a definição do que é ser jovem. Essa fase de tempestade e trovão, de intensidade sempre à beira de uma ruptura. Mas ser jovem supõe o plural ­ juventudes ­, o que no caso brasileiro tem muito a ver com nossa desigualdade. Os alunos da escola pública definem ­se pela falta. Como disse uma aluna, "eu sou um defeito de fábrica (...), diferente de todo mundo". Não que não se tenha esperança, é que ela parece não caber na realidade. Como dito por outro jovem: "a partir do momento que o sonho foi tirado de mim, eu desisti dele também". Fica a pergunta no ar: quais jovens podem sonhar?

A desigualdade de origem é claramente percebida na comparação com os jovens mais abastados. Nesta linha, o conceito de meritocracia é visto de forma crítica, porque ele põe na mesma competição um pobre que sai do subsolo e outra pessoa que parte do quinto andar ­ e ainda sobe de elevador. Como dito no filme, a juventude mais vulnerável começa a desenhar seu destino com o encurtamento da infância, tendo menos tempo para brincar, um menor número de atividades extraescolares e uma educação meramente instrumental. Desde cedo se aprende a não ter muita ambição de ascensão social pela via educacional, levando ­os a atuar no mercado de trabalho de forma precária e precoce. Daí surge uma lição muito importante do documentário: ao restringir o que o jovem mais pobre pode ser, restringe ­se também o que o Brasil pode ser.

Na visão dessa juventude, esse fosso social deriva de duas fontes: a família, que seria o passado, e a escola, que seria o presente. Da soma dessas duas dimensões temporais é que pode emergir o futuro. Em relação à herança familiar, num dos momentos mais emocionantes do filme, um jovem diz: "como meus pais não foram bem­ sucedidos na vida, eles não me incentivaram. Nunca me sonharam eu sendo um psicólogo, um professor, um médico. Não me ensinaram a sonhar. Eu aprendi a sonhar sozinho". É por conta deste legado social que os jovens mais pobres precisam muito de uma boa escola.

Só que o funcionamento das escolas públicas no Brasil ainda deixa muito a desejar, segundo os jovens do filme. Primeiro, elas são desinteressantes, tendo dificuldade de dar sentido ao que se ensina, desperdiçando milhares de possíveis talentos. Segundo, há problemas estruturais de gestão que se tornam um empecilho para o aprendizado efetivo ­ "ficamos três meses sem professor", reclama um aluno. Terceiro, as unidades escolares não conseguem lidar com a diversidade, com a situação social prévia de seus alunos. Uma aluna expressou bem seu problema: era difícil ser, a um só tempo, menor de idade, mulher, negra e pobre. Por isso, como bem notou uma entrevistada, o problema da educação passa também por resolver melhor os conflitos éticos numa sociedade heterogênea, mas que não é capaz de encarar e aceitar seu próprio espelho.

A fragilidade do ensino médio brasileiro fica estancada claramente num dado: 38% dos jovens de 15 a 17 anos não estão nem na escola nem trabalhando. Trazê­ los de volta e manter os que estão vai depender de uma nova concepção educacional. Para tanto, é necessário aperfeiçoar a atuação de professores e gestores. Obviamente que é fundamental aumentar a atratividade das carreiras educacionais, mas também é essencial mudar a formação docente, dando aos professores os instrumentos pedagógicos necessários para ensinar bem as disciplinas, de forma criativa e estruturada, e para saber lidar com os jovens ­ duas coisas que as faculdades não ensinam adequadamente. Não se quer um professor herói, mas alguém preparado profissionalmente para tão grande tarefa.

Os professores precisam, ademais, ter empatia com seus alunos, saber que a situação prévia deles é peça­ chave para o processo pedagógico. Há uma história emocionante no filme de um professor de matemática que só descobriu o que era a pedagogia correta quando conheceu a situação social de um aluno que tanto amava sua disciplina, algo que ele não sabia. A descoberta se deu quando o docente saiu do seu casulo, do mero papel de transmissor de conteúdos, para ver o que estava no seu entorno escolar.

O corpo docente precisa ter maior sintonia com o discente, sobretudo entre alunos com legado de vulnerabilidade social, uma das coisas que mais faz diferença é ter alguém que acredita nesses jovens. Apostar que eles não serão eternamente fracassados, que vão além dos estereótipos do jovem da periferia, descobrir as coisas que os movem a querer mudar o mundo, escrever um poema de apoio no caderno de quem já tinha perdido a esperança.

A distribuição das oportunidades educacionais é desigual para os jovens das escolas públicas. Mas o documentário também apresenta experiências bem­ sucedidas e histórias de superação. Em muitos lugares pelo Brasil afora há professores e diretores corajosos, criativos, perseverantes no processo de aprendizagem e que alimentam os sonhos da juventude, única maneira de construir uma educação melhor em condições tão adversas. Seguindo essa linha, há escolas que conseguem trazer de volta alunos que tinham evadido ou aprovam, em circunstâncias sociais muito vulneráveis, a grande maioria dos alunos no vestibular.

Dentro dessas experiências pedagógicas, uma das fórmulas mais bem­ sucedidas é conversar muito com esses alunos, que tanto almejam alguém para escutá ­los, dado que vivem num mundo surdo para suas angústias e expectativas. Tanto se fala da juventude, inclusive na última reforma do ensino médio aprovada pelo Congresso, embora exista pouco espaço para ouvi­ la. O fato é que há um grande déficit democrático nas escolas e no sistema educacional em geral. A superação do fosso social passa por dar informação, autoestima e voz aos alunos. É preciso ressaltar: vários jovens que aparecem no documentário dizem que a educação é única forma para saírem do banco de reservas da sociedade. Eles entenderam o que foi bem resumido por um dos maiores especialistas no assunto: o processo educacional é a porta para todos os direitos.

Tanto é verdade que os alunos acreditam na escola, almejando uma educação melhor e mais instigante, que ao final do filme eles dizem querer seguir vários caminhos profissionais: ser médico, psicólogo, cineasta, advogado, administrador, veterinário, dançarino, e tudo mais que seja desejável, inclusive fazer doutorado e estudar em Londres. O sonho mais
fantástico veio de uma aluna: se eu não for professora, quero ser presidente do Brasil.

O futuro do país e a criação de um país do futuro dependem da melhoria da escola pública, dando à juventude mais pobre as condições de viver melhor que seus pais, fazendo com que os filhos de hoje ensinem sua prole a sonhar. Claro que o processo educacional é uma tarefa de longo prazo, contudo, após ver as angústias e esperanças expostas no filme, é preciso gritar para que esse passo seja dado logo. Afinal, como na metáfora da tâmara apresentada pelo documentário, a educação é algo que "você planta, mas não colhe, alguém vai colher. O importante é você começar a plantar".



quarta-feira, 17 de maio de 2017

Documentário tenta 'desclichezar' debate sobre essa tal Geração Y


MARCELO SOARES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA




E essa geração dos vinte e poucos anos, hein? Ninguém sabe como lidar com eles. Moram com os pais; têm empregos, mas não carreiras; começam cursos e não acabam; têm relacionamentos efêmeros. Têm a mente acelerada pelas novas tecnologias, ignoram a história e às vezes largam tudo para ir morar no exterior.

Era assim que a Folha descrevia a "Geração X", numa capa da Ilustrada em fevereiro de 1993, quando os celulares pareciam tijolos, a internet só chegava a algumas universidades brasileiras e saber programar um videocassete para gravar a novela era a prova de que a molecada já nascia sabendo tudo de eletrônica.

Toda generalização automática a respeito de qualquer geração corre o sério risco de ser rasa, como adverte o documentário "Mind the Gap", produzido pela agência Talent Marcel e que, acompanhado de material de referência, estará disponível na internet nesta quinta-feira no site www.mindthegaptm.com.br.



O filme, que teve o apoio do canal Multishow na sua produção, é o resultado de uma pesquisa de 15 meses feita pela agência. Uma sondagem com 500 jovens procurou captar seus valores e 21 especialistas de dez áreas do conhecimento foram ouvidos, incluindo antropólogos, psicólogos, filósofos, empresários e até youtubers. O resultado é um mosaico complexo de opiniões matizadas.

"Precisamos 'desclichezar' o debate", disse o publicitário João Livi, principal executivo da agência, na pré-estreia do documentário. Um dos principais argumentos do trabalho é que "tentar definir é errar na mosca".

"O problema é a tentação de não pensar, de usar categorias prontas para poupar o pensamento", afirmou o psicanalista Pedro de Santi aponta que as principais diferenças estão no contexto de acesso à informação por parte da geração atual. 

Mas, até aí, toda geração reage ao seu contexto.

Nesse sentido, a atenção ao formato das mensagens é crucial para conquistar a atenção dos jovens. Porque também faz parte desse contexto uma ampla gama de alternativas possíveis. A informação sobre o que se deixa de lado ao fazer numa escolha está sempre ao alcance dos dedos, gerando o que estudos chamam de "paradoxo da escolha": quanto mais opções se tem, mais difícil é decidir.

O filósofo Luiz Felipe Pondé, colunista da Folha, lembra no filme que o debate sobre a "incrível geração" é um tanto quanto elitizado. Quem tem a opção de largar tudo e ir mochilar no exterior, para quem o trabalho é um fim e portanto exige satisfação plena, não é exatamente a maioria dos jovens, para quem o trabalho é um meio de vida. "Brincar de Y é caro", disse.

Os membros da geração que causava pânico moral por não ter rumo nos anos 90 estão hoje no comando, nas empresas e até governos - vide a eleição de Emanuel Macron, 39, na França, e a importância econômica mundial do Google, criado por homens que hoje têm 43, 44 anos. No andar das carroças, os tomates da perigosa "Geração X" viraram o establishment - e quem coça a cabeça para entender que raios querem os jovens da vez são eles.

Como lidar? No filme, a cineasta Georgia Guerra-Peixe conta alguns percalços que teve ao trabalhar com jovens de vinte e poucos anos e conclui: "o que funciona é a porta estar aberta".

terça-feira, 16 de maio de 2017

As maiores causas de morte de jovens no Brasil e no mundo, segundo a OMS

BBC

A violência interpessoal é a principal razão pela qual jovens de 10 a 19 anos perdem a vida precocemente no Brasil, revelou a Organização Mundial da Saúde (OMS) à BBC Brasil.

A informação vem de um estudo global sobre óbito de adolescentes , publicado nesta terça-feira. A OMS estima que 1,2 milhão de adolescentes morrem por ano no mundo - três mil por dia.

De acordo com a entidade, as principais causas de mortes entre adolescentes brasileiros de 10 a 15 anos são, nesta ordem: violência interpessoal, acidentes de trânsito, afogamento, leucemia e infecções respiratórias.

Já jovens na faixa de 15 a 19 anos morrem em decorrência de violência interpessoal, acidentes de trânsito, suicídio, afogamento e infecções respiratórias.

A OMS repassou esse ranking estimado com exclusividade à BBC Brasil, mas não ofereceu números absolutos para ilustrar a lista, pois o estudo foi organizado por regiões.

O Global Acceleration Action for the Health of Adolescents (Ação Global Acelerada para a Saúde de Adolescentes, em tradução livre) não avalia países individualmente, mas áreas econômicas do planeta. O Brasil está inserido na categoria "países de renda baixa-média das Américas".

A tendência observada dentro desse grupo também aponta a violência interpessoal como principal causa da morte, representando 43% dos óbitos.

"O Brasil se insere exatamente no perfil da região", disse à BBC Brasil, por email, Kate Strong, especialista da OMS para o monitoramento de crianças e jovens.

Violência interpessoal .

O conceito de violência interpessoal explorado no documento é bastante amplo, pois engloba desde a preponderante agressão relacionada às gangues e ao narcotráfico até o feminicídio.

"Inclui assassinatos, agressão, brigas, bullying, violência entre parceiros sexuais e abuso emocional", descreve o documento.

De acordo com números da edição de 2016 do relatório, publicado pela iniciativa Mapadaviolência.org.br, a situação é preocupante. "A principal vítima da violência homicida no Brasil é a juventude", afirma o documento nacional.

Nesse levantamento, que compilou dados de 2014, foi observado que jovens de 15 a 29 anos de idade representavam aproximadamente 26% da população do país, mas a participação deles no total de homicídios por armas de fogo era desproporcionalmente superior. O peso demográfico dos jovens nos casos de mortes com armas correspondem a quase 60% dos crimes.

No resto do mundo, as cinco principais causas de morte entre jovens de ambos os sexos, de 10 e 19 anos são: acidentes de trânsito, infecções respiratórias (pneumonia), suicídio, infecções intestinais (diarreia) e afogamentos.

Mais de dois terços dessas mortes ocorrem em países em desenvolvimento, revelam os dados de 2015 da OMS.

Dividindo por sexo, a estimativa aponta que, no mundo todo, meninos de 10 a 19 anos morrem principalmente por acidentes de trânsito, violência interpessoal, afogamento, infecção do sistema respiratório e suicídio.

As meninas da mesma faixa-etária têm mortes atribuídas a infecções do sistema respiratório, suicídio, infecções intestinais, problemas relacionados à maternidade e acidentes de trânsito.

Essas tragédias poderiam ser evitadas se os países investissem mais em educação, serviços de saúde e apoio social, diz a OMS.

"O período da adolescência é um momento particularmente importante para a saúde, porque definirá hábitos que terão impacto na qualidade de vida pelas próximas décadas. É nessa época que a inatividade física, a má dieta e o comportamento sexual de risco têm início", disse a OMS.

A organização critica a falta de atenção dada a essa faixa-etária da população nas políticas públicas. "Adolescentes estiveram completamente ausentes dos planejamentos de saúde nacional por décadas", lamentou Flávia Bustreo, DiretoramGeral assistente da OMS.

Soluções 

O documento aponta ainda soluções que podem ajudar a evitar essas mortes precoces. São sugestões de políticas públicas que podem ter grande impacto nas estatísticas. Um exemplo é a recomendações da implementação de leis e campanhas de conscientização pelo uso do cinto de segurança. Em 2015, acidentes de trânsito mataram 115 mil jovens de 10 a 19 anos no mundo todo.

O Brasil é citado no documento como caso bem sucedido no combate a mortes no trânsito. "Entre 1991 e 1997 o Ministério da Saúde do Brasil registrou aumento dramático na mortalidade de jovens em acidentes de trânsito", afirma o documento.

"Em resposta, legisladores introduziram um novo código de trânsito em 1998 que tornava mais severa as punições aos infratores". O novo código de trânsito teria ajudado a salvar 5 mil vidas no período entre 1998 e 2001 segundo a OMS.

Apesar de o trânsito ser um problema universal, há marcantes diferenças entre as regiões quanto às causas de óbito. Nos países de renda baixa-média da África, doenças transmissíveis como HIV-AIDS, infecções do sistema respiratório, meningite e diarreia são os principais vilões.

A anemia, doença causada pela deficiência de ferro no sangue, também é um mal muito comum, que atinge milhares de jovens no mundo todo em países pobres e ricos.

O suicídio, ou a morte acidental causada por atitudes auto-destrutivas, foi a terceira causa de mortalidade de adolescentes em 2015, totalizando 67 mil mortes. Em sua maioria, as vítimas são adolescentes mais velhos.

Em regiões com boas condições econômicas como a Europa, o suicídio também aparece entre as principais causas. Cortar a si mesmo é o tipo de auto-violência mais comum observado no continente.
A estimativa global da OMS é de que até 10% da população adolescente mundial cometa algum ato de violência contra si.

O documento recomenda fazer mais investimentos e dar atenção especial às pessoas nessa fase da vida, onde grandes frustrações e incertezas despontam: "jovens normalmente tomam responsabilidades de adultos como cuidar de irmãos menores, trabalhar, ter de abandonar os estudos, casar cedo, praticar sexo por dinheiro, simplesmente porque precisam dar conta das necessidades básicas de sobrevivência.

Como resultado, eles sofrem de desnutrição, acidentes, gravidez indesejada, violência sexual, doenças sexualmente transmissíveis e transtornos mentais", resume o documento.


"Uma família e uma comunidade que apoia os seus jovens são extremamente importantes", completa.

Entre as políticas básicas que os países devem tentar implementar para diminuir o risco de mortes precoces estão: programas de orientação sexual na escola, aumento da idade mínima para consumo de álcool, obrigatoriedade do uso do cinto de segurança nos automóveis e de capacetes para ciclistas e motociclistas; redução do acesso a armas de fogo, aumento da qualidade da água e melhoria da infraestrutura sanitária.