quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Entenda a importância dos dados do Pisa na avaliação do ensino

No próximo dia 06, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE divulga os dados do PISA 2015. Como sempre serão apresentados os resultados das provas de Língua Portuguesa, Matemática e Ciências. Neste ano, em especial, a ênfase será na prova de Ciências. Esta divulgação se torna ainda mais interessante dado que estamos em tempos de ENEM, acabamos de receber os dados da Prova Brasil e iniciando um processo de reforma do ensino médio. Quais serão as surpresas? Mais uma crônica de morte anunciada? A que devemos estar atentos?
O PISA é uma espécie de passaporte para a cidadania na sociedade do século XXI. O teste ao mesmo tempo sinaliza e atesta o nível de conhecimento e  capacidade dos jovens de 15 anos para lidar com temas do cotidiano – no universo social, de trabalho e escola.
Três importantes informações são fundamentais para avaliação do Pisa
  1. Idade dos alunos. O Programa é aplicado a alunos de 15 anos de idade, na maioria dos países esses jovens possuem cerca de 9 anos de escolaridade e estão iniciando o ensino médio.
  1. Na maioria dos países europeus e asiáticos, os alunos de ensino médio que fazem o PISA frequentam cursos médios técnicos, portanto a média desses países inclui os alunos do ensino médio acadêmico e técnico.
  1. O PISA não avalia conteúdos escolares com base nos currículos dos países, mas sim parte de uma matriz de conhecimentos e habilidades que os especialistas julgam que todo jovem precisa saber para sobreviver e agir produtivamente no mundo contemporâneo.
Ressalto a importância dessas informações tendo em vista a avaliação dos dados que estão por vir.
O Brasil participa do Programa desde sua primeira aplicação, em 2000. Nossos resultados têm sido bastante estáveis, as mudanças para melhor são poucas e, conforme já foi extensivamente analisado, derivam mais de fatores estruturais e extraescolares. Os dados mais recentes do ENEM e da Prova Brasil sugerem que não há razões para esperar mudanças bruscas ou grandes surpresas nos resultados dos alunos brasileiros.
Se não há perspectivas positivas para o Brasil, por que a divulgação do PISA suscita tanto interesse no mundo inteiro?
Alguns países vêm se dedicando com afinco à melhoria de sua educação e ficam de olho no Programa verificando se suas reformas estão realmente gerando resultados. A Finlândia é um desses países – que vem promovendo reformas muito ambiciosas e pouco ortodoxas – o que chama a atenção do mundo sobre os acontecimentos de tal país. Os países asiáticos são outro grupo que vem competindo com afinco para se manter nas primeiras posições e aumentar cada vez mais o contingente de alunos de alto desempenho.  A crise econômica que assolou os países da Europa e o elevado nível de desemprego entre os jovens pode ter contribuído para reduzir a expectativa sobre as vantagens de investir em educação – e será interessante observar se isso se reflete no Pisa. Ainda existem países que recentemente ingressaram na corrida por uma educação de qualidade – Polônia, por exemplo – e que ainda esperam avanços significativos.
A ênfase do teste de 2015 em Ciências será sempre um motivo importante para avaliar o nível de preparo dos jovens na compreensão do mundo contemporâneo, ajudando no avanço às fronteiras do conhecimento em que uma sociedade onde a ciência e a tecnologia transformam não apenas o trabalho, mas as profissões e suas condições em que são exercidas. Este é um bom momento para rediscutir esses temas e pensar com mais afinco a respeito dos currículos escolares.
Por fim, o PISA tem procurado inovar ao tentar avaliar habilidades e competências que tradicionalmente ficavam fora do escopo de testes educacionais. São tentativas ainda embrionárias – mas que são instigantes e podem provocar boas reflexões não apenas sobre o que se deve ensinar, mas sobre as formas de ensino que melhor preparam os jovens para os desafios do futuro.

Como ajudar uma pessoa que está pensando em suicídio

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Para a autora, a dramaturga Camila Appel, a morte é o próximo tabu --depois do sexo-- a ser quebrado. Blog traz informações, entrevistas e o desenvolvimento do tema pelas diversas áreas do pensamento. http://mortesemtabu.blogfolha.uol.com.br/

É desolador perceber que alguém próximo de nós esteja pensando em suicídio. Optamos por não ver, não acreditar, e secretamente nos sentimos impotentes, sem saber o que fazer, sem saber como ajudar. Mas a chance de termos alguém querido, ou conhecido, numa situação grave de desespero emocional é alta. É mais comum do que imagina.
Não é um assunto muito bem-vindo no happy hour de sexta-feira, mas caso queira arriscar a pergunta, poderá ver que mais de uma pessoa da sua mesa está em um situação parecida. Um colega mais reflexivo pode até questionar quais são os sintomas de um comportamento suicida para mapear as pessoas de sua vida em busca de sinais de alerta. A categoria “suicídio” desse blog serve para isso. Compartilhar informações a respeito, seus sinais, mitos envolvidos, como prevenir, como ajudar, e divulgar grupos de apoio para esse luto tão complicado.
Um pensamento comum de pessoa em risco de vida é: eu não sou o suficiente, eu não sou bom pai o suficiente, bom marido o suficiente, bom filho o suficiente, bom amigo ou bom funcionário o suficiente, eu simplesmente não basto. Desse pensamento surge a culpa. Um peso enorme por achar que o mundo estaria melhor sem ele. Esse peso torna-se insuportável e encontra alívio em pensamentos de morte.
A maioria dos suicídios ocorre de forma calculada e não por impulso. A pessoa costuma, inclusive, avisar. Uma notícia muito boa é que, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), o suicídio é possível de ser prevenido. Segundo algumas cartilhas já exploradas aqui, a principal ferramenta que você tem para ajudar é a compreensão: escutar o outro. Buscar entender sua angústia e não desqualificá-la dizendo coisas como: “ah, mas tem gente que passa fome e você aí, cheio de comida na geladeira reclamando da vida”. Essa forma de relativizar a dor de quem não vê mais espaço para si no mundo, não ajuda. Ao contrário, tende a agravar o problema.
Essa relativização aumenta o peso na consciência do suicida, que verá nisso mais um motivo para julgar a si mesmo: “poxa, eu não sou mesmo bom o suficiente para o mundo. Com tanta gente passando fome e eu aqui reclamando de boca cheia. Eu não tenho motivos para me sentir assim, eu não presto, eu não mereço viver”. Dizer que a pessoa tem filhos dependendo dela também pode ter o efeito contrário – “eu tenho filhos lindos e mesmo assim penso em morrer, eu só trago dor aos que amo, na verdade eles ficariam melhor sem mim”.
Sugerir ajuda médica, psiquiátrica, é sempre um passo fundamental. Nuery José Botega, psiquiatra, professor titular da Unicamp, sócio fundador da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio é autor de diversos livros na área. O último, “Crise suicida: avaliação e manejo” (ed. Artmed), está disponível na livraria da Folha, na Livraria Cultura, nas Lojas Americanas, no Submarino etc. Neury esclareceu ao blog um questionamento comum: devemos perguntar diretamente à pessoa se ela está pensando em se matar? Ele diz que sim.
Teríamos medo de fazer essa pergunta por dois motivos principais: medo de estimular o ato ao perguntar sobre ele e medo de se responsabilizar pela pessoa caso a resposta for um sim. “Não tenha medo de perguntar porque a sua pergunta não é capaz de induzir o suicídio de ninguém. E não fique sozinho com o temor de que uma pessoa possa se matar. Não fique com a responsabilidade de que você dará conta da vida de alguém. Não precisa ter o sentimento de onipotência, de que só você pode salvar a pessoa. Peça ajuda.” A pergunta direta seria, por tanto, benéfica. Ela é importante para o outro sentir-se compreendido, poder se abrir e nesse compartilhar da dor ter um pouco do alívio que busca.
Para Neury, há alguns sinais de um comportamento suicida. Muitas vezes não os enxergamos devido ao que ele chama de cegueira banalizadora e cegueira emocional. “O tabu impede que a gente veja os sinais que às vezes estão muito claros. Eu posso banalizar, não acreditar na possibilidade. Você vê o sinal mas não acredita que aquilo vá realmente acontecer. Considera que a tragédia (de vivenciar um suicídio) é algo distante, que só ocorre com o outro. Há algo ainda mais anterior e mais profundo que seria próximo à uma cegueira emocional – que me permite não ver que alguém está sofrendo, porque me causaria sofrimento. É melhor fazer de conta que aquilo não está acontecendo. É uma cegueira quase inconsciente”.
Alguns desses sinais são: presença de um distúrbio mental grave como depressão crônica, transtorno bipolar e alcoolismo. Neury comenta que “não é todo mundo que tem essas doenças que se mata, mas quando você pega o histórico dos suicidas, é mais comum que tenham apresentado esses tipos de distúrbios”. Ele diz ser importante prestar atenção nos sinais de agravamento e crises. Por exemplo, no caso do transtorno bipolar, há a mudança de fases com instabilidade afetiva muito grande. São períodos de maior impulsividade, descontrole do álcool, insônia e isolamento. Devemos prestar atenção em mudanças no padrão de conduta.
No caso da depressão, Neury diz haver algumas frases que podem ser interpretadas como sinais e devem ser levadas em consideração. Como dizer que “a vida não vale a pena”, e que “não há luz no fim do túnel”. E, principalmente, o comentário direto de que existe o pensamento de morte. “Quando eu dou aula de prevenção do suicídio, eu costumo usar a seguinte imagem: Cão que ladra, morde. Pode até haver um componente manipulador na ameaça, mas não adianta focar nesse componente do comportamento. Uma orientação que eu dou é: leve a sério uma ameaça de suicídio”.
Neury ressalta que há suicídios que ocorrem sem a presença de um distúrbio mental e são estimulados por um colapso emocional instantâneo. “O fenômeno do suicídio traz à tona todo nosso drama existencial. É o ápice de uma situação de muito sofrimento”. Cada pessoa pode desabar por motivos diferentes. A adolescente pode se matar por ter fotos nuas expostas na internet, e um pai de família pode se jogar de um prédio devido à crise econômica.
Neury utiliza em aula um acrônimo para falar sobre o assunto: ROC. “R” é de “risco” e significa que devemos levar em consideração que há um risco real de suicídio. “O” é de “ouvir” o outro, com respeito e sem julgamentos e o “C” é de “conduzir”. “Uma pessoa que está muito mal, não tem a motivação ou iniciativa para marcar uma consulta com um profissional de saúde. Precisamos conduzi-la, marcar e levá-la”, conclui o psiquiatra.
É importante estar atento. O suicídio tem aumentado no Brasil e no mundo – 60% nos últimos 45 anos. É uma epidemia silenciosa, ou melhor, silenciada. Alguém próximo de você pode estar passando por isso. Alguém que você ama pode não ver saída para uma angústia sem fim. Mostre que o mundo não ficará melhor sem essa pessoa e que há saídas, há recursos, há empatia, há tolerância, há união, e, acima de tudo, há ajuda disponível– ela não está sozinha. Nem você.

EDITORIAL Ensino reprovado

É hora de aprender a ensinar, mais do que debater as teorias sobre ensino.

Data de mais de década o diagnóstico de que a melhora do ensino público brasileiro depende de uma revalorização da profissão docente. Mestres qualificados, motivados e motivadores, são essenciais para o aprendizado.

Desse consenso nasceu a proposta de um piso salarial para professores, adotado em 2009. Hoje é de R$ 2.135,64, por 40 horas semanais. O ganho real em seis anos, descontada a inflação, foi de 46,5%.

Na média do país, o professor de educação básica com diploma de nível superior recebe R$ 2.613 mensais. Embora seja quase o triplo do salário mínimo, esse rendimento é mais baixo do que o de outros profissionais de nível superior.

Expressiva valorização houve, portanto, ainda que aquém do desejável. A possibilidade de recrutar professores entre os melhores estudantes universitários depende de salários atrativos, mas não só deles —condições de trabalho e as perspectivas profissionais também pesam.

Tudo somado e subtraído, a carreira docente ainda se acha longe de ser atraente para os melhores. Na realidade, ela continua a arregimentar alunos com notas baixas, como indicam os resultados de um levantamento acabrunhante.
O estudo foi realizado pelo Inep, instituto de pesquisa do Ministério da Educação. 

Um monitoramento das notas recebidas no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) por calouros das faculdades de pedagogia, constatou que quase um quinto não atingia nem sequer o escore mínimo de 450 pontos.

Essa pontuação equivale a responder corretamente 6 a 8 questões do exame, de um total de 45. É a nota exigida para conseguir um financiamento no Fies ou para obter um diploma de ensino médio, no caso de quem tem mais de 18 anos e está fora da escola.

Pior figura fazem os futuros professores na comparação geral com ingressantes no ensino universitário. Na média, só 9,9% do total fica abaixo dos 450 pontos, contra 19,1% dos estudantes de pedagogia. Em carreiras concorridas, como medicina, o contingente com pior desempenho cai para 1,6%.

São números a lamentar, pois significam que o Brasil se encontra numa deprimente espiral de mediocridade: alunos mais fracos transformam-se em professores que provavelmente terão dificuldade de realizar sua missão a contento.

Não basta pagar melhor. Há que investir em reciclagem profissional e estabelecer mecanismos que premiem experiências bem-sucedidas e desempenhos meritórios. É hora de aprender a ensinar, mais do que debater as teorias sobre ensino.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

"Agora tenho diploma. E aí?". Ou o Brasil está desperdiçando capital humano ou não está conseguindo formar um número suficiente de profissionais qualificados no ensino superior. Provavelmente, uma combinação dos dois.

érica fraga
Èrica Fraga
É jornalista com mestrado em Economia Política Internacional no Reino Unido. Venceu os prêmios Esso, CNI e Citigroup. Mãe de três meninos, escreve sobre educação.


O Brasil pode estar jogando capital humano no lixo

Ou o Brasil está desperdiçando capital humano ou não está conseguindo formar um número suficiente de profissionais qualificados no ensino superior. Provavelmente, uma combinação dos dois.

Milhares de profissionais com ensino superior foram empurrados para ocupações de menor qualificação em 2015, como mostrou reportagem publicada na Folha neste domingo

O movimento foi efeito da recessão. Mas uma análise dos dados da Rais (Relação Anual de Informações Sociais) revela que, embora tenha se acentuado, a tendência é anterior à crise.

DESPERDÍCIO DE DIPLOMA

Aumento de vagas ocupadas por profissionais com ensino superior (entre 2008 e 2014)
Embalador a mão
35.081
Vendedor de comércio varejista
14.015





Recepcionista em geral
10.337
Almoxarife
7.872
Operador de caixa
7.804
Faxineiro
4.620
Vigia
3.536
Porteiro de edifícios
3.204
Cobrador interno
2.261
Babá
1.662
Varredor de ruas
1.305
Servente de obras
1.015
Contínuo
914
Garçom
521
Frentista
346
Embalador a mão


Entre 2008 e 2014, o mercado de trabalho formal brasileiro estava em franca expansão. A tabela abaixo mostra que, nesse período, 15 profissões de baixa e média qualificação - como vendedor de comércio, faxineiro, vigia, servente de obras, varredor de rua e babá - criaram 94.493 vagas para profissionais com ensino superior (considerando admissões menos demissões).

Comparada à geração total de mais de três milhões de posições para trabalhadores com diploma universitário no mesmo período, esse crescimento pode parecer pequeno; equivale a pouco menos de 3% do total.

Mas o aumento de vagas para essas 15 profissões acende um sinal amarelo quando examinado sob outros ângulos.


Ele equivale, por exemplo, a quase o dobro das 53.146 vagas de engenheiro com ensino superior geradas entre 2008 e 2014 (incluindo os 67 diferentes tipos de engenharia recenseados pela Rais).

Enquanto as 15 ocupações da tabela acima registraram um avanço de 0,5 ponto percentual em seu peso no total de trabalhadores com diploma universitário ocupados, a fatia dos engenheiros encolheu quase nessa mesma proporção.

Outra ponderação é que há muitas outras ocupações de baixa e média qualificação que ampliaram sua participação no estoque de brasileiros empregados no mercado formal com ensino superior. Essas 15 representam apenas uma seleção feita a título de ilustração.

É claro que muitas profissões tipicamente de ensino superior - como médicos, enfermeiros, administradores, farmacêuticos e contadores - também ampliaram a oferta de vagas nos últimos anos. Isso é positivo.

Mas era de se esperar que, num país onde empregadores e especialistas apontavam um apagão de mão de obra qualificada, não tivesse ocorrido uma alocação tão expressiva de graduados em ocupações menos sofisticadas.

Essa tendência provavelmente tem várias explicações. A baixa qualidade de muitos cursos de ensino superior criados nos últimos anos é uma delas.

A outra é o descasamento entre o que o mercado de trabalho brasileiro demandava no auge de sua expansão (engenheiros, por exemplo) e o que o mercado de graduados ofertava (muitas ocupações na área de humanas).

Com a profunda recessão que ainda vivemos, é provavelmente melhor para esses profissionais estar em vagas de menor qualificação do que entre os milhões de desempregados brasileiros.

Mas isso não significa que o país (governo, universidades, empresas) não deva parar e pensar seriamente sobre essa questão.

Vale a pena formar universitários que terminarão fazendo faxina? A intenção dessa reflexão não é, de forma alguma, desmerecer os importantes profissionais que executam essa e outras funções de menor qualificação e que também contribuem para o desenvolvimento do país.

Mas é preciso aumentar a transparência em relação às possibilidades de mercado oferecidas por cada carreira, em cada instituição de ensino superior, para que as pessoas individualmente e a sociedade como um todo possam decidir no que querem investir.

A coluna de quatro semanas atrás falou sobre estudos que mostram que, no Chile e na Colômbia, muitas pessoas com ensino superior nunca recuperam o investimento feito para cursar uma faculdade.

A pedagoga Patrícia Ferreira Perote - que hoje faz faxina enquanto procura uma vaga de professora ou babá - se pergunta se esse será o seu caso.

"Não é vergonha ter diploma universitário e limpar casa como estou limpando, mas fico me perguntando se valeu a pena tanto esforço", afirma ela que ainda não terminou de pagar a graduação terminada em 2013.

Patrícia perdeu o emprego de professora em agosto passado. Ela conta que se desdobrou para aumentar sua escolaridade depois de ver a família passando por sérias necessidades na sua infância e escutar as pessoas dizerem: "sem estudo, você não consegue nada".

"Agora tenho diploma. E aí?". 

Abandono escolar de jovem tem custo igual a gasto do país com ensino médio

O problema é que, a cada ano no país, o número dos que não avança é enorme.

érica fraga
Érica Fraga
É jornalista com mestrado em Economia Política Internacional no Reino Unido. Venceu os prêmios Esso, CNI e Citigroup. Mãe de três meninos, escreve sobre educação.


O trabalhador que tem ensino médio consegue renda bem maior do que aquele que para no fundamental.

Cada brasileiro que conclui todo o ciclo da educação básica acumula ao longo da vida, aproximadamente, R$ 15 mil (trazidos a valores de hoje) a mais do que seus pares que ficam para trás.

O problema é que, a cada ano no país, o número dos que não avança é enorme.

Cerca de 900 mil jovens de 17 anos —espantosos 25% do total— fogem do script todos os anos, pelas mais variadas razões, e não completam o ensino médio.

Se somarmos o que todos eles deixam de ganhar, temos que o custo privado total da evasão na última etapa do ensino básico é de quase R$ 14 bilhões por ano.

Os cálculos são do especialista Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper. E ele vai além.

Com base no que indicam pesquisas internacionais, Paes de Barros também estimou o chamado "custo social do abandono" no ensino médio.

O jovem que sai da escola prematuramente tem mais chance de se envolver com violência. O gasto público com um adolescente encarcerado é muito maior do que com um aluno de ensino médio.

Esse jovem tem maior probabilidade de usar drogas, o que pressiona as despesas com saúde pública.

Ele acaba pagando menos impostos. E assim por diante.

Tudo isso entra na conta do custo social do abandono escolar pelo jovem.

Segundo Paes de Barros, se a adição de todos esses fatores como percentual da nossa renda per capita for semelhante ao verificado em outros países, temos um prejuízo de cerca de R$ 35 bilhões por ano.

Somando, portanto, o custo do abandono escolar pelo jovem para as pessoas individualmente e para a sociedade como um todo, chegamos a um prejuízo de quase R$ 50 bilhões por ano no Brasil.

Paradoxalmente, esse é o valor que o setor público do país investe anualmente no ensino médio.

Ou seja, a mesma quantia que é gasta de um lado, é perdida de outro.

Esses números ajudam a dimensionar a gravidade e a urgência do tema no Brasil.

Temos demorado —e falhado— tanto que chegamos a um ponto em que precisamos entender melhor as causas do abandono e apontar soluções para saná-las ao mesmo tempo.

Em um estudo que está conduzindo, apoiado por Instituto Unibanco, Insper, Instituto Ayrton Senna e Fundação Brava, Paes de Barros tenta identificar o que está por trás da elevada evasão escolar no Brasil.

O objetivo da pesquisa, ainda em fase preliminar, é munir os gestores educacionais com evidências que ajudem a orientá-los sobre os caminhos mais eficazes.

Até agora, Paes de Barros e sua equipe identificaram 124 práticas pedagógicas distintas que vêm sendo aplicadas pelo Brasil afora no ensino médio.

É um sinal claro de que estamos atirando para todos os lados, com muito pouca evidência comprovada da eficácia do que está sendo feito nas escolas.

Isso ajuda a explicar por que temos falhado miseravelmente com nossos jovens e por que o custo dessa falha é tão alto para o país.


Por que você não faz nada?

Gustavo Ioschpe
Vencedor do Prêmio Jabuti 2005, pelo livro “A ignorância custa um mundo – o valor da educação no desenvolvimento do Brasil”, o economista Gustavo Ioschpe é fundador e presidente da G7 Investimentos, empresa que atua na área de produção de conteúdos, e articulista da revista “Veja”. Foi colunista da “Folha de S. Paulo”, “Gazeta Vargas” e revista “Educação”. É autor dos livros: “Como passar no vestibular da UFRGS” (Artes e Ofícios, 1995) e “Vestibular não é o bicho” (Artes e Ofícios, 1996). Formado em Ciência Política e Administração Estratégica pela Universidade da Pensilvânia, Ioschpe fez mestrado em Economia Internacional e em Desenvolvimento Econômico pela Universidade de Yale, nos EUA.

O grupo que publica a revista The Economist tem um braço de pesquisas, chamado Economist Intelligence Unit. Um dos seus produtos é um indicador conhecido como Democracy Index, que anualmente analisa quase 200 países e quantifica, com base em dezenas de indicadores, a força da democracia de cada país.
Na edição de 2014 (disponível em twitter.com/gioschpe), o Brasil aparece em 44º lugar entre 167 países (o campeão é a Noruega, e a Coreia do Norte é a lanterninha). O resultado nos coloca na segunda categoria, das Democracias Falhas. Abaixo das Democracias Plenas, mas acima dos Regimes Híbridos e dos Regimes Autoritários. O ranking olha para cinco atributos.
O cidadão apático é o viabilizador dos maus líderes
O curioso é que, em três dos cinco, temos notas condizentes com as das melhores democracias do mundo: processo eleitoral, liberdades individuais e funcionamento do governo. Por que, então, vamos para a segunda divisão? Porque em participação política, de zero a 10, nossa nota é 4,44, a mesma de Mali, Zâmbia, Uganda e Turquia, e abaixo da de países como Iraque, Etiópia, Quênia e até Venezuela.
Este é o paradoxo da democracia brasileira: lutamos tanto por ela, e não a usamos. Uma geração inteira brigou pelo retorno da democracia representativa, mas levou a substitutiva. Em uma democracia representativa, a cidadania ativamente demonstra suas vontades, e elas são canalizadas por seus representantes. Na versão brasileira, a democracia não começa na urna: termina nela. Parece que apertar uma tecla a cada quatro anos é a nossa concepção de governo “do povo, pelo povo e para o povo”. Verificado o desastre, voltamos às urnas, quatro anos depois, para eleger a mesma combinação de ineptos e corruptos. E, mesmo sabendo do insucesso do modus operandi, nós o repetimos. Alguém já disse que um dos sinais da loucura é continuar fazendo a mesma coisa e esperar que o resultado seja diferente…
E o melhor é quanto reclamamos, furibundos, das pessoas que nós mesmos colocamos no poder. Muita indignação e pouca ação, os males da nossa democracia são.
Até entendo que em algumas questões mais etéreas e distantes, como pedaladas fiscais e comissões em sondas petrolíferas, pareça mais complicado fazer algo. Também entendo que algumas camadas da população – aquelas que nem bem alfabetizadas são e que precisam trabalhar de sol a sol apenas para garantir a sobrevivência – não tenham compreensão, tempo nem energia para se engajar nas causas públicas. Mas não consigo entender como é que gente instruída e preparada, que frequentemente já passou algum tempo em países desenvolvidos e rapidamente identificou neles as virtudes que nos faltam, aqui parece achar que o problema não é com ela. E, apesar de pesquisar o assunto há uns quinze anos, confesso que entendo menos ainda essa apatia quando o tema é a educação nacional, que tem um papel tão importante na preparação para a vida dos nossos maiores tesouros (nossos filhos). Como podemos deixar que nossas escolas sejam as porcarias que são, produzindo iletrados ignorantes aos milhões, todo ano? A propósito, o problema não se restringe às escolas públicas. Como já mencionei aqui diversas vezes, 80% a 90% da diferença de desempenho entre nossas escolas públicas e particulares é explicável pela condição sociocultural do alunado. Se você colocasse o seu filho em uma escola pública, o desempenho dele cairia só 10% a 20%, portanto. Claro que temos, em um país com as dimensões do Brasil, excelentes escolas particulares e públicas também. Mas, em geral, as escolas públicas são péssimas e as privadas, apenas um pouco menos ruins.
O único lugar em que o sucesso vem antes do trabalho é o dicionário
O que me leva a você. Por que você não faz nada? Certamente você se importa com a qualidade da educação que seu filho vai receber, não? Sei, você não tem tempo. Trabalho, casa, correria etc. Agora me diga uma coisa: você vê novela? Seriado americano? Acompanha o seu time de futebol? Dorme mais de sete horas por noite? Se respondeu “sim” a alguma dessas perguntas, desculpe, mas tempo você tem. Até porque, como veremos abaixo, não precisa de muito tempo, não. Eu sei, ninguém é de ferro, todo mundo precisa relaxar. Mas primeiro o trabalho, depois a diversão. Como se divertir quando o país está claramente indo para o buraco? Você planeja mandar seus filhos para a Suíça ou eles morarão no país que você construir? Caso o plano seja continuar por aqui, que tal arregaçar as mangas?
Ah, talvez a sua discórdia seja conceitual. Você acha que já paga imposto que chega e que não pode fazer o seu trabalho e o do político também. Concordo. Mas, como diz o ditado, na prática, a teoria é outra. Tenho más notícias para você: é a sua inércia que permite que os seus eleitos não façam nada (ou, pior, que façam a coisa errada). Louis Gerstner, ex-CEO da IBM, dizia que “people don’t do what you expect, but what you inspect“: não adianta esperar, é preciso inspecionar, conferir, pressionar. O cidadão apá­tico é o viabilizador dos maus líderes. Eles vivem em uma relação simbiótica em que todo o resto do país é parasitado. Por que nos­­sos líderes não implantam, por exemplo, um sistema que consiga alfabetizar todos os alunos no 1º ano? É simples: porque, para fazê-lo, vão precisar se incomodar com os professores e os sindicatos da categoria. Precisarão fixar metas, exigir empenho e resultados, olhar para processos, mudar material didático, coibir faltas, idealmente conseguir que as faculdades de sua região formem um profissional decente em vez do repetidor de slogans e teorias que produzem hoje. Isso dá trabalho e conflito. Por que o fariam? Porque a população deveria reconhecer o esforço e valorizá-los. E aí a contrariedade de meia dúzia ficaria irrelevante em relação ao aplauso de milhares. Mas, no Brasil, esse aplauso não vem. Porque os pais e alunos nem sabem quão ruim é sua escola e, quando descobrem, deixam por isso mesmo. Há muitos casos, que nem Freud explica, em que pais e alunos defendem greves absurdas de professores, que prejudicam enormemente o aprendizado de nossos jovens. A mensagem para os líderes bem-intencionados é clara: convém não fazer nada. Ninguém vai reclamar. Se o seu prefeito ou governador soubesse que você valorizaria uma ação mais incisiva, a maioria deles tomaria as suas dores, não tenha dúvida.
“Mas fazer o quê?”, você se pergunta. A primeira coisa é fazer o dever de casa. Escolha a escola do seu filho de forma a maximizar o aprendizado dele, não o seu conforto. Escola boa não é a escola perto de casa: casa boa é a casa perto da escola, isso sim. Como saber se a escola do seu filho é boa? O primeiro bom indicador é o Enem, e, para as públicas, também o Ideb. Depois, é importante visitar a escola, conversar com pais de alunos. Peça para conversar com o diretor da escola. Diretor que recebe os alunos no portão de entrada, diariamente, e está aberto ao diálogo com os pais é um bom sinal. Diretor que visita as salas de aula com frequência também. Procure uma escola que tenha a infraestrutura em dia (salas limpas e arrumadas, com cadeiras, carteiras e quadro-negro), não aquelas que investem em balangandãs tecnológicos, a maioria dos quais não tem eficácia comprovada. Veja também como a escola seleciona professores (o ideal é que ela faça com que o candidato a lecionar dê uma aula a uma banca examinadora e que privilegie os que vêm de boas universidades; o modelo a ser evitado é aquele que só se preocupa com o resultado de uma prova/concurso). Pergunte também se a escola diferencia seus professores, se procura saber quem são os melhores e os piores, e se faz alguma coisa para reter os melhores (nas escolas privadas, o salário é a ferramenta óbvia; mas mesmo nas públicas é possível e desejável que os melhores professores sejam acompanhados e estimulados. Fuja das escolas que tratam os desiguais de forma igual). Veja também se a direção da escola estabelece e comunica metas claras de aprendizagem. O ideal é que todos saibam os conteúdos e habilidades que os alunos precisam dominar em cada matéria, de cada bimestre, de cada série. Escolas opacas, na linha do “fica tranquilo, nós é que entendemos disso”, costumam ter os piores resultados.
Em segundo lugar, escolhida uma escola boa, os pais não devem relaxar e terceirizar. Precisam ter certeza de que o filho está recebendo dever de casa, diariamente, e que seus deveres estão sendo corrigidos. É importante que haja avaliação permanente (a boa e velha prova) e que o aluno tenha de estudar constantemente. É difícil absorver um conhecimento e levá-lo à memória de longo prazo sem repetição contínua, e a prova é que garante que o mesmo material será revisto com cuidado (além de servir de termômetro para que o professor calibre sua didática quando nota que muitos alunos não aprendem bem). Evite escolas com muita avaliação “moderna”, tipo autoavaliação, trabalho em grupo etc. Já disse um sábio que o único lugar em que o sucesso vem antes do trabalho é o dicionário. Na vida e na escola. Certifique-se de que seu filho só falta à escola por motivos realmente sérios (se você faz com que ele perca uma semana de aula para levá-lo à Disney em época conveniente para você, depois não vá querer que ele aprecie a importância da educação… Se você diz uma coisa e faz outra, seus filhos replicarão aquilo que você faz). Certifique-se também de que seu filho trata professores e colegas com respeito. E compareça às reuniões de pais da sua escola.
Depois de fazer isso pelo seu filho, faça-o por alguém que terá dificuldades de fazer o mesmo. Uma empregada, um colega de trabalho, um amigo mais perdido na vida: tem muita gente que passou poucos anos na escola ou se sente inferiorizada socialmente, a ponto de não ousar questionar a escola do filho. Precisamos quebrar essas barreiras. Todo mundo paga pela escola do filho, quer via mensalidades, quer via impostos. A escola pública é nossa, não de seus funcionários. Eles devem nos prestar contas, não o contrário. Ajude aqueles que têm mais dificuldades para entender isso. E dê aos filhos dessas pessoas chances parecidas com as do seu filho.
Se você realmente não tem tempo, doe dinheiro a boas instituições. Há dezenas. Fundação Lemann, Roberto Marinho, Estudar, Instituto Ayrton Senna, Insper, Todos pela Educação… Essas eu conheço e recomendo, mas procure aquela que se encaixa na sua filosofia.
Indo do privado para o público: faça pressão nos seus representantes locais. Cada cidade terá o seu problema; tenha apenas a preocupação de pressionar por algo que melhore o aprendizado dos alunos, não a infraestrutura da escola ou algo secundário. Recomendo uma lei que obrigue que os resultados de cada escola sejam divulgados publicamente. Está tudo pronto no site www.idebnaescola.org.br. Pode acreditar: às vezes não é preciso mais do que dez pessoas que liguem ou mandem e-mails a um vereador para que o projeto seja aprovado.
Finalmente, vote direito. Escolha prefeitos e governadores que melhoraram os indicadores de aprendizado dos seus alunos. Não nos que investem mais, que distribuem laptops, que falam de planos mirabolantes ou mostram vídeos em que beijam criancinhas na época de campanha. Vote em quem entrega resultado, medido pelo Ideb. Para deputados, veja se o candidato fala de meios – salário de professor, investimento, ensino integral – ou de fins. Prefira os que falam de fins (aprendizado) e que não presumem que aquilo que é bom para o professor é bom para o aluno.
Eu sei, você não é especialista. Há muito mais coisas que você poderia fazer se fosse. Mas não precisa ser. Na maioria de nossas escolas, nem o básico do óbvio é feito; se você ajudar com esse pequeno empurrão, e ajudar alguém a se ajudar também, pode ter certeza de que fará uma enorme diferença.
Fonte: Veja, 27/06/2015.

A utopia sufoca a educação de qualidade

Gustavo Ioschpe
Vencedor do Prêmio Jabuti 2005, pelo livro “A ignorância custa um mundo – o valor da educação no desenvolvimento do Brasil”, o economista Gustavo Ioschpe é fundador e presidente da G7 Investimentos, empresa que atua na área de produção de conteúdos, e articulista da revista “Veja”. Foi colunista da “Folha de S. Paulo”, “Gazeta Vargas” e revista “Educação”. É autor dos livros: “Como passar no vestibular da UFRGS” (Artes e Ofícios, 1995) e “Vestibular não é o bicho” (Artes e Ofícios, 1996). Formado em Ciência Política e Administração Estratégica pela Universidade da Pensilvânia, Ioschpe fez mestrado em Economia Internacional e em Desenvolvimento Econômico pela Universidade de Yale, nos EUA.

"Se a diferença que mais impacta a qualidade de vida das pessoas é a de renda, e se a fonte principal de renda é o trabalho, então precisamos de um sistema educacional que coloque ricos e pobres em igualdade de condições para concorrer no mercado de trabalho"

Um dos males que assolam nossa educação é a esperança vã de pensadores e legisladores de que uma escola que mal consegue ensinar o básico resolva todos os problemas sociais e éticos do país. Eles criaram um sistema com um currículo imenso, sistemas de livros didáticos em que o objetivo até das disciplinas científicas é formar um cidadão consciente e tolerante. Responsabilizaram a escola pela formação de condutas que vão desde a preservação do meio ambiente até os cuidados com a saúde; instituíram cotas raciais e forçaram as escolas a receber alunos com necessidades especiais. A agenda maximalista seria uma maneira de sanar desigualdades e corrigir injustiças. O Brasil deveria questionar essa agenda.

Primeira pergunta: nossas escolas conseguem dar conta desse recado? A resposta é, definitivamente, não. Estão aí todas as avaliações nacionais e internacionais mostrando que a única igualdade que nosso sistema educacional conseguiu atingir é ser igualmente péssimo. Copiamos o ponto final de programas adotados nos países europeus sem termos passado pelo desenvolvimento histórico que lhes dá sustentação.

Segunda pergunta: esse desejo expansionista faz bem ou mal ao nosso sistema educacional? Será um caso em que mirar no inatingível ajuda a ampliar o alcançável ou, pelo contrário, a sobrecarga faz com que a carroça se mova ainda mais devagar? Acredito que seja o último. Por várias razões. A primeira é simplesmente que essas demandas todas tornam impossível que o sistema tenha um foco. Perseguir todas as ideias que aparecem -- mesmo que sejam todas nobres e excelentes -- é um erro. Infelizmente, a maioria dos nossos intelectuais e legisladores não tem experiência administrativa, e acredita ser possível resolver qualquer problema criando uma lei. No confronto entre intenções e realidade, a última sempre vence. A segunda razão para preocupação é que, com uma agenda tão extensa e bicéfala -- formar o cidadão virtuoso e o aluno de raciocínio afiado e com conhecimentos sólidos --, sempre é possível dizer que uma parte não está sendo cumprida porque a prioridade é a outra: o aluno é analfabeto, mas solidário, entende? (Com a vantagem de que não há nenhum índice para medir solidariedade.) E, finalmente, porque quando as intenções ultrapassam a capacidade de execução do sistema o que ocorre é que o agente -- cada professor ou diretor -- vira um legislador, cabendo a ele o papel de decidir quais partes das inatingíveis demandas vai cumprir. Uma medida que deveria estimular a cidadania tem o efeito oposto: incentiva o desrespeito à lei, que é a base fundamental da vida em sociedade.

Terceira pergunta: mesmo que todas essas nobres intenções fossem exequíveis, sua execução cumpriria as aspirações de seus mentores, construindo um país menos desigual? Eu diria que não apenas não cumpriria esses objetivos como iria na direção oposta. Deixe-me dar um exemplo com essas novas matérias inseridas no currículo do ensino médio -- música, sociologia e filosofia. A lógica que norteou a decisão é que não seria justo que os alunos pobres fossem privados dos privilégios intelec-tuais de seus colegas ricos. O que não é justo, a meu ver, é que a adição dessas disciplinas torna ainda mais difícil para os pobres se equiparar aos alunos mais ricos nas matérias que realmente vão ser decisivas em sua vida. A desigualdade entre os dois grupos tende a aumentar. A triste realidade é que, por viverem em ambientes mais letrados e com pais mais instruídos, alunos de famílias ricas precisam de menos horas de instrução para se alfabetizar. É pouco provável que um aluno rico saia da 1ª série sem estar alfabetizado, enquanto é muito provável que o aluno pobre chegue ao 3º ano nessa condição. O aluno rico pode, portanto, se dar ao luxo de ter aula de música. Para nivelar o jogo, o aluno pobre deveria estar usando essas horas para se recuperar do atraso, especialmente nas habilidades basilares: português, matemática e ciências. É o domínio dessas habilidades que lhe será cobrado quando ingressar na vida profissional. Se esses pensadores querem a escola como niveladora de diferenças, se a diferença que mais impacta a qualidade de vida das pessoas é a de renda, e se a fonte principal de renda é o trabalho, então precisamos de um sistema educacional que coloque ricos e pobres em igualdade de condições para concorrer no mercado de trabalho. O que, por sua vez, presume uma educação desigual entre pobres e ricos, fazendo com que a escola dê aos primeiros as competências intelectuais que os últimos já trazem de casa. Estou argumentando baseado em uma lógica supostamente de esquerda (digo supostamente porque, nesse caso, é transparente que as boas intenções dos revolucionários de poltrona só aprofundam as desigualdades que eles pretendem diminuir).

O mercado de trabalho valoriza mais as habilidades cognitivas e emocionais não porque os nossos empregadores sejam mesquinhos, mas porque, em um mercado competitivo, precisam remunerar seus trabalhadores de acordo com sua produtividade. Essa é a lógica inquebrantável do sistema de livre-iniciativa. Não adianta pedir ao gerente de recursos humanos que seja “solidário” na hora da contratação e leve em conta que os candidatos à vaga vêm de origens sociais diferentes, porque, se o recrutador selecionar o funcionário menos competente, o mais certo é que em breve ambos estejam solidariamente no olho da rua. Não conheço nenhum estudo que demonstre o impacto de uma educação filosoficamente inclusiva sobre o bem-estar das pessoas. Mas há vários estudos empíricos sobre a desigualdade no Brasil. O que eles informam é assustador: o fator número 1 na explicação das desigualdades de renda é, de longe, a desigualdade educacional (disponíveis em twitter.com/gioschpe). Ao criarmos uma escola sobrecarregada com a missão de não apenas formar o brasileiro do futuro mas corrigir as desigualdades de 500 anos de história, nós nos asseguramos de que ela se tornará um fracasso. A escola não pode fracassar, pois é a alavanca de salvação do Brasil.

O tipo de escola pública que queremos é uma discussão em última instância política, e não técnica. É legítimo, embora estúpido, que a maioria dos brasileiros prefira uma educação que fracasse em ensinar a tabuada mas ensine bem a fazer um pagode. Acrescento apenas uma indispensável condição: que a população seja informada, de modo claro e honesto, sobre as consequências de suas escolhas. Quais as perdas e os ganhos de cada caminho. O que é, aí sim, antidemocrático e desonesto é criar a ilusão de que não precisamos fazer escolhas, de que podemos tudo e de que conseguiremos obter tudo ao mesmo tempo, agora. Infelizmente, é exatamente isso que vem sendo tentado. Nossas lideranças se valem do abissal desconhecimento da maioria da população sobre o que é uma educação de excelência para vender-lhe a possibilidade do paraíso terreno em que professores despreparados podem formar o novo homem e o profissional de sucesso. Essa utopia, como todas as outras, acaba em decepção e atraso. Essa pretensa revolução, como todas as outras, termina beneficiando apenas os burocratas que a implementam.