segunda-feira, 28 de novembro de 2016

“A escola perdeu sua função social no Brasil”, diz estudioso

Para especialista, missão primordial de transmitir conhecimento vem sendo esmagada pela ideologia que reduz a educação a ferramenta de dominação
João Batista Oliveira: "a função histórica e antropológica da escola é transmitir conhecimento"
João Batista Oliveira: "a função histórica e antropológica da escola é transmitir conhecimento"

Por Bianca Bibiano - 10 nov 2014, 06h15
http://veja.abril.com.br/educacao/a-escola-perdeu-sua-funcao-social-no-brasil-diz-estudioso/


Pouca gente discorda que é papel da escola transmitir os conhecimentos imprescindíveis ao desenvolvimento do indivíduo e, por tabela, do país. Para o estudioso João Batista Oliveira, contudo, a missão vem sendo esmagada no Brasil por políticas mais interessadas em propagandear números grandiosos e por ideologias cujo interesse passa longe da educação. O resultado é o fracasso do ensino no país. “Perdemos a noção da função social da escola. Ela deixou de ser cobrada pelo cumprimento de suas obrigações essenciais e passou a ser cobrada por milhares de coisas que ela não tem condição de fazer, como cuidar da educação sexual, educação para o trânsito, para o consumo etc.”, diz Oliveira. A história de como se deu esse processo é dissecada no livro Repensando a Educação Brasileira, que chega às livrarias nesta semana, em que o pesquisador discute qual é, enfim, a função da escola e propõe medidas para recolocar nos trilhos professores e escolas. Oliveira atuou durante vinte anos como consultor do Banco Mundial e da Organização Internacional do Trabalho e ajudou a implantar projetos de educação em mais de sessenta países. No Brasil, foi secretário executivo do Ministério da Educação e, desde 2006, está à frente do Instituto Alfa e Beto, organização não governamental que promove a alfabetização em redes públicas de ensino. Em dezembro, a ONG vai realizar pela primeira vez o Prêmio Prefeito Nota 10, iniciativa que vai identificar e recompensar o município brasileiro que mantém a melhor rede de ensino do país. Confira a seguir a entrevista que ele concedeu a VEJA.com.
Como o senhor vê o atual debate sobre educação no Brasil? Em nosso país, não há debate. A educação é tratada somente do ponto de vista de leis, regulamentos, aumento de vagas, interesses de professores e sindicatos. A política de educação sempre foi pautada pela ideia de crescimento. Ou seja, mesmo que país esteja vendo sua taxa de natalidade cair, ainda se vendem promessas de mais vagas, além de mais tempo na escola, mais disciplinas no currículo, mais regulamentação. É uma estratégia que interessa aos políticos, porque gera emprego para professores e mais construções para somar ao orçamento, que caem bem em período eleitoral. De certo modo, essa visão distorceu o debate, que virou um discurso de carências: falta isso, falta aquilo. As políticas governamentais induziram a essa situação e eliminaram os espaços para discutir outras questões, como a aprendizagem do aluno. No quadro atual, o estudante é mais um subproduto desse debate. Na outra ponta, existe a responsabilidade da academia, com professores e pesquisadores que rechaçam qualquer ideia contrária a suas ideologias. Eles fazem uma doutrinação ideológica e antiquada de que educação é um objetivo de dominação e de controle e que a pedagogia não interessa.
Biblioteca
Repensando a Educação Brasileira
Repensando a Educação Brasileira
Repensando a Educação Brasileira (VEJA)
O livro, que chega às livrarias nesta semana, faz uma análise histórica dos fatores que moldaram o sistema educacional brasileiro desde a criação das primeiras escolas nacionais até as políticas públicas mais recentes. Na obra, o autor apresenta ainda propostas para corrigir rumos em áreas como formação de professores e financiamento público
Autor: João Batista Oliveira
Editora: Salta; 208 páginas; 60 reais
De onde surgiu essa ideia? Nas décadas de 1970 e 1980, sob a influência dos movimentos populares que cresceram na França em 1968, houve uma inflexão no discurso pedagógico brasileiro. Até então, ele era razoavelmente formalista, sempre com uma parte legal muito forte, assim como a atuação marcante do Conselho Nacional de Educação. Do ponto de vista pedagógico, era razoável. Era normal falar em currículo, cobrar do professor conhecimento de sua disciplina, aprovar o aluno que sabe e reprovar o que não sabe, tudo dentro de uma concepção acrítica e ingênua. Isso era natural, como o é dizer que a mãe deve amar e amamentar seus filhos. Ideias apoiadas nas teorias de Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, na França, e de Paulo Freire, no Brasil, que afirmavam que a escola reproduz desigualdades sociais porque ensina só aquilo que os burgueses querem. Com eles, ou não se ensina nada ou se ensina a fazer revolução. Enquanto os demais países passaram pela contestação e mudaram o discurso, no Brasil a ideia se tornou uma crítica hegemônica e permanente.
Como esse pensamento chegou à sala de aula? As faculdades que formam professores foram dominadas por essas pessoas. Eu tenho amigos que ainda atuam nas faculdades de educação e a vida deles é um inferno, porque não há espaço para diálogo. Tiraram dos currículos dos cursos de pedagogia métodos quantitativos e aulas de estatística, porque as pessoas que dominaram os cursos eram contra essas ideias. Enquanto isso, muitos países avançaram e passaram a medir o ensino e atacar as deficiências baseados em dados empíricos. Ao mesmo tempo, temos uma sociedade de baixa renda que não cobra melhorias, porque segue o discurso político de que mais é melhor. Segundo esse discurso, há mais escolas, uniforme, transporte, merenda, mais chances de ir à universidade: logo, não se poderia dizer que a educação está uma porcaria. Não há, contudo, contestação da qualidade. Já para as classes média e alta, é confortável essa situação, porque elas precisam fazer muito pouco para competir com a mediocridade. Não há, por exmeplo, disputa de vaga na USP com o mercado internacional. A elite deita em berço esplêndido e é acomodada.
Pensando do ponto de vista econômico, não seria mais interessante pleitear melhor educação e garantir desenvolvimento para o país? Com certeza. É tão necessário que eu não consigo entender por que os empresários são tão bonzinhos em relação à questão da educação brasileira. Todo mundo sabe que o maior recurso das economias modernas são as pessoas, ou seja, seu conhecimento e competências. Isso vale mais que soja, ouro, pré-sal. Os países com que competimos vão ganhar a competição na medida em que tiverem gente mais bem preparada. Gente capacitada é dinheiro, e os empresários sabem disso. Não dá para entender essa vocação suicida das elites empresariais. Só reclamar por mais cursos técnicos não adianta, porque não é só a mão de obra treinada que importa. Quanto mais gente bem formada tiver no país, independente do curso, melhor será para a economia. Talvez seja fruto do bom mocismo daqueles que esperam o apoio do BNDES sem criticar nada. O empresariado seria o principal ator para forçar uma mudança. Eles têm recursos, bons modelos de gestão, conseguem influenciar leis no Congresso, reduzir impostos. Enfim, têm uma força brutal que, se colocada para cobrar mudanças na educação, faria uma revolução.
O que é possível fazer para mudar esse quadro? Além de contar com a influência do empresariado, também é preciso rever a tônica do debate. Precisamos ir mais fundo, nos perguntar o que é a educação. Afinal, perdemos essa noção. A escola deixou de ser cobrada pelo cumprimento de suas obrigações essenciais e passou a ser cobrada por milhares de coisas que ela não tem condição de fazer, como cuidar da educação sexual, educação para o trânsito, para o consumo etc. A escola perdeu sua função social.
Qual é, afinal, essa função? A meu ver, a função histórica e antropológica é transmitir conhecimento. Conhecimento que é relevante para o desenvolvimento das pessoas, ou seja, aquele proveniente das disciplinas básicas: matemática, instrumentos da lógica, linguagem, ciências. Mas os professores são contra ensinar, são contra transmitir conhecimento, tudo naquela lógica da ideologia que já citei. Por isso, há movimentos tão fortes contra a implantação de um currículo nacional. Esses grupos são contra currículo não só por uma questão pedagógica: trata-se de um problema ideológico. Eles acham que a escola não pode definir o que deve ser ensinado. Mas, sem isso, o Brasil sai perdendo. Se não há um currículo, não dá para saber o que ensinar e como avaliar e formar o professor. Nós perdemos o fio da meada enquanto os outros países, que também passaram por mudanças, mantiveram o foco no que deve ser ensinado. O conceito do que é educação precisa ser recomposto, mas isso é difícil, porque os que manipulam a sociedade seguem apenas uma linha de pensamento hegemônico e não estão abertos a discussão.
Como o senhor avalia as mais recentes políticas que tratam do ensino, como o Plano Nacional de Educação (PNE), sancionado pela presidente Dilma Rousseff em junho? Como não temos a cultura da educação, onde se cria a definição de escola, nós não temos também as instituições que compõem o sistema educacional. Nós não temos uma ideia clara do papel do professor, do gestor, do currículo. Nós temos, se muito, uma ideia de avaliação, como Enem e Prova Brasil, e uma ideia de financiamento, ou seja, quem paga a conta. No mais, nenhuma outra instituição. Na falta disso, a política educacional se baseia em planos como o PNE, sujeitos a descontinuidade e que fracassam em 70% dos casos, como já foi comprovado por outros estudiosos. É tudo feito no vácuo cultural, sem as instituições, que também são parte da cultura. A educação no Brasil é uma terra arrasada.
No livro, o senhor propõe mudanças na avaliação e financiamento do ensino. Como? A primeira delas é uma mudança na avaliação do ensino. A interpretação dos índices educacionais do país é feita como em uma tabela de campeonato, mirando em quem tem a melhor ou pior nota. E na educação não se pode fazer isso. Aquela escola que tem a melhor nota não é, necessariamente, a que tem o melhor ensino. Isso depende do aluno, da família, do DNA, não só da escola. É preciso descontar esses fatores para encontrar o efeito diferencial. Há inúmeros estudos nesse sentido, um deles do atual presidente do Inep (órgão do Ministério da Educação responsável pelas avaliações), Francisco Soares. Ele diz que a melhor escola é aquela que acrescenta mais conhecimento ao aluno, descontando todos os fatores que não são da escola. É importante ressaltar o efeito escola e não só dizer que uma ou outra é melhor. O segundo ponto é o financiamento. Dado que temos uma mudança na demografia e um índice de repetência muito alto, uma abordagem de choque seria fazer investimentos em educação proporcionais à sua população do Estado ou município, e não ao número de alunos, como é feito hoje. Isso daria mais flexibilidade para os entes da federação escolherem como querem dividir investimebntos nos diferentes níveis do ensino. Um caminho é incentivar a política de municipalização do ensino, que entrou em debate, mas não foi levada adiante.
O senhor também trata da questão da formação do professor. O que fazer? Não podemos pensar o professor em partes, temos que olhar o todo. É preciso repensar os meios de contratação, a formação inicial, os planos de carreira, de estágio probatório e de avaliação. Tem que ser uma equação para atrair os melhores profissionais, oferecer bons curso, bons estágios, carreiras interessantes e, é claro, colher resultados na aprendizagem do aluno. Um plano que se concretiza a longo prazo. Enquanto isso, no curto prazo, é preciso pensar em políticas de transição. O Brasil insiste em pegar qualquer pessoa sem formação e acha que vai prepará-la para o magistério oferecendo-lhe um curso de 30 horas. Não vai. A transição tem que estar associada à mudança, pensando em mecanismos de contratação e demissão e, acima disso, pensando no que esses professores sem formação vão ensinar enquanto isso.
Como se define isso? Com sistema de ensino estruturado e consistente. Imagine que o professor da sala A ensina fração de um jeito e o da sala B, de outro. É um caos. Como isso é de fundo ideológico, baseado no discurso de que o professor tem que ter autonomia total para definir o que ensina, pior fica. Os professores não tem condição de exercer autonomia. Escola boa tem que ser autônoma e poder desenhar seu próprio currículo, mas tem que ter articulação para fazer isso. O que vemos são pessoas exigindo o controle de tudo. Sou a favor de o professor só ter autonomia quando tiver condições necessárias para exercê-la. Você só dá a chave de casa para a criança que tem juízo. Pensando do ponto de vista do aluno, como a categoria central do sistema educativo, o resto se perverte. Não faz sentido pensar no direito do professor, do interesse da categoria, se o aluno está diante de um professor que não foi bem formado. O que é melhor: dar autonomia ou orientar para que ele faça algo que ajude o aluno?
Recentemente, um grupo de professores no Quênia passou a utilizar roteiros de aula que devem ser seguidos à risca. Como parte da metodologia, o docente não pode ampliar a aula para além do roteiro. Um estudo mostrou avanços significativos no desempenho dos alunos. O senhor acha que, em casos extremos, essa seria uma alternativa? Claro, o ensino estruturado é isso. Há estudos que mostram que os países com pior desempenho educacional são os que mais demonstram melhorias quando adotam materiais estruturados para as aulas. Óbvio que são medidas curativas, mas é o tipo de estratégia adequada enquanto se conserta a base do sistema. Até lá, não se pode dar autonomia para quem não tem condições. Contudo, o que se nota pelas revoluções educacionais dos países que hoje estão no topo lista do Pisa (avaliação de educação mundial feita pela OCDE) é que eles seguem as mesmas práticas, que incluem currículo, mas vão além, envolvendo formação de professores, definição de estrutura escolar, organização do sistema de ensino, orientações para cursos superiores que formam docentes. No Brasil, cada um pensa de um jeito e não vejo caminhos para melhorias a partir da lógica atual.


OS ÓRFÃOS DO PROGRESSO

MILHÕES DE CRIANÇAS CHINESAS FORAM DEIXADAS PARA TRÁS, NO CAMPO, POR PAIS QUE SEGUIRAM PARA A CIDADE EM BUSCA DE EMPREGO. ALEC ASH VIAJOU ATÉ UM VILAREJO DISTANTE, NAS MONTANHAS DE GUIZHOU, E CONHECEU ALGUMAS VÍTIMAS DO DESENVOLVIMENTO ACELERADO

ALEC ASH, PUBLICADO ORIGINALMENTE NA THE ECONOMIST 1843. BEATRIZ VELLOSO, TRADUÇÃO

Economia;China;Yang Xiaojun (à esq.) e Yang Dousheng  (no centro) brincam com um amigo (Foto: Liz Hingley)
Os pequenos generais
Yang Xiaojun (à esq.) e Yang Dousheng (no centro) brincam com um amigo ao lado de um estábulo em construção: longe dos pais, crianças passam parte dos dias soltas (Foto: Liz Hingley)

O mundo de Yang Xiaojun vai do bosque de bambus na encosta da montanha ao último campo de arroz que entra vale adentro. Ele tem 6 anos de idade, pode fazer o que quiser e não deve satisfações a ninguém. Ao lado de seu irmão mais novo, Yang Dousheng, e de um grupo de amigos, ele circula como e quando bem entende pelas fronteiras desse território. Nada o impede de rasgar a roupa num arbusto ou rolar numa poça de lama depois da chuva. Ele faz jus ao próprio apelido: Pequeno General. As outras crianças fazem parte do seu pelotão. Juntas, elas dominam o pedaço.

Cada novidade é um jogo; cada objeto, um brinquedo. Um monte de pedregulhos se transforma num outeiro a ser escalado – e, chegando ao cume, a garotada salta lá de cima. Um pneu abandonado se transforma em carruagem, uma vara de bambu vira lança, um galho faz as vezes de clava. Um banco de pedra vira pódio, obstáculo de corridas e quadro-negro. Todas as manhãs, o avô de Xiaojun deixa dois yuans (R$ 0,90) para o neto. Numa economia feita de balas que custam 1 mao (R$ 0,6) cada, a diária deixada pelo avô tem valor inestimável: os doces são trocados por outras coisas, ou compartilhados, e os papéis são largados pelo chão. Durante o dia, esse exército de crianças movidas a açúcar corre solto, sem supervisão. É raro ver adultos circulando por ali.

Os pais ausentes desses meninos e meninas ganham dimensões quase míticas. Eles existem sobretudo nas histórias contadas pelos avós, ao lado de heróis ancestrais e do Rei Macaco. Perguntadas sobre o paradeiro dos pais, as crianças citam províncias distantes: Guangdong, Zhejiang, Fujian. Às vezes a resposta se resume a “chuqule”: eles saíram. É um eufemismo comum para se referir a trabalhadores migrantes. Para um garoto de 6 anos, as palavras têm pouco significado, e falar dessas províncias é mais ou menos como dizer que os pais estão na lua. Aos olhos de Yang Xiaojun, o universo conhecido termina depois da curva da única rua que atravessa a cidade, nos arredores do vilarejo de Paimo, em meio às montanhas de Guizhou, onde ele nasceu.

Xiaojun e seus amigos são órfãos do progresso. Seus pais foram embora tempos atrás, para ganhar dinheiro nas cidades industriais que cresceram na esteira do boom econômico chinês. Raramente os filhos os seguem. E é muito caro contratar alguém para cuidar das crianças enquanto os pais trabalham. Além disso, o governo limita o acesso dos filhos de migrantes às escolas, com o objetivo de controlar os efeitos da urbanização acelerada. Os netos acabam ficando sob os cuidados de avós que têm pouco controle sobre os pequenos. É uma história comum. Não é difícil encontrar vilarejos no campo onde a população é composta apenas por velhos e crianças, onde o grosso da população em idade ativa partiu para a cidade em busca de emprego. Seus filhos e filhas são conhecidos como “os deixados para trás”.

De acordo com uma estimativa da Unicef, 29 milhões de crianças chinesas perderam ambos os pais para um emprego num lugar distante, e 61 milhões (quase a população da Grã-Bretanha, ou o equivalente a todas as crianças que vivem nos Estados Unidos) perderam um dos pais da mesma maneira. Há tempos as autoridades chinesas não parecem inclinadas a se solidarizar com as dificuldades impostas aos pais migrantes pela realidade econômica e pelas regras do hukou (registro de domicílios). Zou Ming, vice-ministro de assuntos civis, já declarou: “Alguns pais irresponsáveis têm filhos e os deixam para trás, sem cuidados, causando graves prejuízos à saúde física e mental dessas crianças”. No início deste ano, o Conselho Estatal da China reconheceu a dimensão do problema e anunciou propostas para reduzir os impactos da migração, oferecendo cuidados para crianças nas regiões agrícolas e incentivos para que os pais levem os filhos caso se mudem para outra cidade.

As medidas são resultado de alguns efeitos dolorosos dessa tendência. Em meados do ano passado, na província de Guizhou – uma das mais pobres da China –, quatro irmãos “deixados para trás”, com idade entre 5 e 14 anos e vivendo em condições miseráveis, cometeram suicídio ingerindo veneno para insetos. De acordo com a imprensa estatal, eles prepararam um bilhete curto: “Obrigado por sua bondade. Sabemos que você quer o nosso bem, mas agora temos que ir”. Três anos antes, na cidade próxima de Bijie, cinco meninos de rua morreram intoxicados por fumaça depois de entrar num contêiner de lixo e acender um fogo para se aquecer.

EM VILAREJOS DO INTERIOR, A POPULAÇÃO SALTA DA ADOLESCÊNCIA PARA A VELHICE. OS ADULTOS MIGRARAM

Paimo fica no sudeste da província, uma região rural pobre, porém, menos miserável. Aqui vivem as minorias étnicas Miao e Dong, e também aqui começa a famosa topografia de carstes do sul da China: a paisagem não é tão exótica quanto as “montanhas dentadas” de Guilin, mas veem-se os primeiros sinais de saliências no relevo. Cada centímetro de terreno arável na encosta das montanhas é forrado por um carpete de campos de arroz, inundado de águas pluviais até a borda do campo adjacente. No verão chove praticamente todas as noites, e os trovões ecoam pelo vale. As libélulas zunem pelo ar e os insetos rastejam pelo chão. Uma frase poética em chinês diz que, do céu, cai “um mar de nuvens”. No horizonte, há uma permanente faixa de neblina.

Paimo fica a duas horas de carro da cidade mais próxima. O vilarejo é feito de casas de madeira com tetos de telha, espalhadas às margens de uma rua em formato de U, que abraça a montanha. Trilhas lamacentas sobem e descem pela encosta, para além dos campos e de outras casas escondidas na vegetação. De acordo com a contagem dos moradores, o vilarejo tem pouco mais de 450 casas. As estatísticas oficiais registram 2 mil moradores – quase todos têm o sobrenome Yang. O consenso geral é de que metade da população foi embora. A palavra Paimo pode ser traduzida como “desarrumado”. Se o nome tivesse sido uma escolha deliberada, não poderia ser mais adequado: nesta cidade onde a maioria dos habitantes tem menos de 8 ou mais de 60 anos, reina uma sensação de desarranjo e abandono.

Eu passei seis dias em Paimo. Em poucos lugares da China me senti tão acolhido. Por ser remota e declarada uma “região étnica autônoma”, a cidadezinha é, em muitos sentidos, uma sociedade autossuficiente e fechada em si. Os adultos de Paimo vão embora rumo ao resto da China, mas o resto da China não quer saber de Paimo. Os agricultores cultivam tudo o que comem e não precisam de quase mais nada. A maioria das refeições inclui arroz e legumes fritos, ou brotos de bambu mergulhados numa pasta caseira de pimenta. Nas datas especiais, mata-se um leitão, come-se um peixe de rio ou um balde cheio de caramujos com conchas espiraladas – animais que habitam os campos de arroz. Quase todas as casas fermentam o próprio vinho branco feito de arroz, que serve para afastar o frio noturno (e também para acordar um ou outro habitante pela manhã).

A montanha oferece alguns luxos ocultos: tabaco produzido localmente, fumado em cachimbos talhados a partir de compridas varas de bambu com uma pequena tigela de argila presa à ponta. Na loja de balas, os cachimbos são vendidos por 1,5 yuan. Nos arbustos é possível encontrar framboesas selvagens e folhas de mostarda chinesa – mas é preciso saber onde procurar. Há também plantas de índigo, de onde se extrai uma tinta azul-escuro usada para tingir tecidos feitos em tear – uma tradição da minoria Miao. Hoje em dia, a maioria dos moradores vai à cidade comprar a tinta e o tecido. A etnia Miao é conhecida na China por suas roupas religiosas coloridas, mas a cultura desse povo vai além. Paimo pode ser imediatamente identificada como um vilarejo Miao graças ao enfeite azul que as mulheres mais velhas carregam na cabeça.

É este o reino comandado por Xiaojun e pelos outros pequenos generais. Quando cheguei, os meninos ficaram com vergonha daquele estrangeiro alto, que aparentava ter a idade de seus pais. Mas eu trazia balas nos bolsos – e é claro que ninguém havia aconselhado aquelas crianças a não aceitar comida de estranhos. No segundo dia da visita eu já havia me transformado na grande atração local. No terceiro, meu ar de novidade havia se apagado e eu já me sentia como se fizesse parte do grupo, seguindo os garotos pela cidade. Seis meninos que viviam com o nariz escorrendo foram os que conheci melhor: Yang Xiaojun e seu irmãozinho Dousheng (há algum tempo as minorias chinesas ganharam permissão para ter dois filhos); Yang Chengliang e Chengjin, que moravam na casa de baixo; e Yang Hao e Li Haifo, filhos dos anfitriões que abrigaram a mim e ao fotógrafo.

Quando fora da escola, eles se ocupam com qualquer distração que faça o tempo passar. Numa manhã de sábado eu os vi subir até o topo da montanha mais alta e se pendurar nos galhos das árvores como macacos; depois, escorregaram numa pilha de material de construção que estava ao lado de um estábulo semierguido, e foram enfiar os braços na água de um campo de arroz para ver até onde ia a lama. Uma das distrações preferidas é uma brincadeira inventada por eles mesmos: numa espécie de jogo de bafo, eles batem com as mãos em concha sobre uma pilha de pequenas cartas e tentam virá-las com a face para cima; as cartas de valor mais alto ganham das menores, até que um dos meninos fica com o baralho completo. Duas vezes ao dia eles retornam à casa dos avós para fazer as refeições quentes. Fora isso, vivem espalhados pela vila.


A UNICEF ESTIMA QUE 29 MILHÕES DE CRIANÇAS CHINESAS PERDERAM AMBOS OS PAIS PARA UM EMPREGO DISTANTE

A vida dessas crianças está mais para As Aventuras de Huckleberry Finn do que para Senhor das Moscas. Durante a minha estadia, elas não brigaram e nem se dividiram em grupos rivais. Era uma gangue de iguais, compartilhando dores e alegrias. Se um deles caía, machucava o joelho e começava a chorar, os outros se juntavam para ajudar. Nada mais natural: não havia nenhum adulto por perto para fazer esse papel. Enquanto eu tentava decorar os nomes de cada um, perguntei quem era irmão de quem. “Ele é meu irmão”, respondeu Xiaojun, apontando para um garoto que evidentemente não era seu irmão. “E ele é o meu irmão”, disse outro, soltando uma risada rouca. Todos começaram a apontar uns para os outros e dizer que eram irmãos. Embora fosse apenas mais uma brincadeira, parecia verdade.

O mundo de Yang Peihua é seu pedaço no campo de arroz. Aos 61 anos, o avô de Xiaojun ainda trabalha na terra todos os dias. Ele se levanta antes do sol nascer e alimenta o passarinho que mora na gaiola pendurada no alto da varanda de madeira. Depois, tira seu búfalo do pequeno estábulo e puxa o animal encosta abaixo, por uma trilha lamacenta e escorregadia, até chegar ao campo. No caminho, Peihua passa por um pequeno santuário enfeitado com penas coloridas e tigelas de bebidas alcoólicas, cheirando a incenso umedecido. Então ele tira as sandálias plásticas dos pés e passa para trás do búfalo, vestindo um short roxo, uma camiseta velha e amarela e uma meia no pé direito, amarrando uma corda comprida ao redor do tornozelo. Ele remexe a lama em busca do arado de metal, tangendo o búfalo para que ele comece a andar. Juntos, homem e animal desenham linhas ao redor do campo, durante horas, revirando o solo firme até a hora de voltar para casa e preparar o almoço dos netos. Depois ele desce a montanha novamente, para o trabalho da tarde.

À semelhança de todos os moradores do vilarejo, a profissão de Peihua é a agricultura familiar. O pouco alimento que sobra para ser vendido mal cobre os parcos gastos domésticos e alguns remédios. A família vive em Paimo há cinco gerações, e ele viveu boa parte dos anos de turbulência histórica na China. (“A Revolução Cultural foi o período mais amargo”, ele me disse, fumando seu longo cachimbo de bambu. “Agora está bem melhor.”) Mas quando seu filho mais velho, Yang Chenggui, virou adulto, todos os jovens em idade ativa já haviam saído de Paimo em busca de trabalho – a maioria rumo a fábricas em cidades perto do litoral, onde o salário era bem mais alto. Chenggui decidiu ir também, e partiu há 12 anos.

Seis anos mais tarde ele retornou, casado com Luo Honglan. Xiaojun nasceu na casa da família, e dois anos depois veio Dousheng. Marido e mulher logo voltaram para a fábrica, e desde então os meninos são criados pelos avós. Quando Xiaojun e Dousheng eram pequeninos, a mulher de Yang Peihua, Zhang Xiuyin, carregava os bebês nas costas, embrulhados num pano tingido no tradicional estilo Miao (todas as avós da cidade têm um pano parecido). Avô e avó iam trabalhar no campo, levando o búfalo e os netos.

Algumas lembranças do filho Chenggui estão espalhadas pela casa. Um diploma escolar amarelado, do ano de 1997. Uma foto do pai abraçando os filhos na festa do ano-novo chinês, quando o casal ganhou folga e passou duas ou três semanas com a família. Dois carrinhos de brinquedo, um vermelho e outro amarelo, presentes que os pais deixaram para os meninos. “Não queríamos que ele fosse embora”, disse Peihua, num tom seco. “Mas aqui ele não ganharia dinheiro, e a vida está mais cara agora.”

Sempre que eu perguntava a alguém sobre a situação das crianças deixadas para trás, a resposta era a mesma: “O que é que eu posso fazer?” É um refrão muito repetido na China, “mei banfa”. Significa, literalmente, “não tem outro jeito”. Todo mundo diz isso, dos motoristas de táxi em Pequim aos executivos estressados nos escritórios. Em Paimo, a frase é quase um mantra. O custo de vida está aumentando enquanto o preço do arroz continua o mesmo: “O que é que eu posso fazer?”. Quase ninguém vem comprar os tecidos tingidos porque a vila é muito distante: “O que é que eu posso fazer?”. As crianças vão crescer longe dos pais: “O que é que eu posso fazer?”.

O consenso geral é de que meninos e meninas estariam em situação ainda pior se os pais não tivessem ido embora – e, em muitos sentidos, isso é verdade. Paimo simplesmente não tem recursos suficientes para sustentar todos. Alguns pais procuram trabalho mais perto, na cidade de Danzhai, próxima à saída da nova autoestrada construída no pé da montanha. A região está em desenvolvimento (ao lado de um canteiro de obras, um cartaz diz: “combater a pobreza e melhorar de vida, no mesmo ritmo”). Investimentos oficiais têm o objetivo de urbanizar os arredores, mas mesmo os donos de pequenos negócios ou os operários da construção ganham menos do que os trabalhadores das fábricas.
Economia;China;Zhang Xiuyin com os netos Yang Dousheng e Yang Xiaojun (Foto: Liz Hingley)
Mãe-avó
Zhang Xiuyin com os netos Yang Dousheng e Yang Xiaojun: quando bebês, ela os amarrava em um pano nas costas e ia trabalhar com o marido no campo (Foto: Liz Hingley)

O governo, porém, não oferece nenhuma ajuda significativa. Yang Xuelan, minha anfitriã, disse ter ouvido falar de programas estatais que deveriam ajudar as crianças deixadas para trás. “Mas aqui na nossa vila não chegou um centavo sequer.” Depois da primeira tragédia em Bijie, em 2012, quando os cinco meninos morreram tentando se aquecer num contêiner de lixo, o governo municipal criou um fundo especial de 60 milhões de yuans (R$ 28 milhões) para enfrentar o problema e acompanhar todas as crianças que vivem nas ruas. Passada a tragédia do suicídio dos irmãos, em 2015, observadores independentes não encontraram nenhum vestígio de uso dos recursos para auxiliar as crianças.

A melhor ajuda vem de organizações beneficentes. Uma ONG (não registrada) com sede em Guiyang, capital da província, que distribui alimentos e roupas às famílias carentes da região, foi expulsa de Bijie pelas autoridades locais porque estava chamando a atenção para a situação de abandono das crianças. Sob a condição de anonimato, o fundador me disse que o governo central “até tem consciência da situação, mas a ajuda oficial acaba indo parar nas mãos de quem tem poder na região”. Ele acrescentou que, em relação às crianças, “o maior problema é segurança e educação”, além do possível “impacto negativo sobre a personalidade”, causado pela ausência dos pais na fase de crescimento.

Depois da nossa entrevista, saímos para jantar com amigos dele que trabalham em outras ONGs. O grupo incluía representantes de uma instituição que envia professores das cidades para o campo e da Liga Jovem Comunista – que, segundo me contou, entusiasmado, faz um trabalho de “orientação dos pensamentos da juventude”. Quando a conversa chegou às crianças deixadas para trás, o grupo começou a conversar entre si. O fundador da ONG com quem eu havia falado mais cedo afirmou: “A verdade é que não temos muito como ajudar esses meninos e meninas. A melhor coisa a fazer seria ajudá-los a ficar perto dos pais. Mas não podemos forçar os adultos a voltar para casa, e é impossível fazer as crianças irem junto com os pais. O que podemos fazer?”.

Paimo é grande o bastante para contar com uma escola de ensino fundamental. São duas casas, com um pátio, um escorregador e duas tabelas de basquete debruçadas sobre os campos ao sul da vila. As paredes azulejadas do pátio interno são pintadas com imagens de famílias felizes. Todos os dias de manhã, de segunda a sexta, os jovens alunos formam fileiras no pátio e seguem rotinas de exercícios que parecem danças, ao som metálico da música que sai de alto-falantes. O refrão de uma das canções era de partir o coração: “Mamãe, papai, me abracem”. Nessa parte da coreografia as crianças colocavam os braços ao redor dos próprios ombros e balançavam o tronco.

As três séries do ensino fundamental têm 59 alunos ao todo. Na casa vizinha, a creche tem mais ou menos o mesmo número de crianças. A maioria delas vai cursar o segundo ciclo do ensino fundamental no povoado de Yangwu, na periferia da cidade de Danzhai. São mais seis anos de ensino gratuito e obrigatório. Na prática, muitas abandonam os estudos. Menos da metade dos alunos do ensino fundamental II nas regiões rurais da China chega até o ensino médio. Para a maioria das crianças que vive nessas áreas – mesmo aquelas cujos pais não foram embora –, o maior obstáculo é a dificuldade de acesso a bons professores e recursos. Sem isso, a maior parte dos alunos não tem chance de entrar numa boa escola de ensino médio, e muito menos numa universidade. E assim eles acabam indo trabalhar nas fábricas, como seus pais e mães.

Numa manhã de domingo, eu estava sentado ao lado de Xiaojun e Dousheng quando os meninos receberam um telefonema dos pais. A ligação chegou pelo celular de Peihua (o aparelho é de uma marca antiga, V*WAL, com memória para salvar um único número). Com uma lentidão aflitiva, o avô finalmente encontrou o botão para atender à chamada em viva voz, de modo a escutar melhor. Depois de conversar com o filho no dialeto Miao, ele passou o telefone para Xiaojun, que falou com os pais num mandarim monossilábico.

“MEI BANFA” É UM TERMO COMUM NA CHINA. SIGNIFICA “NÃO TEM JEITO” . VIROU MANTRA NA VILA DOS MIGRANTES

– Você está obedecendo o vovô?, perguntou a mãe.
– Estou sim, respondeu o garoto, num fio de voz.
– Você tem dinheiro? Mamãe e papai vão te dar
um pouquinho.
– É... Ãhn rãn.
– No ano-novo eu vou te dar 100 yuans.
– Tá.
– A mamãe e o papai vão voltar no ano-novo.
Chenggui entrou na conversa.
– Tá.
– Papai te ama.

Depois de desligar, Xiaojun e Dousheng voltaram para o canto da varanda debruçado sobre a vila. Na gaiola, o pássaro de Yang Peihua soltou um pio. Os meninos brincaram em silêncio com os carrinhos vermelho e amarelo.

O mundo de Yang Chenggui é a mesa e o ferro à sua frente, no quinto andar de um edifício onde ele ganha a vida fabricando calcinhas. Ele vive na cidade fabril de Gurao, na costa leste de Guangdong, duas províncias a leste de Guizhou. Gurao ostenta orgulhosamente o título de “capital da lingerie” na China – embora eu tenha ouvido falar de outras cidades que também disputam o posto. Esta é uma das que fazem parte de um grande cinturão industrial que une os centros de Jieyang, Chaozhou e Shantou. Juntas, todas elas são conhecidas como Chaoshan. Ficam tão ao sul da China que chegam a ter palmeiras às margens das ruas e pedaços de lula nas tigelas de chow mein.

Saí de Paimo rumo a Gurao. Depois de conhecer Xiaojun e Dousheng, fui me encontrar com seus pais. Era o dia da folga dos dois (eles têm uma por mês). A primeira pergunta que me fizeram foi se eu tinha fotos recentes dos meninos. Eu havia gravado um recado de Xiaojun em vídeo, e eles assistiram duas vezes. Depois viram todas as fotos que tirei no vilarejo e mostraram, nos próprios smartphones, dezenas de imagens registradas por eles em suas visitas aos filhos. Uma delas era a mesma fotografia pendurada na parede de madeira da casa em Paimo: o pai orgulhoso abraçando os dois meninos.

Hoje com 30 anos, Chenggui saiu de Paimo em 2004, aos 18. Primeiro ele foi para Shenzhen, onde trabalhou durante dois anos numa siderúrgica ganhando 700 yuans (R$ 330) por mês. Depois começou a trabalhar no ramo de lingeries, em Gurao, onde mora há quase dez anos. O salário, que a princípio era de mil yuans por mês, chegou aos 4 mil que ele recebe hoje (R$ 1,9 mil). Em 2008 ele se casou com Luo Honglan, que nasceu num outro vilarejo no vale. Os dois decidiram ir juntos para Gurao e economizar o máximo que pudessem. A viagem de ônibus entre Gurao e Danzhai no feriado de ano-novo leva 24 horas e custa 400 yuans (R$ 190). Esta é uma das poucas despesas especiais no orçamento do casal. Eles vivem num pequeno apartamento onde estendem a própria roupa. Na sala, há um ventilador de teto.

Ambos trabalham na Julin Spotless Underwear Factory, numa daquelas oficinas de costura que impulsionam a impressionante economia chinesa de exportações. O turno vai das 8h30 às 22h, diariamente. A cada 30 dias, eles têm direito a um dia inteiro e dois meios períodos de folga. Os cinco andares da oficina são entulhados de mesas bambas e banquetas de plástico vermelho. É nesse ambiente que Chenggui e Honglan colam a ferro quente tiras de elástico sobre calcinhas coloridas e de baixa qualidade, vendidas no mercado interno. O chefe é um jovem de 23 anos, nascido em Guangdong, cuja família trabalha há dez anos no ramo de lingeries. O jovem executivo nos recebeu oferecendo chá em seu escritório, cuja parece é enfeitada por uma foto sexy de uma mulher usando calcinha e sutiã da J-Green – outro cliente para quem ele fabrica as peças. A carga horária é extenuante, mas as condições de trabalho não são as piores. A principal reclamação de Chenggui é o calor úmido do verão.

NAS CIDADES, OS PAIS TRABALHAM DAS 8H30 ÀS 22 HORAS, COM SOMENTE DOIS DIAS DE FOLGA POR MÊS

Economia;China;Crianças na escola da vila de Paimo (Foto: Liz Hingley)
O possível - Crianças na escola da vila de Paimo: “Mamãe, papai, me abracem”, diz uma canção coreografada pelo grupo. Nesse instante, elas abraçam o próprio corpo (Foto: Liz Hingley)

Ele e Honglan repetem o tempo todo que fazem tudo aquilo pelas crianças. É como se quisessem justificar a separação da família. Todos os meses eles mandam para casa uma porcentagem do salário, para comprar roupas, remédios e outras coisas para Xiaojun e Dousheng. A maior despesa é a creche, que cobra 1,5 mil yuans (R$ 700) por criança, por semestre. Aos quatro meses de idade Dousheng foi diagnosticado com uma doença do sangue: o tratamento custou 20 mil yuans (R$ 9,4 mil) e acabou com todas as economias da família. Se tivessem levado os meninos para Gurao, um deles teria de ficar em casa cuidando dos filhos – o que significaria uma renda bem menor. Por isso os dois não veem outra alternativa a não ser deixar os garotos para trás.

Mesmo assim, eles vivem preocupados com os meninos: são pais como quaisquer outros. Chenggui e Honglan sabem que as crianças vivem soltas em Paimo, e vivem assombrados pela possibilidade de um tombo maior, uma fratura e até coisas piores. As florestas da montanha abrigam cobras venenosas. Acima de tudo, eles temem as histórias de gangues de sequestradores que abduzem crianças para vendê-las no mercado de adoção – um fenômeno conhecido na China. Mas os medos vão além dos casos que correm no boca a boca. “Não sabemos se eles vão sofrer algum efeito psicológico”, diz Chenggui. “Queríamos ver nossos filhos crescerem, mas em Paimo o dinheiro não é suficiente.”

“É muito doloroso”, acrescenta Honglan. “Todos os anos voltamos para casa e ficamos com as crianças. Todo mundo está feliz. Na hora de tomar o ônibus de volta para cá, eu sempre venho chorando em silêncio. Toda vez que vejo uma mãe e um filho passeando na rua penso que meus filhos não têm uma mãe para brincar com eles. É duro aguentar.”

Todos os países que percorrem o caminho entre pobreza e prosperidade passam por esse tipo de deslocamento social. A transição chinesa, no entanto, vem ocorrendo assustadoramente rápido. Ela é coreografada por um governo comunista que, em última análise, deseja apenas reduzir ao mínimo o risco de uma revolta social – embora tenha alguma disposição para combater os efeitos colaterais negativos do progresso.

No futuro, quando novas gerações de chineses olharem para trás e observarem a transformação sofrida pela economia do país no início do século 21, elas sem dúvida serão agradecidas pelas mudanças – assim como poucos ocidentais gostariam de voltar no tempo e viver no período pré-Revolução Industrial. Mas o preço pago pelas gerações de hoje, por Chenggui, Honglan, Xiaojun, Dousheng e todas as famílias divididas da China, é extremamente alto.

“Meu coração está vazio”, disse Chenggui antes que eu fosse embora. “Mas o que é que eu posso fazer?”


Roda Viva Especial - Leandro Karnal e Luis Felipe Pondé

Roda Viva convida: PC Siqueira, Hugo Gloss, Dani Noce e Paulo Cuenca, Taty Ferreira e Cauê Moura para entrevistar Leandro Karnal e Luiz Felipe Pondé.


Um quinto dos futuros professores no país tem nota vermelha no Enem

Alunos de pedagogia estão entre os piores do ensino médio, revela pesquisa feita pelo Inep


ANGELA PINHO
DE SÃO PAULO

Com baixos índices de qualidade da educação, o Brasil está recrutando futuros professores entre os piores alunos do ensino médio.

O resultado pode ser observado em levantamento feito pelo Inep, instituto ligado ao Ministério da Educação, sobre as notas obtidas no Enem por calouros de diferentes cursos universitários.

Os dados revelam que 19,1% dos candidatos do Enem 2014 que ingressaram em uma graduação de pedagogia no ano seguinte não conseguiriam sequer um certificado de ensino médio com a nota do exame. Tiraram até 450 pontos, considerando-se a média aritmética das quatro provas objetivas e da redação.

Para obter um certificado de ensino médio —possibilidade aberta a pessoas com mais de 18 anos e fora da escola—, é preciso tirar 450 pontos em cada prova e 500 na redação. Mais, portanto, do que esse grupo de quase 1 em 5 futuros professores.

O parâmetro de 450 pontos foi adotado pelo Inep em 2014 após o instituto constatar que essa já é, em regra, a "nota de corte" praticada pelas escolas de ensino médio para passar os alunos de ano.

Mas é uma pontuação "muito baixa", ressalta José Francisco Soares, presidente do Inep à época dessa definição e professor aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais. Segundo ele, 450 pontos equivale ao acerto de 6 a 8 questões por prova no Enem, de um total de 45. "É preocupante que futuros professores terminem a escola com formação tão frágil."

Os cursos de pedagogia formam, principalmente, profissionais que atuam até a quarta série e educadores em cargos de chefia, como coordenadores e supervisores.

A proporção de calouros com desempenho ruim nessa graduação é bem maior do que a média. Entre os universitários em geral, 9,9% tiraram até 450 pontos. Entre os ingressantes nas áreas de matemática e ciências, é de 5,6%. E, entre os aspirantes a médicos, a faixa é tão insignificante que não entrou na conta.

O grupo dos alunos com pior desempenho vai até 550 pontos. Do total de candidatos, 98,4% estão acima desse patamar —em pedagogia, apenas 16,9%.

MOTIVOS

O Enem é usado como forma de seleção por universidades federais e particulares. É requisito para o acesso ao Fies (programa de financiamento estudantil) ou ao Prouni.

Em outros processos seletivos, como o da USP, cursos de pedagogia também têm mais alunos com notas abaixo da média geral, o que vai na contramão do que ocorre nos locais com ensino de ponta. Na Finlândia e na Coreia do Sul, alunos de cursos de formação de professores são selecionados entre os melhores.

Para especialistas, há duas explicações para a situação. A primeira é a baixa concorrência dos cursos. A graduação em pedagogia é terceira com mais vagas no país.

A segunda explicação é a falta de atratividade da carreira. "Como parte significativa dos alunos vocacionados com boa formação não busca o curso, aumenta o número de vagas para alunos com pior formação que gostariam de fazer qualquer um", diz o professor José Carlos Rothen, da Universidade Federal de São Carlos.

O salário é um fator chave —um professor ganha 39% a menos que outros profissionais com nível superior.

Estudo do economista Geraldo Andrade da Silva Filho, do Inep, mostrou que, em locais onde o piso salarial da categoria implantado em 2009 fez diferença, cursos de pedagogia conseguiram atrair mais alunos com melhores notas.

Mas a remuneração não é o único fator, diz Priscila Cruz, presidente da ONG Todos pela Educação. Pesam as condições de trabalho e o desprestígio da carreira. "Os governos precisam agir, mas a sociedade também cobra pouco."

FACILIDADE

Mercado de trabalho amplo e facilidade de entrar atraem alunos para cursos de pedagogia, que têm o terceiro maior número de universitários do país, atrás apenas de direito e administração.

São 656 mil alunos, a maioria em cursos a distância, e uma concorrência de menos de dois candidatos por vaga.

Aos 37, Cibele Rodrigues escolheu pedagogia por causa das oportunidades de trabalho e por considerar a formação versátil. "Mesmo se não conseguir emprego na área, vai ser bom, porque o mercado exige. Hoje, ter nível superior é igual ao que antes era ter ensino médio", diz ela, no primeiro semestre de uma faculdade particular em Itaquera, na zona leste de SP.

Aluna de outra instituição privada na periferia, Ana Paula Neris, 30, conta que optou por pedagogia porque era o curso mais barato, mas depois se apaixonou. "Tem um sentido de transformação com que me identifico muito."

Filha de mãe faxineira e pai pedreiro, é a primeira da família a cursar o ensino superior. Para se manter, trabalha na cozinha de uma escola municipal e, depois de formada, pretende continuar trabalhando na periferia, dando aulas.

Para alcançar seu sonho, Ana Paula sabe que tem que fazer mais do que o curso oferece. Juntou-se com um grupo de mulheres que estudam juntas. "Na faculdade, são só quatro horas, e tem muita teoria e pouca prática", diz.

Tatiane Cavalcanti, 24, teve a mesma percepção. Abandonou o curso no quarto semestre depois de trabalhar em uma escola na região metropolitana de São Paulo. "Pedagogia é uma coisa muito bonita dentro da faculdade. Fora é muito diferente", diz ela, que hoje cursa direito.

TEORIA E PRÁTICA

A distância entre teoria e prática em cursos de formação de professores é citada em diversas pesquisas sobre o tema. Elas mostram que faltam nas universidades conteúdos sobre como atuar na sala e como alfabetizar, por exemplo.

A qualidade dos cursos também é bastante heterogênea e depende do perfil dos alunos que entram. Nas que recebem os de pior desempenho, com média abaixo de 450 pontos no Enem, alunos têm dificuldade pensamento lógico, de leitura e de texto, afirma Carlos Monteiro, consultor de ensino superior.
Boas faculdades, no entanto, têm conseguido suprir lacunas de formação, diz 
Clarilza Prado, pesquisadora da área e professora da PUC-SP.

"São os alunos de escolas públicas, ou de menor desempenho, que veem na pedagogia uma das únicas possibilidade de ingressar no ensino superior. Mas os que entram em universidades de melhor nível acabam por modificar sua trajetória de menor qualificação", diz.

Hoje, o mercado de trabalho tem vagas tanto para professores com boa formação como para os que têm deficiências, diz César Callegari, integrante do Conselho Nacional de Educação e ex-secretário municipal da área em SP.
Diante dessa realidade, ele defende uma reformulação dos cursos de formação para profissionais que já estão na sala de aula, com um reforço maior da parte prática.

"Hoje, os cursos satisfazem mais a necessidade de obter títulos para progredir na carreira do que a as demandas efetivas dos alunos e professores", diz. Ele também defende um exame nacional de admissão para atuar na área.

Priscila Cruz, do Todos pela Educação, defende começar a formação de professores já no ensino médio, colocando a educação como uma possível área de especialização. Para ela, a ampliação do período integral, prevista pela proposta de reforma no ensino médio, deve começar por esses alunos. 

domingo, 27 de novembro de 2016

O quilo vai mudar? Unidades de medida passam por grande atualização

Você já parou para pensar o que define constantes tão usadas no nosso dia a dia como o metro, o segundo ou o quilograma? Pois por trás disso estão metrologistas, um tipo raro de cientistas que estudam esses valores. E uma atualização das unidades de medida deverá acontecer em breve, segundo o site Science News.
O valor de um quilo, por exemplo, passa por um objeto sagrado guardado em um cofre nas redondezas de Paris: um cilindro de metal de 137 anos que é um protótipo que define exatamente o que é um quilo – e, por consequência, define a massa de todos os objetos do Universo para nós, terráqueos.
Este cilindro, contudo, não tem uma massa perfeitamente constante: arranhões em sua superfície ou outros problemas podem mudar o valor sutilmente. Tal ligeira mudança importa pouco para a peça de picanha que você compra no açougue, mas para medidas utilizadas por cientistas é um problemão. É por isso que os metrologistas resolveram atuar para acabar com isso.
Este é o protótipo que define exatamente o que é um quilo
Este é o protótipo que define exatamente o que é um quilo

A revolução das medidas

Além do quilo, a unidade de medida kelvin é outra que irrita os cientistas. Assim como o quilograma, o padrão para a temperatura é um valor escolhido aleatoriamente por humanos. Há também um incômodo de cientistas com amperes, que é definido por uma corrente que, ao fluir por meio de dois fios longos e finos, colocados a um metro de distância, produz uma certa força entre eles. Tais fios, claro, são impossíveis de reproduzir na vida real. 
Os exemplos mostram o desconforto de cientistas com as fundamentais unidades de medida. Para resolver isso, eles estão programando uma atualização para o Sistema Internacional de Unidades em 2018. O quilograma, kelvin, ampere e o mol serão redefinidos. As novas unidades serão baseadas no entendimento moderno da física, incluindo as leis da mecânica quântica e da Teoria da Relatividade de Einstein.
Não é a primeira vez que isso ocorre: os cientistas já fizeram "acrobacia" semelhante ao redefinir o metro. Em 1983, o metro passou a ser a distância que a luz viaja no vácuo em 1/299.792.458 de segundo. As outras unidades devem passar por revisões semelhantes.
Cientistas chamam as mudanças de algo que ocorre "uma vez na vida". Se você, como nós, ficou completamente confuso com toda essa revolução, calma: os humanos "normais" não irão sentir o peso das modificações. As definições irão ser diferentes, mas as mudanças serão orquestradas para que o valor de um quilo ou de um kelvin continue o mesmo mundo afora. Menos mal.

A hora e a vez das constantes da natureza: as novas definições

Em breve, todos os tipos de medidas serão definidos por constantes da natureza – números que não mudam como a velocidade da luz, a carga de um elétron e a constante de Planck.
A mudança já começou: os cientistas se livraram de uma barra de platina e irídio com inscrições que servia como um padrão artificial para definir o metro. Em 2018, querem se livrar do cilindro parisiense que define o quilo.
Para acabar com ele, passarão a utilizar a constante de Planck, valor fundamental da mecânica quântica. Entrarão na definição ainda metros e segundos (confira na imagem abaixo as novas definições das medidas). Os cientistas ainda buscam definir com máxima precisão a constante de Planck antes da mudança (você encontra aqui uma tabela com as novas definições).
Esta poderá ser a nova tabela das unidades de medida

Ler notícia ajuda a passar no vestibular, diz pesquisa do Datafolha

 DE SÃO PAULO

Estudantes que acompanham o noticiário se saem melhor no vestibular. O que já se intuía aparece agora em números de uma pesquisa Datafolha realizada com jovens de 17 a 22 anos da Grande São Paulo.

Entre os aprovados na Fuvest, o vestibular mais concorrido do país, 85% são leitores de sites jornalísticos. Essa proporção cai para 78% entre os reprovados no exame.

Feita uma divisão por classe social, a importância do fator noticiário aparece mais claramente. Considerando-se só estudantes da classe C, tem-se que 90% dos aprovados leem notícias na internet, contra 76% dos reprovados do mesmo nível social.

Comparando-se estratos sociais diferentes, nota-se que o consumo de notícia faz diferença: no grupo dos calouros da classe C, 90% seguem o noticiário, enquanto entre os mais ricos que foram reprovados esse número cai para 78%. "Acesso à informação de qualidade pode ser um vetor de inclusão, um fator de superação da desvantagem econômica", diz Alessandro Janoni, diretor do Datafolha.

O levantamento indica que é mais proveitoso seguir o noticiário por sites ou pelo jornal na plataforma digital do que pela televisão: o grupo dos que assistem a telejornais é maior entre os reprovados (74%) do que entre os aprovados (65%) na Fuvest.

O Datafolha ouviu 3.020 jovens, distribuídos em quatro grupos: aprovados na Fuvest, reprovados na Fuvest, os que não prestaram a Fuvest e aprovados em outros vestibulares. A pesquisa, feita em fevereiro, tem margem de erro máxima de quatro pontos percentuais para mais ou para menos, com um intervalo de confiança de 95%.

Segundo o pesquisador Simon Schwartzman, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, a leitura, de forma geral, pode ajudar. "Muitas vezes, a grande dificuldade está em ler e entender as questões. Quem lê mais tem mais facilidade para isso."

Para a economista Fernanda Estevan, pesquisadora da USP, o Datafolha mostra que existe correlação entre leitura de jornais e desempenho na Fuvest –ou seja, as duas variáveis se movimentam na mesma direção. Ela ressalta, porém, que o resultado não é suficiente para comprovar relação causal, segundo a qual a leitura mais frequente de notícias levaria o vestibulando a se sair melhor.

"É bastante provável que alguma outra variável não observada na pesquisa esteja correlacionada tanto com a leitura dos jornais quanto com o desempenho na Fuvest. Pode ser, por exemplo, o nível de educação dos pais, o hábito de ler livros, o interesse pelo mundo. Tudo isso pode levar um aluno a ler mais jornal, mas também ter influência no seu desempenho no vestibular", afirma.

LER O MUNDO

A educadora Anna Penido, que coordenou uma pesquisa com 132 mil alunos do ensino médio para o Instituto Inspirare, afirma que "só ler a mídia não ajuda a passar no vestibular necessariamente", mas completa: "Estar bem informado ajuda na vida".

Penido diz sentir falta de um esforço das instituições, como família e escola, para convencer o aluno a "ler criticamente o mundo". "A mídia também poderia saber melhor como interagir com essas novas gerações", diz.

Para estudantes da USP ouvidos pela reportagem, foi importante acompanhar o noticiário durante os estudos para o vestibular. Muitos acrescentam, contudo, ser difícil manter o hábito agora que estão na faculdade.

"Lia notícias online, o que me ajudou, porque entendia temas que foram cobrados na parte de atualidades. Depois que comecei o curso, leio mais notícias do mundo acadêmico, de tecnologia, mas acompanho o noticiário político pela Folha", diz Lucas Dias, 21, do terceiro ano de computação da USP.

Vitoria Gaio, 20, caloura de arquitetura, lia o noticiário online da Folha, de "O Estado de S. Paulo" e da "Carta Capital". "Eu acompanhava para o exame, os professores comentavam no cursinho. Não me orgulho, mas não mantive o hábito depois de passar no vestibular."


Elite está nos cursos mais concorridos da USP; a classe C, nos menos


Há várias USPs dentro da USP. Pesquisa Datafolha com os ingressantes deste ano traz à luz as diferenças entre as faculdades da maior universidade pública do país.
Na Escola Politécnica, que reúne cursos de engenharias, a maioria dos calouros deste ano é da classe A (59%); na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), apenas um terço dos estudantes é dessa classe.

Guilherme de Camargo, 20, do segundo ano de elétrica, acredita que engenharia congregue mais gente rica porque a concorrência é maior.


"Como a educação pública é ruim, pessoas de baixa renda não passam nos cursos mais difíceis", afirma. Na Fuvest 2016, a nota de corte da Poli foi 60; a de letras, 41; a da Física, 33.

"Na maioria das unidades, você consegue achar um pessoal mais pobre, mas na Poli não. Pode ver pelo tamanho do estacionamento: aqui é grande e está sempre lotado. Na FEA também", diz.

Segundo Camargo, há poucos negros nas engenharias –ao Datafolha, 11% dos ingressantes da Poli se declararam pardos; nenhum se disse negro. Na USP como um todo, 14% calouros se disseram pardos e 4%, pretos.
O predomínio da classe A se repete em direito (53%), economia e administração (58%) e medicina (68%). Em 2016, esses cursos tiveram notas de corte de 59, 52 e 73.

Vale notar que os calouros da Santa Casa têm o nível socioeconômico mais alto: todos os entrevistados declaram renda familiar acima de três salários mínimos.
Na USP Leste, um em cada três tem renda familiar mensal de até três salários mínimos. No curso de física, 27% dos calouros são da classe C.

Camargo afirma que a maioria dos seus colegas da Poli se diz de direita. "Falam muito sobre meritocracia."

O curso de letras está do outro lado do espectro político, acredita o calouro Vitor Kenzo, 18. "A área de humanas tende mais para a esquerda. Acho que saber mais sobre sociologia e história faz com que a maioria se identifique com causas sociais."

Para efeito de comparação, a Poli é uma das faculdades onde há maior penetração da revista "Veja" (lida por 19% dos calouros). Já na FFLCH, um terço deles é leitor da "Carta Capital" (32%).

Formado em história na FFLCH e aluno do terceiro ano da Poli, John Mendes, 28, discorda de que haja diferenças marcantes entre os alunos das duas faculdades.
"A USP é elitista, independentemente do curso", afirma. Ele notou, entretanto, algumas diferenças. "Na FFLCH, o pessoal trabalha mais, porque tem tempo livre, já que o curso exige menos e também porque há mais gente que precisa trabalhar."

AULA E TRABALHO
De acordo com a pesquisa Datafolha, só 1% dos calouros da Poli trabalha; na FFLCH, esse percentual chega a 21%. É a maior concentração de estudantes economicamente ativos da USP.

"A concorrência menor facilita passar no vestibular e acaba levando ao magistério como carreira", diz o sociólogo Cesar Callegari, do Conselho Nacional de Educação.

Elie Ghanem, professor de Faculdade de Educação da USP, diz que é "possível que os estudantes de menor renda, por precisarem da universidade gratuita, escolham faculdades com notas de corte mais baixas". "Uma parcela significativa dos meus alunos trabalha nos horários em que não está frequentando as aulas. Muitos deles são moradores de áreas distantes."