quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Especial - guia das profissões

Designer de moda vai criar em 3D com ajuda do cliente

As impressoras 3D prometem revolucionar o mercado da moda e a própria relação com o consumidor.
Mas vão exigir também do designer de moda muita pesquisa sobre materiais, conhecimento dos softwares de edição em 3D e familiaridade com o equipamento, de onde sairão roupas e acessórios.
A produção por demanda, apenas quando o consumidor adquirir uma peça, deve reduzir as atividades ligadas à cadeia produtiva, diz Lorena Borja, consultora de tendências e professora do curso livre de "coolhunting", espécie de caça-tendências, na Faap (Fundação Armando Álvares Penteado). "Funções relacionadas à criação serão mais valorizadas."
Um aspecto que o criador terá de considerar é a possibilidade de o cliente modificar a roupa a seu gosto, já que a peça estará num arquivo de computador. "Será trabalho de cocriação, em que o designer idealiza um projeto num espaço, mas ele é finalizado por outra pessoa, em outro lugar", diz Maria Carolina Garcia, coordenadora do curso de design de moda do Centro Universitário Belas Artes.
Quesitos como o custo da produção e o tempo da impressão -hoje 20 vezes maior que o convencional- são desafios que o setor enfrenta. Ainda assim, o interesse pelo ramo só tem crescido.
Prova disso é o aumento de convites para dar palestras recebidos pela arquiteta Renata Portelada, 27. Ela é consultora em softwares de edição 3D, alguns deles voltados à criação de vestimentas e joias. "Há quatro anos, ninguém sabia o que eram essas impressoras. Agora todo mundo quer mexer com isso."
Beatriz Barbosa, 20, está nessa turma. Aluna de design de moda do Centro Universitário Belas Artes, pretende vender joias impressas em 3D por encomenda. "Os modelos simples poderão ser impressos em casa pelo cliente, e os mais complexos eu mesma produzirei", planeja.
Outra área em evidência na moda é a das tecnologias vestíveis, como pulseiras que medem desempenho em atividades físicas. Para atuar no setor, é preciso um diálogo constante com a área de inovação tecnológica.
A confecção Malwee tem um grupo dedicado ao segmento, que atua com os profissionais de criação, desenvolvimento e estilo. "As equipes precisam estar voltadas a entender a inovação e a melhor forma de aplicar e vender o conceito", diz Felipe Pivatelli, 45, diretor de marcas, varejo e estilo da empresa.
O professor Guto Marinho, da Faculdade Santa Marcelina, diz que tecnologias mais complexas surgirão. "A questão é como usar esses milhões de informações para formatar um produto que funcione."
MODA
ONDE ESTUDAR
Centro Universitário Belas Artes, Escola Panamericana, Faap, FASM, FMU, Unip, Universidade Anhembi Morumbi e Senac-SP
DURAÇÃO DO CURSO
De 2 a 4 anos
 
O QUE FAZ
Cria, pesquisa, produz e comercializa vestuário e acessórios. Acompanha as tendências do mercado e analisa o comportamento dos consumidores. Como gestor, cuida das estratégias de marketing e da promoção
de vendas
 
SALÁRIO INICIAL
R$ 1.100 a R$ 2.200
 
PERFIL DESEJADO PELAS EMPRESAS
Ter ao menos uma especialização na área e ser capaz de interagir com os outros setores da empresa, como o de produção ou de inovação. Também é importante conhecer as tendências de mercado e ter familiaridade com novas tecnologias
 
ONDE HÁ VAGAS
Empresas de confecção de tecnologias vestíveis, aparelhos eletrônicos para serem usados como roupas e acessórios
 
VISÃO DE QUEM FAZ
"Trabalhar com tecnologias vestíveis exige observar como o consumidor realiza suas tarefas diárias para criar formas que facilitem a vida e tenham um design aprazível e ergonômico", Lorena Borja, consultora
de tendências e professora de "coolhunting" da Faap

Especial - guia das profissões

Engenheiro 4.0 desenvolverá produtos já conectados


O engenheiro elétrico Eduardo Guedes, 43, quer estar preparado para a chegada da próxima revolução industrial. "A engenharia caminha para a criação de produtos ligados à internet já que empresas de todos os ramos e desenvolvedoras de software estão se voltando para esse nicho", diz.
O tecido inteligente que Guedes acabou de criar, fruto da sua pesquisa de mestrado, antecipa essa tendência: equipamentos eletroeletrônicos minúsculos detectam o movimento do corpo e transmitem a informação para um sistema externo, como um celular ou tablet, por exemplo.
O próximo passo é trabalhar na aplicação do tecido, que pode ir desde a área médica ao setor de segurança.
"Um tapete equipado com esse sistema pode disparar um alarme quando alguém pisa. Ou se for incorporado ao lençol de um hospital, o tecido pode avisar os enfermeiros quando o paciente está há algumas horas sem se mexer", afirma Guedes.
DAS COISAS
Por trás da invenção está o conceito de internet das coisas, quando objetos do dia a dia, como geladeiras, são conectados à rede.
"Esse é o termo que vai mover a indústria 4.0. Equipamentos interconectados numa malha de abrangência mundial com inteligência para programar o ritmo de produção", avalia Marcelo Antonio Pavanello, vice-reitor do Centro Universitário FEI (Fundação Educacional Inaciana Padre Sabóia de Medeiros).
Na visão de Pavanello, o engenheiro terá que ir além da busca por soluções técnicas para um problema -interação com profissionais de outras áreas, criatividade e capacidade adaptativa são habilidades que não poderão faltar.
"Todos os ramos da engenharia terão que se apropriar dessa revolução tecnológica maciça que está acontecendo. Com as impressoras 3D, por exemplo, mudanças inimagináveis nos processos de produção estão a caminho", afirma o vice-reitor.
SALVADORES DA PÁTRIA
Outra tendência da profissão é o envolvimento cada vez maior do engenheiro com desenvolvimento de soluções para questões complexas da sociedade.
"São problemas aparentemente insolúveis como a escassez de água, a segurança alimentar e energética, além da descarbonização da economia", diz Juan Carlos Castilla-Rubio, engenheiro químico e presidente da Space Time Ventures, incubadora de start-ups sediada em São Paulo.
É por isso que o trabalho em parceria com cientistas sociais e fazedores de política pública farão parte também do cotidiano da engenharia, afirma.
ENGENHARIA
ONDE ESTUDAR
FEI, UFSCAR, Unesp e Unicamp
DURAÇÃO DO CURSO
5 anos
O QUE FAZ
Na área de internet das coisas, projeta produtos e planeja sua conectividade com a internet e com aparelhos eletrônicos. Utilizando linguagem de programação, desenvolve softwares que são embutidos
nos aparelhos
SALÁRIO INICIAL
R$ 5.000 a R$ 7.000
PERFIL DESEJADO PELAS EMPRESAS
Conhecimento em internet das coisas, multidisciplinaridade e capacidade de criar soluções ao mesmo tempo tecnológicas e sustentáveis
ONDE HÁ VAGAS
Indústria do agronegócio, empresas do ramo alimentício, automobilístico e de tecnologia
VISÃO DE QUEM FAZ
"Existe uma tendência crescente entre os engenheiros de buscar uma atuação voltada para problemas sociais e fora das corporações multinacionais. Esses profissionais procuram um trabalho mais gratificante,
de impacto", Juan Carlos Castilla-Rubio, engenheiro químico e presidente da incubadora Space Time Ventures

Especial - guia das profissões

Desenvolver jogo é carreira e também negócio


O mercado de jogos eletrônicos está superaquecido. Dados da consultoria PricewaterhouseCoopers sugerem que o faturamento da indústria de games no Brasil deve saltar de US$ 448 milhões em 2013 para US$ 844 milhões em 2018, uma taxa de crescimento de 13,5% ao ano.
Com isso, há bom espaço para os designers de games, profissionais que pensam e definem aspectos como regras do jogo, relações de interação do jogador com o sistema e desenvolvimento da interface.
"O profissional deve ainda criar a história e entender de animação, direção de arte, efeitos sonoros e 3D", diz Delmar Domingues, coordenador do curso de design de games da Anhembi Morumbi.
Os números otimistas se explicam pelo acesso mais fácil à tecnologia. "O processo de desenvolvimento de jogos eletrônicos já foi muito caro. Hoje as ferramentas estão acessíveis", diz Marcos Imaizumi, fundador da Escola Brasileira de Games.
"Agora há bons cursos para a parte técnica, mas ainda temos dificuldade de pensar no desenvolvimento de game como um negócio", analisa Carlos Estigarriba, 42. Formado em engenharia da computação, ele abriu o próprio negócio há 20 anos, passou por um estúdio internacional e hoje tem uma publicadora de jogos, onde adapta games para mercados específicos.
Saber empreender é fundamental, porque grande parte da indústria é formada por pequenas empresas, em que poucos funcionários fazem todo o processo de criação, publicação e distribuição dos jogos. "Hoje um game é distribuído gratuitamente em plataformas digitais, e o dinheiro vem por outros mecanismos, como compra de itens e venda de publicidade", diz Domingues.
Além dos jogos de entretenimento, o designer de game pode desenvolver produtos para treinamentos corporativos, publicidade, promoção de saúde e educação.
DESIGN DE GAMES
ONDE ESTUDAR
Escola Brasileira de Games, PUC-SP, UniRitter e Unisinos
DURAÇÃO DO CURSO
De 2 a 4 anos
O QUE FAZ
Cria jogos para computador, celular, tablet e videogame. Participa na produção, na venda e na distribuição
SALÁRIO INICIAL
R$ 2.000
PERFIL DESEJADO PELAS EMPRESAS
Inglês fluente e criatividade
ONDE HÁ VAGAS
Desenvolvedoras de games, agências de publicidade e de marketing digital
VISÃO DE QUEM FAZ
"É preciso ir a eventos, ter portfólio digital e pensar de maneira global", Carlos Estigarriba, 42, dono da Leela Games

Especial - guia das profissões

Designers ampliam atuação ao planejar momentos positivos de consumo


A atividade de design de serviços vem crescendo no mercado, mas o mesmo não ocorre no meio acadêmico: a área se limita a uma disciplina dos cursos de design no país. No exterior, já existem graduações específicas.
Consultorias e agências de design e inovação são os principais destinos desse profissional, cujo papel é desenvolver projetos usando uma lógica que observa o conjunto de produto, serviço agregado a ele e aspectos como sua comunicação e distribuição.
A proposta é que o cliente não só adquira um produto mas também tenha uma experiência consistente e agradável ao consumi-lo. E que isso gere impacto positivo para a empresa.
Um exemplo conhecido vem de uma das maiores redes de cafeterias do mundo, a Starbucks, que se propõe a ser um ponto de encontro, lugar para relaxar, ler um livro e navegar na internet. "A ideia do design centrado no usuário não é tão nova, mas está mais forte", diz Marcos Aurélio Castanha Junior, professor de design gráfico do Centro Universitário Senac.
Formado em administração, Gustavo Vieira, 25, atuava no setor de franquias e depois se direcionou para marketing e branding, área relacionada à construção de marcas. Mas, num curso, descobriu o design de serviços.
"Busquei outros cursos e acabei trocando de área", diz Vieira, que é líder de projetos na Livework, empresa com sede em Londres que oferece serviços em design, negócios e capacidade estratégica.
Nathália Camargo, 25, que está terminando a graduação em design gráfico no Senac de São Paulo, também quer enveredar pelos serviços. Para o trabalho de conclusão do curso, fez um projeto de uma escola móvel com atividades de gastronomia saudável para as crianças.
DESIGN DE SERVIÇOS
ONDE ESTUDAR
Hivelab, Istituto Europeo di Design, Unisinos
DURAÇÃO DO CURSO
De 10 semanas a 18 meses
O QUE FAZ
Estuda o serviço e realiza pesquisas com consumidores. Cria projetos detalhando seu funcionamento
SALÁRIO INICIAL
R$ 1.000 a R$ 1.500
PERFIL DESEJADO PELAS EMPRESAS
Formação em design de serviços ou design estratégico e conhecer design thinking
ONDE HÁ VAGAS
Consultorias, agências de design e grandes empresas -em marketing, inovação e experiência do usuário
VISÃO DE QUEM FAZ
"A empatia é o que nos move. Tentamos sempre nos colocar no lugar do cliente para entender o que melhoraria sua vida", Gustavo Vieira, 25, líder de projetos na Livework

Especial - guia das profissões

Caminho da arquitetura se une ao da sustentabilidade


Pesquisas sobre matéria-prima e análise de dados que ajudam a desperdiçar menos e a criar espaços melhores para as pessoas. Esses são alguns dos fatores que vêm provocando uma mudança de cultura e de práticas na arquitetura.
"Ao escolher um material, analisamos a sua origem, como ele foi fabricado e até se incentivou o desenvolvimento local", diz Carol Bueno, 41, uma das sócias do escritório franco-brasileiro Triptyque, referência em experimentações.
No Studio Arthur Casas, conhecido por projetar grandes residências e estabelecimentos comerciais, uma equipe também dedica parte de seu tempo à pesquisa de materiais.
"Acompanhar sites e publicações de tecnologia, resgatar métodos e materiais de construção antigos e avaliar a combinação desses com produtos tecnológicos fazem parte das nossas atividades", explica Rodrigo Carvalho, 34, coordenador de projetos. "O conceito de sustentabilidade veio para ficar e é irreversível", afirma o arquiteto Arthur Casas, 55.
O uso cada vez mais frequente da plataforma BIM (Building Information Modeling), ou Modelagem da Informação da Construção, em português, também causa transformações.
O BIM soma ao projeto dados sobre consumo energético, quantidade de materiais, interferências externas e muitos outros que podem tornar a obra final mais sustentável, rápida e barata.
"O BIM permite errar menos ao fornecer informações mais precisas e detalhadas da construção", explica o arquiteto João Gaspar, 39, diretor do TI Lab, centro de treinamento que oferece cursos sobre o programa.
Ele conta que viu na área uma oportunidade de negócio. "Temas relacionados ao 3D, como renderização, BIM e fabricação digital estão na ordem do dia e fazem parte do currículo das faculdades mais avançadas do mundo mas, no Brasil, nem todas as instituições tratam do tema."
O professor Marcos de Oliveira, coordenador do curso de arquitetura da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado) lembra que o BIM ganhou ênfase quando algumas licitações de obras públicas passaram a exigir o uso do modelo, há cerca de quatro anos, mas reforça que o papel do arquiteto vai muito além da plataforma.
"A premissa do arquiteto é pensar em que tipo de cidade vamos ter para sustentar o crescimento da população, vivendo com saúde e qualidade de vida", afirma Oliveira. Conhecimentos em mobilidade, drenagem urbana, habitação e ambiente ajudam a ter uma noção geral da cidade e são necessários ao trabalho do arquiteto, completa o coordenador.
ARQUITETURA
ONDE ESTUDAR
Centro Universitário Belas Artes, Escola da Cidade, Mackenzie, PUC-Campinas, Unicamp e USP
DURAÇÃO DO CURSO
5 anos
O QUE FAZ
Projeta e organiza espaços internos e externos, como áreas verdes, residências e comércios. Coordena construções e reformas de prédios. Supervisiona equipes de trabalho, realiza estudos de viabilidade técnica e econômica, vistorias, perícias e emite laudos. Profissionais que usam o sistema BIM lidam com configurações de computadores e de rede e softwares como o ARCHICAD, Revit, SketchUp, AECOsim ou Vectorworks
SALÁRIO INICIAL
R$ 3.000 a R$ 5.000
PERFIL DESEJADO PELAS EMPRESAS
Familiaridade com softwares como o BIM, de criação de modelos virtuais de construções, além de lógica de programação. Também são valorizados conhecimentos em mobilidade urbana e impacto ambiental e facilidade para trabalhar em equipe
ONDE HÁ VAGAS
Escritórios de arquitetura e engenharia, instituições de pesquisa, órgãos do setor público, construtoras e incorporadoras que implantaram sistemas de trabalho baseados em BIM
VISÃO DE QUEM FAZ
"Criatividade, observação e informação são premissas básicas para o arquiteto. Percebo os jovens profissionais mais comprometidos com o ambiente. Deixar um legado, uma marca, que era o que perseguia
a minha geração, pode ter se tornado secundário", Arthur Casas, 55, arquiteto

Especial - guia das profissões

Gestor de RH terá desafio de cultivar bom ambiente sem perder produtividade


Coordenar funcionários a distância nunca foi problema para Luciana Caletti, 36. "O diferencial da gestão de pessoas é conseguir colaboradores engajados não importa onde estejam", diz a cofundadora e CEO da Love Mondays, start-up que criou uma plataforma para divulgar salários por cargo e empresa.
Se hoje o gestor precisa coordenar pessoas num mundo sem fronteiras, amanhã será especialista na formação de equipes que trabalham em organizações sem paredes.
O consultor de carreiras Alberto Roitman explica: "A separação por áreas dentro de empresas vai acabar. Os funcionários terão que saber criar nexo entre os campos do conhecimento: administração, jurídico, finanças. O bom gestor vai liderar esse time."
Esse gestor de perfil híbrido pode ter graduação em cursos tradicionais, como administração e psicologia, ou se especializar depois. "Não vejo problema na tendência de profissionais de outras áreas assumirem gestão de pessoas", diz Caletti, graduada em direito com especialização em administração pela Universidade de Oxford.
Os desafios já são conhecidos: dificuldade para recrutar, manter e desenvolver bons profissionais. "O foco para a atração de talentos estará na ideia que a empresa representa, não só no salário. Até porque manter remunerações altas é inviável para as empresas", diz Ricardo Haag, da Page Personnel, especializada em recrutamento.
Esse novo contexto mexe nas relações de poder das corporações. "O gestor de pessoas terá de interpretar essa nova relação social e ajudar a organização a entendê-la", diz Leni Hidalgo, professora de pós-graduação do Insper.
"O modelo flexível deve se ajustar em algum momento, mas grandes empresas ainda têm o efeito de congregar", diz André Coutinho, sócio-diretor da Symnetics, consultoria de estratégia e inovação.
O conhecimento técnico, de ferramentas modernas de gestão, será importante, mas não a competência principal. "O gestor terá de recrutar profissionais que criem clima bom e, como líderes, busquem o equilíbrio entre generosidade e rigor para cumprir prazos", prevê Roitman.
GESTÃO DE PESSOAS
ONDE ESTUDAR
Administração em FGV e Insper; psicologia em PUC e USP; pós-graduação em FAAP e Mackenzie
DURAÇÃO DO CURSO
De 2 anos (pós-graduação) a 4 anos (graduação)
O QUE FAZ
Seleciona, coordena e orienta os funcionários. Lida com técnicas de treinamento e avaliação, planos de cargos e salários
SALÁRIO INICIAL
R$ 3.000 a R$ 5.000
PERFIL DESEJADO PELAS EMPRESAS
Capacidade de avaliação comportamental, facilidade de relacionamento interpessoal e liderança nata
ONDE HÁ VAGAS
De start-ups a grandes indústrias. Antes de se candidatar, é essencial conhecer a cultura da empresa
VISÃO DE QUEM FAZ
"Gerir pessoas é mais uma arte do que uma ciência. Não existe fórmula que sirva para todos os momentos. É preciso sensibilidade para adequar as técnicas de gestão a cada pessoa", Luciana Caletti, 36, CEO da
start-up Love Mondays

Somos os maiores inimigos de nossa possibilidade de pensar

contardo calligaris
Contardo Calligaris
Italiano, é psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. Reflete sobre cultura, modernidade e as aventuras do espírito contemporâneo (patológicas e ordinárias). Escreve às quintas.

Um ano atrás, decidi seguir os conselhos de meu filho e abri uma conta no Facebook. A conta é no nome da cachorra pointer que foi minha grande companheira nos anos 1970 e funciona assim: ninguém sabe que é minha conta, não tenho amigos, não posto nada e não converso com ninguém.

Uso o Face apenas para selecionar um "feed" de notícias, que são minha primeira leitura rápida de cada dia.

Meu plano era acordar e verificar imediatamente os editoriais e as chamadas dos jornais, sites, blogs que escolhi e, claro, percorrer a opinião de meus colunistas preferidos, nos EUA e na Europa. Alguns links eu abriria, mas sem usurpar excessivamente o tempo dedicado à leitura do jornal, que acontece depois, enquanto tomo meu café.

Tudo ótimo, no melhor dos mundos. Até o dia em que me dei conta do seguinte: sem que esta fosse minha intenção, eu tinha selecionado só a mídia que pensa como eu –ou quase. Meu dia começava excessivamente feliz, com a sensação de que eu vivia (até que enfim) na paz de um consenso universal.

Mesmo nos anos 1960 e 1970, meus anos mais militantes, eu nunca tinha conhecido um tamanho sentimento de unanimidade.

Naquela época, eu lia "L'Unità", o cotidiano do Partido Comunista e, a cada dia, identificava-me com o editorial. Não havia propriamente colunistas: a linguagem usada no jornal inteiro já continha e propunha uma visão do mundo –luta de classes, contradições principais e secundárias, estrutura e superestrutura etc.

Ora, junto com "L'Unità" eu sempre lia mais um jornal –o "Corriere della Sera", se eu estivesse em Milão, o "Journal de Genève", em Genebra, e o "Le Monde", em Paris.

Nesses segundos jornais, que eram de centro (mas eu jurava que eram "de direita"), eu verificava os fatos (em plena Guerra Fria, não dava para acreditar nem mesmo no lado da gente) e assim esbarrava nos colunistas –em geral, social-democratas laicos e independentes, sem posições partidárias ou religiosas definidas.

Em sua grande maioria, eles não escreviam para convencer o leitor: preferiam levantar dúvidas, inclusive neles mesmos. E era isso que eu apreciava neles –embora os chamasse, eventualmente, de "lacaios da burguesia".

Hoje, os colunistas desse tipo ainda existem, embora sejam poucos. Eles estão mais na imprensa tradicional; na internet, duvidar não é uma boa ideia, porque é preciso criar e alimentar os consensos do "feed" do Face.

O "feed" do Face, elogiado por muitos por ser uma espécie de jornal sob medida, transforma-se, para cada um, numa voz única, um jornal partidário, piorado por uma falsa sensação de pluralidade (produzida pelo número de links).

A gente se queixa de que os grandes conglomerados da mídia estariam difundindo uma versão única e parcial de fatos e ideias, mas a realidade é pior: não são os conglomerados, somos nós que, ao confeccionar um jornal de nossas notícias preferidas, criamos nossa própria Coreia do Norte e vivemos nela. Como sempre acontece, somos nossos piores censores, os maiores inimigos de nossa possibilidade de pensar.

De um lado, o leitor do "feed" não se informa para saber o que aconteceu e decidir o que pensar, ele se informa para fazer grupo, para fazer parte de um consenso. Do outro, o comentarista escreve sobretudo para ser integrado nesses consensos e para se tornar seu porta-voz.

O resultado é uma escrita extrema, em que os escritores competem por leitores tanto mais polarizados que eles conseguiram excluir de seu "jornal" as notícias e as ideias com as quais eles poderiam não concordar: leitores à procura de quem pensa como eles.

Claro, não há hoje a obediência partidária dos anos 1970, mas a internet potencializa a vontade de se perder na opinião do grupo e de não pensar por conta própria. Essa vontade é a mesma –se não cresceu. Sumiu, em suma, a paixão do partido, mas não a do consenso.

Entre consensos opostos, obviamente, não há diálogo nem argumentos, só ódio.
Em suma, provavelmente, o resultado último da informação à la carte (que a internet e o "feed" facilitam) será a polarização e o tribalismo.

Eu mesmo me surpreendo: em geral, acho chatérrimos os profetas da apocalipse, que estão com medo de que o mundo se torne líquido ou coisa que valha. Mas, por uma vez, a contemporaneidade me deixa, digamos, pensativo.